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5.2 EtISkE, REttSlIGE
1 - A Psicologia Ambiental na compreensão da percepção da qualidade de vida.
Desde que se emancipou como Ciência Humana, a Psicologia concretizou avanços significativos em colaboração com áreas do conhecimento aparentemente distantes tais como a Arquitectura, o Direito ou a Política. Nesse percurso de cooperação interdisciplinar, a Psicologia tem-se especializado de tal modo que, actualmente, são centenas as linhas teóricas e áreas de estudo a que se dedica.
Por via dos estudos sobre os aspectos psíquico-comportamentais relacionados com o entorno ambiental, os quais incluem a análise correlativa entre as percepções dos sujeitos e os espaços1 (quer sejam naturais ou resultantes da intervenção humana), e a investigação sobre os níveis de bem-estar na interdependência com o Ambiente2, tem sido desenvolvida, desde os meados do século XX, uma nova área da Psicologia actualmente denominada como Psicologia Ambiental (ou Psicologia do Ambiente), a qual tem como objecto principal a interacção entre o Homem e o Ambiente.
Segundo Gifford (2002), o primeiro autor a utilizar a denominação Psicologia Ambiental foi Egon Brunswick em 1943, no ensaio Organism Achievement and Environmental Probability. De forma visionária nessa época, Brunswick sustentou a tese de que a ciência psicológica deveria atribuir tanta atenção às propriedades do Ambiente em que os indivíduos viviam como aos próprios sujeitos cujo comportamento estudava (Brunswick, 1943). No referido ensaio, transparece que o ponto de vista de Brunswick terá sido bastante influenciado pelo pensamento Gestalt, em particular pela Teoria do Campo Psicológico de Kurt Lewin (1935), uma teoria da motivação fenomenológica que atribui muita importância à percepção individual tendo subjacente que, no estudo do comportamento humano, mais importante do que compreender a realidade é compreender a percepção que o indivíduo tem da sua realidade; neste âmbito, Lewin (1935) defendia que as variações pessoais do comportamento humano em relação à norma são condicionadas pela tensão entre as percepções que o Homem tem sobre si e a ambiência em que se insere (i.e., o espaço vital), a qual será por si percepcionado como a realidade psicológica.
1 As noções de espaço e lugar ocupam uma posição central na compreensão das relações do homem com
o Ambiente (Günther, Pinheiro & Guzzo, 2004).
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O termo Ambiente (ou o meio-ambiente) inclui o ambiente natural (floresta, montanha, rios, etc.), abarca as estruturas físicas edificadas pelo homem (casas, Aldeias, etc.) e as inter-relações sociais dentro de ambas realidades de origem natural e humana (Aragonés & Amérigo,1998).
Cabe à Teoria do Campo Psicológico a honra de ter sido uma das primeiras teorias psicológicas a destacar o comportamento humano como um resultado quer de factores fenomenológicos individuais como de factores ambientais (Lewin, 1935), suscitando a atenção para a importância da investigação sobre o meio-ambiental nos estudos sobre o comportamento humano, nomeadamente nos grupos sociais. Para Esteves (1986), a Kurt Lewin “(…) se deve o trabalho precursor da action-research, uma acção de nível realista continuamente seguida pela objectiva reflexão autocrítica e por uma avaliação dos resultados, assente no triângulo investigação-acção-ensaio, sendo a base da compreensão dos seus objectivos.” (Esteves, 1986: 265). Com efeito, Lewin (1935) foi um pioneiro da acção investigadora acompanhada por uma reflexão objectiva e auto-crítica e, complementarmente, por uma avaliação dos resultados assente na verificação experimental, contributo aliás também legado à Psicologia Ambiental3.
Do ponto de vista da memória histórico-científica, quando analisamos a literatura mais aprofundadamente, outros autores alegam a existência de uma Psicologia do Ambiente original que surgiu no primeiro terço do século XX, anterior e distinta da Psicologia Ambiental que se destacou no início dos anos 40 e que se estabeleceu a partir dos anos 60 e 70 (nestas décadas já mais focalizada na orientação arquitectural como resposta a uma necessidade social emergente) e também distinta da Psicologia Ambiental prevalecente nos anos 80 e 90 (que surgiu como resposta às problemáticas sociais, estando mais orientada para a sustentabilidade ecológica).
Ainda quanto à génese da Psicologia Ambiental, no Handbook of Environmental Psychology, Kruse e Graumann (1987) alegaram a existência de uma pioneira Psicologia do Ambiente de origem alemã, vinculada a Hellpach4, prosseguida por G. Simmel, W. Stern, M. Jahoda e pelos irmãos Munchow5 (também eles teóricos na dianteira da Psicologia do Ambiente germânica), linha teórica cuja continuidade foi dramaticamente interrompida com o advento da II Grande Guerra Mundial.
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Paradoxalmente, tendo sido um teórico importante na história do desenvolvimento desta área e das próprias ciências sociais, Lewin não efectuou quaisquer investigações de relevo no âmbito da Psicologia Ambiental, tendo tão-somente conceptualizado noções metodológicas teórico-práticas relevantes que, depois, foram nela aplicadas (Carneiro & Bindé, 1997; Gifford, 2002).
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Professor Alemão que, em 1911, publicou um livro denominado Geopsyche, no qual defendia a influência do meio geográfico e atmosférico no comportamento (Kruse & Graumann, 1987).
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Autores do Der Lebensraum des Großstadtkindes (O espaço de vida da criança urbana), publicado em 1935 (Kruse & Graumann, 1987).
Portanto, no que concerne às origens desta área do conhecimento humano parece-nos mais justo afirmar que W. Hellpach, M. Jahoda, M. Muchow, H. Muchow, G. Simmel, W. Stern e, posteriormente, os seguidores heterodoxos da Gestalt, tais como E. Brunswick e K. Lewin, podem ser considerados como os fundadores da Psicologia Ambiental.
Na década de 70 e seguintes do século XX, com o advento de uma nova consciência ecológica muito influenciada por questões de índole política, a Psicologia Ambiental ganhou relevância no meio científico através da pesquisa de novas formas de acção e da produção de investigações no âmbito das relações entre os sujeitos, os ambientes físicos e os problemas ambientais (De Young, 1999). A partir dos anos 70 a inter-relação entre a Pessoa6 e o Ambiente, numa afinidade de influência recíproca, assumir-se-á como uma área central para a Psicologia Ambiental.
Desde aquela época até aos nossos dias, passou a ser muito valorizada a perspectiva de que tanto as pessoas alteram o Ambiente, assim como o entorno ambiental interfere no comportamento dos seres humanos.
Em síntese: como área emergente da Psicologia e constituindo um instrumento de análise relevante para o nosso estudo, podemos considerar que o estudo da dinâmica inter-relacional do comportamento humano com o entorno ambiental em que se insere, ou seja, a relação recíproca entre a Pessoa e o Ambiente, constituiu-se como o objecto central da Psicologia Ambiental.
Por conseguinte, considerada como Psicologia do Espaço, a Psicologia Ambiental analisa a conduta humana nos contextos ambiental e social, ao mesmo tempo que investiga a inter-relação entre o Ser Humano e o Ambiente, atribuindo uma relevante importância ao comportamento, às percepções e às representações ambientais. Neste propósito Günther et al. (2004) concluíram: “A noção de espaço e lugar ocupa uma posição central na compreensão das relações do homem com o seu ambiente. (…) Trata-se, portanto, de uma posição nova, uma diferente e mais consistente maneira de entender o desenvolvimento humano e social.” (Günther et al., 2004: 7-14).
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Na enunciação do constructo da Psicologia Ambiental é fundamental o uso do conceito Pessoa, porque nele se inclui as características afectivas, cognitivas, culturais e históricas, assim como as identidades, social e individual, envolvidas no estudo das relações humanas entre si e com o ambiente (Bassani, 2004).
Mais recentemente, a Psicologia Ambiental tanto investiga os efeitos das condições ambientais e estruturais sobre os comportamentos humanos como, também, estuda o modo como as pessoas percepcionam as condições do meio-ambiente (natural e físico) e, consequentemente, como agem individualmente entre si no (e com o) Ambiente em que coexistem.
Tal como a Psicologia em geral, também a Psicologia Ambiental possui um longo passado mas uma breve história; as semelhanças também convergem no que concerne à sua colaboração com outras áreas do conhecimento científico: “Os temas que tratam da relação recíproca entre pessoas e Ambiente encontram-se não apenas na Psicologia Ambiental mas também na Educação Ambiental, na Ergonomia, Geografia Humana/Social, no Planeamento Urbanístico, na Arquitetura, entre muitas outras.” (Günther et al., 2006: 12-13).
Com um ponto de vista semelhante, Moser (2005) alega que a Psicologia Ambiental deve estudar o Ambiente conjuntamente com a análise dos comportamentos e das percepções individuais (e comunitárias) quando inseridas aos contextos físicos e sócio-comunitários em que tais processos ocorrem.
Neste âmbito, Moser (2005) classifica em quatro níveis as relações entre a(s) pessoa(s) e os respectivos contextos ambientais:
i) nível individual: o espaço privado ou o microambiente (o local de trabalho, o alojamento, a moradia, a propriedade privada, etc.);
ii) nível da vizinhança-comunidade: os ambientes compartilhados entre as pessoas ou os espaços semipúblicos (o bairro, os blocos de apartamentos, os condomínios, o lar de idosos, os parques de lazer, etc.);
iii) nível indivíduo-comunidade: os ambientes públicos, a paisagem, os espaços intermediários (a povoação, a vila, a cidade, o campo, a praia, etc.);
iv) nível social: o meio-ambiente global, na sua totalidade, que abarca tanto o ambiente construído como o ambiente natural (recursos de uma região ou país, etc.). Segundo o mesmo autor, adjuntas a esta classificação pormenorizada, existem ainda mais quatro dimensões na inter-relação pessoa-ambiente, conferindo-lhe complexidade e dinamização: as dimensões física e temporal, social e cultural (Moser, 2005).
Isto significa que, para a Psicologia Ambiental, os factores naturais e edificados, individuais e sócio-culturais interagem mutuamente, ou seja, estão inter-relacionados.
Pelo exposto, concordamos com Ferreira (1997) quando o autor argumentou que a percepção ambiental associada à cognição ambiental, o stresse ambiental e as atitudes pró-ambientais são também exemplos do amplo campo de estudo a que se tem dedicado a Psicologia Ambiental contemporânea, elementos temáticos que nos interessam sobremaneira no estudo residencial institucional que nos propusemos efectuar.
Vários autores que dissertaram sobre a Psicologia Ambiental são da opinião de que a educação ambiental é a solução mais efectiva para a prevenção ou solução dos problemas ambientais, pelo que têm sustentado a necessidade de consciencializar a população de que as condições do ambiente, a que se acrescem os hábitos do dia-a-dia, possuem um efeito não negligenciável na vivência da qualidade ambiental (Bassani, 2001; Moser, 2005; Wiesenfeld, Sanchez & Cronick, 2002). Isso mesmo é aplicável nos espaços institucionais residenciais para os idosos que foram alvo do nosso estudo.
Sobretudo as investigações desenvolvidas por Bassani (2001) sobre qdv7 e o stresse revelaram uma estreita relação entre diversas condições fundamentais para a qdv nas cidades e os problemas humano-ambientais. Entre tais factores encontram-se a poluição (atmosférica, sonora e visual), a excessiva densidade populacional, o congestionamento do trânsito, a insegurança, a ausência de espaços verdes, o desordenamento urbanístico e as limitações na qualidade arquitectónica, a ausência de silêncio, a escassez do tempo, a diminuição das relações de proximidade afectiva e de vizinhança, entre muitos outros aspectos.
De modo semelhante, Moser (2005) defendeu que o bem-estar percepcionado depende do envolvimento com o território e, concomitantemente, dos processos de identidade, argumentando que a maneira como as pessoas, em consciência, interagem com o Ambiente e entre si nele contribui para o seu próprio Bem-Estar8, ponto de vista com o qual concordamos. Acresce que pormenores tais como os estímulos provocados pelas cores, sons, odores, texturas e sabores e demais elementos do quotidiano ambiental podem suscitar em quem os experimenta as mais diferentes sensações, as quais geralmente são psiquicamente codificadas tendo em conta não apenas as determinantes inatas ou as condições do momento mas também, sobretudo, as experiências anteriores e as aquisições culturais obtidas no meio familiar e social.
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Tema por nós abordado na 2ª Secção do Capítulo II.
Por conseguinte, não sendo despiciendos os múltiplos componentes materiais do quotidiano ambiental e as emoções que provocam e sendo, também, relevantes outros factores tais como a faixa etária, o padrão sócio-económico, a origem étnica e cultural, os dados antropométricos e de Saúde e demais aspectos que tornam cada pessoa um ser único e capaz de percepcionar a realidade de modo único e idiossincrático, podemos equacionar a múltipla influência ambiental sobre as percepções individuais, nomeadamente sobre o bem-estar ambiental e, também, sobre a qdv.
Há ainda que referir que parece existir entre os Humanos e o Ambiente um retorno psíquico que parece influenciar a vivência no próprio plano ambiental. Para o efeito, são diversas as situações que transmutam a dinâmica relacional entre as pessoas e o Ambiente: alterações emocionais, situações traumáticas, frustração na convivência social, entre outros factores, parecem justificar o surgimento de variadas (e novas) doenças associadas à qualidade ambiental (natural, edificada e sócio-comunitária) contemporânea9.
Neste âmbito, a Psicologia possui muitos dos meios imprescindíveis para alcançar o cumprimento da consciencialização ambiental pessoal e colectiva, já que se trata de uma complexa área do conhecimento, constituída por corpos teóricos e por competências técnicas essenciais à promoção da efectiva mudança na percepção e nos comportamentos, com o propósito final de melhorar a qualidade ambiental e, similarmente, a qdv das próprias pessoas. Partindo do princípio que alguma melhoria da qdv passa pela melhoria da relação entre as pessoas e destas com o meio-ambiente em que se inserem, parece-nos essencial que os indivíduos de todos os géneros e faixas etárias possam ser esclarecidos e motivados a clarificar as suas percepções, a ajustar as suas atitudes e a adaptar os seus comportamentos, por forma a participarem conscientemente nas mudanças que possam ser necessárias perante os contextos individuais, físicos, sociais e gregários que constituem o seu Ambiente.
Na nossa investigação, esta temática assume um aspecto relevante para a compreensão de como o Ambiente influencia a percepção da qdv nos idosos em determinados contextos residenciais institucionais.
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O medo gerado pela violência urbana das metrópoles ou a angústia provocada pela fragmentação das relações interpessoais de proximidade afectiva real na era da globalização informática, assim como a opressão (mais ou menos subtil) da liberdade individual ou a limitação (supostamente justificável) dos direitos de cidadania – como sucede frequentemente com os idosos –, aos quais acresce o afastamento do convívio com a Natureza e o desenraizamento dos referenciais ancestrais de bem-estar, entre outros aspectos, têm vindo a impedir de forma crescente as experiências satisfatórias de percepção do habitat e, logo, da vida como um percurso existencial com qualidade.
2 - A influência da Arquitectura na qualidade de vida dos Idosos.
A melhoria das condições de vida, não apenas nos países desenvolvidos mas um pouco por todo o mundo globalizado, tem vindo a ser grandemente suportada pela extraordinária evolução das ciências, não apenas da área tecnológica mas também, sobretudo, das ciências biomédicas, tendo sido tal melhoria igualmente sustentada por múltiplos factores civilizacionais entre os quais se encontram as condições de segurança, de acesso aos bens de primeira necessidade, ao saneamento básico, aos direitos do trabalho, à educação e, entre outros progressos, à habitação condigna.
Tais avanços civilizacionais têm tornado possível que cada vez mais seres humanos possam ver prolongada a sua vida o que acarreta, consequentemente, a uma profunda mudança no perfil demográfico das sociedades, especialmente das mais desenvolvidas, nas quais os indivíduos idosos representam actualmente (e previsivelmente que cada vez mais) uma significativa parcela da população10.
Contudo, apesar do enorme desenvolvimento científico e civilizacional, dificilmente serão eliminadas todas as disfunções orgânicas decorrentes da senescência humana, pelo que há que continuar a ponderar as consequentes limitações daí decorrentes.
As pessoas, à medida que envelhecem e as famílias se desagregam, tendem a precisar de mais integração social, seja por companhia, aprazimento ou por necessidades de apoio quotidiano. Com a progressão da esperança média de vida, que incide também na vida activa, o tempo de permanência na habitação tende a aumentar, ao mesmo tempo que se prolongam as necessidades associadas ao uso do espaço habitacional. O isolamento social dos idosos, sobretudo em ambiente residencial institucional, não é de todo incomum mas é absolutamente desaconselhável e nefasto, sendo frequentemente um antecedente capital para os quadros depressivos em indivíduos sem diagnóstico neuro-degenerativo, assim como um reforçador negativo para sentimentos persistentes de desesperança. Tal isolamento pode inclusivamente estar na origem de comportamentos psicossomáticos disfuncionais e de dependência, aliás como pudemos observar por via da nossa investigação sobre os idosos institucionalizados em diferentes contextos ambientais residenciais.
Como adiante iremos constatar, o planeamento do ambiente habitacional pode desprezar a dinâmica relacional dos seus habitantes e, particularmente, desconsiderar a progressividade das capacidades funcionais do residente que inexoravelmente envelhece, o que resultará na gradual dificuldade do pleno uso do espaço residencial.
Neste âmbito, as barreiras arquitectónicas, externas e interiores, podem ser inúmeras, insólitas e variar conforme as capacidades funcionais individuais, já que os projectos habitacionais geralmente não consideram a previsibilidade do uso futuro dos espaços pelos moradores. Também ocorre frequentemente que, em contexto institucional, múltiplos obstáculos sejam excessivamente eliminados podendo agravar o quadro psíquico e reforçar a dependência funcional dos idosos institucionalizados, seja por excesso de proteccionismo dos cuidadores – muitas vezes roçando a infantilização dos idosos – seja pela perda de individualidade dos moradores, ambos casos frequentemente decorrentes de ambientes residenciais com inspiração “hospitalar”.
Chegados aqui, interessa-nos examinar a importância do espaço arquitectural e da relação do idoso com o seu espaço habitacional.
Por conseguinte, ao longo dos Itens desta 2ª Secção iremos reflectir não apenas sobre as características desejáveis a um Projecto Arquitectónico e a organização do espaço habitacional destinado aos mais velhos, assim como, também, examinaremos várias características arquitecturais que permitem moradias, sejam particulares ou institucionais, com características inclusivas e que proporcionem condições ambientais para a boa vivência em Bem-Estar e qdv aos idosos.
2.1 - Do abrigo à casa, a estética arquitectónica e a felicidade do lar.
As formas na arquitectura, tal como nós as conhecemos, estão muitíssimo influenciadas pela natureza e pela anatomia humana. Aliás, se a natureza anatómica da arquitectura não fosse evidente em milhares de outros locais, seria suficiente observarmos a “craniana” cúpula de uma Catedral ou os “braços“ estendidos de S. Pedro em Roma ou os “fálicos” obeliscos do Templo de Karnak em Luxor, para compreender que aquilo que é construído flui a partir daquilo que somos e sentimos.
No que concerne às nossas referências identitárias e civilizacionais ocidentais, recordemos que o termo casa surge durante o Império Romano; na sua significância mais comum trata-se de uma edificação rudimentar erigida pelo Homem, cuja função é constituir-se como um espaço de protecção (para um indivíduo ou conjunto de pessoas) face aos elementos climáticos ou como um refúgio contra ataques de terceiros.
Como sinónimo de cabana ou choupana, o conceito primordial de casa11, ou o de residentia (quando, mais tarde, foi considerada como o espaço de moradia), constitui-se como um abrigo rudimentar em rivalidade com o termo domus o qual, por sua vez, denomina a habitação urbana já mais sofisticada (geralmente propriedade de um domini [aristocrata romano]) edificada com materiais robustos, tais como a pedra e o mármore, artisticamente trabalhados e estéticamente combinados (Roth, 1993).
Com o declínio do Império Romano, e a consequente deterioração das condições de vida resultantes das guerras e das pestes ao longo da Idade Média, as domus urbanas sofreram uma forte redução até à sua quase extinção. Até o século X, e até mesmo depois, as únicas construções em alvenaria que prevaleceram, com robustez funcional e sentido estético, foram as fortificações militares (algumas delas apalaçadas) e as edificações religiosas. Por outro lado, multiplicaram-se as casae de madeira e de barro.
Nas cidades da Idade Média, as igrejas distinguir-se-iam pela dimensão grandiosa e estrutura robusta, reassumindo a denominação latina de domus ou Casa do Senhor, tendo ao seu redor as casae, quase sempre edificações humildes do povo. Desde então, chamou-se domus (que deu origem ao termo actual duomo em italiano) à morada de Deus na Terra e casa ao edifício da moradia popular (Roth, 1993).
A partir da evolução arquitectónica anteriormente descrita, transversalmente às classes sociais, a utilização do termo casa vulgarizar-se-ia até aos dias de hoje, consequentemente sintetizando toda a noção de domicílio residencial.
À medida que as sociedades se tornavam mais complexas e sedentárias, os castelos, as domus, os palazzos, as villas e, principalmente, as casae, normalizaram-se como espaços cuja importância vai muito para além da sobrevivência ou do estatuto individual na existência comunitária.
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Desde as primeiras cavernas, habitadas e decoradas com narrativas pictóricas do quotidiano e do habitat primitivo, a crescente necessidade de protecção contra os elementos ou contra os adversários ditou a existência de uma porta e de um telhado, requisitos essenciais à consolidação gradual das sociedades sedentárias e agrícolas.
Para a maioria da população, as casae (cuja primeira função essencial ab initio foi proporcionar um local de guarida) parecem gradualmente significar para os seus utilizadores mais do que um mero abrigo ao assumirem uma representação de refúgio com carácter afectivo. Ao longo do tempo e com a sedentarização das populações, mais do que uma expressão do engenho e tecto destinado ao acolhimento, a casa (esse espaço