O conceito de subjetividade reporta-se ao estudo do ser humano em suas relações com o mundo como se pode comprovar em autores como Castoriadis (1999), González Rey (2004a, 2005a, b); Touraine (2006) e outros. Em torno do tema circundam inseparáveis referências aos conceitos de sentido, sujeito e subjetividade. Mediante a importância e complexidade dessas categorias, explorei algumas perspectivas que se propõem a ilustrar a diversidade de ângulos sobre os conceitos referidos. Ao que se segue.
1. 1. Sentidos
O sentido é uma categoria utilizada em vários desenvolvimentos teóricos (ver LURIA, 1986; VIGOTSKI, 2005; BERGER e LUCKMANN, 1960; CASTORIADIS,
1999; GONZÁLEZ REY, 2004a, 2005a) sobre os processos psíquicos envolvidos na “comunicação humana complexa” (LURIA, 1986, p. 190).
Relata Luria (1986) que ao observar nos atos comunicativos que “as frases não são elos isolados de uma cadeia única”, Vigotski deduziu que a mensagem das frases em si apresenta um fenômeno por ele denominado “„influência‟” (ou ainda, “„inclusão‟”), o qual significa que “cada frase „influi‟ ou inclui em si o sentido da anterior” (p. 189).
Deduzindo que as frases encadeadas em sentidos poderiam representar confluências e processos históricos de toda ordem, acumulados pelas vivências e histórias individuais, os autores mencionados chegaram à conclusão de que o estudo do sentido procedia-se fundamental para o estudo de processos psicológicos humanos.
Vigotski (2005), então, compartilhando com Frederik Paulhan10, enunciou como sentido “a soma de todos os eventos psicológicos que a palavra desperta em nossa consciência. É um todo complexo, fluido e dinâmico, que tem várias zonas de estabilidade desigual” (p. 181). Vigotski “reconhece no sentido uma categoria estritamente associada ao funcionamento da vida psíquica como um todo” (GONZÁLEZ REY, 2004b, p. 123).
O conceito evoluiu e continua se apoiando na ideia nuclear de „influência‟, entretanto, na contemporaneidade, o sentido vem se complexificando em sua definição como categoria psicológica.
Para Castoriadis (1999), é por meio do sentido e de seu processamento que o ser humano age exercendo seu livre-arbítrio. Segundo o autor, coexiste em nosso interior um universo de sentidos. Neste universo, os sentidos pautam “instâncias subjetivas”, como por exemplo, a “psíquica”, a “social”, a “subjetividade” – ora conjecturadas como espaços, nos quais o sujeito processa e expressa seus sentidos (p. 37).
Berger e Luckmann (2008) entendem que o ser humano produz sentido “na medida em que forma um mundo coerente” (p. 35), ou seja, cotidianamente, cria-se uma lógica para que os objetos do mundo possam se mostrar minimamente legíveis.
González Rey (2005b) amplia o conceito apontando o sentido como subjetivo, já que resulta de processos vivenciais do sujeito, os quais são desenvolvidos em seu interior e
10
Frederick Paulhan (1856-1931), psicólogo francês, que segundo Vigotski (1999), é a ele devido a diferenciação entre sentido e significado de uma palavra.
engendrados concomitantemente em meio a situações externas e internas. O autor avança ainda mais identificando o sentido como produto psíquico, emocional, intelectual, fisiológico, enfim, humano – produzido e transformado em si mesmo pelo próprio sujeito e ocasionado por algum estímulo. Para o autor, qualquer tipo de resposta psíquica ocasiona produção de sentidos.
Pode-se dizer que Luria (1986), Castoriadis (1999), Vigotski (2005), González Rey (2005b) e Berger e Luckmann (2008) compartilham que o sentido é de caráter interpretativo, constituinte do sujeito e, portanto, pertinente à esfera social. Além disso, o sentido preenche-se também como parâmetro histórico-cultural por desvelar a psique como um produto do próprio sujeito resultante de vários e longos processos verificados em suas experiências e sentimentos individuais. Estando presente em todas as produções humanas, vem representar-se como unidade integradora subjetiva, a qual movimenta e equilibra o estabelecimento do ser humano no mundo.
1. 2. Sujeitos
Autor e produtor, o sujeito é um conceito nuclear e que gerou incontáveis desdobramentos teóricos. Segundo González Rey (2005a), foi o marxismo quem impulsionou um pensamento sobre a figura humana, a qual se pautou na concretude do ser humano e que se efetiva por meio de suas atividades, ações, em meio a condições histórico-sociais11.
O marxismo, pela primeira vez, representa no pensamento filosófico o caráter histórico e social do homem, que supunha o trânsito de um sujeito universal, fechado dentro de um conjunto de categorias metafísicas, para um sujeito concreto, que mostra em sua condição atual a síntese de sua história social, não como acumulação, mas como expressão de uma nova condição (GONZÁLEZ REY, 2005a, p. 222).
Inserindo-se nesse espírito (GONZÁLEZ REY, 2005a), a psicologia (inicialmente a soviética) depreendeu que o sujeito concreto, feito de histórias sociais, nascido em berço marxista mantinha estreta relação entre sua atividade psíquica e atividade material. Conjecturando-se que as atividades materiais são socialmente compartilhadas, a
11
Contrapondo-se à figura anteriormente determinante de um ser humano com qualidades universais, metafísicas, segundo González Rey (2005a).
consitutição do sujeito, de sua psique envolve-se em dinâmicas não somente individuais, mas sobretudo sociais. Deriva daí a importância da psique como fundamental nos processos sociais histórico-culturais.
“A ação dos sujeitos implicados em um espaço social compartilha elementos de sentidos e significados gerados dentro desses espaços (GONZÁLEZ REY, 2005a, p. 207)”. Esse pensamento organiza o espectro de atividades psíquicas e físicas e o compartilhamento das mesmas pelos sujeitos de uma sociedade como categorias de um sistema de sentidos e significados, no qual suas relações intrínsecas se movimentam em meio a conflitos e divergências que irão constituir igualmente a historicidade e culturalidade dos sujeitos.
Dentro dessa perspectiva histórico-cultural, o sujeito então (TOURAINE, 2006) se rebela e surge movido pela “vontade de escapar às forças, às regras, aos poderes” que reduzem o indivíduo a simplório “componente do sistema” e buscam assim inviabilizar o importante exercício de autonomia. “Não há sujeito senão rebelde, dividido entre a raiva e a esperança” (p. 119), pois somente dessa forma, entende-se que ele pode enfrentar a tirania e exercer sua autonomia.
Touraine (2006) entende que, embora rebelde, “o sujeito continua situado na ordem dos direitos e dos deveres, na ordem da moralidade” (p. 120). Uma vez que a ruptura e a rebeldia só tem sentido porque o sujeito é um ser social, sua autonomia se estabelece como um exercício colaborativo individual/social. Cumpre notar que a autonomia, portanto, é relacional e pressupõe a eliminação da opressão, mantendo, contudo e continuamente a relação dialética indivíduo/sociedade.
O sujeito, na visão de González Rey (2005a) é “o momento vivo da organização histórica de sua subjetividade” (p. 241). É nesse „momento‟ que o sujeito se manifesta com suas idealizações, projetos, efetivações, organização e processamento das experiências vividas. Nesta perspectiva, o sujeito vem representar a própria atividade, a própria ação de que é capaz e nisto está sua vitalidade.
O sujeito se define em sua resistência a toda domesticação doutrinária, o que coloca no centro de suas próprias definições morais, em um processo extraordinariamente complexo, na medida em que suas reflexões e ações expressem seu valor moral como sentido subjetivo (GONZÁLEZ REY, 2004, p. 165).
1. 3. Subjetividades
Ao romper com os limites psíquicos e sociais por meio de sua “reflexividade e capacidade de” agir deliberadamente o ser humano se subjetiva (CASTORIADIS, 1999, p. 37), o que quer dizer, exerce sua subjetividade, que para o autor trata-se da capacidade de dar e receber; processar e produzir sentido, fazendo com que o mesmo seja sempre renovado pelo próprio sujeito.
O autor concede à reflexividade a mesma especificidade com a qual conceitua a subjetividade: a “capacidade de receber o sentido, questionar o sentido e criar um novo sentido” (OP. CIT., p. 37). Mas se para exercer a subjetividade deve-se ser reflexivo, então, a reflexividade vem a ser uma qualidade da subjetividade.
A reflexividade como a “capacidade de atividade deliberada (vontade)” – aqui compreendida como pensamento e ação – comporta os “os traços essenciais” do sujeito (p. 44). O exercício da reflexividade torna-se igualmente um exercício social que irá fomentar a sociedade e ser por ela fomentado.
Touraine (2006) estabelece a subjetividade como uma contraposição à dominação, à condição de dominado determinado por um modelo social. Cumpre notar, que o modelo social é uma delimitação social, tal como a moralidade e como delimitação determina relações reguladoras, de amarras entre os indivíduos. Na medida em que se rebelam às amarras, adquirindo e manifestando “uma consciência de si mesmo autofundada”, os indivíduos se subjetivam, se tornando criadores de si mesmo12. Essa transformação com propósitos libertários é que é chamada pelo autor de subjetividade e por isso se contrapõe à dominação. Na forma de “a expressão do dominado”, em um território onde reina a “objetividade” do “rei e seu reino, do proprietário e sua terra”, a subjetividade vem representar na visão de Touraine (2006) o contraveneno do arquétipo de dominação social (p. 113).
Para além de qualquer simplificação, em Touraine (2006) o indivíduo deve tomar ciência de si, de sua existência, de sua necessidade, de sua força e então se rebelar para
intencionalmente caminhar para sua libertação, sem que se prescreva a eterna luta contra aquilo que lhe oprime e lhe aprisiona.
A legitimidade da autonomia conquistada pela “subjetivação”, que é o processo de transformação do indivíduo em sujeito (TOURAINE, 2006, p. 166) impõe um contínuo retorno ao berço social. O social não se esgota no sujeito. Diz o referido autor que nenhum indivíduo é integralmente um sujeito, mas que “existe algo de sujeito” nas condutas individuais e sociais (p. 137).
A abordagem de Touraine (2006) avança para perspectivas político-sociais abordando as subjetividades em emergência, como a “da mulher ou do trabalhador” ou a de “movimentos sociais”. O autor compreende que tornar-se sujeito, subjetivar-se é um direito e um poder do indivíduo, ao que se implicam, intrinsecamente, outros direitos: “direitos cíveis, direitos sociais, direitos culturais” (p. 113).
Tanto Touraine (2006) quanto Castoriadis (1999) compartilham conceitualmente ao conceber as formas de emergência da subjetividade, quais sejam por meio da superação à dominação social.
Guattari (2005) explora a “relação de alienação e opressão”, a qual confere ao indivíduo sua submissão àquilo que recebe desse mundo, seus produtos e atividades (p. 42). O autor compreende a subjetividade como um produto tal e qual o são “a energia, a eletricidade ou alumínio”, dentro de um grupo de pertencimento, além de “tomadas elétricas” e grupos de relações humanas (p. 43).
Das possibilidades de subjetividade-relação e subjetividade-produto, o autor mencionado define que a subjetividade seria um “entrecruzamento de determinações coletivas de várias espécies, não só sociais, mas econômicas, tecnológicas, de mídia e tantas outras” (p. 42). Na voz desse autor, subjetividade possui explicitamente uma relação direta com as atividades e produtos materiais da sociedade, mas também inclui a possibilidade de “uma relação de expressão e criação entre indivíduo e sociedade, na qual o indivíduo se reapropria dos componentes da subjetividade, produzindo um processo” então denominado como “singularização” (p. 42). Nesta perspectiva está compreendido o exercício da autonomia, pois somente como autônomo, o sujeito consegue „se reapropriar dos componentes da subjetividade‟, rompendo com a dinâmica opressora.
Mesmo que aparentemente as relações sejam opostas – alienação e opressão versus expressão e criação, os movimentos subjetivos e singulares originam-se no indivíduo, decorrem de sua vivência subjetiva, de sua relação com o mundo, sempre situados no social. A subjetividade e singularização empreendem uma dinâmica voltada para a sociedade, que mantém o sujeito continuamente vinculado ao seu ambiente social, continuamente impregnado dos produtos e das atividades sociais.
O autor explana que na medida em que o indivíduo vai experienciando o mundo, vai se subjetivando por ele, ou seja, vai se situando, incorporando as práticas e os hábitos do mundo e passando a assumi-los na sua própria “existência particular” (p. 42).
Particularmente, no que concerne aos grupos de indivíduos, sujeitos sociais, Guattari (2005) define como “subjetividade capitalística” as corporações que configuram as “classes, castas que detém o poder nas sociedades industriais e tendem a assegurar um controle cada vez mais despótico sobre os sistemas de produção e de vida social” (p. 48). Deduz-se daí grandes tensões subjetivas geradas mediante „controle cada vez mais despótico‟ versus subordinados insatisfeitos, e que em algum momento recorrerão de sua inventividade e autonomia para assumir um status singular.
No entender de González Rey (2005a), a subjetividade também não comporta o pertencimento somente à esfera intrapsíquica. De um ponto de vista ampliado, a subjetividade se manifesta constantemente na dialética social/individual, incluindo-se todos os aspectos inerentes a essa relação. O autor aloca a subjetividade como um sistema global – individual e social - de produção, organização e articulação de sentidos subjetivos, no qual o indivíduo, como sujeito concreto, organiza suas experiências sociais.
González Rey (2005a) concentra na produção de sentidos o locus que permite o sujeito empreender a sua própria história em meio a sua cultura de pertencimento. A subjetividade para este autor, dessa forma, tornou-se um sistema de sentidos que potencializa o sujeito histórico-cultural como ser-de-sentido, apto a interpretar o mundo e a praticar as próprias decisões.
As conceituações de González Rey (2005a, b) derivam de uma visão psicológica histórico-cultural determinada teoricamente por postulações advindas da psicologia soviética as quais, segundo o autor (2005a), persistiam na “criação de uma representação
teórica capaz de subsidiar o desenvolvimento de categorias e processos diferentes de produção de conhecimento” (p. 76).
O conceito de subjetividade a ser praticado durante este trabalho corresponde a um sistema de produção de sentidos e ação pelos sentidos, de modo dinâmico, dialético e constituído complexamente por “dois espaços de constituição permanente e inter- relacionada: o individual e o social” (GONZÁLEZ REY, 2004a, p. 141).