A Divisão de Medicina Social organizou uma semana anti-espírita em 1940, com a cooperação de elementos eclesiásticos e leigos. Foi realizada no salão “Saldanha Marinho” da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. 99 Embora tenha sido uma promoção isolada, foi uma iniciativa corajosa. Assim foi o relato do que ocorreu nessa semana, na correspondência particular da Província:
“Durante seis dias, seis conferencistas encararam, ante uma assembléia diariamente mais densa, vários aspectos do espiritismo, considerando-o sob o lado policial, médico, social e religioso. Os mesmos maiorais do espiritismo vieram assistir às três últimas e fizeram tentativas de apartear. No último dia quiseram distribuir panfletos na saída. Um grupo de congregados apoderou-se da pilha de papeluchos e queimou-os na sarjeta da rua. Na semana seguinte – meados de Agosto – os espíritas promoveram uma conferência contra a “Semana” e espalharam
97 Pe. J. C. de Souza, S. J., Padre Roberto Sabóia de Medeiros, S. J. - Apóstolo da Ação Social, p. 116. 98 Ibidem, p. 119.
uma folha volante se insurgindo contra os “Sabóias de saias” e os “métodos saboianos”. 100
Parece-nos bastante estranho uma divisão de Medicina social tratar do combate ao espiritismo, e ainda mais, considerá-lo sob os aspectos policial, médico, social e religioso. Talvez uma explicação para esse fato seja que a ação social ali desenvolvida primava sempre pela interação da pregação da doutrina social da Igreja Católica com ações educativas e de tratamento médico. Conseqüentemente, os aspectos doutrinário, educativo e assistencial se mesclavam totalmente, em qualquer que fosse a ação empreendida. Isto é corroborado pela seguinte correspondência do Padre Sabóia ao R. P. Provincial:
“A Divisão de Medicina Social tem uma seção de estudos, na qual um grupo de estudantes dos últimos anos da faculdade estuda problemas de moral e de psicologia relacionados com a sua profissão. Outra seção ocupa-se com a higiene mental. Abriu um concurso nas duas faculdades de Medicina de São Paulo para premiar o melhor conto sobre o alcoolismo ou outro assunto ligado à higiene mental. Este conto, impresso em opúsculo, será distribuído, sobretudo, no interior, causando muito mais impressão do que se se difundissem folhas volantes com considerações abstratas.” 101
Vemos aqui o modo de agir característico da interação já citada, no qual a pregação se faz de maneira implícita, através de um combate ao que é considerado maléfico, como por exemplo o espiritismo ou o alcoolismo, utilizando-se de meios de convencimento como discursos, publicações e outros, sempre com considerações práticas e exemplos de virtudes morais. Desta maneira se procurava atingir e influenciar os
100 Notícias da Província do Brasil Central. 3a série, número especial, janeiro de 1941, p. 408. 101 Idem. 3a Série, ano XV, número 5, abril de 1941, p. 308.
indivíduos menos letrados e mais carentes financeiramente, pois estes dificilmente compreenderiam argumentos com conotações abstratas, destinadas às pessoas com melhor preparo intelectual. A principal realização desta divisão de Medicina Social foi a criação e manutenção da clínica Santo Inácio, quando ainda não estavam organizados os serviços do antigo INPS (Instituto Nacional de Previdência Social). Em 30 de setembro de 1942, em uma carta ao Padre Provincial, o Padre Sabóia relatou:
[...] “Estamos lutando para que seja firmada a realização da Clínica Santo Inácio aqui em São Paulo. Mas ficou revelado que é preciso que nós saibamos com um conhecimento estatístico quais são as doenças mais freqüentes e qual é o poder aquisitivo do comerciário.” [...] 102
A clínica, que foi inaugurada e passou a funcionar efetivamente no dia 30 de janeiro de 1943, destinava-se a atender os operários e pessoas carentes de recursos, o que é descrito nos seguintes relatos:
[...] “No dia 30 de janeiro inauguramos a Clínica Santo Inácio, com três gabinetes dentários, Raio X e outros apetrechos. É uma clínica para o ‘Zé povinho’. Já comecei a pleitear do governo uma subvenção para a clínica e quem está me ajudando é o Secretário da Fazenda. Chamei as escolas de consórcio Pandiá Calógeras.” [...] 14 de fevereiro de 1943. [...] 103
[...] “A Clínica Santo Inácio, para operários e pobres. Os médicos, dentistas e radiologistas trabalham ou grátis ou por tão pouco que se vê a caridade como alma da clínica. O aluguel do prédio e os
102 Pe. P. A. Maia, S. J., Introdução aos Excertos das Cartas do Padre Roberto Sabóia de Medeiros, S. J., (1922-1954). 103 Ibidem.
instrumentos são fornecidos por amigos, casas bancárias e laboratórios.” Junho de 1944. [...] 104
Fica, pois, bem claro qual era o impulso que movia esta ação social, e como ela se promovia declaradamente com um motivo explícito, que era o tratamento de saúde, mas também tinha motivações e fins compartilhados com este, tais como ações educativas, formativas, apostólicas e de difusão de idéias, arregimentados sob o nome coletivo de ação social.
Um testemunho do funcionamento da clínica Santo Inácio é a reportagem publicada na revista O Cruzeiro, em 27 de agosto de 1949, de onde reproduzimos o seguinte trecho:
“[...] Prosseguindo a campanha de angariação de recursos, já em 1943 pôde ser aberta a “Clínica Santo Inácio”, para atender a doentes pobres. Durante o ano de 48, a “Clínica”, com todas as seções especializadas, desde o Raio X até o dentista, atendeu cerca de 4.500 pessoas. Ali se cobra pelo tratamento, exames, chapas radiográficas, etc, exatamente o preço do custo dos
104 Notícias da Província do Brasil Central. 3a Série, ano XVIII, número 1, junho de 1944, p. 24.
FIGURA 6: FOTOS DO LABORATÓRIO DE QUÍMICA DA FEI E DA CLÍNICA SANTO INÁCIO
remédios ou do material. E, o que é digno de nota, é que esse preço é sempre, matematicamente, um terço do preço normal cobrado nas clínicas particulares. Um exame médico, dez cruzeiros. Uma chapa radiográfica, 50 cruzeiros, uma operação de apendicite 400 cruzeiros e assim por diante. Quer dizer que a gente modesta, sem posses, encontra no Padre Sabóia um amigo e um protetor. E note-se: o Padre Sabóia nunca pediu auxílio ao governo, nem tampouco sua obra pesa sobre qualquer instituição religiosa. O que ele fez agora foi à custa do próprio esforço e da boa vontade dos seus colaboradores. E é precisamente essa circunstância que dá maior relevo e maior mérito à sua jornada social.” [...] 105
Essa clínica Santo Inácio funcionou primeiramente na Rua Galvão Bueno, depois passou para a Rua General Osório número 532, e por fim transferiu-se para a Rua Siqueira Campos, na esquina com a Rua Vergueiro. O Padre Sabóia se referiu ao local para onde se mudou a clínica na Rua General Osório:
[...] “A clínica Santo Inácio não está no melhor dos bairros da cidade. Serve de porto para alguns náufragos. E, assim, infelizes abandonaram a má vida, depois de tratamento; uniões se legitimaram; mães solteiras foram socorridas, e não faltaram conselhos alevantadores aos candidatos ao vício.” [...] 106
Sobre essa localização da clínica, o Padre Sabóia comentou em uma carta ao Padre Provincial datada de 13 de fevereiro de 1945:
105 A. Silva & R. Maia, “Um Legionário do Bem”, pp. 52-56.
[...] “Só na sexta-feira passada caí na conta de que a Escola da Rua General está cercada de lupanares e casas infames. O Diretor esteve até agora com acanhamento de me mostrar toda a realidade. Insistia enormemente em que nos mudássemos, mas não dizia porque. O senhor pode imaginar as dificuldades. Arranjar casa é um milagre. Mas, Nosso Senhor mostrará agora se Ele gosta ou não deste trabalho.” [...] 107
Em outra carta, datada de 10 de março de 1945, o Padre Sabóia continuou a sua explicação ao Padre Provincial:
[...] “Quanto à casa da Rua General Osório, jamais teríamos ido para lá não fosse o fato de que, nas vésperas de minha ida aos Estados Unidos, fomos expulsos da Avenida Ipiranga. Nem mesmo a polícia estava a par de que naquela rua existiam casas más.” [...] 108
Ainda sobre a mudança da Clínica, relatou:
[...] “Foi mudada da Rua Galvão Bueno para a Rua General Osório 532. Esta mudança saiu benéfica ao desenvolvimento da Clínica. Não só o trabalho dos dentistas dobrou, mas os serviços de Raios X e dos exames de laboratório começam a exigir mais horas e mais funcionários. As consultas aos médicos são poucas pela manhã, crescentes pela tarde toda. Como sabem, a Clínica é feita para os pobres e sobretudo para os remediados da classe média. Operários e empregados já têm à disposição serviços modelares. É a classe média que, não podendo pagar serviços
107 Pe. P. A. Maia, S. J., Introdução aos Excertos das Cartas do Padre Roberto Sabóia de Medeiros, S. J., (1922-1954). 108 Ibidem.
caros e por outra não podendo procurar as instituições totalmente gratuitas, passa por transes e necessidades tremendas. Desde o princípio foram estes da classe média, de modo especial, os que visou a Clínica de Santo Inácio da Ação Social. Nada é totalmente de graça, mas tudo é por um preço que seja suportável às pequenas bolsas. De junho até meados de novembro, as consultas clínicas haviam sido 260; os dentistas tinham atendido a 380 pessoas. As radiografias de dentes foram 123 e as grandes foram 140. Os exames ao todo somaram 230, sem falar de uns 100 curativos e umas 300 injeções. Pena é que aqui não se possam contar casos concretos. Conselhos médicos que salvaram nascituros, que tiraram do mau caminho, que animaram no bom. A dedicação de médicos e dentistas, chefiados pelo exemplo decisivo do Diretor da Clínica ultrapassam elogios. Os caros amigos sabem o que é ficar trabalhando numa extração difícil até meia noite e mais? O que é levar um exame de laboratório pela noite a dentro? O que é um médico no dia seguinte ir a um Posto de Saúde, ficar arranjando instalações na Clínica até uma da madrugada? Isto se tem visto na Clínica Santo Inácio...” [...] 109
Discorrendo sobre o funcionamento da Clínica Santo Inácio, o Padre Sabóia mostrou como ele fazia uso do que estava disponível e adaptava-o às circunstâncias vigentes. As dificuldades e vicissitudes não eram impedimentos para a sua obra.
[...] “Dos Estados Unidos trouxe para a Clínica um belo apetrecho dentário, um aparelho de diatermia, remédios e vitaminas. Alguns, no princípio, criticaram esta ou aquela falha. Por exemplo, até agora não tínhamos avental e luvas para o
radiologista e pouco antes nem tínhamos radiologista fixo. Até isto está remediado. Quem não tem capitais não pode ser tudo perfeito num abrir e fechar de olhos... Vamos agora ampliar a Clínica. Pretendemos por um serviço para intervenções cirúrgicas e internamento hospitalar de poucos dias. Sabe-se que para um pobre se operar de apendicite e de outras coisinhas mal tem para onde ir. A Santa Casa sempre está cheia. Pois colaboremos, dando esta facilidade aos necessitados... No meio tempo, a Clínica tem atendido a tudo o que lhe bate às portas. Há pobres envergonhados e há fatos edificantes. Os dentistas não têm mãos a medir. Os médicos atendem da manhã à noite. Nem sempre há muito movimento. A coisa varia. Aliás nós não pretendemos ser uma Clínica simplesmente de tratamento. Queremos educar. Educar para prevenir doenças e educar moralmente. Aproveitando o fato da doença, dar bons conselhos. Todos sabem quanto pesam as palavras de um médico, para o bem e para o mal. Demos agora em março mais um passo. Estamos indo aos setores mais miseráveis de São Paulo. Fazemos um levantamento da situação, e tudo que pode ser encaminhado à Clínica, para lá é enviado. Por outro lado, arranjamos na Lapa uma oficina mecânica. Que tem que ver mecânica com Clínica? A primeira idéia era uma oficina para ensinar mecânica num curso industrial: depois se viu que a coisa não era logo realizável. Então? As máquinas ali estavam, havia um ótimo mestre. Este põe a oficina em movimento, recebe trabalhos, conserta máquinas, faz parafusos, e a margem de lucro que há serve para manter a Clínica. Houve dificuldades: foram vencidas. No momento a oficina está com um movimento de catorze mil
cruzeiros; haverá uma margem de seus três ou quatro mil para a Clínica...” 110
[...] “Nós queremos fazer muito mais. As necessidades são enormes. A falta de gente é enorme. Tudo é enorme. Enorme seja também a generosidade das orações de todos os nossos por esta obra de tanto momento.” 111
O Padre Sabóia utilizava-se da sua influência junto à sociedade para conseguir publicidade gratuita nos jornais. Além do atendimento médico que a Clínica proporcionava, a partir de 1946 ela passou a contar com uma farmácia popular, na qual os medicamentos eram comercializados a preços reduzidos:
[...] “Desde 1 de Maio até princípios de Junho, depois de instalada a Farmácia da Clínica Santo Inácio, o Diário Popular concedeu à mesma uma publicidade gratuita, que vai contribuindo para tornar conhecida a Farmácia. Os remédios aí vendidos, aos preços mais reduzidos que se podem alcançar, dão assim ao necessitado um meio de se tratar e de também ele poder “tomar remédio”. Na inauguração falou um aluno do curso de oratória popular.” [...] 112
Em suas correspondências, o Padre Sabóia revelava toda a sua satisfação e alegria, ao notar que a Clínica Santo Inácio contribuía eficientemente para o atendimento da população carente, visto o grande número de pessoas atendidas em apenas um trimestre do ano de 1946:
110 Notícias da Província do Brasil Central. 3a série, ano XV, número 6, julho de 1941, p. 358. 111 Idem. 3a Série, ano XIX, número 3, dezembro de 1945, p. 191.
[...] “A Clínica Santo Inácio na Divisão de Medicina Social é a menina dos olhos da Ação Social. Diretamente em contato com os necessitados e querendo a todo custo estender a todos a mão da caridade cristã, a Clínica atendeu de Janeiro a Março, antes da inauguração da Farmácia, 2163 pessoas. Não é muito, porém, tendo em conta a escassez de pessoal, este número põe ainda mais em relevo a dedicação de médicos e dentistas que sob a liderança e a constância do Diretor, Dr. Nery de Siqueira e Silva, cumpriram a sua missão de assistência social.” [...] 113
No entanto, o desejo do Padre Sabóia era que a Clínica Santo Inácio, além de atender um grande número de pessoas, pudesse melhorar as suas instalações. Para atingir seus objetivos, seu trabalho era intenso. Em uma correspondência publicada nas Notícias
do Brasil Central, de 1953, encontra-se o seguinte relato:
[...] “O Pe. Sabóia, entre mil projetos e realizações, pretende comprar agora nova casa, pois o edifício da Rua General Osório foi requisitado pela Telefônica. Encontrou-se um ótimo casarão na Avenida Brigadeiro Luís Antonio...” [...] 114
E, em 1954, em outra correspondência do mesmo periódico, encontramos:
[...] “O Pe. Sabóia prossegue, incansável, em suas atividades de sempre. Parece que intensifica as palestras na televisão. Foram notáveis os seus sermões no primeiro Quaresmal da catedral, especialmente convidado pelo Sr. Cardeal. A sede da Diretoria Geral de Ação Social, do Centro Técnico do Trabalho, da Clínica de Santo Inácio, da tipografia, etc., está agora à Rua Vergueiro
113 Notícias da Província do Brasil Central. 4a série, ano XX, número 2, setembro de 1946, p. 66. 114 Ibidem, p. 57.
165, não longe da Faculdade [de Engenharia Industrial, fundada em 1946], que fica à Rua São Joaquim, 163.” [...] 115
No mês de novembro de 1961, decorridos mais de seis anos da morte do Padre Sabóia, o presidente da Ação Social, Padre Antonio Aquino S.J., enviou uma carta aos seus colaboradores, relatando o impressionante número de atendimentos que a Clínica Santo Inácio proporcionara, até aquele ano:
[...] “A Clínica Santo Inácio continuou perseverante no seu trabalho, no velho casarão da Rua Vergueiro, e hoje já conta nos seus fichários com diagnósticos de 70.000 assistidos, abrangendo as áreas da radiografia, eletroterapia, diatermia, raio ultravioleta, fornos de Bier, além da clínica de olhos, clínica geral dentária, clínica de ouvidos, nariz e garganta, bem como operações e tratamentos. Com efeito, o setor operatório já atendeu cerca de 2.000 casos cirúrgicos, estando toda a clínica – pelo espírito de sacrifício e boa vontade do corpo médico e enfermeiro – voltada a dar um serviço real às nossas classes menos favorecidas, por preços tais que garantam por uma parte a dignidade dos enfermos e por outra, possibilitem o seu tratamento. No plano atual de seu desenvolvimento, dois itens se fazem presentes: 1o) a ampliação dos serviços de clínica dentária. 2o) a extensão da assistência médica e dentária, também para o período noturno, garantindo assim aos estudantes das escolas e aos operários do bairro, a possibilidade de um trabalho, de uma assistência. [...] 116
115 Idem, 4a série, ano XXVIII, número 1, julho de 1954, p. 60.
116 Carta do Pe. Antonio Aquino S. J. ao professor José Milton Nogueira, de novembro de 1961, gentilmente cedida
A Clínica Santo Inácio funcionou ainda por mais alguns anos, até o final da década de 1960, quando o casarão que ocupava foi demolido e em seu terreno foi construído o novo prédio da Fundação de Ciências Aplicadas.