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Esta divisão era dirigida por um sacerdote, o Diretor da Federação dos Círculos Operários. Em virtude desta aproximação, as atividades da Divisão Trabalhista complementavam a obra dos Círculos Operários, que se expandiam em São Paulo. 90

O objetivo da divisão trabalhista não era atingir diretamente a massa operária. A meta era formar os líderes operários, com a expectativa de que esses viessem a influenciar toda a classe operária. Para atingir esses fins, o Padre Sabóia fundou duas Escolas de Formação Popular, uma delas instalada na Rua Catumbi número 183, utilizando, mediante aluguel, o prédio da Sociedade Beneficente SAMS e outra à Avenida Água Branca, utilizando gratuitamente as instalações da Escola Prevocacional, pertencente à Fundação Antonio e Helena Zerrener. Ambas funcionavam no período noturno, e as disciplinas ensinadas eram português, aritmética, geografia, noções de direito social, moral social e religião. 91

O próprio Padre Sabóia mostrava-se entusiasmado com a obra educacional que se desenvolvia, em uma carta enviada aos seus cooperadores:

“É comovente o interesse dos operários. Falei da Escola Prevocacional. É uma das mais belas instituições existentes em São Paulo. Os diretores da Fundação fizeram tudo para chegar o mais perto possível do ideal. O mérito é deles. A Ação Social colaborou com a sua porçãozinha. Há ali, hoje, 600 filhos de operários que das 7,30 horas às 17,30 horas, todos os dias, são preparados para a vida, em aulas e em oficinas, almoçando e

90 Notícias da Província do Brasil Central. 3a série, ano XV, número 5, abril de 1941, p. 308. 91 Idem. 3a série, ano XIX, número 1, junho de 1945, p. 36.

merendando. Todos eles passam pelas aulas de moral, dadas nas segundas e quartas-feiras pelo próprio presidente da Ação Social.” 92

No texto dessa carta fica bem clara a intenção primordial que o movia, que era a pregação do Evangelho, o ensino da doutrina social da Igreja e dos princípios da moral social cristã, por meio da educação e formação dos futuros líderes operários que, uma vez doutrinados, poderiam reproduzir e difundir dentro da classe operária os valores e princípios assimilados.

A Divisão Trabalhista ainda englobava o Centro Técnico do Trabalho, uma associação civil de líderes operários que se reuniam semanalmente para tratar dos interesses de sua classe. Destinava-se a orientar os sindicatos e os círculos operários, promovendo cursos itinerantes, que se realizavam em diversos bairros da Capital. Proporcionava formação cristã aos trabalhadores e procurava solucionar os casos sociais: procura de empregos, internações, obtenção de carteiras profissionais e outros ligados aos direitos e deveres dos empregados e patrões. Os métodos de ação do Centro foram assim descritos pelo Padre Sabóia:

“Procuro eu mesmo estar presente às reuniões: à luz da doutrina social da Igreja, falamos do custo de vida, dos salários, das fábricas, de tudo... e há ainda o Corpo Cênico. Os mesmos operários ensaiam com um dos professores da Escola de Formação Popular as suas peças teatrais e de tempo em tempo dá- se uma festa. E aí, no meio das risadas, há sempre um ‘discurso’ em que se pinga a moral.” 93

Uma das características da educação nas escolas da Companhia de Jesus é o incentivo aos esportes, através de jogos escolares, à dança e aos espetáculos teatrais, que

92 Notícias da Província do Brasil Central. 3a série, ano XIX, número 1, junho de 1945, p. 36. 93 Ibidem.

também fazem parte das atividades da vida escolar, com o intuito de tornar mais agradável o ambiente nos colégios e tornar as tarefas de aprendizagem menos exaustivas. A existência de um corpo cênico, citada pelo Padre Sabóia, corrobora esta característica. Referindo-se ao Centro Técnico do Trabalho, o Padre Sabóia declarou:

“No Centro Técnico do Trabalho conseguimos resolver ou encaminhar centenas de casos individuais. Gente que procura emprego (uns 353 empregos arranjados), gente que precisa de carteira profissional, carteira de menor, certidões de toda espécie, registro civil, retificação de idade, atestado de pobreza; sem falar dos casamentos, religioso e civil; batizados obtidos; de internamento nos hospitais e nas maternidades; e sem falar ainda do mais difícil, que são colocações de meninos em colégios, orfanatos e creches. Mas o Centro ainda tratou com os Institutos de Aposentadoria sobre benefícios de enfermidade, viuvez e natalidade; interferiu ainda no sentido de indenizações harmoniosas entre operários e patrões; cuidou de despejos e deu um teto para os pobres. Os casos individuais, porém, não são o objetivo direto do Centro. Com a colaboração e orientação dos eminentes e estimados padres dominicanos, Frei Benevenuto e Frei João Batista, [...] o Centro promoveu cursos volantes para operários e visitou bairros. Assim o Centro conta com elementos seus em cento e trinta e seis fábricas da Capital, onde se irradiam as lições de ordem social cristã.” 94

O Centro Técnico do Trabalho tinha um plano de proceder a um amplo levantamento social sobre o nível de vida popular. Foram passados questionários para

muitos operários, que os devolveram com sugestões. No entanto, havia dificuldades de ordem material e financeira para implementar essa pesquisa social. 95

A formação de lideranças nas várias camadas sociais parece não constituir uma novidade na história da Companhia de Jesus. Guardadas as devidas proporções e diferenças contextuais, podemos citar o que ocorreu na França, no início do século XVII. O rei Henrique IV, julgando poder contar com o apoio irrestrito dos jesuítas, estabeleceu uma nova política educacional e efetuou uma substituição maciça de professores leigos por jesuítas.

Parece ter havido um arranjo político, pelo qual o monarca, com essa substituição, pretendia usar o tipo de controle centralizado a que estavam submetidos os jesuítas, para estender o seu poder absolutista e eliminar quaisquer ambições políticas dos seus opositores. Os jesuítas, por sua vez, tirariam proveito desse arranjo, não apenas do recebimento de dotações significativas de verbas, mas beneficiando-se de um monopólio efetivo do ensino secundário e, com isso, o privilégio da formação de uma geração inteira de líderes políticos, culturais e eclesiásticos. 96

Notemos que no governo de Getúlio Vargas, apesar de o catolicismo não ter sido oficializado como religião nacional, houve uma aproximação entre a Igreja Católica e o Estado. Uma das cerimônias mais expressivas que testemunham esse fato foi a inauguração da estátua do Corcovado no Rio de Janeiro, em 1931, como foi citado no início deste capítulo.

Devido ao seu tirocínio político, Vargas na prática fez uma opção pela Igreja Católica, quando percebeu que esta seria um trunfo muito importante para obter apoio social. Não devemos nos esquecer de que Getúlio Vargas promoveu reformas educacionais em nível federal, com a implantação de um ensino técnico, demonstrando a preocupação com a industrialização e com a qualificação da mão de obra operária.

As escolas criadas pelo Padre Sabóia eram condizentes com a política educacional adotada por Vargas. Já naquela época o Padre Sabóia defendia que, se a iniciativa privada quisesse compartilhar efetivamente das decisões do país, não deveria permanecer como

95 Notícias da Província do Brasil Central. 4ª série, ano XIX, número 1, junho de 1945, p. 36. 96 S. Gaukroger, Descartes: Uma Biografia Intelectual, p. 68.

mera expectadora, mas participar de maneira efetiva das soluções. Assim, embora aceitasse subvenções do Governo para suas obras, não poderia entrar em contradição com o que vinha pregando, ou seja, que o Governo não deveria fazer tudo sozinho.

O Padre Sabóia não julgava certo receber uma importância vultosa de uma entidade que não lhe exigisse uma prestação de contas sobre o uso de tais recursos e fazia questão de manter o controle sobre as suas obras. 97 Essa postura lhe permitia manter-se independente do poder público, para que com o tempo este não viesse a cobrar contrapartidas em troca do benefício concedido. 98