A trajetória de Silva Jardim, tal como recuperada na biografia escrita por João Dornas Filho, é associada aos movimentos republicanos anteriores à proclamação da República. As principais fontes utilizadas pelo autor foram as Memórias e Viagens – Campanha de um
propagandista (1887-1889) - escritas pelo próprio Silva Jardim e publicadas em Lisboa pela
Typographia Cia Nacional; e Silva Jardim: Apontamentos para a biografia do ilustre
propagandista (1895), de José Leão, publicada pela Imprensa Oficial do Rio de Janeiro. Nesta
última obra, encontram-se publicadas as cartas de Silva Jardim, assim como depoimentos de seus contemporâneos e algumas análises acerca da proclamação da República feitas por Leão e retomadas por Dornas Filho. Fontes como memórias e cartas do biografado fazem com que a história ressalte os aspectos mais íntimos de Silva Jardim, deixando, muitas vezes, em segundo plano os fatores históricos e contextuais que influenciariam na trajetória do biografado.
Silva Jardim teria, segundo seu biógrafo, desde sua infância a ‘personalidade já claramente traçada’. Esta caracterização dos biografados é típica daquela ilusão biográfica apontada por Pierre Bourdieu na qual
a “vida” constitui um todo, um conjunto coerente e orientado, que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma ‘intenção’ subjetiva e objetiva (...) implicada nos ‘desde então’, ‘já’, ‘desde sua juventude’, etc., das biografias (...) e das ‘histórias de vida175.
Esta ilusão biográfica está presente, em maior ou menor
grau, em quase todas as biografias aqui reunidas. Ao mesmo tempo, ao situar a formação do caráter na infância dos biografados, os autores não deixam de ressaltar a importância de uma boa educação, como a de Silva Jardim, cujo pai, agricultor e dono de uma escola primária, esforçou-se para pagar-lhe os estudos fazendo com que seu filho tivesse uma formação de qualidade, tendo aprendido o latim, o português e o francês176
No caso de Silva Jardim, seu percurso biográfico na fase adulta remonta à São Paulo da época em que esta era ‘uma terra pequena onde qualquer pessoa faz barulho’. A narrativa biográfica procura retratar a vivência na Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de São Paulo, a importância , que mais tarde lhe possibilitou o ingresso no curso jurídico superior em São Paulo. É destacada, porém, a trajetória de vida que remete à fase adulta, quando os biografados adentram a cena pública e nesta travam suas batalhas e deixam suas marcas.
175 BOURDIEU, Pierre. L’ilusion biographique. Actes de la recherche en sciences sociales. Anné 1986. Vol 62. N°1. 69
do Centro Positivista, assim como, do meio político com o qual Silva Jardim se relacionou quando redator da Tribuna Liberal. A biografia retoma as relações de Silva Jardim com os federalistas positivistas gaúchos177 Assis Brasil, Júlio de Castilhos, Homero Batista, Pereira da Costa, com o escritor e jornalista fluminense Vicente Magalhães e com os mineiros ‘sisudos e operosos’ que tinham a frente o filho do Visconde de Ouro preto, Afonso Celso. Silva Jardim tinha laços de sociabilidade com os ‘liberais exaltados’ Inglês de Souza e Martim Francisco e, dentre esta gama de orientações que variavam do monarquismo ao positivismo, o publicista optou pela última firmando seus ideais republicanos e entrou para o Centro Positivista de São Paulo178
Foi quando a Câmara de São Borja pedia que ‘fosse consultado o país sobre a oportunidade de se pronunciar desde logo relativamente à destituição da monarquia pela morte de Pedro II, visto a herdeira do trono ser uma princesa fanática, casada com um príncipe estrangeiro’ que Silva Jardim desponta como publicista do republicanismo. O biografado começara então uma série de conferências, primeiro em Santos, onde trabalhava e, depois, por várias cidades do país. Neste momento, o biógrafo ressalta a importância dos meetings para a propaganda republicana. Encontros nos quais Silva Jardim palestrava, de tal modo que, ‘em cada cidade que visitava, deixava o grão da revolta levedando o ambiente já saturado’
.
179
Ao passar por Minas Gerais, Silva Jardim teria encontrado com os médicos que, por aí, eram ‘os mais decididos combatentes, ao contrário dos bacharéis que aguardavam prudentemente os acontecimentos’. O autor ressalta que havia uma opinião pública em ‘lua de mel’ com o imperador devido à Abolição. E é ao sentimento monarquista que se devem os ‘incidentes’ sofridos por Silva Jardim em sua caminhada. Na cidade de Angustura, foi ‘atirado por um negro, que errou o alvo ao ouvir esta sua intimação: Atire! Mate! Para mim a morte é um acidente da vida!’. Em Além Paraíba, teriam atentado contra a sua vida e em São João del Rey atearam fogo à sua casa depois de ‘intimá-lo a sair da cidade’. Apesar do tom por vezes exaltado do narrador preocupado em afirmar o caráter heróico do biografado, a narrativa biográfica retoma as manifestações públicas que antecederam a proclamação da República que serão objeto de análise de uma historiografia posterior
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180
177 Classificação de ALONSO, Angela. Idéias em Movimento – A Geração de 1870 na Crise do Brasil Império. São Paulo: Paz e Terra, 2002. 346
178 DORNAS FILHO, João. Silva Jardim. São Paulo: 1936. 34-36. 179 DORNAS FILHO, João. Silva Jardim. São Paulo: 1936. 43; 47.
180 Ver: VIOTTI DA COSTA, Emília. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Grijalbo, 1986. HOLLANDA, Sérgio Buarque de. O Brasil Monárquico – do Império à República. In: História Geral da
Civilização Brasileira. São Paulo: Difel, 1972. CARVALHO, José Murilo. Os Bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Cia das Letras, 1977; MELLO, Maria Teresa Chaves. A República Consentida – Cultura Democrática e científica do final do Império. Rio de Janeiro: FGV: Editora da Universidade Rural do Rio de
Janeiro, 2007.
para ‘O País’, a ‘Gazeta de Notícias’, o ‘Mequetrefe’ e o ‘Grito do Povo’. Durante uma de suas conferências naquela cidade, ‘um grande rumor enchia a rua. Súbito, o ruído dos projéteis e dos tiros que lançavam contra o edifício denunciou a presença dos reacionários monárquicos’. Os conflitos vividos por Silva Jardim, segundo seu biógrafo Dornas Filho, revelariam que onde ‘nunca houve um brasileiro que morresse por um rei para seu país; muitos brasileiros, entretanto, têm derramado seu sangue para ver a República!’181
Embarcando no mesmo navio que o Conde D´Eu, Silva Jardim teria ido ao norte propagar o republicanismo. As cenas de confronto se repetem na Bahia, onde o biografado ‘tomou facada dos mulatos’. Em Alagoas, foi recebido com festa tendo a província, segundo o biógrafo, ‘honrado o berço de Deodoro e Floriano’. E, apesar de um comício não realizado em Recife, pois o ‘caudilho contraditório’ José Mariano ‘estava disposto a dispersar a tiros os republicanos’, ‘estava ganha a partida no Norte’. A biografia de Silva Jardim procura narrar a propaganda republicana por ele empreendida no ano anterior à proclamação da República revelando os conflitos nos quais tomou parte e as sociabilidades da qual desfrutou. No momento da proclamação, que ‘não passou de um golpe de Estado’, Silva Jardim será afastado pelos ‘adesistas de última hora’. Neste momento, a biografia retoma as ‘tramas da proclamação’, principalmente a partir de depoimentos de Silva Jardim e Aníbal Falcão descritos na obra de José Leão. As tramas da proclamação teriam se iniciado ‘desde a volta do Imperador da Europa em 1888’ quando se ‘comentava no Rio a debilidade do Imperador’. Estando as províncias de São Paulo, Minas, Bahia e Pernambuco ‘cindidas e incendiadas pela palavra de Silva Jardim’, os republicanos preparavam o golpe para o dia 2 de dezembro, aniversário do imperador, e data na qual este iria abdicar
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182
Seriam as ações e ‘desmandos’ de Ouro Preto que teriam feito com que a República se precipitasse, de modo que, ‘muitos republicanos só souberam da proclamação da República no dia 15 de novembro’. Benjamin Constant teria ‘jogado a cartada perigosa’ ao convencer o ‘indeciso’ Deodoro que o quartel-general seria atacado pela Guarda Negra, por ordem do gabinete, e que ambos seriam presos. Por outro lado, Quintino Bocayuva teria guardado ‘reservas’ quanto a Silva Jardim e, por isso, muitos republicanos, como Aníbal Falcão, souberam do movimento apenas na véspera. E, segundo Falcão, na noite de 11 de novembro ‘reunimo-nos vários republicanos e decidimos prestar-lhe apoio, [à B Constant] desde que se definisse acentuadamente republicano o objetivo da revolução’. O dia 14 ‘transcorreu cheio de boatos e apreensões’, às 11 da noite o chefe da polícia Basson de Miranda Osório comunica ao presidente do Conselho ‘ocorrências anormais nos quartéis’. O primeiro regimento da Infantaria e a segunda brigada já se haviam revoltado em
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181 DORNAS FILHO, João. Silva Jardim. São Paulo: 1936. 57-58; 73; 75. 182 DORNAS FILHO, João. Silva Jardim. São Paulo: 1936. 89; 94; 100-101.
função do ‘boato, que os republicanos confirmavam, da prisão de Deodoro e Benjamin’. Segundo o autor, ‘as ruas ondulavam de povo’ enquanto D Pedro II estava ‘veraneando em Petrópolis’. Quando o ajudante-general Floriano Peixoto se nega a obedecer à ordem de Ouro Preto em dar combate às tropas que tinham Deodoro à frente ‘é o princípio do fim’183
Ouro Preto, então, comunica ao Imperador que ‘a tropa acaba de fraternizar com o marechal Deodoro, abrindo-lhe a porta do quartel’. Estava deposto o ministério, mas ‘a partida ainda perigava’. É aí que Benjamin Constant encontra-se com Aníbal Falcão na rua do Ouvidor e instiga- o a agitar o povo, pois ‘a República não está proclamada’. Aníbal Falcão, em suas memórias, afirma ter se sentido angustiado, pois a ‘intenção de Deodoro era apenas o golpe de Estado’, modificando o ministério. Quando Falcão e José do Patrocínio hasteiam a bandeira republicana, Deodoro ordena sua retirada e, segundo esta versão, após aprovada duas moções movidas por Falcão na Câmara Municipal, é o ‘sr José do Patrocínio, como vereador mais moço, a quem, na forma da Constituição (...) incumbia aclamar o novo soberano, tendo decaído D Pedro II, proclamou a República’
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184
Se o fundador de uma república é aquele que a proclama na praça pública, este com certeza não foi entre nós o finado Benjamin Constant; mas, se é o que, no nosso caso, primeiro ergue o grito de revolta entre uma certa classe de oprimidos, seja o povo ou exército, a excita e sai com ela para o campo da peleja, com muito mais razão não foi este o marechal Deodoro da Fonseca
. Nesta versão da proclamação da República, cabe a José do Patrocínio o ato político de instauração do novo regime. Porém, este ato seria puramente institucional devendo a ‘Sentença da História’ reconhecer os verdadeiros artífices da República no Brasil. Neste sentido, o biógrafo Dornas Filho concorda com a seguinte sentença de José Leão:
185
A biografia de Silva Jardim, escrita por João Dornas Filho, ao prender-se à narrativa dos acontecimentos e dos personagens envolvidos na Proclamação da República produz uma historiografia singular acerca da história do Brasil republicano. Nesta perspectiva, as ações pessoais e de determinados grupos são determinantes dos eventos em uma narrativa carregada de juízos acerca do valor histórico dos acontecimentos, assim como sobre as posições e os lugares que cabem a cada um dos envolvidos. É importante notar que outros trabalhos que retomaram a figura de Silva Jardim não perderam o tom presente na obra de Dornas Filho, embora o tenham modificado em vários aspectos. O livro Paixão e Morte de Silva Jardim, escrito por Maurício Vinhas de Queiroz, logo após a Segunda Guerra Mundial, mas publicado apenas em 1967, dizia não se constituir como
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183 DORNAS FILHO, João. Silva Jardim. São Paulo: 1936.102-103; 104. 184 DORNAS FILHO, João. Silva Jardim. São Paulo: 1936. 104-108.
uma ‘biografia acadêmica’. Ao contrário, seria ‘obra apaixonada’ que poderia ajudar à ‘compreender melhor os conflitos políticos e sociais que vivíamos no pós-guerra’186
O interesse em se tomar a figura de Silva Jardim como mote para reflexão acerca das diretrizes da República brasileira, tampouco é estranho à obra de Dornas Filho. Queiroz, porém, acrescenta outros aspectos a serem destacados na figura de Silva Jardim, vislumbrando no biografado um ‘materialista, dialético, sem dúvida, precursor do socialismo científico no Brasil’
. O desapego ao caráter ‘acadêmico’ revela na obra de Queiroz, que a qualifica como ensaio, uma preocupação epistemológica menos rígida que a de Dornas Filho. Ensaio sem notas e centrado mais em algumas idéias de Silva Jardim e menos na composição da trajetória do biografado em uma realidade histórica, o livro compartilha das linhas gerais traçadas na obra de Dornas Filho.
187
. O livro Perfil Político de Silva Jardim escrito por Heitor Ferreira Lima e publicado pela Coleção
Brasiliana em 1987, aborda a trajetória de Jardim no interior de um contexto histórico que abarca a
‘decadência e o fim do Império’ e a ‘Implantação da República’188
Escrito no momento de abertura política no país, o livro de Heitor Ferreira Lima traz, assim como os biógrafos Dornas Filho e Maurício Vinhas de Queiroz, a questão premente acerca da ‘idéia da República’. Ferreira Lima escrevendo na década de 1980 não deixa de tocar nos temas da liberdade, da miséria, da opressão e exploração em sua reconstituição da história republicana brasileira
. Dessa forma, o escopo proposto por Ferreira Lima procura abordar a biografia de Silva Jardim no interior de processos fundamentais à história política brasileira no fim do séc. XIX: a Guerra do Paraguai, o Manifesto do Partido Republicano de 1870, a Questão Religiosa, a Questão Militar, a Abolição, dentre outros. Não obstante, no que concerne a reconstituição dos acontecimentos próximos e nos quais Silva Jardim tomou parte, a narrativa de Ferreira Lima é concorde com a biografia escrita por João Dornas Filho, em 1936.
189
186 QUEIROZ, Maurício Vinhas de. Paixão e Morte de Silva Jardim. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. 1.
187 QUEIROZ, Maurício Vinhas de. Paixão e Morte de Silva Jardim. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. 21.
188 LIMA, Heitor Ferreira. Perfil político de Silva Jardim. São Paulo: CEN, 1987. 189 Cf.: LIMA, Heitor Ferreira. Perfil político de Silva Jardim. São Paulo: CEN, 1987. 98.
. É em torno desta mobilização crítica do passado, sempre ressonante quando o período histórico de Silva Jardim, a Proclamação da República, é tocado que pretendemos retomar a obra de Dornas Filho no terceiro capítulo.
No prefácio da biografia de João Pandiá Calógeras escrita por Antônio Gontijo de Carvalho, Odécio Camargo, comenta que no livro
não se serviu o autor do biografado como pretexto para salientar uma época, tornando-o simples comparsa, mero acidente na paisagem nitidamente traçada; nem procurou destacar, dos matizes propositadamente esmaecidos de seu tempo, o relevo de uma individualidade190
Ainda segundo Camargo, que escreveu uma biografia de Castro Alves .
191
, o livro de Gontijo de Carvalho seguiria a ‘orientação de Zweig’192 a partir da qual seria possível ‘sentir o renascimento da época inteira em que viveram’ os biografados. Além deste aspecto metodológico da biografia, Camargo ressalta a importância do fazer biográfico para o conhecimento do passado recente e reivindica obras que trabalhem com o advento da ‘república de 89, nascida, com ridículo contraste, entre a bestificação do desinteressado povo ignorante e a elite positivista ortodoxa193
Estas considerações sobre escrita biográfica revelam que havia na intelectualidade brasileira uma postura relativamente crítica acerca do fazer biográfico que deveria permitir ‘apreciar, pelo conhecimento das circunstâncias, o determinismo de muitos gestos em que outras situações seriam estranhos, senão incompreensíveis’. Outra referência que Camargo evoca em seu prefácio laudatório ao livro de Gontijo de Carvalho sobre Calógeras é a obra de Joaquim Nabuco Um Estadista no
Império
.
194
, clássico do gênero biográfico no país, na qual seu autor, além da perspectiva heurística apontada acima, pintara a figura paterna de forma ‘sugestiva e encantadora’195
Gontijo de Carvalho era detentor da ‘maior parte da biblioteca’ e da ‘monumental .
190 CAMARGO, Odécio Bueno de. In: CARVALHO, Antonio Gontijo de. Calógeras. São Paulo: 1935. 11 191 CAMARGO, Odécio Bueno de. Castro Alves – estudante em São Paulo. São Paulo: Edicon, 1996. 192 Stefan Zweig (1881-1942) escritor austríaco que notabilizou-se como biógrafo. Exilou-se no Brasil, fugindo do nazismo, radicou-se em Petrópolis onde se suicidou. Este autor pertenceria, na história da produção biográfica feita por Madélenat, ao ‘paradigma moderno’. Iniciado a partir da Primeira Guerra Mundial, o ‘paradigma moderno’ do fazer biográfico é marcado por um contexto no qual ‘o homem teórico – personagem central e construtor de sua própria história vitoriosa – cede lugar a um homem complexo, contraditório, manietado por suas perplexidades. Não se crê mais no modelo do homem ‘monolítico’, incólume em relação aos desvios em sua trajetória de vida’. Cf. CARINO, Jonaedson. A biografia e a sua instrumentalidade educativa. Educação e sociedade. Vol 20. N 67. Campinas, Agosto 1999. 16.
193 CAMARGO, Odécio Bueno de. In: CARVALHO, Antonio Gontijo de. Calógeras. São Paulo: 1935. 13. 194 NABUCO, Joaquim. Um Estadista no Império. 3 v. Rio de Janeiro: Garnier, 1898.
195 CAMARGO, Odécio Bueno de. In: CARVALHO, Antonio Gontijo de. Calógeras. São Paulo: 1935. 12. Ainda nos estudos atuais a obra de Joaquim Nabuco figura como ‘manancial de informações e análises a respeito do Império brasileiro’ na qual se procura ‘reconstituir a história política e o arcabouço político-institucional do Império’. Cf. COSTA, Milton Carlos. Joaquim Nabuco – Entre a História e a Política. São Paulo, Annablume, 2003. 128-129
correspondência e fichário’ de João Pandiá Calógeras tendo acesso, portanto, a fontes importantes para a construção de uma narrativa historiográfica-biográfica. Esta se inicia pela reconstituição da origem familiar de Calógeras, mais precisamente, de sua árvore genealógica. Com origens européias datadas do século V, a família de Calógeras, ou família Calógeras [que significa ‘bom velho’ ‘responsável pela idade’], original da Ilha de Chipre, remonta à ‘cisão da igreja ortodoxa’ quando uma parte ‘continuou apostólica romana’ e a outra ‘mais numerosa aderiu ao credo oriental’196
A história da família em território brasileiro inicia-se em 1841 com a chegada de João Pandiá Calógeras, natural de Corfu, na Grécia. Era ‘amigo íntimo do Barão Laffite, célebre banqueiro e ministro do rei Luiz Phillipe, veio para o Brasil (...) a fim de dirigir uma Empresa que deveria ser organizada por aquele financista’. Por aqui, em 1858, o avô do biografado teria trabalhado para ‘coligir os documentos relativos à determinação dos limites do Império’. Já em 1859, ocupou o cargo de primeiro oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Império, da qual foi diretor e, posteriormente, entre 1862 a 1865, foi o Primeiro Oficial de Gabinete no Ministérios dos Negócios Estrangeiros
.
197
O avô de Calógeras foi, ainda, ondoyer da Igreja Cismática, pois ‘não havia no Rio sacerdote ortodoxo’; professor de História e Geografia do Ginásio Pedro II, escreveu o ‘compêndio da História da Idade Média’, que, segundo Gontijo de Carvalho, teria prestado prestou ‘relevantes serviços à nossa mocidade estudiosa, foi adotado em quase todas
os colégios do Império’. Era sócio efetivo do IHGB e titular das Comendas da Ordem da Rosa; da Comenda da Ordem de Carlos III da Espanha; do oficialato da Ordem de S Maurício e S Lázaro da Itália. Seu filho e pai do biografado, Michel Calógeras (1812- 1888), teria sido ‘animador de grandes empresas’, dentre as principais a do prolongamento ‘até Petrópolis da Companhia da Estrada de Ferro Mauá’ e diretor da Companhia de Estradas de Ferro Macabá a Campos
.
198
João Pandiá Calógeras seria, segundo o biógrafo, aquele que possuía ‘não só a capacidade realizadora do pai como, em
grau muito mais elevado, a cultura do avô’, de forma que seria ele quem ‘prestou ao país serviços que o sagraram um dos seus maiores filhos’. Nascido em 1870, no Rio de Janeiro, Calógeras fora
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196 CARVALHO, Antonio Gontijo de. Calógeras. São Paulo: 1935. 19. 197 CARVALHO, Antonio Gontijo de. Calógeras. São Paulo: 1935. 23-25. 198 CARVALHO, Antonio Gontijo de. Calógeras. São Paulo: 1935. 25-26
educado por um ‘luzidio corpo de professores particulares, notadamente alemães’ que o fizeram,