‘em sistemas que foram refutados só nos pode interessar a personalidade, uma vez que é a única realidade eternamente irrefutável’ NIETZSCHE, Friedrich.
A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos.
Se a questão nacional, do interesse patriótico e do conhecimento da realidade brasileira é o solo comum destas obras, a maneira de abordar a questão e de produzir o saber biográfico é distinta entre elas. Observando os aspectos teórico-metodológicos mobilizados pelos autores, percebemos que o fazer biográfico dos anos 1930 trazia consigo um debate e que, às vezes, relacionava-se de maneira crítica em relação à historiografia instituída, tanto no que diz respeito à metodologia e a epistemologia do conhecimento histórico, quanto ao conteúdo deste mesmo saber. Neste capítulo, pretendo apresentar as obras biográficas expondo, em cada uma, o modo como construíram uma narrativa específica acerca de uma trajetória, apontando as fontes, a metodologia, a relação com a historiografia existente à época e as perspectivas epistemológicas mobilizadas pelos biógrafos. O leitor poderá conhecer alguns traços do percurso dos personagens Silva Jardim, Calógeras, Farias Brito, Frei Caneca, Evaristo da Veiga, Tavares Bastos e Paulo Eiró. Procuramos, assim, atender às observações de Jurandir Malerba dirigidas aos historiadores da historiografia. O autor aponta, por exemplo, que um ‘problema comum’
à maioria dos analistas historiográficos brasileiros, é o de não trabalhar diretamente com os autores e suas obras, mas com ‘textos selecionados’ de autores ‘reconhecidos’, leitores e comentadores daqueles que ela quer analisar – tanto da época como posteriores161
Assim, tendo em vista estas observações, através daqueles personagens pretendemos compor uma .
161 MALERBA, Jurandir. Em busca de um conceito de historiografia – Elementos para uma discussão. In: Vária
visão sobre como a história de dois grandes períodos brasileiros poderia ser contado pelas biografias: a República e o Império. Quanto ao primeiro, note-se que a biografia era um meio específico para abordá-lo, visto que a historiografia da época, em regra, não tratava do ‘passado recente’
De modo geral, o fazer biográfico procura fugir do literário e relativo. Nas obras trabalhadas aparece a crítica a ‘uma época em que se procura romancear a história para torná-la menos árida ao leitor comum, apressado e superficial (...) bom negócio, às vezes, de editores. O leitor come gato por lebre, e pede mais’162. Crítica direta àquela biografia moderna ou romanceada que revela o embate em torno do fazer biográfico que opunha ‘historiógrafos’ e literatos em geral. Neste sentido, apesar de os autores depararem-se com as lacunas documentais, não se abre mão da verdade no relato produzido e daí sua proximidade com a historiografia. Não se trata, porém, de uma postura historiográfica restrita à positividade dos documentos e à oficialidade da fonte; mas do fato de os autores trabalhados serem daquela ‘geração’ ‘posterior à Capistrano’163
uma perspectiva mais metodológica – de investigação crítica documental – marcada pelo positivismo e sua concepção de ‘verdade’ – e, uma perspectiva mais teórica – o que se está chamando de ‘interpretação’ -, que, a nosso ver, estaria justamente se afastando e recusando um determinismo evolucionista, seja ele de Buckle, Comte, Spencer ou outro autor influente no período
que conciliava
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Não só a reconstrução do vivido na sua singularidade, mas uma empatia compreensiva com o mesmo. A ciência aqui pode ser lida como o método, a arte, a intuição, a sensibilidade e também o talento narrativo. Daí a importância do historiador possuir as qualidades e a sensibilidade do escritor
.
De forma mais precisa, é importante notar que historiadores como Capistrano de Abreu e Oliveira Lima procurariam certa ‘combinação entre arte e ciência’, de modo a despontar um ‘método poético-científico’ que buscava
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Tal conciliação e/ou relação entre escritor e historiador, porém, conforme os debates já apontados, não era e talvez nunca chegou a ser desprovida de impasses. Abordar a historiografia das primeiras décadas do séc. XX no Brasil é ter em mente esta relação crítica entre historiografia e literatura. É segundo esta perspectiva que une erudição e método que Capistrano torna-se ‘o primeiro
.
162 SERRANO, Jonathas. Farias Brito – O homem e a obra. São Paulo: CEN, 1940. 6.
163 Angela de Castro Gomes demonstra como a história da história produzida na década de 1940 ‘divida’ a historiografia brasileira em ‘dois tempos’: ‘antes e depois de Capistrano’. Cf. GOMES, Angela de Castro. História e
Historiadores. Rio de Janeiro: FGV, 1999. 90.
164 GOMES, Ângela de Castro. História e Historiadores. Rio de Janeiro: FGV, 1999. 95.
165 DUTRA, Eliana Regina de Freitas. Rebeldes e literário da República: história e identidade nacional no
historiador brasileiro no sentido moderno do termo’166
O fazer biográfico compartilhava dessas problematizações típicas da escrita historiográfica. Jonathas Serrano, que afirma ter pretendido ‘traçar, esboçar ao menos, uma biografia completa e honesta’, sai do Rio de Janeiro e vai até ao Ceará, estado natal do ‘maior filósofo do Brasil’, pois o seu propósito não era tratar apenas das idéias filosóficas de Farias Brito. Serrano utiliza-se tanto de documentos escritos quanto de ‘depoimentos pessoais preciosos, e que já daqui a pouco não se lograria mais obter’. E reconhece que ‘a memória dos contemporâneos é tão precária! Cartas se rasgam, papéis que se atiram, sem pensar, ao fogo devorador. Farias Brito morreu apenas há vinte e dois anos e já se realizaram várias destas hipóteses’
.
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Na obra de Dornas Filho, a biografia de Silva Jardim seria esclarecedora do período de 1880-1889 que, segundo o autor, ‘é dos mais interessantes e agitados que o Brasil tem vivido, mas, nem por isso é dos mais estudados e debatidos, como seria de desejar’
. Portanto, apesar da vontade de completude, as lacunas fazem-se patentes na reconstituição narrativa historiográfica da vida e do contexto de uma biografia.
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. Dessa forma, o fazer biográfico assume uma ‘função historiográfica’ que é a de esclarecer períodos pouco estudados pela historiografia geral169
os artigos de Gontijo de Carvalho, hora reunidos em livro, trazem novo contingente para a história republicana do Brasil, da qual os historiógrafos se afastam, com pavor tabu, sob pretexto de ser muito recente, - fraca razão quando vemos estudadas minuciosamente em copiosa e universal bibliografia, a conflagração européia de 1914 e a Revolução Russa
. Tal função é enunciada na obra de Antônio Gontijo de Carvalho por seu prefaciador Odécio Camargo. Este afirma que:
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Percebe-se que o fazer biográfico era um meio para se tratar da história recente, esclarecendo aspectos do período republicano no Brasil. As biografias dos homens do fim do século XIX e início do XX como Silva Jardim, Calógeras e Farias Brito terão como característica esta peculiaridade de tratarem da história recente. As sínteses gerais da historiografia brasileira que existiam até então não tratavam ainda do período republicano de forma aprofundada. A obra de
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166 FRANZINI, Fábio. À Sombra das Palmeiras – A Coleção Documentos Brasileiros e as transformações da
historiografia nacional (1936-1959). Tese Doutorado. São Paul: USP, 2006. 34.
167 SERRANO, Jonathas. Farias Brito – O homem e a obra. São Paulo: CEN, 1940. 7. 168 DORNAS FILHO, João. Silva Jardim. São Paulo: 1936. 15
169 Um dos destaques da crítica que José Roberto do Amaral Lapa à historiografia deste período seria, justamente, de ela não tratar do ‘estudo do período republicano e portanto da idade contemporânea’. Este tipo de estudo teria iniciado apenas ‘após a década de 1960’. Percebe-se que a biografia poderia realizar tal trabalho e, como veremos, sem o pretenso ‘receio’ que, segundo o crítico, era produto das ‘pressões e paixões de agentes ou grupos, ainda participantes do processo histórico’. CF. LAPA, José Roberto do Amaral. Historiografia Brasileira
Contemporânea – A história em questão. Petrópolis: Vozes, 1981. 39-40.
Pedro Calmon, História da Civilização Brasileira (1933), talvez por seu caráter aristocrático e regalista, por exemplo, ‘entrou no período republicano apenas porque a esperava aquela data- símbolo do Brasil dos imperadores’ quando, em 1922, foram repatriados os restos mortais de D Pedro II171. A edição de 1954 da obra de João Ribeiro História do Brasil – Curso Superior [1ª Edição 1900], aumentada e completada por Joaquim Ribeiro, dizia ser ‘muito cedo ainda para escrever a história recente do período republicano, tão agitado pelas questões políticas e militares (...)’172. As biografias poderiam cumprir este papel de produzir sínteses acerca do então recente período republicano. Demonstração deste aspecto do fazer biográfico é o ‘Roteiro Bibliográfico da República’ feito por Sílvio Peixoto publicado na revista Cultura Política durante os anos 1943-44. Destinado ao levantamento de bibliografia referente ao período republicano no Brasil, o Roteiro contava, em sua maioria, de estudos biográficos173
No decorrer deste capítulo, iremos reproduzir algumas imagens presentes nas obras trabalhadas. Acerca da ilustração no livro brasileiro, J L Costa Neves lamentava o fato de ‘a incipiente indústria do livro no Brasil’ não ter proporcionado ‘grandes ensejos’ aos ilustradores para demonstrarem ‘tudo de que são capazes’. Segundo o autor, além dos livros didáticos e científicos, o recurso à ilustração seria ‘exigido’ por ‘certos gêneros’ como ‘o conto (...) o romance de costumes ou o romance histórico’. Para Costa Neves, a partir da ilustração ‘fixa-se melhor a imagem evocada guardam-se mais nitidamente os detalhes descritos, se o autor tem a ajudá-lo a habilidade de um ilustrador de mérito’
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171 REIS, José Carlos. As identidades do Brasil 2: de Calmon a Bomfim. A favor do Brasil: direita ou esquerda? Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. 85.
172 RIBEIRO, João. História do Brasil – Curso Superior. 15 edição revista e completada por Joaquim Ribeiro. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1954. 413.
173 GOMES, Angela de Castro. História e Historiadores. Rio de Janeiro: FGV, 1999. 150.
174 COSTA NEVES, J L. A Ilustração no livro brasileiro. In: Anuário Brasileiro de Literatura – Letras, Artes,
ciências. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editora, 1937. 81-82.
. Assim, a ilustração teria um papel catalisador na produção dos sentidos pretendidos pelo autor para serem apropriados pelo leitor. Apesar de, dentre as obras trabalhadas, apenas a biografia do poeta paulista Paulo Eiró, escrita por Afonso Schmidt, trazer em suas páginas ilustrações produzidas pelo bico de pena de um profissional: José Watsh Rodrigues; a relação entre imagem e texto está presente na produção biográfica analisada por nós, mediante a reprodução de fotos e gravuras que enriqueceriam os textos aproximando o leitor das figuras biografadas.