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O município de Mariana, desde sua origem, tem relação direta com a ex- ploração de recursos naturais. O papel do ouro do século XVII foi ocupado pela extração mineral, que faz com que, atualmente, Mariana seja parte es- sencial do Quadrilátero Ferrífero. A atividade extrativista é praticada des- de 1960 na região, tornando-se a principal atividade e motor econômico do local.

Nesse contexto, podem ser identificados dois elementos importantes decorrentes da atividade mineradora na localidade. De um lado, a depen- dência (COELHO, 2012, pp. 128-146), e, de outro, o denominado Discurso do Desenvolvimento Minerador (DDM) (COELHO, 2013).

Em primeiro lugar, considera-se Mariana dependente economicamen- te visto que o PIB da região, assim como sua receita tributária, decorre, em grande parte, da exportação do minério de ferro. O crescimento do PIB de Mariana foi de quase 80% do ano de 2010 até 2013, segundo dados do IBGE, sabe-se que somente o setor industrial foi responsável por 70% do valor. Nesse cenário, o município passou a ser classificado dentro dos padrões de alto desenvolvimento. A presença da mineradora atrai diversos

investimentos para o município, desenvolvendo seu setor terciário (comér- cio e serviços) – apesar de que a atividade da Samarco não contribui muito para o número de empregos ativos na cidade (FALCÃO, 2016). Nesse sen- tido, é possível verificar a existência de uma dependência direta e indireta.

Contudo, os efeitos dessa sujeição de Mariana para com a mineração extrapolam o âmbito econômico para alcançar os campos político e social. Basear a economia no extrativismo impõe diversos ônus à população da cidade, como a vulnerabilidade diante das oscilações do mercado expor- tador, problemas ambientais e concentração de renda.

Cabe ressaltar que a contribuição da indústria extrativa mineral afe- tou o número de empregos ativos de Mariana, porém não de forma sur- preendente. Em 2014, os empregos destinados a administração pública já constituía mais de 70% dos empregos registrados e a atividade de ex- trativa mineral apenas empregava 12% do total, nesse mesmo ano. Assim, percebe-se que a paralisação das atividades da Samarco preocupa, sim, a população de Mariana, porém o problema já existia antes do rompimento da barragem

Em segundo lugar, o Discurso do Desenvolvimento Minerador (DDM) surge como um meio de naturalizar uma “vocação” do Quadrilátero Fer- rífero para a atividade extrativista. A abundância de minério de ferro na região, sua infraestrutura voltada para a exportação do recurso (exemplifi- cada pela malha ferroviária) e sua raiz histórica são fatores que contribuem para a imagem de que Mariana está “destinada” a praticar tal atividade econômica. Além disso, o aumento quantitativo de riquezas gerado pela mineração é confundido com a elevação da qualidade de vida da popula- ção. É ignorado o fato de que a concentração de renda, e os outros pre- juízos sociais e econômicos causados, acompanharam o desenvolvimento da região.

O discurso também incorpora o argumento de que se desenvolver sem o minério de ferro seria muito custoso, uma vez que diversos produ- tos essenciais à sociedade moderna derivam desse recurso. Nesse sentido, chega-se à conclusão duvidosa de que não haveria espaço para a diversifi- cação da produção para além do minério de ferro. O mesmo argumento é utilizado para justificar os prejuízos ambientais da mineração, legitimando danos ao meio ambiente para perseguir esse único caminho para o desen- volvimento.

O fato de que a Secretaria de Meio Ambiente, de 2011 a 2015, teve parte de 1% nas despesas do município de Mariana, mostra explicitamente a falta de preocupação com estes danos. Os investimentos em educação, obras e saúde que corresponderam a aproximadamente 70% das despesas e, portanto, estabeleceram-se como prioridades. Assim, com a falta de efi-

ciência no direcionamento dos recursos na gestão ambiental e o aumento da extração mineral, tem-se como resultado a incompetência de gerência. Nesse contexto, é preciso considerar que, segundo a teoria do pós-de- senvolvimentismo, esse tipo de discurso é operado por países de elite, que desejam influenciar a visão do mundo sobre o que é ou não desenvolvido. Essa fala contribui para a visão de que só existe uma maneira de crescer econômica e socialmente, por meio de um script, mesmo que isso signifi- que negligenciar o cuidado com o meio ambiente e abandonar a cultura e peculiaridades locais. Assim, a aversão ao subdesenvolvimento incentiva, na população, a visão unitária de esperança na atividade mineradora.

Explorado o aspecto da dependência, cabe agora explorar o abalo provocado - em todos os âmbitos – após o desastre de 2015. Uma vez que a mineração é o motor econômico e social de Mariana – e é visto dessa forma – o rompimento da barragem do Fundão contribuiu para uma crise econômica, dadas as dificuldades que o município já enfrentava anterior- mente. Contudo, é necessário revelar que a queda na arrecadação munici- pal após a paralisação da Samarco não foi tão significativa (FALCÃO, 2016) quanto se imagina. Mas, ainda assim, é justificável o desconforto geral da população quanto à instabilidade que se gerou. Caso o quadro de parali- sação continue, muitos funcionários (diretos ou indiretos) da empresa po- dem ser demitidos, os estoques não serão renovados, e isso pode causar um impacto negativo na economia local, além de reduzir o consumo de forma geral.

Dito isso, é preciso apontar também, como fator relevante para a cri- se, a falta de diversificação produtiva de Mariana. Causada pelo DDM, a ideia de que a única atividade que o município pode prover é a mineração contribui para sua dependência e, consequentemente, para sua fragilidade em situações como a do desastre. Sem alternativas para suprir a falta que a mineração faz, Mariana fica à mercê do retorno da Samarco, mesmo que a irresponsabilidade da empresa tenha causado tantos prejuízos aos mo- radores das comunidades de Bento Gonçalves e Paracatu de Baixo. Nesse sentido, a própria relação social foi enfraquecida, uma vez que diversos moradores de Mariana culpam os atingidos pela crise, mesmo sabendo das perdas que tiveram.

Um fato é certo: Mariana precisa diversificar sua atividade econômica. Isso porque, mesmo que a Samarco retorne, é sabido que recursos mine- rais são finitos e que, em algum momento, a crise retornará. É inviável que um Município continue concentrando seu desenvolvimento social, econô- mico e político ao redor da mineração, sendo que possui potencial para tantas outras atividades.

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