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Classicamente, o conceito de internacionalização tem sido entendido como um processo de envolvimento externo das empresas de um determinado país, desencadeado pelo crescimento e consolidação da organização em solo nacional e pela necessidade, quer de procura de novos mercados para produtos cujo ciclo de vida atingiu a maturidade no país de origem, quer de obtenção de custos de produção mais baixos, graças à deslocalização de actividade produtiva para locais onde a mão-de-obra é mais barata ou as matérias primas mais acessíveis. Esta concepção implica três pressupostos, que desde logo lhe restringem a validade no espaço e no tempo. Primeiro, parte do princípio que só uma empresa de grande dimensão, solidamente estabelecida numa base nacional próspera, se pode internacionalizar; segundo, considera como “internacionalização activa” apenas o movimento de saír para fora do espaço nacional, traçando uma linha clara de demarcação, mesmo até de oposição, entre este processo e o de entrada de capitais estrangeiros no país; e terceiro, presume que a decisão de internacionalizar é um

213 Visão, 7 Março 2002: 53 214 Idem: 58 215 Idem

processo autónomo e racional de cada empresa, que isoladamente aprecia os prós e os contras da opção em causa e decide em conformidade.216 O valor explicativo desta concepção encontra-se sobretudo na história da internacionalização das empresas norte- americanas a partir da década de 50. Foram elas que, saindo de um mercado nacional sólido e exigente, com todas as componentes do “diamante” porteriano, se lançaram à conquista de mercados sequiosos de produtos de consumo, primeiro a Europa ocidental, ainda mal recuperada da guerra, e depois todos os outros. Mas esta imagem de “conquistadoras solitárias” já nem às empresas norte-americanas se adequa, ou não fossem os países desenvolvidos, e entre eles os Estados Unidos, os espaços mais apetecidos do investimento internacional217. Ou seja, a tese do antagonismo entre a internacionalização encarada como “activa”, do investidor externo, e a internacionalização dita “passiva” do recebedor do investimento, não é muito consistente em face da realidade. Outro tanto se pode afirmar da teoria da decisão racional e autónoma da empresa, perante a hipótese de investir no estrangeiro. Simões (1997:19-20), por exemplo, cita o modelo do “fluxo lógico do processo de decisão” enunciado por Franklin Root numa obra de 1994218. Segundo o referido autor, a empresa que pensa envolver-se em mercados além-fronteiras dispõe de ampla margem de manobra para decidir autonomamente onde e como vai investir. O contexto externo não surge como um factor de constrangimento, de canalização do investimento para este ou aquele ponto em detrimento daquele aparentemente mais atractivo, a empresa toma a decisão sozinha, não é solicitada e muito menos obrigada. No entanto, na realidade, os exemplos de internacionalização contrangida ou induzida são múltiplos. Na indústria automóvel, por exemplo, o fornecedor segue muitas vezes os passos dos seus principais clientes219, ou na indústria textil, em que o “salto” para a internacionalização provém frequentemente de solicitações directas de clientes externos (Simões, 1997a: 84). A dimensão relacional está muito mais presente e exerce uma influência muito superior à que lhe atribuem as abordagens clássicas da internacionalização. Já o primeiro pressuposto acima referido, em que se afirma o primado da dimensão e da solidez da

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Simões (1997) e Santos (1997) fazem referência a uma série de autores que abordam esta visão tradicional da internacionalização, por ex: Franklin Root, John Dunning, R.Vernon.

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Segundo o World Investment Report, 1997, os países desenvolvidos são o destino preferencial dos fluxos de Investimento Directo Estrangeiro e esta tendência não só se mantém, como tem vindo a aumentar. Por exemplo, em 1995 estes países receberam 203,2 mil milhões de dólares de IDE contra apenas 99,7 destinados aos países em desenvolvimento.

218

Root, F. (1994), Entry Strategies for International Markets, Lexington Books, Nova Iorque

219

Ex: Investimentos da Arjal em França e Itália devido às relações privilegiadas mantidas com a Renault e a Fiat; a Tavol a investir no Brasil por causa do estabelecimento da General Motors em S.Paulo.

base nacional, como garantes de uma internacionalização bem sucedida, é mais difícil de rebater, porque coloca duas questões fundamentais, a do valor relativo dos activos materiais e imateriais e a da relação ou ausência de relação entre eles. É neste contexto que cabe a concepção de internacionalização como um processo sistémico de aprendizagem, em que o conhecimento surge como o principal valor. Esta tese é defendida tanto por Vítor Corado Simões220 como por José Pinto dos Santos221, embora este último a leve ainda bastante mais longe, na medida em que nega a importância da dimensão e até mesmo da experiência anterior adquirida em contextos de internacionalização “clássica”, ou seja anterior à intensificação do processo de globalização222.

Baseando-se sobretudo nas teses de Welch e Luostarinen223, Vítor Corado Simões defende que a internacionalização das empresas é um processo gradual, mas sem um figurino sequencial pré-determinado, em que a dimensão e a disponibilidade de recursos (tanto financeiros como humanos) importa, mas em que a experiência internacional proporcionada por contactos, quer com clientes externos e eventuais parceiros, quer com investidores estrangeiros em Portugal, constitui a mais importante fonte de aprendizagem do “pensar internacional”. Esta concepção esbate a dicotomia aparentemente antagónica dos movimentos de entrada e saída de investimentos, transformando-os em fenómenos complementares, em que o resultado válido é a aprendizagem. O conhecimento surge aqui já bastante valorizado, embora a dimensão, enquanto factor material, conserve um peso preponderante (Simões, 1997a). O próprio autor, acaba por relativizá-lo num artigo mais recente (Simões, 1998:25) em que afirma que “a dimensão qua tale não tem hoje a mesma importância que tinha no passado, em muitas áreas, a agilidade, a flexibilidade e a capacidade de articular recursos e competências são mais relevantes que a dimensão”, no entanto continua a ser necessária “uma «massa crítica» interna mínima” indispensável para “funcionar como âncora para as afiliadas e como base de referência organizacional e centro de interpretação da informação proveniente do exterior”. Já José Pinto dos Santos é bastante mais radical a este nível. A dimensão, quer da empresa, quer do espaço nacional de origem importam

220 Simões (1995, 1997, 1997a, 1998) 221 Santos (1997, 1998) 222

Estamos a considerar o início da década de 90 como momento de aceleração do processo de globalização, coincidindo simultaneamente com a queda do muro de Berlim e com os princípios da divulgação massiva da Internet.

223

Lawrence Welch e Reijo Luostarinen; “Internationalization: Evolution of a concept”, in: Journal of General Management, 14/2, 1988.

muito pouco no actual contexto em que, uma das “novidades emergentes” é a da consciência da “dispersão geográfica de capacidades e saberes estratégicos”(Santos, 1997: 39) e ainda de estes recursos não serem facilmente deslocáveis, pois para além de dispersos e extremamente diferenciados, são de natureza cada vez mais tácita e dependentes do contexto (Idem: 41)224. Assim, a grande vantagem competitiva das empresas deixaria de estar na quota de mercado interno adquirida, na dimensão da escala de operações ou sequer na experiência internacional “tradicional” já adquirida (“Quase que se pode dizer que é vantagem não ter.”), e passaria a residir na sua capacidade de “aceder, integrar e até orquestrar os recursos, capacidades e aptidões que encontrar” (Idem: 42).

Passa-se assim de uma óptica clássica em que os factores materiais, dimensão, disponibilidade de recursos, extensão e afirmação no mercado interno etc. constituem os factores determinantes da opção autónoma e voluntarista de internacionalização, para uma posição em que “estar no Mundo” depende de aceder a conhecimentos dispersos, articulando-os e utilizando-os para construír uma estabilidade relativa baseada na valorização da heterogeneidade e da imaterialidade225. Pelo “meio”, Vítor Corado Simões afirma a importância relativa dos factores materiais sem deixar de valorizar essa capacidade de acesso a saberes, tanto por aquisição de conhecimento explícito (de ordem tecnológica ou organizacional) como tácito (de cariz relacional e de “interpretação” de mercados).

A questão que se pode levantar a este propósito é se a capacidade de acesso a esses saberes e de valorização e articulação criativa dos mesmos é ou não potenciada pelo conhecimento construído anteriormente, por meio de relações estabelecidas em contextos diferentes. E em que medida é que o conhecimento tácito resultante destas relações pode ser explicitado, de modo a adquirir uma aplicabilidade mais abrangente e sistemática. Estas são questões que no caso português adquirem uma importância fulcral, se pensarmos em termos da internacionalização da economia. A multiplicidade de relações estabelecidas em contextos diferentes pelos portugueses ao longo da história é imensa. Mas o que se sabe concretamente sobre elas, as passadas e as presentes? Onde

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Esta busca da “imobilidade” está também presente no conceito de “fit” da concepção de estratégia de Michael Porter (1996).

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Note-se que os saberes realmente válidos para Pinto dos Santos são sobretudo os tácitos, contextuais e “imóveis”. “O saber articulado, explícito, vale cada vez menos – porque se aprende ou imita cada vez mais. (…) Se o saber articulado, a ciência conhecida, é apenas factor de paridade competitiva, qual é o factor de vantagem competitiva? O saber tácito, e, principalmente, os saberes colectivos não codificados e

estão os relatos das vivências dos nossos milhares de emigrantes, trabalhadores, empresários, estudantes? Onde está uma sistematização mínima das suas experiências, que poderiam certamente ajudar, e muito, na preparação da internacionalização actual das empresas, nos vários espaços geográficos em que esta se desenvolve?

Uma coisa terá restado, no entanto, de uma história marcada pelos êxodos individuais, a capacidade de relação, e talvez seja este o trunfo que possuímos sem saber.

Mas, antes de mais nada, veja-se como evoluiu o processo de internacionalização da economia portuguesa.