Entre as motivações empresariais em Portugal destacam-se o comunitarismo e o espírito de independência (Jesuíno, Reis, Cruz, 1988:49). Aparentemente estas motivações são contraditórias, mas uma leitura mais atenta permite concluir que estão perfeitamente articuladas. Em primeiro lugar, o factor independência permite dois tipos de leitura; uma positiva, associada ao desejo de realização pessoal e aproveitamento das capacidades próprias; outra negativa, ligada à fraca vontade de trabalhar para um patrão considerado pouco razoável, ou seja, a vontade de ser patrão de si próprio (Idem: 46). Este desejo articula-se perfeitamente com a motivação comunitarista, na medida em que esta se centra exclusivamente na família nuclear (Idem). Ou seja, o empresário português tipo, simultaneamente proprietário, dirigente e gestor de PME, quer ser patrão
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«Situados nos pólos dum contínuo que opõe serviços, sobretudo em Luanda, a indústria+construção, sobretudo em Maputo; que opõe igualmente motivos de promoção social e êxito (Angola) a motivos de segurança (Moçambique); uma percepção da envolvente dando relevo aos clientes (Lubango) e às oportunidades de negócio (Luanda) oposta a uma percepção também favorável, mas mais centrada na facilidade de vendas e no acesso a recursos (Quelimane e Pemba); e finalmente representações da actividade económica e do empresariado igualmente distintas, predominando em Angola uma representação da ordem social e económica dominada pela competição e pelo aproveitamento das oportunidades, em contraste com Moçambique onde parecem predominar os valores colectivistas, tanto verticais como horizontais, associando o empresariado a um papel de regulação social e de promoção da igualdade.»(Jesuíno, Reis, 1996: 17)
de si próprio para oferecer segurança e bem- estar à mulher e aos filhos209. Estes, aliás, estão estreitamente associados à actividade empresarial, de tal modo que é possível falar de uma verdadeira «sobreposição» das dimensões familiar e empresarial (Guerreiro, 1994:245). E embora seja notória a centralidade do tipo nuclear de relação família- empresa (Idem. 254), esta pode ser extensível a um universo familiar mais vasto, integrando outros parentes e amigos íntimos. Maria das Dores Guerreiro (1994) chama a atenção para a estreita associação entre família e empresa tanto a nível formal, que se materializa na ocupação da direcção por membros da família210, como a nível informal, ou seja na participação de familiares no processo de tomada de decisão estratégica211. É neste último âmbito que é possível expandir a abrangência relacional das PME, embora a sua motivação principal permaneça centrada na «reprodução da família e garantia de um meio de vida para os seus membros, como ainda para a procura de melhores níveis de vida e de ascensão nas hierarquias de status social.» (Idem:249).
A centragem neste tipo de motivação está bastante relacionada, por um lado, com a origem humilde de grande parte destes empresários, e o carácter pouco sólido dos seus empreendimentos; por outro, com a fraca cultura do tecido empresarial (abrangendo mesmo os grandes empresários),o que motiva a escassez de inovação, a visão estreita das potencialidades das suas empresas e a modéstia das ambições.
Tanto Maria das Dores Guerreiro (1994: 259), como Manuel Lisboa (1998: 391) no seu extenso estudo sobre a indústria portuguesa e os seus dirigentes, concordam que a maior fatia do empresariado português é constituída por pessoas de origem social humilde, em processo de ascensão social de ritmo geracional, ou seja, com avós que ainda trabalharam na agricultura, pais operários, e tendo os próprios iniciado a vida activa no âmbito de posições assalariadas pouco qualificadas. Não admira portanto que entre os principais problemas das PME portuguesas constem as insuficiências permanentes de tesouraria e de fundos próprios (António, Trigo, 1991: 15); e não admira também que a
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As necessidades de aprovação e promoção social assim como a importância da segurança familiar é mais notória entre os empresários da construção civil, por estes possuírem uma escolaridade mais baixa e estarem inseridos em zonas rurais e pequenas cidades. (Pereira, 1998:352)
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«A presença da família na organização, a mancha organizacional familiar, pode ser mais ou menos extensa, nuns casos concentrando-se praticamente em exclusividade nos cargos de direcção, noutros alastrando aos postos de enquadramento intermédio, aos staffs técnicos, aos apoios logísticos e, mesmo, aos lugares operacionais.» (Guerreiro, 1994:249)
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«Uma parte significativa das decisões relevantes para a direcção da empresa é construída
informalmente num espaço relacional familiar, externo à organização em sentido estrito, que designámos por halo estratégico da estrutura organizacional. (...) O halo estratégico da organização constitui um verdadeiro prolongamento informal da direcção empresarial ao espaço doméstico (...) um espaço relacional de sobreposição entre família e empresa.» (Guerreiro, 1994:249)
impreparação dos dirigentes seja outra das grandes deficiências detectadas (Idem). De facto, a fraca cultura dos dirigentes, assim como os seus hábitos excessivamente centrados no universo doméstico, perpassa por todo o tecido empresarial, inclusive pelos «grandes patrões» da indústria. Manuel Lisboa conclui que os industriais portugueses viajam pouco, tanto em férias como profissionalmente (Lisboa, 1998: 432 e 435), e esta tendência não se limita aos pequenos e médios empresários, que poderiam evitá-lo por falta de meios, pois Maria Filomena Mónica chega a conclusão semelhante a propósito dos grandes empresários, que se revelam medíocres no que diz respeito aos seus hábitos culturais (1990:49). Os resultados desta estreiteza de interesses é visível, quer ao nível dos investimentos, quer ao nível dos factores de desenvolvimento que consideram importantes. No que diz respeito à primeira questão, os empresários industriais inquiridos por Manuel Lisboa afirmam investir em primeiro lugar na empresa, e em segundo e terceiro lugares no imobiliário e em depósitos bancários; mas, como o próprio investigador conclui, a soma destes dois últimos investimentos é superior aos montantes aplicados na empresa (Lisboa, 1998: 430-31). Por seu turno, Filomena Mónica mostra-se visivelmente chocada com as ambições da generalidade dos grandes empresários que entrevistou:
«Espectacular é ainda a modéstia das ambições. Muitos industriais contentam-se com o gozo primário dos bens terrenos e, dentro destes, do seu símbolo mais primitivo, o automóvel. As suas aspirações não parecem exceder as de um qualquer arrivista político ou de um funcionário em processo de ascensão social.» (Mónica, 1990:50).
A fragilidade do capital cultural determina uma fé ingénua nas potencialidades da modernização tecnológica (António, Trigo, 1991:21), e um desprezo evidente pela formação dos recursos humanos e pela inovação a nível organizacional, de produto,
design e marketing. Aliás a inovação, ou a ausência dela, é outro dos graves problemas
das empresas portuguesas que «não exportam primariamente recursos transformados, tecnologia própria, produtos novos» (Mónica, 1990: 52); pelo contrário, são evidentes as deficiências a este nível, motivadas por falhas de organização, escassez de informação e conhecimento sobre os mercados, assim como ausência de redes de contactos e vendas já estabelecidas e investimento na concepção e no design (António, Trigo, 1991: 17).
Tudo isto acentua a fragilidade do empresariado português, que continua extremamente dependente do Estado, com quem mantém relações de promiscuidade evidente, «basta ver os nomes dos políticos nas portas das administrações de empresas famosas, analisar
os contactos prévios às privatizações, observar a frequência das salas de espera dos ministros, estudar as formas como foram distribuídos os dinheiros do PEDIP» (Mónica, 1990:51). Poder-se-ia ainda acrescentar que a nível local, esta promiscuidade repete-se nas salas de espera das Câmaras Municipais ou mesmo nas residências dos Presidentes de Câmara.
Estas relações entre o tecido económico e o Estado não ocorrem no âmbito de uma actividade formalizada de lobbie - já que a tradição associativa é fraquíssima, o que também contribui para as dificuldades de cooperação inter- empresarial e para a relutância em abrir o capital das empresas a novos sócios - , mas depende dos contactos e das relações pessoais de empresários individuais com este ou aquele ministro, este ou aquele alto funcionário da Administração Pública, central ou local, ou então baseia-se em clientelismo de índole partidária.
É bastante possível que paralelamente à permanência deste cenário negativo, esteja a emergir uma outra realidade, demasiado recente e pontual ainda para que possa ser apreendida em termos de publicações científicas, mas que aparece esporadicamente na comunicação social. Para esta mudança, estarão criadas as condições básicas: a “libertação” de mão de obra qualificada, ainda “presa” à ilusão do funcionalismo público ou do trabalho assalariado; a crescente mobilidade das novas gerações; a extensão da formação (que infelizmente não tem sido acompanhada nem de rigor nem de qualidade); o carácter obrigatório da competitividade internacional etc. Começam também a aparecer as consequências positivas destas alterações212, e podem-se citar, a título de exemplo apenas, talvez de excepção que confirma a regra, a MG Glass da Marinha Grande ou o Museu do Pão em Seia, cujo director, António Quaresma, professor de História, afirma - contrariando as modestas ambições dos «grandes patrões da indústria portuguesa» (Mónica, 1990) – que: «Ganhar dinheiro é a coisa mais fácil do mundo. O que custa é criar alguma coisa com ele. Temos duas intenções. Fazer história e lançar as sementes para uma nova doutrina económica. Pode ser pretensioso, mas nós acreditamos.» (Visão, 5 Junho, 2003:146).
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4. A internacionalização da economia portuguesa no âmbito do processo de