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Prática de ensino de Biologia

Basicamente, os estagiários iniciam o registro da observação com o que já lhes era familiar, identificando a prática de ensino de Biologia restrita à exposição do conteúdo pelo professor por meio da explicação/definição de conceitos resumidos e transcritos no quadro negro; na realização de atividades escritas, sendo que estas atividades consistiam, normalmente, em responder a questionários planejados pelo professor ou em exercícios de memorização indicados a partir do próprio livro didático (LD). Durante as aulas, os professores exibiam alguma interação com os estudantes, fazendo perguntas sobre o tema abordado ou questionando possíveis dificuldades de entendimento de termos e definições.

A participação dos alunos nas aulas se resumia à resolução de exercícios, e ao levantamento de dúvidas ou questionamentos sobre a explicação do professor.

De maneira geral a professora passa muitos exercícios durante as aulas e, na maioria das vezes, os alunos não têm dúvidas enquanto fazem. (...) Nas aulas em que a professora explicava a matéria ela ia falando e escrevendo as coisas principais no quadro, simultaneamente. Em geral, os alunos

prestavam atenção na explicação e participavam da aula com questionamentos. Mas nem todos copiavam as anotações no caderno. (...) Ela [a professora] também faz atividades diversificadas como colagem, maquete, montagem de esquemas, etc. Porém, não foram observadas instruções consideradas adequadas para que as atividades fizessem sentido para os alunos, parecendo que eles apenas fazem, mas não entendem o que está por trás daquilo, qual o significado. (Alice)

As aulas do professor são passadas no quadro, através de resumos por ele criados, para serem copiadas e após isso dá visto no caderno dos alunos que copiaram. (...) Os alunos em geral copiam a matéria do quadro, conversam um pouco e alguns participam com dúvidas e perguntas. O professor procura envolver os alunos na aula e cita muitos exemplos. (Arnaldo)

Antes de iniciar a exposição do conteúdo, o professor escrevia no quadro textos produzidos por ele e posteriormente realizava a exposição do conteúdo. (Júlio)

Uso do livro didático e outras práticas de leitura

Ao contrário do título deste subtópico, poderíamos dizer mais sobre o não uso do livro didático (LD) nas salas de aula observadas pelos estagiários. Este é o tema/assunto mais recorrente no relato dos estagiários e vai de encontro à expectativa de pesquisadores interessados em identificar alguma diversidade de práticas de leitura com o uso desse recurso didático.

O uso do livro didático é raro. (Arnaldo)

(...) ele [o livro] só era trazido e utilizado pelos alunos em sala de aula quando o professor programava uma aula com exercícios avaliativos. (Júlio)

À exceção do relato de uma dupla de estagiários, a referência ao LD mostra que este é um recurso raramente ou nunca utilizado em sala de aula ou em casa, como fonte de leitura ou estudo, embora as escolas pertençam à rede pública de ensino e os alunos

recebam as publicações por meio do programa do governo federal de distribuição gratuita de livros22.

Vale destacar alguns problemas relativos ao acesso ao LD e à utilização dos mesmos, descritos pelos estagiários, a partir da interação com os professores e coordenadores das escolas: (i) alunos dos cursos noturnos geralmente não recebem os livros, os quais ficam armazenados na escola e são utilizados conforme a demanda do professor. Uma justificativa é a grande evasão que ocorre durante o ano e a consequente perda dos livros; o mesmo ocorre no período diurno em algumas escolas que declaram não ter livros em número suficiente para os alunos, seja pela perda de exemplares ou por erros na previsão do número de estudantes em cada turma/ano. Há ainda o argumento de que os estudantes não levam os livros para a escola, mesmo quando solicitados, sendo necessário mantê-los sob o poder do professor ou coordenador, na escola; (ii) há uma incoerência entre o conteúdo abordado em cada um dos três livros adotados para o Ensino Médio e o conteúdo de cada ano escolar definido pelo currículo básico comum da Secretaria de Estado de Educação, em vigor desde o ano de 2009. Essa divergência também justificaria a manutenção dos livros na escola, pois o professor deve selecionar o livro a ser utilizado conforme o conteúdo que estiver sendo ministrado.

Os alunos recebem os livros no início do ano e os levam para casa. Em alguns momentos da disciplina os alunos precisaram utilizar livros que não o da série correspondente. (Alice)

A escola não disponibiliza LD para os alunos da noite. (...) Os livros ficam depositados na biblioteca ou na coordenação. Quando o professor deseja trabalhar com a leitura e resolução de problemas, alguns alunos são solicitados para buscar os livros e levá-los até a sala de aula. (Tadeu)

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Referência ao Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) realizado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

No que diz respeito ao uso do LD, efetivamente, este recurso serve como fonte de informação e respostas aos exercícios propostos pelo professor ou pelo próprio autor do livro ao final de cada capítulo, muitas vezes já marcados pelos alunos que os utilizaram nos anos anteriores23. Outros suportes textuais, especialmente sítios da internet, são utilizados como recursos para pesquisa sobre temas extra curriculares, acessados livremente pelos estudantes, para cumprir as tarefas escolares tais como elaboração de trabalhos escritos e realização de seminários. Mas, que leitura fazem os estudantes?

Os estudantes leem os textos do LD, em sala de aula, individualmente ou em grupos, para encontrar as respostas aos exercícios propostos. Dentre todos os relatos, somente um apresentou uma situação de leitura assistida pelo(a) professor(a) a qual será detalhada mais adiante por constituir uma das observações destacadas pelos estagiários para a realização do seminário no encontro do Estágio II.

Em geral, os estudantes buscam as palavras chaves ou conferem com o professor (ou estagiário) se o trecho selecionado por eles contem a resposta para a questão. Em apenas um dos relatos, o estagiário observou estudantes abrirem o livro enquanto a professora explicava a matéria. Conforme observado pelo estagiário, isso ocorreu porque a professora tinha o hábito de usar as imagens dos capítulos para explicar o conteúdo. Não há relatos sobre estratégias ou modos de ler textos a partir de outros suportes, uma vez que esta leitura não foi observada em sala de aula.

23 Os livros didáticos distribuídos pelo PNLD devem ser utilizados durante três anos consecutivos,

beneficiando mais de um aluno. Informação disponível em http://www.fnde.gov.br/programas/livro- didatico/livro-didatico-funcionamento.

O que dizem os professores: embora diretores e professores devam “analisar e escolher

as obras que serão utilizadas pelos alunos em sua escola”24, os professores geralmente não gostam das coleções; para eles, muitos alunos não apresentam uma boa base de estudos, dificultando o aprendizado. Essa base diz respeito à leitura, escrita e interpretação; alguns professores não exigem que os alunos tragam o livro para a escola devido ao excesso de peso e muitos utilizam questionários como estratégia para estimular a leitura do LD. Há professores que solicitam a leitura dos capítulos referentes ao tema abordado e dizem que se colocam à disposição para explicar os termos

considerados como “mais difíceis” ou “complicados” pelos estudantes.

O que dizem os estudantes: de um modo geral, os estudantes declaram que não gostam de ler e justificam a falta de leitura do LD pelo excesso de informação sem significado para eles, bem como pela presença de termos científicos difíceis e “esquisitos” nos textos. Para eles, o livro é “chato” e incompreensível. Eles se sentem desmotivados, pois a leitura é cansativa e complicada. Além disso, declaram não ter motivo ou incentivo para lerem o livro, pois o professor sempre solicita a leitura somente para a resolução dos exercícios.

Como vimos no tópico anterior, o texto está presente na sala de aula, especialmente nos resumos elaborados pelos professores e na transcrição, no caderno, pelos estudantes. Porém, esta é uma estratégia didática que os professores parecem utilizar apenas com o objetivo de expor informações e dar explicações sobre os fenômenos estudados, na qual a leitura, tal como a definimos aqui, não ocorre.

24 Informação obtida no Programa Nacional do Livro Didático, a partir do portal do Fundo Nacional para

o Desenvolvimento da Educação (FNDE), disponível em http://www.fnde.gov.br/programas/livro- didatico/livro-didatico-funcionamento acesso em 12 de março de 2014.

Os professores acreditam que ao exigir a resolução de exercícios e solicitar pesquisas (busca de informações sobre determinado assunto) eles estão estimulando os estudantes a lerem o LD. Esta é uma concepção produtivista que vincula um resultado a uma ação, já criticada por especialistas que analisam as práticas escolares sob a ótica da lógica da produção que não atende aos mesmos objetivos das propostas pedagógicas voltadas para

“a formação de sujeitos mais capacitados nas suas interações com o mundo material”

(MILLAR, 2003, p. 83).

Sobre tais práticas produtivistas, Kramer (2011), Geraldi (2010) e Lajolo (2011), em suas pesquisas realizadas em salas de aula, expõem um cenário semelhante e demonstram historicamente a função dos textos na escola. A partir das análises que fazem desse cenário, os autores concluem que a concepção de leitura de professores está intimamente relacionada às concepções de linguagem, de conhecimento e de educação.

De acordo com os autores, normalmente, a escola concebe a linguagem como máscara do pensamento que é preciso moldar. Por isso, os processos de significação, tão caros aos que acreditam no crescimento intelectual pela via da construção de conhecimentos, são negligenciados nessas atividades de reconhecimento e de reprodução tão comuns no ensino das disciplinas.

O conhecimento, na perspectiva desses professores, é a soma de informações a consumir (GERALDI, 2010) e a educação, portanto, está pautada no critério da informação que divide o saber, organizando-o em saberes especializados que devem ser acessados por meio da leitura ou da exposição por um leitor mais experiente.

Para Geraldi (2010), a mudança dessas práticas só será possível se admitirmos o saber como trabalho do pensamento e a educação como processo de mediação entre sujeito e

conhecimento. A leitura, nesse processo, não pode ser pautada no reconhecimento e na reprodução de informações, mas deve pressupor a ação do sujeito leitor sobre o texto, que resignifica os sentidos a partir de seus conhecimentos prévios. Nesse sentido, o ensino de qualquer disciplina por meio da leitura haverá de ser o de produção de conhecimento orientado por professores atentos aos modos de ler as palavras e de ler o mundo que seus estudantes apresentam. Assim, os professores compreenderiam que o caminho é ensinar por meio de práticas reflexivas e não por exercícios de repetição e fixação. (GERALDI, idem). No entanto, o que vemos é a manutenção de uma relação burocrática com o livro que se vale da produção cobrada a partir da leitura e não do valor da leitura em si mesma.