2.2.1. Desenvolvimento físico, psíquico e social
A adolescência é o período de desenvolvimento humano que medeia a infância e a fase adulta. Alguns autores delimitam a fase da vida em que ocorre, no entanto, Campos (1975)
refere que se deve reconhecer que qualquer tentativa de fixar datas específicas para este
desenvolvimento físico é improcedente, pois a idade cronológica, geralmente, é um indicador falho da idade biológica.
Devemos ter em consideração que o desenvolvimento humano, principalmente o desenvolvimento físico na fase da adolescência, é variável de indivíduo para indivíduo, e em ambos os sexos, seja devido a “fatores genéticos e biológicos, nutrição, exercício, gordura
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corporal, doenças crónicas, stress, ambientes tóxicos e estatuto socioeconómico” (Veloso et al., 2009, p.33), o que dificulta a estandardização das idades para todos os indivíduos, dadas as grandes diferenças individuais que caracterizam este período de desenvolvimento (Campos, 1975). No entanto, existem vários autores que delimitam o período em que esta fase ocorre.
Comummente se encontram autores que definem a entrada na adolescência, em termos fisiológicos, com o atingir da puberdade, ocorrendo, hoje, mais precocemente que há quinze anos, situando-se por volta dos 10-13 anos de idade (Braconnier & Marcelli, 2000). A puberdade é, como refere Campos (1975), um dos aspetos biológicos relacionados com os fenómenos resultantes das transformações anátomo-fisiológicas no processo de maturação da espécie humana. Nesta fase, os jovens alcançam a maturação sexual e associada a ela ocorrem um conjunto de outras mudanças fisiológicas designadas de pubescência.
Nesta dissertação, considerando todas as especificidades do desenvolvimento individual humano, vamos considerar a definição da OMS que, na maioria dos indivíduos, situa a adolescência entre os 10 e 20 anos de idade. Do mesmo modo, o Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP, 1998) considera adolescente o grupo populacional situado entre os 10 e os 19 anos de idade. A mesma organização, adota um significado diferente para o termo juventude, sendo que este engloba os momentos intermédios e finais da adolescência e os primeiros anos da fase madura, num período social entre os cerca de 15 e 25 anos. A população jovem é o grupo que tem entre 10 e 24 anos (FNUAP, 1998).
A adolescência é um estádio de desenvolvimento caracterizado por um conjunto de modificações, quer ao nível físico, psicológico ou até mesmo moral e social, sendo que é uma fase da vida humana que dadas as suas especificidades pode ser vivida de um modo mais ou menos turbulento, pois é “um período de abertura e de mudanças, de descoberta e de conquista (…) mas é também o tempo da dúvida, do aborrecimento e de uma expectativa impaciente, o tempo da esperança e da ilusão, e, por vezes, o da deceção.” (Braconnier & Marcelli, 2000, p.211), mas como refere Navarro (1985, cit. por Castanheira, 1989, p.20) “é um período de desenvolvimento normal em que cada indivíduo é emocionalmente instável mas simultaneamente interessado, criativo, generoso, contestatário mas com aptência para a inovação”. Contudo, esta referência à normalidade é um pouco relativa, dadas as continuas transformações em que o mundo incorre, a sua rápida e constante evolução e onde a maturação física ocorre, hoje em dia, cada vez mais cedo, sendo que o “normal” de há uns anos atrás não será o mesmo que atualmente, como refere o mesmo autor.
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Inegável e transversal a todos os indivíduos com um desenvolvimento saudável, são as modificações que o corpo começa a sofrer na fase inicial da adolescência, faixa etária em que se situam os alunos ao qual se destinou a nossa intervenção. A puberdade, fase assinalada pelo aparecimento da primeira menstruação nas raparigas e pela primeira ejaculação nos rapazes, que acontece hoje em dia mais precocemente que no século XIX, conduzindo a um aumento significativo da estatura (Matos & Sampaio, 2009), é um período onde coexistem “intensas transformações biológicas e hormonais, psicológicas e da imagem corporal” (Castanheira, 1989, p.21), onde o crescimento é rápido e o adolescente está em constante evolução e transformação.
Campos (1975) refere algumas características importantes da adolescência, especificamente na consideração que os jovens têm de si mesmos e na ideia da imagem que têm aos olhos dos outros. O corpo e os seus traços físicos são exemplos de fatores importantes na adolescência, pois “é evidente que o adolescente se interessa pelo seu corpo em mudança, não só por perceber as mutações que nele ocorrem, mas também porque está continuamente tendo consciência da impressão que causa aos outros” (Campos, 1975, p. 23).
Como referem Braconnier e Marcelli (2000, p.XXI), na fase da puberdade, os jovens sabem que o seu corpo sofrerá transformações, vão crescer, mas também aumentar o seu peso, o que se revela uma preocupação, principalmente nas adolescentes.
Paralelamente ao desenvolvimento corporal, Matos e Sampaio (2009, p.31) referem que também o cérebro adolescente sofre alterações e cresce, com alterações ao nível do córtex pré- fontal, zona na qual ocorre o controlo de emoções, “pelo que certas respostas impulsivas de alguns adolescentes podem ser consideradas sinais de imaturidade biológica”.
A acompanhar a mudança fisiológica ocorre a mudança psicológica e o “jovem adolescente sente uma intensa necessidade de romper com os desejos, os ideais, os modelos de identificação e os interesses que vêm da sua infância” (Braconnier e Marcelli, 2000, p.XXI), o jovem possui uma necessidade de afastamento dos pais, procurando novas fontes de satisfação,
fora do ceio familiar, embora esse afastamento se traduza numa distância simbólica. Há uma
necessidade de conquista do seu próprio espaço, autonomia e liberdade, sendo estes alguns dos traços dominantes da passagem da infância para a idade adulta (Castanheira, 1989).
Como evidenciado, o adolescente nesta fase da sua vida está sujeito a um conjunto de mutações, não só ao nível biológico e psicológico, mas também sociocultural, e só uma análise destas três vertentes permite uma melhor compreensão do adolescente em todas as esferas que
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exercem influência sobre si. Como referem vários autores citados por Castanheira (1989, p.20), qualquer esforço efetuado para compreender o desenvolvimento social e pessoal dos adolescentes, necessita de uma abordagem multidimensional, passa pela “interligação íntima, dinâmica, e constante dos fatores biológicos, psicológicos e sociais”.
São todas estas condicionantes que são necessárias incluir no complexo processo de caracterização da adolescência, na sua compreensão e futura intervenção, pois a acrescentar às especificidades individuais de ritmos de desenvolvimento humano e a todos os fatores biológicos, existem um conjunto de determinantes socioculturais, que emergem do ambiente familiar, social e cultural onde o adolescente está inserido. Como refere Campos (1975), não se podem considerar os adolescentes somente sob o ponto de vista dos seus conflitos e processos internos, mas “devem ser considerados biossocialmente, com a devida ênfase nos sistemas de valores e pressões dos grupos que os circundam e com ênfase, às vezes, nos valores em conflito, dos múltiplos papéis que precisa assumir” (Campos, 1975, p. 30).
O adolescente está incluído num ambiente social, estabelece relações com os demais membros e estes exercem influência sobre si, muito mais presente e marcante, principalmente, na fase da adolescência, pois “a maturação social, mental e emocional que, gradativamente, ocorre no desenvolvimento individual, durante a transição para o estado adulto, é acompanhada por uma ampla variedade de definições e reações culturais” (Campos, 1975, p.27).
2.2.2. Relações interpessoais na adolescência
Como referido, o adolescente está integrado em diversos ecossistemas ao longo do seu processo maturativo, dos quais fazem parte a família, a escola, o grupo de pares, entre outros, e com os quais estabelece um conjunto de relações que o moldam e desenvolvem a sua personalidade.
A criança, inicialmente, apresenta uma forte ligação com os seus pais, num mecanismo de identificação e de moldagem à sua semelhança. Identificação, como definem Braconnier e Marcelli (2000, p.56) será o “processo, geralmente, inconsciente, pelo qual o indivíduo assimila o aspeto, a qualidade, o atributo de um outro e se transforma, em parte, ou às vezes mesmo na totalidade, segundo o modelo dele”.
É inegável a força que a influência parental assume, principalmente nas crianças, e as identificações que estas fazem com os seus progenitores. Segundo Campos (1975, p. 120) “a
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constelação familiar é a primeira expressão da sociedade que determina grande parte da conduta adolescente”, todavia, não se pode deixar de considerar nunca, o ambiente sociocultural em que este está inserido. O ambiente onde se insere é determinante em “novas possibilidades de identificação, futuras aceitações de identificações parciais e incorporação de elementos socioculturais e económicos que não podem ser anulados” (Campos, 1975, p. 120).
Ao longo do seu crescimento e desenvolvimento, a criança torna-se um adolescente que procura a sua autonomia e identidade própria, pois “tornar-se adolescente é também aceder progressivamente ao estatuto de sujeito, isto é, a uma definição de si, a um reconhecimento das suas próprias identificações, dos seus desejos, dos seus ideais.” (Braconnier & Marcelli, 2000, p.69). Nesta altura, a relação próxima com os progenitores tende a ser afastada e o adolescente transfere, agora, grande parte da dependência que assumia em relação aos pais para o seu grupo de amigos. Nesta fase, há um lugar de destaque para o grupo de pares, nomeadamente, as pessoas do sexo oposto. Como refere Braconnier e Marcelli (2000, p.56) “a constituição da identidade do sujeito, verdadeira imagem compósita, que também ela evolui ao longo da adolescência, apoiar-se-á doravante cada vez mais em modelos extrafamiliares”.
Matos (1999, p. XIII) corrobora a opinião anterior quando afirma que “ toda a adolescência se desenrola na reformulação da identidade adquirida na infância e na construção de uma identidade mais marcada pela vontade própria do adolescente” pois, dadas as transformações que o adolescente vive, este sente necessidade de procurar a sua individualidade, de se construir e destacar enquanto ser único, com desejos e opinião própria. Braconnier e Marcelli (2000, p.XXV) afirmam que as reflexões sobre a adolescência “dizem respeito ao indivíduo na sua singularidade, mas não devem fazer esquecer o aspeto coletivo, social e cultural”. O adolescente mantém uma relação de partilha de interesses, frustrações, ocupações e atividades escolares com o seu grupo de amigos e neste percurso entre a infância e o estado adulto há, sem dúvida, um lugar de destaque para a relação com os seus pares, “a necessidade para o adolescente de estar „em grupo‟ responde a necessidades educativas e sociais mas também a motivações intrapsíquicas pessoais” (Braconnier & Marcelli, 2000, p.43). Como afirma Matos e equipa do Projeto Aventura Social & Saúde (2003, p.31) “o processo básico do desenvolvimento do adolescente envolve modificar relações entre o indivíduo e os múltiplos níveis do contexto em que o jovem se encontra”. Matos (1999, p.32) estabelece que “a multiplicidade de contextos sociais e interpessoais em que o adolescente se move
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representa desafios adicionais e possibilidades acrescidas de estes virem a desenvolver problemas de ajustamento, com consequências negativas na sua saúde”.
A adolescência é um período de desenvolvimento considerado especialmente crítico no desenvolvimento de “comportamentos e atitudes saudáveis incluindo responsabilidades e direitos sobre a saúde” (Matos & Equipa do Projeto Aventura Social & Saúde, 2003, p.32). Como referem Matos e Sampaio (2009) um dos objetivos mais importantes dos programas de prevenção prende-se com a exposição dos jovens a fatores de risco. Contudo, muitas vezes, dado o “conjunto de características intrínsecas à criança/adolescente, associadas ao desenvolvimento de perturbações emocionais e de comportamento”, este não é um objetivo facilmente concretizável e é então necessário recorrer à integração de programas de intervenção direta com os jovens que vão ao encontro das suas principais características, de modo a “aumentar as suas competências pessoais e sociais de resposta afirmativa, de ação alternativa e de autorregulação”. (Matos & Sampaio, 2009, pp.22-23).