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Com a Segunda Guerra Mundial em 1939, o contexto histórico mundial revelou o início de um cenário econômico mais complexo, o que levou o Brasil não somente a se preparar para a guerra, mas também para o mercado, de forma a qualificar a força de trabalho para atender as novas demandas de produção. Conforme Mendonça “A conjuntura do pós Segunda Guerra Mundial propiciou a aproximação entre Brasil e EUA. Daí resultou um conjunto de acordos de “coopera- ção” responsáveis tanto pela consolidação da vertente “ruralizadora” do ensino agrícola, quanto por

sua redefinição, transmutando-se sua dimensão escolar em “assistência técnica”. (MENDONÇA, 2006, p.112)

O Decreto nº 21.667, de 20 de agosto de 1946, apresentou o regulamento dos currículos do ensino agrícola a partir da Lei Orgânica do ensino agrícola de 1946, que já foi apresentada em detalhes no capítulo I desta tese e será aqui retomada sempre que necessária para a compreensão. Conforme as determinações legais os cursos de iniciação e mestria eram compostos das disciplinas elencadas abaixo.

O curso de Iniciação Agrícola era composto das seguintes disciplinas de cultura geral: português, matemática, ciências naturais, geografia e história do Brasil, e das seguintes disciplinas de cultura técnica: agricultura, criação de animais domésticos e desenho.

O curso de Mestria Agrícola era composto das seguintes disciplinas de cultura geral: português, matemática, ciências naturais, geografia e história do Brasil, e das seguintes disciplinas de cultura técnica: agricultura, criação de animais domésticos, indústrias agrícolas, noções de veterinária e higiene rural, economia, administração rural e desenho técnico.

Tanto a iniciação como a mestria tinham um breve currículo, muito mais enxuto que o ensino primário oferecido nos Grupos Escolares. A oferta estava voltada a conhecimentos básicos como ler, escrever e fazer operações simples de matemática, a ênfase ficava no ensino de atividades voltadas à manutenção do trabalho agrícola.

Já os cursos técnicos previstos na Lei Orgânica do Ensino Agrícola: Horticultura, Zootecnia, Prática Veterinária, Industrias Agrícolas, Laticínios, Mecânica Agrícola tiveram uma ampliação das disciplinas previstas na parte de formação da cultura geral, eles previam a oferta de português, francês e/ou inglês, matemática, história natural, física e química, história geral e geografia geral, além de uma ampla gama de disciplinas específicas para cada uma das formações.

A legislação educacional apresentava o início do processo de afastar o caráter disciplinatório do ensino agrícola a fim de transformá-lo na preparação de trabalhadores agrícolas. No entanto, veremos ao longo do capítulo que persistira heranças das escolas agrícolas do início do século XX e da característica de “regenerar” os estudantes. Segundo Boeira (2012), regeneração foi um termo muito utilizado nas ações educacionais voltadas, principalmente, para as crianças pobres.

A proposta vinha imbuída do ideal de que se estava “salvando” meninos que não teriam outra opção melhor a não ser formarem-se técnicos nas áreas agrícolas e portanto tal nível de oferta educacional era suficiente. Essa proposta colaborou para a manutenção do caráter dualista da educação uma vez que desconsiderava os problemas sociais existentes responsáveis por colocar os alunos numa situação submissa, ignorando problemas sociais e a relação com a imensa desigualdade da sociedade brasileira.

Esse fator foi reforçado com a Constituição de 1937 que apresentou em seu art. 128 que o ensino público deveria atender aos que faltavam com recursos financeiros de forma a garantir-lhes uma educação “adequada às suas faculdades, aptidões e tendências vocacionais” (BRASIL, CONSTITUIÇÃO DE 1937, Art. 128)

Há desta forma, uma certa manutenção do caráter assistencialista da educação que não foi modificada com as Reformas Capanema e as Leis Orgânicas da Educação Agrícola na década de 1940. Quem determinava as aptidões e tendências acabava sendo então o governo ao determinar no ensino público ofertado pelas escolas agrícolas o ensino técnico como limite a sua formação uma vez que este ensino não permitia o ingresso no ensino superior.

Os alunos deveriam ser educados segundo a disciplina do tempo (hora para estudar, acordar, trabalhar, realizar atividades físicas e lazer) e a ações que colaboravam para a formação do trabalhador, como o trabalho na manutenção da escola, produção de gêneros alimentícios, prestação de serviços aos agricultores da região etc. Esta proposta contribuiu para o objetivo de formar um adulto preparado para o trabalho agrícola buscando formá-los para esta finalidade desde a infância e adolescência.

Desta forma, os cursos oferecidos pela Escola Agrícola de Muzambinho contemplavam uma gama de disciplinas de cultura geral que preparavam o aluno no ensino do nível equivalente ao seu curso técnico. O currículo apresentou uma concepção presente na Lei Orgânica do Ensino Agrícola de 1946 de separação das disciplinas de cultura geral das técnicas e a valorização da parte técnica em detrimento do ensino geral, conforme poderemos observar no quadro de disciplinas de nível médio, a seguir:

Quadro 4- Disciplinas Ginasial e Colegial (1966)

Obrigatórias Optativas Cultura Técnica

Práticas Educativas

Praticas Vocacionais Português Desenho Iniciação ao Estado da

Agricultura

Educação Física Prática Agrícolas

Matemática Inglês Iniciação ao Estado da Zootecnica

O.S.P.B Práticas Zootecnicas

Geografia Geral e do Brasil

Física Indústria a comércio de Produtos Agrícolas e Pecuários Educação Doméstica Práticas Industriais Rurais História Econômica e do Brasil

Química Desenho Técnico Educação Artística

Ciências Físicas e Biológicas

Microbiologia Agricultura Geral Higiene e Enfermagem Zootecnia Geral Sociologia Noções Topologia e

Irrigação e Drenagem

Relações Humanas

Consumo Recursos Naturais Renováveis Noções de Extensão Rural

Máquinas Motores Especializados Agricultura Especial

Doenças Pragas dos Vegetais Past. Cult. Forrageiras Noção Veterinária e Defesa

Sanitária Animal Economia Adm. Rural

Fonte: Informações do Relatório 1959- Arquivo IFSULDEMINAS- Campus Muzambinho.

Através do quadro de disciplinas de 1966 visualizamos a preocupação em garantir conhecimento prático, fosse ele agrícola, industrial ou voltado para a zootecnia. As inúmeras disciplinas ocupavam grande parte do período dos alunos na escola e a elas ainda eram somadas as horas dedicadas à manutenção da escola e de seu funcionamento.

Tal fator pode ser claramente notado em todos os currículos de cursos técnicos oferecidos pela escola, conforme apresentado a seguir,

Figura 13- Currículo Curso Técnico Pecuária

Figura 14- Currículo Curso Técnico Agricultura

Figura 15- Currículo Curso Técnico Agropecuária

Nos currículos apresentados identificamos uma grande oferta de disciplinas técnicas, acompanhadas também da oferta de disciplinas voltadas para a cultura geral. Com o objetivo de detalharmos o perfil das disciplinas, serão utilizados os planos de ensino elaborados pelos professores da escola, que, como veremos deixam ainda mais clara qual proposta de formação era concretizada no ambiente escolar.

Nos planos de ensino podemos observar os conteúdos trabalhados, os recursos utilizados, as visitas realizadas, os autores adotados e em alguns deles encontramos as atividades realizadas pelos professores ao longo da disciplina.

A disciplina de agricultura estava presente nos três anos das formações técnicas e apresentava os seguintes conteúdos: doenças e pragas vegetais; controle e combate as pragas, os inseticidas e seus usos, formicida e o seu emprego, cultura do café, cultura do arroz, cultura do milho, cultura do feijão, citricultura, horticultura. (Plano de Ensino- Disciplina Agricultura, Escola Agrícola de Muzambinho, 1969)

Observamos que a escolha das culturas trabalhadas na disciplina iam ao encontro da produção regional. Dentre as considerações metodológicas estava a estreita relação com a parte prática:

1) No desenvolvimento do presente Plano, os alunos terão aulas teóricas seguidas das práticas respectivas nos setores correlatos às disciplinas integrantes do próprio educandário. 2) Paralelamente, executarão projetos correlatos, sob a orientação da prática educativa Programa Agrícola Orientado.

3) Em atividades extraclasse, serão programadas visitas a propriedades agrícolas vizinhas e a outros estabelecimentos de atividades correlatas à cadeira. (Plano de Ensino, Disciplina de Agricultura, Escola Agrícola de Muzambinho, 1969)

As disciplinas técnicas também objetivavam estimular os alunos no interesse pela industrialização dos produtos agropecuários a fim de “criar no espírito do estudante, bons hábitos de trabalho para atividades rurais e demonstrar ao aluno que a Indústria Rural é fonte de renda altamente compensadora” (Plano de Ensino, Disciplina Indústrias Rurais, Escola Agrícola de Muzambinho, 1969/70)

Outra característica marcante do currículo era a ligação com os produtores e fazendas da região fortalecendo o vínculo com o meio rural e atendendo ao objetivo de tentar manter o aluno no campo. No desenvolvimento da disciplina de indústrias agrícolas, o professor esclareceu que as aulas “não ficarão limitadas somente as salas de aula, carteiras e professor. Elas serão complementadas com visitas às indústrias agrícolas e fábricas da região, mostrando a realidade e a necessidade da disciplina” (Plano de Ensino, Disciplina Indústrias Rurais, 1969/70). Como exemplo das visitas encontramos o registro abaixo:

Visita dos alunos do 3º ano colegial à Cooperativa dos cafeicultores de São Paulo (em São Manuel-SP)

Visita dos alunos do 3º ano colegial à Usina de Açúcar de Monte Alegre-MG, para conhecer e aprender as técnicas de plantio de cana-de-açúcar.

Visita dos alunos do 2º Ano Colegial à Fazenda do Sr. Silvio Taveira Barbosa, em Alfenas- MG, para conhecer o gado.

Estágio de uma semana na Fazenda a Usina Açucareira de Monte Alegre-MG, para aprender a técnica e plantio de cana-de-açúcar.

Preparo de curvas de nível, pelos alunos do 2º ano Colegial nas fazendas dos Srs. Osório Faria e Messias Gomes” (RELATÓRIO DA ESCOLA DE 1967, p.22).

Além disso, eram realizadas atividades nas oficinas para garantir aos alunos o aprendizado de ofícios, nos quais predominava o emprego artesanal como carpinteiro, ferreiro e mecânico. Alguns ofícios industriais eram ministrados em meio ao aprendizado agrícola. Acredita-se que essa inclusão no currículo aconteceu devido à necessidade de manutenção da escola e de seus equipamentos, pois, desta forma, além de garantir aos alunos os conhecimentos para efetuarem a manutenção dos equipamentos agrícolas necessários à sua prática, mantinham a escola em pleno funcionamento.

Para tais aulas encontramos muitos pedidos nos relatórios escolares voltados a garantia e melhora das oficinas existentes. A nova oficina de ferragem foi entregue em 1967, “Doada ao estabelecimento pelo convênio DEA_CONTAP_USAID_BRASIL, em 1967. Sendo de real utilidade para os alunos, onde adquirem noções valiosas no manuseio das várias ferramentas e na confecção de artigos de uso prático”. (RELATÓRIO DA ESCOLA DE 1967, p.11) Observamos através desta informação que os Estados Unidos influenciou na implementação das oficinas nas escolas e muito do modelo desenvolvido aqui foi importado.