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3. Literature review

3.3 Knowledge development

Este estudo é do tipo qualitativo, fundamentado no referencial teórico- metodológico da Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Cultural de autoria de Madeleine Leininger (1978). A escolha da abordagem qualitativa neste ensaio se justifica na tentativa de conhecer, mediante as experiências vivenciadas, o cenário natural das informantes, procurando focalizar o fenômeno estudado sob a visão de mundo dos participantes.

4.1.1 Metodologia etnográfica

Para entendermos a teoria proposta por este estudo, é importante reaver sua origem e fonte de conhecimento. Assim, a Etnografia é um método oriundo da Antropologia e somente no século XX, com Franz Boas (1858-1942) e Bronislaw Malinowski (1884-1942) foi que essa disciplina se tornou realmente divulgada. Nesta época, a Etnografia apresentou-se como um método de pesquisa de campo, onde tudo deveria ser anotado (LAPLANTINE, 1995).

Nessa perspectiva de conhecer a cultura, o método etnográfico é empregado por diversos autores para estudar uma variedade de temas na área da saúde, desde o funcionamento do sistema sanitário, como a avaliação da qualidade dos serviços de saúde do ponto de vista dos usuários (ANDRADE; VAITSMAN, 2002); a avaliação do Programa de Saúde da Família (TRAD et al, 2001); as interpretações e práticas da população (ROPER; SHAPIRA, 2000) e outros que compõem hoje o abrangente campo da saúde coletiva.

O método de investigação por excelência da Antropologia é a Etnografia, considerada por Caprara e Landim (2008) como o modo mais básico de investigação social e que trabalha com ampla gama de fontes de informações. Por método etnográfico entende-se uma atividade de pesquisa de campo, por prolongados períodos, com o contato direto com o objeto de estudo, seguido pela sistematização, em formato de texto, da experiência.

Além do longo tempo no campo, no entanto, a pesquisa etnográfica não é o espaço empírico onde aplicar ou avaliar uma teoria antropológica. Trata-se de uma atividade durante a qual paulatinamente constituído o saber teórico, juntamente com a coleta dos dados (PIZZA, 2005). Assim, não é somente um método de pesquisa, mas um processo conduzido com uma

sensibilidade reflexiva, tomando em conta a própria experiência no campo junto às pessoas com as quais o antropólogo trabalha.

Para Cardoso (2000, p. 24), isto faz com que os “horizontes semânticos em confronto – o do pesquisador e o do nativo – abram-se um ao outro, de maneira a transformar um tal confronto em um verdadeiro ‘encontro etnográfico’”. Com suporte na Etnografia, surgiram metodologias adequadas às diversas áreas de estudos, como: Etnociência, Etnohistória, Etnometodologia, Etnopsiquiatria e Etno-Enfermagem.

Para Roper & Shapira (2000) muitas enfermeiras antropólogas empregam o método de Etnografia focalizada, pois, por seu intermédio, é possível determinado grupo em um contexto específico, trabalhando com um número pequeno de informantes, bem como conduzir um estudo em áreas urbanas dentro de um específico subgrupo cultural de uma larga sociedade.

4.1.2 Teoria da Diversidade e Universalidade Cultural do Cuidado

Empregamos na pesquisa o método etnográfico, preconizado pela enfermeira Madeleine Leininger (1991), chamado Teoria da Diversidade e Universalidade Cultural do Cuidado, escolhida para se referir ao povo ou a uma cultura particular, focalizando, universalmente, idéias e práticas relacionadas ao fenômeno da Enfermagem.

Em 1979, Leininger definiu a Etnografia em Enfermagem como um ramo da Enfermagem que enfoca o estudo comparativo e a análise de culturas com respeito à Enfermagem e às práticas de cuidados de saúde-doença, às crenças e aos valores, com a meta de proporcionar um serviço de atendimento de Enfermagem significativo e eficaz para as pessoas, de acordo com seus valores culturais e seus contextos de saúde-doença. Ao mesmo tempo, definiu Etno-Enfermagem como o estudo de crenças, valores e práticas de atendimento de Enfermagem, como percebidos e conhecidos, cognitivamente, por uma determinada cultura, mediante suas experiências diretas, crenças e sistemas de valores.

Leininger formulou a teoria com base na premissa de que as pessoas de cada cultura não apenas podem saber e definir as formas nas quais experimentam e percebem seu mundo de atendimento de Enfermagem, mas também podem relacionar essas experiências e percepções como crenças e práticas gerais de saúde. Com apoio nessa premissa, o atendimento de Enfermagem desenvolve-se do contexto cultural no qual será proporcionado. Parte da crença de que as culturas têm tanto práticas de saúde específicas a uma cultura quanto padrões prevalentes comuns culturalmente, levando a denominações do cuidado em termos da “diversidade” e “universalidade”.

Assim, esta teoria busca explicar a natureza da Enfermagem, seus componentes, atributos ou características que ajudam a esclarecer o que é peculiar, distinto e vagamente conhecido. Nessa perspectiva, entendemos ser a Teoria da Diversidade Cultural do Cuidado importante eixo norteador na coleta e análise dos dados.

A teoria foi elaborada para explicar o fenômeno da Enfermagem transcultural, que significa reinterpretar o cuidado, considerando a diversidade e a similaridade cultural no mundo. Seu propósito é descobrir o significado e funções culturais do fenômeno do cuidado humano.

De sua Teoria, apenas a categoria intitulada Sistema Popular será utilizada neste estudo, representando um esforço, no sentido de relacioná-la aos contextos culturais de mães de adolescentes da comunidade do Pirambu e como essas vivências influenciam na comunicação com suas filhas adolescentes.

Segundo Leininger (1991), o Sistema Popular refere-se aos cuidados não orientados pelos profissionais, os quais as pessoas e comunidades desempenham, com assento em conhecimentos ou experiências, culturalmente aprendidos e transmitidos; destacando as experiências pessoais das mães, suas vivências de sexualidade enquanto adolescentes e influências culturais procedentes da família, compartilhadas ou transmitidas às suas filhas adolescentes. Em vista desse contexto, formulamos a seguir, uma figura representativa a partir de confluências entre a categoria Sistema popular e objeto de estudo.

Figura 01. Cuidado de Enfermagem Repadronizado à luz do Sistema Popular e a comunicação mãe e filha

No que se refere ao Sistema Popular, Leininger (1985) reconhece a família como espaço privilegiado de cuidado, onde costuma haver significações de saúde e doença e

práticas próprias de cuidar, originadas de seu contexto sociocultural. Por este motivo, a autora assegura que a enfermeira só poderá desenvolver ações congruentes se interagir com a consciência de que sua cultura pessoal e profissional poderá ser diferente daquela dos indivíduos, famílias e grupos, com quem está atuando, e isto, por sua vez, só será possível mediante o conhecimento da cultura do outro.

Isto significa que a intervenção deve ocorrer não só no sentido de reconhecer a existência de um sistema popular de saúde, e do diálogo entre mães e filhas acerca da sexualidade, sexo e reprodução; mas também de preservar o cuidado já conhecido pelo cliente, seja acomodando-o ou repadronizando-o (LEININGER, 1985).

Este tipo de atitude profissional, a de reconhecer e compreender as diferenças culturais, possibilita um cuidado congruente com as necessidades do indivíduo ou sua família. É que as experiências de vida são vivenciadas de forma diferente pelos indivíduos, o mesmo não se verificando quanto à utilização de um só referencial, o do profissional, formado por seus valores pessoais e profissionais e pautado no modelo biomédico, pois tal modelo privilegia a uniformidade dos valores culturais, os padrões gerais de atendimento à saúde e a universalização de sintomas e patologias.

Em vista do contexto exposto, o referencial teórico de Leininger (1991) é essencial para este estudo, por incorporar a abordagem cultural das pessoas, buscando oferecer cuidados individuais e integrais - um cuidado dentro de uma visão holística que possibilita refletir os modos de vida e/ou influências no bem-estar ou doença.