Para resoLver
o ProbLeMa do
hooLIganIsMo.
CADERNOS FGV PROJETOS | FUTEBOL E DESENVOLVIMENTO SOCIOECONÔMICO
demonstrando a existência do efeito cultivador nos telespectadores, que se impressionam com notícias de violência e acabam acreditando que vivemos em um mundo perverso, mais violento do que, de fato, ele é.3 Na realidade,
os estádios brasileiros nunca foram tão seguros, mas a divulgação de crimes e brigas de torcedores ocorridas bem longe dos estádios gera uma falsa percepção da realidade para a população. O Estatuto do Torcedor prevê a responsabilização objetiva das torcidas organizadas, mas os danos à própria imagem do espetáculo dificilmente são quantificados e, na prática, não são indenizáveis.
Além dos episódios entre hooligans, houve um caso de grave ameaça a um jogador de futebol por um presidente da torcida organizada Young Flu. O jogador Fred foi perseguido por ter sido flagrado de madrugada, no bar Astor, consumindo várias caipirinhas. Com a chegada do líder da torcida organizada, Fred saiu do bar e teve seu carro perseguido. No dia seguinte, noticiou o caso na delegacia de polícia e, sem condições psicológicas, pediu para não jogar mais pelo Fluminense e para ser transferido para outro clube. O caso foi investigado pelo Ministério Público e, com a recusa dos torcedores em se comprometer a alterar sua conduta, foi ajuizada uma ação civil pública. Como resultado, o presidente da torcida Young Flu ficou afastado dos estádios por seis meses, proibição que foi devidamente fiscalizada pela polícia. Ao final, a torcida assinou o compromisso de não assediar moralmente os jogadores, ameaçá-los, agredi- los, depredar seu patrimônio ou invadir treinos, sob pena de ser banida dos estádios por até três anos. Desde então, nenhuma torcida ameaçou qualquer jogador no Rio de Janeiro e os protestos contra baixa performance têm sido pacíficos. O torcedor violento ficou inelegível por período de oito anos na torcida organizada. Na saída da audiência, o ex- presidente da Young Flu contestou o trabalho do Ministério Público, citando Vigiar e Punir de Michel Foucault,4 para criticar as punições
aplicadas às torcidas organizadas.
Na verdade, o trabalho do Ministério Público não é repressivo, mas regulatório. Não busca extinguir as torcidas organizadas, mas regular
sua conduta, minimizando os atos de violência, reduzindo os riscos sociais e os danos causados pela violência. É, além disso, um trabalho pragmático, um exercício cotidiano de controle das transgressões coletivas, impondo sanções aos violentos e premiando os pacíficos com o pleno acesso aos estádios. Já fomos criticados por sermos brandos demais. O jornalista Zuenir Ventura, por exemplo, defendeu a extinção das torcidas,5 mas parece uma opção melhor
acompanhar e controlar as agremiações do que proibir sua existência tendo a ilusão de que isso, por si só, extinguiria o fenômeno social. Já fomos criticados por sermos rigorosos demais. O professor Maurício Murad defende apenas a punição individual dos torcedores violentos, sendo contra a suspensão coletiva das torcidas.6 É curioso um sociólogo ignorar
que a violência é um fato social provocado pela coletividade e que, como regra, os chefes de torcida enviem novatos para cometer os crimes. Foi assim, por exemplo, na vingança da Torcida Jovem do Flamengo contra a Força Jovem do Vasco, em que as lideranças foram ao estádio monitoradas pela polícia enquanto um ônibus vindo do interior levou outros torcedores para matarem o torcedor vascaíno. Tanto os torcedores individuais quanto a torcida organizada foram responsáveis pelo homicídio.
Não existe fórmula mágica para resolver o problema do “hooliganismo”. Por outro lado, estamos aproveitando experiências de sucesso no Brasil e no exterior para enfrentar a questão,7
buscando uma sintonia fina entre a liberdade de expressão do torcedor e a necessidade de adotarem padrões de comportamento adequado na ida, permanência e retorno dos estádios de futebol. Os resultados concretos obtidos nos últimos anos são promissores, mas existe a necessidade de que a cooperação institucional seja permanente e que os episódios de violência sejam cada vez mais reduzidos. As prisões e suspensões coletivas devem interromper o ciclo de vingança entre as torcidas e tornar cada vez mais raros os episódios de “hooliganismo” que mancham o espetáculo.
Durante a Copa do Mundo, as autoridades terão que enfrentar o desafio de lidar com
4 FOUCAUlT, Michel. Surveiller et punir: naissance de la prison. Paris, França: Gallimard, 1975. 5 VENTURA, zuenir. Torcidas do mal. O Globo, 01/09/12.
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MURAD, Maurício. A violência no futebol. São Paulo, SP: Benvirá.
7 FORTES, Pedro. The law relating to Brazilian Sports Fans: an Introduction for a British audience. Entertainment and Sports law Journal.
Forthcoming.
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torcedores violentos de outros países. O principal desafio também não deve ser nos estádios, devido ao enorme aparato de segurança, à proibição de símbolos clubísticos e ao público diferenciado da Copa do Mundo. A principal preocupação das autoridades brasileiras deve ser com a gestão das multidões nas ruas e nas Fun Fest. Na Copa do Mundo da Alemanha, policiais ingleses estiveram presentes para monitorar os hooligans de seu país. Antes de uma partida, as autoridades inglesas recomendaram aos alemães o isolamento de uma escadaria em uma praça, que certamente serviria de concentração para os hooligans e de plataforma para provocações e brigas com torcedores rivais. O prefeito de Stuttgart desconsiderou a possibilidade de isolar o espaço público e, ao final do dia, a praça havia sido destruída e 375 torcedores ingleses haviam sido presos. Portanto, certos dogmas devem ceder espaço ao pragmatismo e à experiência prática. É essa a postura que temos tido na prevenção e no combate à violência no futebol brasileiro e que devemos ter no maior evento do futebol mundial. A experiência de prevenção e combate à violência nos estádios de futebol parece contrariar as ideias de Leon Tolstói. Em contraste com Guerra e Paz, as torcidas organizadas estão transformando o discurso de seus líderes em uma prática. Nesse processo de pacificação, tem sido fundamental o papel da Federação das Torcidas Organizadas (FTORJ), cujos líderes se reúnem com integrantes das principais torcidas e articulam a conscientização sobre a necessidade de uma mudança de postura. Apesar do sucesso no curto prazo, a efetividade do TAC das Torcidas Organizadas e da cooperação entre Ministério Público, Suderj, Polícia Militar e Polícia Civil somente poderá ser avaliada no longo prazo. Esperamos, sinceramente, que a mudança de conduta das torcidas organizadas seja permanente para o bem do espetáculo.