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KLIMASCENARIOER FRA NETWORK FOR GREENING THE FINANCIAL SYSTEM (NGFS)

Nota-se, pela exposição feita ao longo do Capítulo 3, que a noção de desenvolvimento em Bresser não foi a mesma ao longo de sua carreira. Inicialmente, esteve fortemente vinculada à ideia de padrão de vida. Contudo, essa associação acabará por ficar confinada apenas a seus primeiros escritos (primeira edição de DeCB). O que permanecerá, até certo ponto, é a influência do estruturalismo cepalino, principalmente Celso Furtado, e do pensamento isebiano, mais precisamente, de Ignácio Rangel.

Ao longo dos anos 1970 e início dos 1980, a leitura bresseriana de desenvolvimento será fortemente influenciada pelo marxismo (EeSI, EB, LAC). Conceitos como forças produtivas, classes sociais, acumulação do capital, mais-valia entre outras comporão seu vocabulário mais constante.

Contudo, de meados dos anos 1980 em diante, ainda que mantenha as grandes linhas de seu conceito de desenvolvimento, Bresser passa a enfatizar a noção de “produtividade” a partir de uma perspectiva de macroeconomia (LAC). As leituras marxistas anteriores não se apagam completamente, mas se diluem em meio a abordagens e linguagens típicas de gestores e formuladores de política econômica.

Essas reformulações podem ser associadas a sua trajetória intelectual e de militante. Principalmente suas mudanças em meados dos anos 1980 poderiam ser caracterizadas como uma ruptura, assinalada pelo próprio Bresser como uma “transição intelectual” em direção à admissão de que o nacional-desenvolvimentismo estaria superado no Brasil.

Este período, que se estende de meados dos anos 1980 até o início dos anos 2000, é dominado pela formulação da teoria da crise do Estado. Tal crise foi interpretada por Bresser em termos de esgotamento: do nacional-desenvolvimentismo enquanto estratégia e do Estado enquanto investidor direto. Seria necessário adotar reformas orientadas para o mercado. O objetivo, contudo, não seria o Estado mínimo dos neoliberais, mas sim um Estado reconstruído, ainda forte, mas com outros papeis. Desenvolvimento, neste período, é praticamente reduzido à busca da “eficiência”.

Por outro lado, a ideia de nação esteve, na maior parte do tempo, associada à de desenvolvimento. Talvez, a tese da incompletude da “Revolução Nacional Brasileira” dos anos 1970 e sua reformulação nos anos 2000 como “perda da ideia de Nação” seja o elemento mais constante no pensamento de Bresser, capaz de dar um mínimo de sentido às suas mudanças de posições, teóricas e políticas.

Mais precisamente, não se defende aqui que o conjunto da produção acadêmica de Bresser, assim como sua trajetória política e posições assumidas ao longo desta, sejam plenamente explicáveis por uma ideia – de nação, no caso – que permaneceria inalterada ao longo do tempo, como um farol a guiar suas guinadas de direção. A intenção aqui é mostrar como temas recorrentes – desenvolvimento,

desenvolvimentismo, nação, classe média, (tecno)burocracia – foram sendo definidos e redefinidos, arranjados e rearranjados de acordo não somente com o processo de maturação intelectual de um autor, mas também, e principalmente, de acordo com os contextos pelos quais Bresser transitou.

Contextos não apenas históricos, socioeconômicos ou políticos, mas também linguísticos (POCOCK, 2003; SKINNER, 2000). O pragmatismo da ação política permite e justifica rupturas. Porém, as ações não se justificam por si mesmas. Esse trabalho de justificação é basicamente intelectual – ainda que não imune às relações de poder – e, nesse sentido, formular e difundir ideias é também agir politicamente.

Ao longo de sua carreira, Bresser-Pereira empregou uma variedade relativamente ampla de linguagens e teorias (marxismo, keynesianismo, neo-institucionalismo, teorias da administração, etc.) para discutir a problemática do desenvolvimento, mas, ao mesmo tempo, sempre se declarou como filiado e fiel à linhagem do estruturalismo latino-americano – principalmente Celso Furtado e Ignácio Rangel.

Suas movimentações teóricas estiveram intimamente associadas às posições políticas e/ou cargos públicos ocupados ao longo de sua carreira. Ou melhor, ao longo de sua trajetória política, acadêmica e profissional, Bresser-Pereira participou diretamente de debates sobre os principais problemas nacionais brasileiros (no CEBRAP, por exemplo), ao mesmo tempo em que construiu sólida carreira no meio empresarial (ligado ao grupo Pão de Açúcar) e, principalmente a partir dos anos 1980, com partidos políticos (PMDB e depois PSDB) e atividades governamentais. Este seu intenso trânsito, para além dos meios acadêmicos strictu sensu, nos meios empresariais, na militância partidária e em cargos governamentais, colocava-o diante de duas grandes alternativas: reduzir sua produção intelectual ao mínimo necessário para subsidiar sua atuação política e/ou governamental; ou fazer da produção intelectual um meio de atuação política. Claramente, Bresser-Pereira escolheu a segunda opção.

A maioria dos intelectuais, quando começam a se envolver mais diretamente com algum tipo de atividade política (partidária e/ou governamental), tende a “falar menos” – isto é, agir politicamente por outros meios e empregar outros tipos de recursos que dado cargo propicia. Bresser-Pereira, contudo, aproveitou quase todas as oportunidades que teve, além de criar, aproveitando a visibilidade que cargos públicos propiciam, novas oportunidades para continuar a “falar”, e falar ainda mais sobre os grandes temas nacionais. É por isso que sua produção intelectual é um caso que permite uma privilegiada observação analítica a partir do contextualismo lingüístico, que parte justamente do pressuposto de que “falar” é agir também.

Observada de um ponto de vista temporal ampliado, a produção intelectual de Bresser parece uma sucessão de análises conjunturais, formuladas para propósitos diversos, dirigidas a públicos diferentes e, devido a tudo isso, elaborada em “linguagens” diferentes a fim de ampliar seus efeitos ilocucionários (ou, na terminologia do contextualismo linguístico, “lances discursivos” com pretensão de serem “decisivos”).

Ao invés, contudo, de reduzir a obra de Bresser a um amontoado informe de análises de curto prazo, propõe-se aqui buscar elucidar os nexos entre seus textos de maior fôlego, e em menor número, e a ingente massa de textos conjunturais por ele produzida. E, nesse sentido, a combinação de um uso bem específico e restrito da noção de linhagem (“forma persistente de pensar”) e o aporte do contextualismo linguístico (quanto mais linguagens disponíveis, maior a polissemia do discurso) é de grande valia.

Dessa forma, em meio às rupturas e polissemias de Bresser, dois marcos delimitam os limites de seus (amplos) movimentos. Duas “constantes” em seu pensamento: de um lado, a tese da incompletude da nação brasileira e, assim, de seu desenvolvimento também – ideia que atravessa sua produção intelectual ao longo de mais de 4 décadas de pesquisas e militância; de outro, a sua filiação à linhagem do estruturalismo latino-americano.

Portanto, e por tudo isso, declarar-se filiado à linhagem do estruturalismo (ou pelo menos a uma determinada interpretação sobre o que seria tal “linhagem” de pensamento) e fiel à luta pelo desenvolvimento nacional (redefinido “pragmaticamente” de acordo com as conjunturas) permitiu a Bresser-Pereira estabelecer um ponto de referência geral a partir do qual ele pode operar variadas movimentações intelectuais e políticas em contextos diversos. Movimentações essas intimamente associadas às posições políticas e/ou cargos públicos ocupados ao longo de sua carreira. Assim, vista em seu conjunto, a produção de Bresser-Pereira parece ser marcada apenas ou principalmente por rupturas fortes e mudanças drásticas de opinião e posição, principalmente nos períodos nos quais ocupou cargos governamentais. Contudo, onde aparentemente predominam rupturas, pode-se encontrar, mais precisamente, uma combinação complexa entre continuidades/regularidades, rupturas e retomadas, todas referidas aos dois principais eixos temáticos do pensamento de Bresser – desenvolvimento e nação – e à linhagem da qual ele se considera um seguidor e continuador – o estruturalismo latino-americano.

Recolhendo-se as linguagens empregadas – conjunto de termos, conceitos, estilos de argumentação e raciocínio etc. –, as aproximações feitas – influências decisivas no tratamento teórico de algum tema – por Bresser ao longo de sua trajetória, propõe-se o quadro sinóptico da página seguinte.

QUADRO 2