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KLIMAFORHOLD VED BERGEN-BRYGGEN

O segundo Encontro Nacional ocorreu somente em 1984, contando com a presença de cinco grupos, e nos encontros seguintes, do terceiro ao sexto, entre 1989 e 1992, com a presença de seis grupos.

A discórdia quanto à vinculação a partidos políticos ou à autonomia do movimento tornou a acirrar-se em 1993, durante o sétimo Encontro Nacional, realizado em um instituto da Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT, na cidade de Cajamar, interior de São Paulo, com a participação de 22 grupos. Nessa época, ocorriam debates nacionais sobre a Constituinte, que introduzira modificações na Constituição Brasileira. Como os partidos de esquerda, notadamente o PT, que abriga grande parte de militantes homossexuais, haviam se posicionado contrariamente à revisão, o grupo alinhado ao PT, majoritário no encontro, decidiu que o movimento não deveria incluir a luta pela inserção de adendos sobre a expressão “orientação sexual” no artigo da Constituição que trata dos direitos dos cidadãos, reivindicadas por ativistas independentes. Trevisan (2000) relata o episódio:

Apenas lideranças homossexuais isoladas compareceram à Assembléia Constituinte, em Brasília, para debater e pressionar, mas seu esforço foi em vão [...] e a luta pelos direitos de homossexuais foi, mais uma, vez subjugada aos interesses partidários, num retrocesso que fazia ecoar a batalha travada dentro do velho SOMOS, na década anterior. (p. 367)

Durante a revisão constitucional, o então Deputado Federal Fábio Feldman do Partido Social Democrático Brasileiro (PSDB), de São Paulo, apresentou uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), com o intuito de alterar o inciso XXX do art. 7° da Constituição Federal de 1988, incluindo a orientação sexual entre as causas proibitivas de diferenciação salarial, mas a proposta sequer foi apreciada. Deve-se observar que uma antiga divergência interna do movimento voltou também a aflorar nesse sétimo Encontro Nacional: as lésbicas, desde o surgimento do movimento, sentiam-se duplamente discriminadas, por serem lésbicas e por serem mulheres e, ainda, constituírem minoria no movimento, e queriam que, no nome do encontro, se acrescentasse o termo lésbica. Em relação ao ano de 1993 deve-se lembrar também que foi o primeiro ano em que aconteceu um encontro de travestis.

De uma maneira perversa, não só no Brasil como em todo o mundo, a Aids foi o acontecimento mais impactante para o movimento homossexual. Castells (1999), ao

analisar o efeito que a Aids causou na comunidade gay da cidade norte-americana de São Francisco, assinala “ser correto afirmar que o movimento gay mais importante dos anos 80 e 90 é a ala gay do movimento anti-AIDS, em suas diversas manifestações” (p. 253).

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 39, o primeiro diagnóstico de Aids no Brasil aconteceu em 1980, e, àquela época, muito pouco se sabia sobre a doença. Considerada inicialmente como doença de “bicha rica” que tinha acesso à Europa e às saunas de Nova York (EUA), posteriormente verificou-se que a Aids não tinha predileções nem por orientação sexual, nem por classe social, nem por idade, nem por sexo. Entretanto, é fato que ela foi contraída por inúmeros homossexuais, artistas, intelectuais e militantes de projeção nacional, como Cazuza, Renato Russo, Thales Pan Chacon, Carlos Augusto Strazzer, Lauro Corona, Herbert Daniel, só para citar alguns. A mídia conservadora e sensacionalista não tardou em nomeá-la “peste gay”, “câncer gay”, e várias lideranças religiosas fartaram-se em dizer que finalmente a ira divina se manifestava e punia merecidamente quem praticava o pecado nefando.

Os militantes homossexuais assumiram diferentes posições diante da Aids. Como se acreditava que até mesmo um simples aperto de mão de um portador da doença poderia transmiti-la, acirrou-se o preconceito da sociedade, e muitas lideranças homossexuais fecharam-se e preferiram o silêncio.

Mas o pavor provocado pela doença e o sentimento de impotência fizeram com que outros militantes arregaçassem as mangas e se aproximassem dos órgãos de saúde, tanto para assegurar-se de que não seriam discriminados nas campanhas de prevenção e de tratamento, para garantir solidariedade e tratamento aos infectados pelo vírus HIV e para que, unidos a agentes de saúde, empreendessem campanhas de prevenção em ambientes frequentados por homossexuais, onde, indubitavelmente, seriam mais bem recebidos e ouvidos do que os agentes de saúde que não compreendiam a dinâmica homossexual.

Para o Estado, era interessante contar com um exército que sabia transitar nas frentes de batalha, na subcultura gay, que era de difícil apreensão por agentes de saúde que não se identificassem com ela. Para o movimento, a aliança com órgãos estatais também interessava, já que o Estado passava a subsidiar projetos de prevenção à Aids.

A relação entre a Aids e movimento homossexual é muito controversa, porque apresenta vantagens e desvantagens para o movimento. Por um lado, a doença provocou a morte de milhares de homossexuais, entre eles, algumas lideranças do movimento. Mas, por outro, trouxe à discussão pública, e com veemência de imagens, a existência do preconceito contra homossexuais, revelando o comportamento das famílias que abandonavam seus doentes e depois passavam a lutar por seus bens.

Segundo Parker (1994), os primeiros grupos gays a alinharem-se com projetos de prevenção foram o GGB, da Bahia, e o Atobá, do Rio de Janeiro. O autor noticia ainda que, entre 1985 e 1991, “mais de cem organizações não-governamentais de serviços à Aids tinham surgido”, dirigidas a gays, a prostitutas e à população em geral (p. 97).

Trevisan (2002) e Golin (2002), porta-vozes da linha autonomista40 do movimento, viam com preocupação e desagrado a relação de dependência que o movimento passou a travar com órgãos públicos de saúde. Golin (2002) assim afirma o seu repúdio a essa relação de dependência e de sujeição:

A maioria dos grupos gueis do Brasil coloca em seus estatutos que são ONGS Aids, pensando assim em disputar o dinheiro público com aquelas que efetivamente surgiram em decorrência da epidemia. A bem da verdade são grupos gueis que só querem mais dinheiro público, e assumem quaisquer papéis para garanti-lo. É a submissão total. Acabam compactuando com campanhas conservadoras, como a redução de números de parceiros e a monogamia como métodos de prevenção. (2002, p. 159).

A Aids constituiu, portanto, para alguns militantes, o sustentáculo e a prisão do movimento. Sem a parceria com o Ministério da Saúde (MS), era pouco provável, para não dizer impossível, que o movimento se sustentasse em cadeia nacional41. A mesma parceria, no entanto, segundo Golin, (2002) impediu que o movimento acalentasse