Os dados apresentados, a partir das categorias formuladas demonstram que as duas organizações policiais mineiras têm como valores básicos a hierarquia e a disciplina. Embora apresentem os mesmos pilares de sustentação, os policiais civis apontam que estes não se apresentam, na Polícia Civil, de maneira tão rígida como na Polícia Militar. É apontado também que, os policiais civis são resistentes ao critério da autoridade. Tanto a Polícia Militar
como a Polícia Civil são vistas como conservadoras e tradicionais, o que não impediu aos integrantes da Polícia Militar de percebê-la como uma organização em mudança, em transformação.
A Polícia Civil é vista como uma organização onde não há padronização de procedimentos, assim, ela é percebida como uma organização de características mais pessoais. Nela, a tomada de decisão é pautada em valores próprios e não está baseado na doutrina institucional.
A Polícia Militar enfatiza e cultua seus heróis, pessoas emblemáticas que passaram pela organização e que lhe deixaram um legado a ser seguido. Essas pessoas auxiliaram na transformação da Polícia Militar ao longo de sua história, desde a época em que a polícia era considerada um exército estadual, até hoje. Enfatiza-se o papel de liderança, dentro da instituição, sendo que os líderes são considerados como um exemplo a ser seguido.
A Polícia Militar enfatiza seus valores, ritos, mitos e símbolos como forma de manter a coesão na organização. Enfatiza-se também o importante papel desenvolvido pela Academia da Polícia Militar no processo de socialização de seus membros, onde os futuros oficiais e praças da PMMG são introduzidos nos diferentes rituais, tais como a continência, que é uma saudação devida ao superior hierárquico, a ordem unida, onde o policial militar é iniciado na questão do “corpo único”, o grupo sob um único comando. O aprendizado do hino da PMMG, sempre cantado nas solenidades, especialmente na Academia. O papel desempenhado pela figura de Tiradentes, patrono da PMMG e que serviu em suas fileiras. É ele quem dá o nome à maior comenda concedida pela instituição. Como ritos de passagem, destacam-se: a solenidade de entrega do espadim, aos cadetes, as passagens de comando, bem como o momento em que é permitido ao aluno o uso da farda. Verificou-se que ao longo dos anos, houve uma perda de espaço para determinados rituais, como o da perda da patente, ou ainda os famosos “rastejos”.
Houve também uma perda de espaço para as solenidades cívicas, restando apenas a participação nas comemorações de Sete de Setembro. Uma data bastante comemorada na PMMG é o aniversário da instituição, pois além dos festejos militares, sua comemoração é encerrada com um baile de gala.
Por seu turno, na Polícia Civil, nega-se a existência de heróis ou pessoas emblemáticas para a instituição. Talvez a resistência em se nomear tais pessoas decorra do fato de que, os “heróis” da Polícia Civil, estivessem de alguma forma ligados à ditadura militar. Daí, a necessidade de desvincular, hoje, a instituição dessas figuras. De acordo com os policiais civis, não há na Polícia Civil datas marcantes a serem comemoradas. A única data lembrada é
o aniversário da Policia, mesmo assim, não atrai a atenção de todos. Ainda de acordo com os policiais civis, a instituição, diferentemente da Polícia Militar, não é apegada a rituais. Acredita-se que essa afirmativa tenha sido feita no sentido de reforçar as diferenças existentes entre as duas organizações. Deve-se destacar que dentro da própria Polícia Civil a forma de tratamento entre superior (delegado) e os subordinados, enseja toda uma forma diferenciada de se relacionar, pois o delegado é sempre tratado por “doutor”. Outro ponto a ser destacado, refere-se ao inquérito policial. Nele, está embutido todo um ritual a ser seguido pela autoridade policial, até que esse inquérito seja enviado ao Ministério Público.
Com relação ao processo de integração, este é visto por todos como um processo positivo, mas não consolidado. Enquanto na PMMG ele é visto mais como um espaço de boa convivência, na Polícia Civil, chega a ser visto como apenas um marketing governamental.
De acordo com os entrevistados da PMMG, a cultura de cada uma das organizações é vista como um aspecto dificultador no processo, especialmente naquilo que diz respeito à disciplina e comprometimento de seus integrantes. Há uma desconfiança entre os membros das organizações. Pode-se dizer que, grande parte do efetivo tanto da Polícia Militar quanto da Polícia Civil, não foi preparada para a integração, apenas comunicada. Os policiais militares percebem a sua própria organização como mais “veloz” do que a Polícia Civil, que necessita ser modernizada. A Polícia Civil é vista como defasada em relação à PM.
Por sua vez, os policiais civis se ressentem de que muitas das demandas colocadas por eles, desde o início do processo, até hoje não foram atendidas, e que o não atendimento de questões prioritárias, pode colocar em xeque a capacidade da integração, na busca de soluções para os problemas da área de defesa social. Os delegados apontam que a sua formação (graduação em Direito) e a formação do oficial da Policia Militar (2º Grau), não poderiam ter sido vinculadas, em termos salariais, pelo ex-governador Itamar Franco.
Para os policiais militares, a integração vai influenciar, tanto no funcionamento da Polícia Militar, quanto no da Polícia Civil e que, assim, as diferenças entre elas tende a diminuir. Para esses policiais militares, a integração evidencia características antagônicas entre as organizações, tais como maior rigidez e conservadorismo na PM, para quem a hierarquia e a disciplina na Polícia Civil, são vistas como “frouxas”. Ainda segundo eles, a integração pode flexibilizar mais a Polícia Militar, ou então, colocar a Polícia Civil numa conduta “mais reta”, isto é, numa conduta mais adequada e isto vai depender da nova geração de policiais. Antes do início do processo, a integração era vista como uma ameaça de “contaminação” da Polícia Militar pela Polícia Civil.
Os policiais civis destacam que as polícias não são iguais e que a integração é positiva, desde que cada instituição cumpra o seu papel e que, compartilhar não é invadir competências. Os policiais civis também acreditam que uma instituição pode influenciar a outra, mas que o jeito de funcionar é específico de cada uma, pois têm atuações diferentes. Os policiais também acreditam que o governo quer promover a unificação das organizações policiais.
Os pontos positivos do IGESP, segundo os policiais militares são: - o compartilhamento de informações entre as organizações;
- o envolvimento de diferentes atores implicados na questão da segurança pública; - a consolidação de uma doutrina conjunta;
- a discussão de problemas comuns.
Por sua vez, os policiais civis apontam como pontos positivos a possibilidade de aproximação entre policiais civis e militares e o compartilhamento de informações.
Os policiais militares destacam como pontos negativos: - o baixo nível de resolução de problemas no IGESP;
- a pequena participação e responsabilização das unidades especializadas, das duas polícias;
- a cobrança excessiva em cima das companhias e delegacias, sem que lhes sejam dadas as condições adequadas de trabalho, o que pode gerar um descrédito na efetividade do processo.
-questionam sobre qual deve ser o verdadeiro papel do IGESP; Se ele deve estar centrado na performance individual do comandante de companhia e do delegado, ou na performance da área integrada e na verificação de sua melhoria.
Do ponto de vista dos policiais civis, estes destacam como pontos dificultadores do IGESP, a falta de retorno das demandas levantadas pelas delegacias, bem como a cobrança excessiva “em cima” dos comandantes de companhia e delegados.
Verifica-se assim, que são percepções comuns e positivas, a possibilidade que o IGESP deu de aproximar policiais civis e militares, bem como o compartilhamento de informações. Por outro lado, foi percebido pelos policiais civis e militares que, tanto a cobrança excessiva em torno dos responsáveis pelas áreas integradas, quanto a não resolução de problemas afetos às companhias e delegacias, podem ser considerados pontos falhos do IGESP.
Verificou-se também que do ponto de vista dos policiais civis e militares as constantes mudanças ocorridas até 2008, na condução das reuniões, podem ser prejudiciais ao processo e
podem estar contribuindo para o esvaziamento das mesmas. Destaca-se ainda que esse esvaziamento pode ser um sinal de descrédito no processo, principalmente porque, tanto por parte de alguns setores das polícias, quanto por parte da SEDS, muitos de seus representantes não têm poder de decisão. Alguns também percebem esse esvaziamento como sinal de resistência ao processo. Outros a consideram normal, como um ajustamento, já que ele passa a ser incorporado como uma rotina de trabalho. Neste caso, o risco aí, é de que seja apenas mais um ritual a ser cumprido, perdendo-se todo o significado que ele enseja. Tanto os policiais civis quanto os militares, acreditam que o processo necessita ser revigorado, oxigenado e que ele deve ser conduzido por uma pessoa de ampla aceitação e de conhecimento na área. As constantes trocas na coordenação, até o final de 2008, pode ser vista como uma desvalorização do IGESP.