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Em primeiro lugar, é importante esclarecer o que Bohm entende por “informação”, que difere, por exemplo, da concepção de Shannon, adotada por Chalmers. Para Shannon, a

111 É interessante ressaltar uma diferença quanto a isso entre o holismo bohmiano e o holismo de Smuts, para

quem o todo é produto de uma Evolução Criativa, sendo que, no início, não existia a mente ou o espírito; apenas com a evolução, na qual o orgânico surgiu do inorgânico, eles surgiram da matéria e, agora, são reais (SMUTS, 2010, p. 174). Como vimos, Bohm defende que os aspectos mental e material existem em toda a realidade, porém, no nível microscópico, talvez seja mais adequado dizer que há um aspecto quase-mental, uma vez que, nesse nível, existe informação guiando o movimento das partículas e transformando as suas relações com tudo o mais, embora não exista consciência.

informação é algo puramente abstrato e não tem a ver com significado. Já, para Bohm, a informação é uma parte do significado de uma comunicação, o que é afirmado num contexto no qual ele considera que a velocidade da luz é a velocidade máxima de propagação de um sinal. Sinal, em inglês, signal, vem de sign, e quer dizer ‘apontar para algo’ tanto quanto ‘ter significado’ (BOHM, 1980, p. 156). Para Bohm (1980, p. 161, tradução nossa), “[...] mudar a ordem é mudar o significado [...]”, pois a “[...] ordem não é separável do significado do sinal [...]”.112 Informação, nesse sentido, refere-se não apenas à estrutura formal, mas também a um sentido implícito ou significado e, como veremos a seguir, esse sentido implícito está relacionado a um aspecto ontológico e não apenas conceitual.

Como vimos, a atividade da informação que guia o movimento do elétron é semelhante ao papel da atividade da informação na nossa experiência subjetiva cotidiana (BOHM, 1990, p. 271). O conceito bohmiano de ‘informação’, que vem de ‘in-formar’, significa literalmente ‘dar forma a’, assim a informação ativa tem como função dar forma às propriedades físicas ao mesmo tempo em que se revela nelas (BOHM, 1990, p. 279). “A ideia básica da informação ativa é que uma forma [ordem implícita que existe num campo quântico], que tem muito pouca energia, entra e dirige uma energia muito maior”113 (BOHM; PEAT, 2011, p. 84, tradução nossa).

Bohm utiliza a noção aristotélica de causa formal para explicar a atividade da informação. Segundo ele, atualmente compreende-se “forma” como apenas uma roupagem externa, porém, para o filósofo grego, a causa formal referia-se a “[...] uma atividade

formadora interna, que é a causa do crescimento das coisas, bem como do seu

desenvolvimento e distinção de suas várias formas essenciais.”114 Assim, por exemplo, a causa formal de um carvalho seria “[...] o movimento total da seiva, o crescimento das células, a articulação dos ramos, folhas etc., que é característico desse tipo de árvore e diferente do que ocorre em outros tipos de árvores”115 (BOHM, 1980, p. 15-16, tradução nossa, grifo do autor). Bohm (1980, p. 17, tradução nossa) afirma que, “Evidentemente, a

112 Conforme o original: “This order is not separable from the meaning of the signal (i.e., to change the order

is to change the meaning).

113 No original: “The basic idea of active information is that a form, having very little energy, enters into and

directs a much greater energy.”

114 Conforme o original: “However, in the Ancient Greek philosophy, the word form meant, in the first instance,

an inner forming activity which is the cause of the growth of things, and of the development and differentiation of their various essential forms.”

115 No original: “[...] is the whole movement of sap, cell growth, articulation of branches, leaves, etc., which is

noção de causa formativa é relevante para a visão da totalidade indivisa no movimento fluente, o que se constatou estar implicado nos modernos desenvolvimentos da física, notavelmente na teoria da relatividade e na teoria quântica.”116 Explica também que, numa linguagem moderna, poderíamos compreender isso como “[...] um movimento interno

ordenado e estruturado, essencial para aquilo que as coisas são”117 (BOHM, 1980, p. 16- 17, tradução nossa, grifo do autor). O que explicitamente demonstra a importância e a união das noções aristotélicas de causa formal e causa final que continuariam sendo importantes para compreender a realidade.118

Uma caracterização interessante feita no artigo publicado em 1990, intitulado “A new theory of the relationship of mind and matter”, é que o aspecto mental, como já vimos, estaria relacionado ao conteúdo da informação que está potencialmente ativo e em comunicação com outras ordens implícitas, enquanto que o aspecto material estaria relacionado ao conteúdo da informação que está atuando ativamente para dar forma/organizar outros níveis de informação. Nas palavras de Bohm,

Do lado mental, ela [a informação ativa] é um conteúdo informativo

potencialmente ativo. Mas do lado material, ela é uma atividade atual que opera

para organizar os níveis menos sutis, e estes servem como o “material” sobre o qual a operação acontece. Assim, em cada nível, a informação é a relação ou a

ponte entre os dois lados.119 (1990, p. 282, tradução nossa, grifo nosso)

Bohm parece empregar, aqui, os conceitos aristotélicos de potência e ato, apesar de não fazer referência direta ao filósofo grego, não obstante o tenha citado expressamente a respeito da causa formal. Aristóteles inaugurou a ideia da inseparabilidade entre forma e matéria, sendo que, para ele, a forma está mais relacionada ao ato, enquanto que a matéria está mais relacionada à potência120 (ABBAGNANO, 2000, p. 468). Nos estudos de Bohm,

116 No original: “Evidently, the notion of formative cause is relevant to the view of undivided wholeness in

flowing movement, which has been seen to be implied in modern developments in physics, notably relativity theory and quantum theory.”

117 No original: “[...] an ordered and structured inner movement that is essential to what things are.”

118 Como veremos no capítulo 4, as noções de causa formal e causa final também são importantes para a Teoria

dos Sistemas Dinâmicos (Cf. JUARRERO, 1999, p. 125-126).

119 No original: “From the mental side, it is a potentially active information content. But from the material side,

it is an actual activity that operates to organize the less subtle levels, and the latter serve as the ‘material’ on which such operation takes place. Thus, at each level, information is the link or bridge between the two sides.”

120 Para Aristóteles, a matéria é qualificada por sua forma e a forma só é percebida por meio da matéria, por

isso não existem independentemente. Em suas palavras “[...] se a matéria é eterna, por ser ingênita, com maior razão é lógico admitir que o seja a forma, que é o termo para o qual tende a matéria em seu devir. Se, com efeito, não existisse nem esta, nem aquela; nada existiria” (Meta., B 4, 999 b 7-28).

percebemos uma sutil diferença,121 pois, ao considerar os aspectos mental e material como partes de um mesmo processo, o primeiro caracteriza-se pela potencial atividade da informação, enquanto o outro, pela atividade expressa/atual daquela. Por isso, o conceito de informação ativa revela a participação entre os aspectos mental e material da realidade.122

Isso parece acontecer quando, por exemplo, estamos percorrendo o caminho habitual do trabalho para casa, mas pensando que poderíamos pegar alguns desvios e irmos por rotas alternativas. Ao percorrer o caminho habitual do trabalho para casa, o conteúdo dessa informação relacionada ao ‘trajeto trabalho-casa’ está em atividade atual, guiando o comportamento que se dá quase involuntariamente. Mas, ao pensar nos caminhos alternativos, o conteúdo da informação relacionada ao ‘trajeto trabalho-casa’ está em

potencial atividade. Ao mesmo tempo em que esse conteúdo está em atividade, ele também

está em potência e, portanto, o mesmo conteúdo informativo pode ser visto tanto do lado mental quanto do lado material. Se ocorre de pegarmos algum dos desvios alternativos pensados, seja simplesmente pelo desejo de mudar o caminho ou porque há uma barreira impedindo a passagem pela rota habitual, o conteúdo informativo ‘trajeto trabalho-casa’, que estava em potencial atividade, passa a guiar o comportamento; assim, transformando-se num aspecto material em atual atividade.

Diferentemente do que acontece no Princípio do Duplo Aspecto proposto por Chalmers, na perspectiva de Bohm, não haveria uma independência entre os aspectos mental e material da realidade, mas uma participação na qual um aspecto contribui para a existência do outro. Bohm (1990, p. 284) critica o uso do termo ‘interação’ para referir-se à ‘relação’ mente-matéria, pois, como vimos, para ele, o uso desses termos leva à compreensão de que existem duas coisas independentes entre si que, em algum momento, interagem, o que é enganador.

Segundo Bohm (1990, p. 283-284), o modo essencial de relação como participação refere-se tanto ao “participar de” quanto ao “tomar parte em” através do envolvimento das partes no todo e do todo nas partes. Existem diferentes níveis de sutileza de informação e os

121 É importante atentar também que, apesar de Bohm adotar muitos conceitos aristotélicos, ele não compactua

com a noção de que exista uma “substância” que é a “forma”, o “eidos” entendido como uma “essência” imutável das coisas materiais (Cf. Meta., A 2/3, 983 a 19-b13). Para Bohm, não existe uma essência das coisas nesse sentido, pois tudo está em constante transformação pelas suas relações com o universo. A totalidade é absoluta, uma vez que ela não depende de nada mais para a sua existência, mas isso não significa que ela não se modifique (BOHM, 1957, p. 170).

122 No capítulo 4 defenderemos que a informação ativa pode ser interpretada como expressando a interação das

quatro causas formal, final, eficiente e material. O aspecto mental, como a potencial atividade da informação, seria compreendido como a causa eficiente que coloca em movimento o aspecto material, causa material, e a informação existente que se comunica com as outras, seria compreendida como a causa formal e final da nova ordem.

níveis mais sutis atuam organizando os menos sutis. Isso está de acordo com a ideia, já apresentada anteriormente, que a informação ativa é uma forma que tem muito pouca energia, mas que entra e dirige uma energia muito maior (BOHM; PEAT, 2011, p. 84). Pode- se considerar que há uma participação entre os níveis na medida em que há uma comunicação. Segundo Bohm (1990, p. 284, tradução nossa),

Através do envolvimento, cada tipo e nível relativamente autônomo de mente em um ou outro grau participa do todo. Por meio disso, ele participa de todos os outros em sua “coleta” de informação. E pela atividade dessa informação, ela, do mesmo

modo, toma parte no todo e em cada parte.123

Essa participação dos aspectos mental e material permite compreender porque, quando lemos um texto em uma folha, nós assimilamos as formas das letras impressas ao invés da substância do papel e esses conteúdos de informação manifestar-se-ão ativamente nas nossas atividades posteriores (BOHM, 1990, p. 281).

Dessa forma, a perspectiva bohmiana a respeito do entrelaçamento dos aspectos mental e material, que se dá a partir da atividade da informação, é capaz de explicar a conexão psicofísica sem cair num epifenomenismo. O aspecto mental (como potencial atividade da informação) teria ‘poder’ sobre a matéria na medida em que coloca em movimento124 a informação ativa e, na medida em que tal informação atualiza-se, ou seja, dá forma a alguma base material menos sutil, transforma-se em um aspecto material. Como potência e ato são dois aspectos de um mesmo processo, percebe-se o quanto um aspecto é necessário ao outro.

Assim, o aspecto mental constitui-se como um princípio do movimento, que, por estar em potência, tem poder de colocar algo em ação, enquanto que o aspecto material constitui- se na base material sobre a qual aquela ação opera dando forma às propriedades físicas. Essa explicação é a chave da tão desejada compreensão do problema mente-corpo. Diante disso, a perspectiva bohmiana difere bastante das posições amplamente discutidas em Filosofia da Mente e, ao nosso ver, é válido explorá-la como uma alternativa satisfatória para superar o

123 No original: “Through enfoldment, each relatively autonomous kind and level of mind to one degree or

another partakes of the whole. Through this it partakes of all the others in its ‘gathering’ of information. And through the activity of this information, it similarly takes part in the whole and in every part.”

124 Fica claro, novamente, uma influência aristotélica com o uso desses conceitos. Segundo Aristóteles, a causa

eficiente é responsável por gerar movimento ou repouso (Fís., II 3, 194 b 36/195 a 26). E a potência, para ele, é o princípio do movimento ou da mudança em outra coisa ou em si mesma como outra (Meta., IX 1, 1046 a 14-35). Voltaremos a esses conceitos no capítulo 4, item 4.1.2.

problema do reducionismo e do epifenomenismo ainda presente, por exemplo, na posição de Chalmers com relação à consciência fenomênica.

A participação entre os aspectos mental e material na realidade seria a chave para uma compreensão não-reducionista e não epifenomenista da consciência fenomênica. No entanto, a caracterização do aspecto mental, na perspectiva de Bohm, não inclui necessariamente a consciência, que estaria presente apenas em ordens implícitas de níveis superiores. Assim como Chalmers, Bohm considera que a consciência só existe em ordens muito sutis e complexas, mas como as ordens menos sutis também teriam um aspecto mental que dão forma ao aspecto material, fica um pouco mais claro como a consciência fenomênica poderia surgir de um nível protofenomênico (nos termos de Chalmers), aqui relacionado ao aspecto quase-mental da realidade de ordem inferior.