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Helseøkonomisk evaluering

Vedlegg 6. Kjennetegn ved inkluderte systematiske oversikter

O paradigma de “homem” que sustenta a clínica da parentalidade encontra ressonância na concepção de Safra. Este autor entende que desde a sua concepção, o ser humano vai se constituindo nos encontros com o outro- humano, por meio de sensações, idealizações, transmissões transgeracionais inconscientes. É pela condição originária do humano, sua precariedade, que a dependência de cuidados físicos e afetivos no nascimento é absoluta. Para que o bebê possa transformar potencialidades inatas, características genéticas herdadas, em recursos que o instrumentalize nas exigências e experiências cotidianas do seu presente e do seu devir, é fundamental os cuidados de uma mãe devotada (WINNICOTT, 1983, 2002; SAFRA, 2005).

Em seu texto “Corpo e imagem: em busca da presença”, Safra escreve:

O ser humano, a fim de que possa acontecer, emergir como si- mesmo, precisa iniciar seu processo de constituição a partir de uma posição, de um lugar (não de uma falta). Esse lugar não é um lugar físico, é um lugar na subjetividade de um outro (grifo meu). Não é verdade que o fato de uma criança ter nascido garanta que ela tenha tido um início como subjetividade. Há necessidade, para o acontecer humano, de que a criança seja recebida e encontrada por uma outra subjetividade humana, que lhe dê esse lugar, que lhe proporcione início de si mesma.O ser humano não pode ser abstraído da relação com um outro (SAFRA 2001, p.18).

É fundamental para a construção subjetiva que no encontro da criança com um outro-humano ela possa ser inserida numa rede simbólica de narrativas, de tradição, filiação, de crenças e valores, que marcarão não só sua forma de ser, mas a de ver e interpretar o mundo social. A criança é desde então, incluída num sentido temporal.

Ainda citando Safra:

É um tempo que acontece a partir do ritmo da corporeidade humana. A presença humana significa o respirar, o batimento cardíaco, o ciclo de mamadas em aparecimento de tempo e subjetividade. São ritmos que indicam a presença de um outro, banham o corpo da criança com a presença do outro. O corpo da criança por meio de variações de temperatura, texturas, luzes e formas, reencontra no mesmo gesto ou formas estéticas a presença de si e a presença materna. Com isso quero assinalar que a origem da subjetividade se dá nesse registro das trocas sensoriais que alcançam o registro dos códigos significantes, elementos que indicam a presença humana e que originam o idioma da dupla mãe-bebê (SAFRA 2001, p.19).

A partir dessas considerações, o autor resgata o registro das sensações estéticas como fundantes da subjetividade e como uma forma elementar e emergente do bebê para se comunicar com o outro.

Estas concepções de Safra encontram ressonância nas pesquisas atuais de Stern (1992) e de Trevarthen (2005) com seus registros em vídeo das interações que ocorrem entre as mães e seus bebês. Elas apontam para o sensível que ocorre nas comunicações não-verbais, sensoriais, corporais entre a mãe e o bebê.

Se os psicanalistas winnicottianos nos levam a refletir seriamente sobre a importância da qualidade do contato nas relações primárias do bebê

com seus cuidadores e para o ambiente facilitador, Bowlby (1969) e Ainsworth(1989) assinalam a importância do comportamento de apego precoce na organização dos padrões de relacionamentos adultos. Com Stern (1992) e Trevarthen (1979), a sintonia da relação precoce pais-bebê ganhou mais ênfase e um olhar ampliado para a ressônancia e empatia como atributos importantes na comunicação sensorial que acontece entre pais-bebê. Já Fonagy (2000) e Schore (2002) enfatizaram para a capacidade de mentalização dos pais, acolhendo as manifestações emergentes do bebê, atribuindo-lhe intenção.

Em relação à comunicação entre a mãe e o bebê no desenvolvimento saudável, F. Dolto (1934-1988) reconheceu, em muitas das crianças que tratava, que as doenças pareciam ter origem psicológica inconsciente e, assim, tornou-se uma das primeiras psicanalistas da França nos anos de 1930 a se interessar pela escuta do inconsciente no seu trabalho com crianças. Como pediatra, levava os pais a refletirem sobre o fato de que o sofrimento maior do ser humano é não se comunicar com os outros e orientava-os para a comunicação com seu bebê: “Não compreendo o que você

quer me dizer, mas sei que quer me dizer alguma coisa. E gosto de você”

(DOLTO 1990, p. 137-138). Dolto não pensava que a loucura fosse estrutural, mas consequência de um nefasto encontro. Para ela, o psicótico possui uma representação da realidade sensorial diferente da dos outros, pois ele não foi reconhecido pela pessoa que se ocupou dele quando criança. Projeções dos cuidadores sobre a criança impediram desta ser vista em sua alteridade. Desta forma, as percepções que se cruzam no tempo e no espaço, entre a dupla, não se combinaram de modo a formar um eixo onde as sensorialidades pudessem ser compartilhadas.

Enfim, o acontecer humano vai se constituindo em rede, por meio de registros oriundos de experiências de encantamento, comunicações sensoriais e não-verbais. É por intermédio desta primeira organização que o bebê vai se desenvolvendo, amadurecendo, apropriando-se de crenças, valores culturais e religiosos e fazendo, ou não, adaptações que o mundo exterior impõe ao seu ser.

Safra22 diz que o ser humano é ontologicamente aberto ao ser. Em seus estudos sobre as facetas que tornam o ser em humano, percebe-se que ele enfatiza um novo registro constituinte do ser, um registro anterior a qualquer organização psíquica e mental. Registro que acontece pela capacidade do ser em poder ser encantado, ser tocado pelas experiências do bem e do mal e, antes mesmo do seu amadurecimento, antes que possa contar com uma organização física e mental, com sua abertura ontológica a ser, o homem está aberto à sensibilidade.

A clínica com bebês e crianças requer um olhar para além do corpo biológico em desenvolvimento. O estudo do desenvolvimento humano é uma das áreas mais importantes da Psicologia contemporânea, já que nesta área os domínios intrapsíquico, interacional, intergeracional imbricam-se e demandam mais pesquisas privilegiando a multidisciplinaridade e olhar para mais um novo e surpreendente espaço intersubjetivo predominantemente sensorial, intuitivo, estético, nem totalmente interno, nem totalmente externo a cada um dos integrantes. Um espaço que é co-criado no encontro de dois humanos e afetado pela subjetividade de cada participante, produzindo transformações que atingem cada um na sua subjetividade, constituindo novas subjetivações.