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As bases do conhecimento fenomenológico passam pela reformulação do papel que assume a lógica daqui em diante. Ao que estamos nos dedicando, a lógica está sob forte influência da psicologia, que acaba especificando o domínio de objetos desta disciplina.

Uma das primeiras tarefas a que Husserl (2009b) se propõe é a de especificar o mais detalhadamente possível, qual é o novo domínio de objetos desta nova ciência dos fenômenos. Esse percurso começa pela purificação desta nova ciência, evitando a repetição de alguns equívocos cometidos pela psicologia.

Incomparavelmente mais perigoso é, ao contrário, uma outra imperfeição na delimitação do domínio de uma ciência, é a confusão dos domínios, a mistura de coisas heterogêneas e sua junção na unidade pretendida de um único domínio, sobretudo quando ela repousa sobre uma interpretação totalmente errônea dos objetos do qual a investigação deve ser o objetivo essencial da ciência em questão. (p. 22, tradução nossa)

A definição de um novo domínio de objetos passa necessariamente, pela própria definição que a lógica assumirá em sua proximidade com a fenomenologia. Portadora de várias controversas, faltava à lógica, clareza do que tange às delimitações do alcance de sua investigação. Não estavam suficientemente claros quais as relações que internamente se traçavam entre a subjetividade do conhecer e a objetividade do conteúdo do conhecimento.

A percepção que se tem é que se esses princípios gerais, intrínsecos à própria identidade da lógica, não estavam bem evidenciados e fundamentados, o risco de confusão e equívocos eram iminentes46. A lógica era uma ciência que estava reduzida, em grande parte,       

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Segundo Husserl (2009b), esta tarefa já havia sido iniciada por vários outros filósofos, mas todas resultaram infrutíferas, “É esta mesma ciência que Kant e os outros representantes de uma lógica ‘formal’ ou ‘pura’ tinham em vista, mas que eles não tinham captado e determinado nem seu conteúdo (Gehalt) e nem sua extensão (Umfang)” (p. 24, tradução nossa).

ao domínio técnico de seus símbolos, como uma arte, e necessitava, para Husserl, ser refundada em princípios a priori transcendentais.

Uma das primeiras definições dadas por Husserl, em busca dessa clareza, diz respeito ao próprio conceito de ciência que estará vinculado aos fundamentos da lógica pura.

A ciência não quer nem deve ser o campo de um jogo arquitetônico. A sistematização que é própria à ciência, naturalmente à ciência verdadeira e autêntica (echten Wissenchaft), não somos nós que a inventamos, ela reside nas coisas onde nós apenas a encontramos, a descobrimos. Ela se propõe em nosso conhecer, como o meio de conquistar o domínio da verdade, entendido em seu sentido mais lato possível; mas o domínio da verdade (Wahrheit) não é um caos inorganizado, ela executa a unidade da lei. (2009b, p. 30, tradução nossa)

A concepção de ciência, descrita acima, vinculada a ideia de verdade, acompanhará Husserl durante todos seus trabalhos posteriores47. Ela é fundamental para o que se define em relação à evidência, como fim próprio de todo conhecimento. Há um pressuposto a esta ideia de ciência, que necessariamente, por ordem interna, está vinculada a um método, e que há verdades que são somente apreendidas como tais, se elas forem fundadas metodologicamente a partir de determinadas leis.

A lógica até então definida como disciplina normativa, principalmente, em Brentano, fundada em princípios gerais, tinha a função da verificação técnica do conhecimento. É evidente para Husserl, que este conceito de lógica deverá ser alargado em vista dos fundamentos da nova ciência, não se reduzindo a uma mera técnica (DASTUR, 1995, p. 23).

Segundo esse autor, Kant questionava o caráter prático ou tecnológico que a lógica vinha assumindo, designando-a principalmente a uma função que regula as regras do uso do entendimento, submissa às condições internas do sujeito. O espaço que Kant procurará estabelecer para a lógica, compartilhado em certa medida pelo próprio Husserl, é o de, primeiramente, restringir suas fronteiras, refutando seu caráter prático e confirmando seu caráter explicitamente teórico. Concede-se, assim, a ela, independência em relação às outras ciências, ao se fundamentar unicamente em princípios a priori.

Husserl vê em Kant, no que se refere a sua concepção de lógica, que embora seja portadora sob certos aspectos, de um caráter normativo, por exemplo, ao que se é aplicado à

      

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 Até mesmo em uma de suas últimas obras, “A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental” (1935), essa noção de ciência, com seus devidos aprofundamentos se fará presente. 

ética, estabelece a possibilidade de superação do caráter prático, em vista de fundamentos exclusivamente teóricos, a que a lógica verdadeiramente deveria se apoiar48.

Uma questão que deve ser esclarecida é em qual ciência exatamente se encontram os fundamentos teóricos das disciplinas normativas, ou mesmo da teoria das ciências? Concentrando-se sobre esta questão de fundo, Husserl iniciará seu longo processo argumentativo de desconstrução da psicologia como “ciência teórica”, sobre a qual a lógica poderia estabelecer seus fundamentos.

A controversa com o psicologismo centra-se sob um ângulo de análise bem preciso de investigação, que Husserl procura esclarecer desde o início. Sua crítica de modo nenhum pretende desmerecer a contribuição que a ciência psicológica trás no estudo da natureza da psique humana, sua estruturação e seus fundamentos psicofísicos. Ela se concentra fundamentalmente no campo teorético, do esclarecimento dos fundamentos de uma lógica pura e do conhecimento a priori49.

A discussão que Husserl trava com a psicologia e seus defensores é importante para nosso objeto de pesquisa. Sobre os pilares desta crítica, se apoia o recorte que Husserl ensaia de fazer, num âmbito geral, à especificação de seu objeto de pesquisa e do método necessário ao estabelecimento de seus limites e fronteiras. Partindo da concepção corrente da lógica, como disciplina técnica, constatou-se que esta, em seus argumentos teóricos, apresentava deficiência quanto a seu caráter fundacional. O que irá argumentar Husserl é que os fundamentos da ciência lógica normativa não se encontram na psicologia, como muitos acreditavam estar, mas numa outra esfera investigativa da ciência teórica que, para abrir-se à sua análise, necessita confrontar e superar o argumento psicologista a que a lógica estava vinculada até então.

Na tarefa refutativa, Husserl se dedicará quase que exclusivamente na sequência do primeiro volume de “Logische Untersuchungen”, intitulado, “Prolegomena zur Reinen

Logik”, se concentrando na análise negativa do argumento psicologista. As teses das quais se

apoiam os psicologistas é composta por uma variedade de argumentos que atendem aos mais variados fins. Husserl, na verdade, se confrontará não só com psicologistas contemporâneos, mas com uma tradição já constituída em torno da psicologia, como ciência da natureza humana. No âmbito mais geral, é para uma ideia de ciência que Husserl se confrontará, e que       

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“O interesse normativo nos comanda naturalmente no que se refere, em particular, aos objetos reais, enquanto objetos de avaliação prática; onde a propensão incontestável em identificar o conceito de disciplina normativa com esta de disciplina prática, de tecnologia” (HUSSERL, 2009b, p. 50, tradução nossa).

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Segundo Husserl, a psicologia mesma participa também da fundação da lógica, “[...] mas que ela não participe de uma maneira privilegiada, nem que ela forneça seu fundamento essencial” (p. 71, tradução nossa).

no momento, em seu aspecto mais visível e concreto, se reflete na teoria psicologista de conhecimento.

O mosaico em que se estrutura a argumentação psicologista para o fundamento da lógica, como disciplina teorética, ao qual se opõe Husserl, embora perpasse uma grande variedade de autores, se concentra em alguns pontos bem precisos50. O primeiro deles, e como pressuposto mais geral, é o de que a lógica não possui por si só seus fundamentos; ela é, como Husserl crítica, se opondo a Lipps, em sua essência identitária, uma disciplina psicológica (HUSSERL, 2009b). Por razões de constituição, ao determinar a psyché como lugar onde se produz o conhecimento, a lógica passa a ter uma dependência originária no psíquico.

Os que se diferenciam desta posição psicologista, entre eles Kant, argumentam que a lógica, ao contrário da psicologia, não se apoia em leis contingentes do pensamento, mas em leis necessárias. Por contingente e necessário, vincula-se a ideia de que o primeiro segue uma simples descrição da natureza da atividade do pensar, o “modo como pensamos”, enquanto que o segundo segue, estritamente, em que condições deve correr a experiência do pensamento, as leis do “como devemos pensar”.

Um segundo elemento que constitui este mosaico psicologista é quanto ao seu princípio de natureza. As consequências teóricas e epistemológicas deste princípio é que ele acaba caindo num “empirismo”. Descrevendo a atividade do pensamento no “como ela é”, a psicologia acaba se tornando uma ciência dos “fatos”, que tira todo seu conteúdo representativo da pura “experiência” da vida psíquica51. Em vez de um rigor, a que se propõe a lógica pura, ela se limita, pelo caráter próprio da experiência, à teorias vagas, e destas, como consequência, só podem se constituir regras vagas (HUSSERL, 2009b, p. 73).

O psicologismo, seguindo o princípio da descrição da natureza do psíquico, não consegue estabelecer os fundamentos a priori em que a lógica deseja se alicerçar, como princípios válidos universalmente, em regras regidas pelo próprio intelecto, “Nenhuma lei natural é conhecida a priori, nem suscetível ela mesma de ser fundada na evidência intelectual” (p. 69, tradução nossa).

A consequência deste “não a priori” do psicologismo é de que suas descrições da atividade do pensar seguem as leis da indução psicofísica, elaboradas a partir de fatos empíricos particulares.

      

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Só para citar, se colocam neste grupo: F. Brentano; J. S. Mill; Th. Lipps; Ch. Sigwart; W. Wundt; G. Heymans, etc.; os anti-psicologista, principalmente E. kant, J. F. Herbart, R. H. Lotze.

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Husserl cita um exemplo deste tipo de psicologismo, que descreve as leis de associação das ideias, “Uma vez que se dá ao trabalho de formular adequadamente seu sentido que se justifica empiricamente, elas perdem, não obstante, seu pretendido caráter de lei” (2009b, p. 73, tradução nossa).

Ora, a indução não funda a validade absoluta da lei, mas somente sua maior ou menor probabilidade desta validade; é a probabilidade e não a lei que é aqui justificada com evidência. Desde então, as leis lógicas, elas também e sem exceção, teriam necessariamente o valor de simples probabilidades. Ao contrário, nada parece mais evidente que de fato as leis ‘puramente lógicas’ (rein logischen), em seu conjunto, são válidas a priori. (p. 74, tradução nossa )

A probabilidade, assim, não possui caráter de verdade e de evidência absolutos, em que deseja se fundamentar a lógica pura. Sendo probabilística e causal, a psicologia não pode ser ao mesmo tempo conhecimento apodítico e dubitável, o que expressa seu limite e inexatidão.

Um terceiro elemento deste mosaico psicologista, e como consequência das posições anteriores, se assenta exclusivamente sobre os dados do real, cum fundamento in re, como salienta Husserl “Meditações Cartesianas”. O psicologismo desconhece, por descrever fatos da experiência, os fundamentos da lógica pura, do conhecimento ideal. Assim, um abismo se abre diante do que descreve o psicologismo, e do que descreve a teoria das ciências de leis puras, e consequentemente, do distanciamento entre o objeto real e ideal, “E não há nenhuma gradação concebível que seja suscetível de estabelecer na mediação entre ideal e real” (HUSSERL, 2009b, p. 80, tradução nossa).

As distinções feitas acima, se alimentam internamente sobre uma ‘espécie’ ideal de verdade, que é possível de ser alcançada pelo conhecimento, que por razões genéticas e de origem é atemporal.

Nenhuma verdade é um fato (Tatsache), ou seja, qualquer coisa que se determina no tempo. Uma verdade pode sem dúvida significar que uma coisa é, que um estado de coisas existe, que uma modificação tem lugar, etc. Mas a verdade (Wahrheit) ela mesma transcende toda temporalidade, ou seja, que não há nenhum sentido a lhe atribuir uma existência temporal , uma aparição ou desaparição. (p. 87, tradução nossa)

Husserl acaba criando dois campos de análise opostos, o psicológico, que segue leis reais, está do lado das afirmações existenciais dos fatos, do método indutivo e da análise empírica, consequentemente, de resultado duvidoso; e o da lógica pura e da ciência teórica, que segue leis ideais, com o método intuitivo de análise, consequentemente, indubitável52. Ao contrário do que se pode imaginar a primeira vista, Husserl não quer criar um dualismo, da afirmação do último sobre a total negação do primeiro, mas especificar um campo de investigação, soberano, distante dos fundamentos psicologistas, que não recebeu a devida       

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Husserl (2009b, p. 81) cita o exemplo do argumento no modus ponens, que é uma lei válida para não importa qual proposição.

atenção de nenhuma disciplina, inclusive da própria filosofia. Nela, poderão se assentar todas as ciências, inclusive à psicologia.

Assim, o confronto entre estes sistemas epistemológicos constituídos em bases reflexivas no real ou empírico, como é a psicologia, e em análises de evidências puras, como é o idealismo fenomenológico, alimentará desde o início a própria teoria fenomenológica, descrevendo, no momento, o que ela não é, para em seguida, em suas obras posteriores, especificar internamente sua estruturação essencial. Essa distinção, que se fundamenta em análises negativas da teoria psicológica, marcará a própria identidade da fenomenologia como crítica a ela, estabelecendo um novo domínio de objetos, que no atual momento investigativo de Husserl são apenas concepções gerais a serem investigadas e aprofundadas com mais rigor, o que exigirá outros desdobramentos em sua filosofia.