A teoria de August Lösch, que ficou conhecida no conceito síntese por “Cone de Lösch”, foi construída a partir de estudos dos problemas da localização em economias de mercado.
64 Para aquele teórico é possível construir um determinado “equilíbrio possível entre as localizações” por meio das “regiões econômicas” (LÖSCH, 1957, p. 100). As regiões econômicas – um conceito eminentemente econômico e geográfico (geoeconômico) - seriam a resultante de forças das condições de equilíbrio geral de mercado, detectáveis a partir das teorias do preço24.
Para que ocorra o equilíbrio das localizações, Lösch (1957 p. 94-98) aponta a ocorrência de 05 (cinco) condições essenciais, quais sejam:
Condição 1 – A localização do indivíduo deve ser, para ele, o mais vantajoso quanto possível;
Condição 2 – A existência de localizações numerosas e espaços totalmente aproveitados;
Condição 3 – Devem desaparecer as ganâncias extraordinárias (cada ofertante deve estar circunscrito a sua área de mercado);
Condição 4 - As regiões de produção, compra e venda devem ter extensão mínima possível; e
Condição 5 – Nas bordas das regiões econômicas é nula a força de ligação de localidades com relação ao núcleo pertencente (existem linhas de indiferença em relação a regiões vizinhas).
Esquematicamente, a Figura 3.11 permite uma compreensão melhor da interação econômica que se constrói a partir do efeito distância, conforme a observância das condições do Modelo de Lösch. Conforme dispõe esta figura, ao preço (p) tem-se a demanda (q1); com a majoração do preço pela distância (m), tem-se o preço (p+mt) (distância do ponto (m) ao ponto (p) multiplicado pelo custo unitário do deslocamento) o que implica na redução da quantidade demandada até o ponto (q2). De igual modo, para o consumidor, situado no ponto (r), o preço do bem lhe custará (p+rt) (distância do ponto (r) ao ponto (p) multiplicado pelo custo unitário do deslocamento), o que reduzirá a demanda para a origem da curva, ou seja, para 0.
Considerando a liberdade dos deslocamentos dos agentes de mercado em todas as direções e, conforme a queda da quantidade consumida com o incremento da distância para o
24 A teoria do preço envolve as relações intrínsecas à economia clássica. O aumento dos preços implica em
65 consumidor devido aos custos de transporte, o comportamento da redução do consumo medida pela relação preço-distância obedece ao descrito na Figura 3.11- item (B).
Figura 3.11 – Variações preço-distância e preço-quantidade de um bem ou serviço. (A) Interação preço-distância; (B) Interação preço-quantidade. O preço aumenta com a distância, enquanto a quantidade consumida declina com o aumento do preço.
Fonte: Adaptado de Berry (1967).
A Figura 3.12, por sua vez, evidencia o comportamento da quantidade demandada em relação à distância sob uma perspectiva tridimensional. A quantidade (q1) seria aquela cujos demandantes estaria a uma distância 0, enquanto que na distância (m), a quantidade demandada cai para a quantidade (q2). Na distância (r), a quantidade demandada zera.
.
Figura 3.12 – Cone de demanda espacial de Lösch. Fonte: Adaptado de Lösch (1957) e Berry (1967).
66 Lösch (1957), ciente da inexistência da forma circular pura, propõe que a interação entre as regiões de mercado vizinhas seja convertida em um hexágono regular, aproveitando a dimensão do círculo. O hexágono seria o polígono geométrico que menos se afastaria da geometria circular e permitiria uma cobertura maior por unidade de área
Para Lösch (1957), a racionalidade hexagonal na distribuição de mercados constitui uma verdadeira “rede”, conforme evidencia a Figura 3.13.
Figura 3.13 – Desenvolvimento de redes de mercado: da circunferência ao hexágono (situação (A) para a situação (D)).
Fonte: Adaptado de Losch (1957).
Lösch (1957, p. 114), em relação à forma geométrica ideal das regiões econômicas, afirma:
Resumindo, podemos comprobar que el hexágono simétrico será la forma más ventajosa para la región, tanto más cuanto más grande y redondeada se a la región total, cuanto más elástica sea la demanda em el limite regional y cuanto más la distancia de envio necesaria se acerque a la distancia posible.
67 É interessante salientar que a elaboração da teoria econômica de Lösch foi posterior a de Christaller, tendo inclusive a obra Teoría Económica Espacial (editada em espanhol) realizado 11 citações do livro Central Places of Southern Germany de Christaller. As citações são sempre convergentes, entre outros aspectos, à opção pela geometria do hexágono regular como polígono de distribuição ideal de mercados e de população.
O trabalho de Lösch considera um mercado sob condições de monopólio (MONASTÉRIO; CAVALCANTE, 2011), sem, portanto, o controle das forças livres de mercado. Suas contribuições teóricas colaboraram, inclusive, na fundamentação dos princípios específicos de orientação de investimentos em economias planificadas.
Sobre a orientação e o dirigismo de investimentos por regiões de mercado do modelo loschiano e a situação de monopólio, é pertinente afirmar que “[...] os planejadores de localização nos países socialistas inspiram-se nos trabalhos de Weber e Lösch” (IAN HAMILTON, 1975, p. 197).
Assim, faz-se necessário observar que, não obtido a formação hexagonal ideal, é possível constatar a hipótese da existência de áreas neutras cujas abrangências das “regiões econômicas” são nulas, o que implica na indiferença de preferência do consumidor na escolha de um ofertante (A) ou (B). A Figura 3.14 evidencia esquematicamente tal situação, que também pode ser denominada de duopólio.
Figura 3.14 – Zona onde a escolha dos consumidores é indiferente entre (A) e (B). Fonte: Berry (1967, p. 113).
O próprio Lösch (1957) defende a regulamentação da economia25 para que se obtenha “condições de equilíbrio”. Para aquele autor, as condições de equilíbrio “constituyen los
principios fundamenales de todas las intervenciones estatales” (LÖSCH, 1957, p. 100).
68 O viés metodológico da teoria de Lösch apresenta-se como de caráter dedutivo geral, com princípios e condições comuns a todos os lugares. A teoria de Christaller, de igual modo, possui a mesma filiação metodológica.