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5. Diskursen rundt likestillingsloven

5.3 Kjønnsdiskriminering – på hvilke premisser?

5.3.1 Hvor konstrueres kjønnsdiskriminering å være et problem?

5.3.1.2 Kjønnsdiskriminering som et privat anliggende

Esta pesquisa teve por objetivo geral compreender como a história de vida, a trajetória familiar e social e a transmissão geracional influenciam no processo de construção do papel materno de gestantes usuárias de crack e outras drogas. Como já amplamente descrito na literatura a relação mãe e filha é fundamental na estruturação do papel de mãe e quando essa relação tem sua trajetória inscrita em contexto de vulnerabilidade e há uma falta de identificação da filha para com sua mãe, esse processo fica comprometido. Entretanto, como constatado nos casos estudados nesta pesquisa, essa fragilidade relacional não inviabilizou a apropriação do papel materno, mas exigiu das mulheres a busca por referenciais maternos positivos, em outras relações pessoais, com os quais pudessem se identificar como tias e amigas. No entanto, diante do cenário de exclusão e falta de recursos tanto econômicos quanto sociais, essa possibilidade de construção do papel materno ficou comprometida, pois esta busca as levou para o contexto da rua e da drogadição, fazendo com que rompessem com as suas famílias e se aliassem a pares e companheiros também em situação de vulnerabilidade.

Consideramos que os objetivos da pesquisa foram contemplados, como veremos a seguir. Um dos objetivos era: conhecer a história de vida, vivência como filha, história da gravidez e consumo de drogas, de gestantes usuárias de crack e outras drogas no que diz respeito aos aspectos sociais e familiares relacionados à construção do papel materno. Foi possível perceber a existência de um movimento das participantes em busca de referenciais positivos, mas prejudicado pelo rompimento dos vínculos maternos e paternos (pais mortos ou ausentes), o que dificultou a construção do papel materno a partir da vivência do papel de filha. A reaproximação com a mãe só ocorreu quando elas engravidaram. Momento este em que encontram nas suas mães algum tipo de suporte, mesmo essas mães não sendo referência de afeto e cuidado.

Nas trajetórias das participantes, descritas neste trabalho, foi possível vislumbrar a constante busca dessas mulheres por contexto de pertencimento o que as levou a envolver-se em diversos relacionamentos amorosos e de amizades com um padrão relacional similar àqueles de suas famílias de origem, onde eram constantemente desqualificadas. Com relação aos parceiros amorosos, para permanecerem casadas se anularam, perdendo sua identidade. Os pares e parceiros também usuários ou traficantes, ampliavam sua inserção e permanência no contexto da rua, violência e drogas. E por fim aparece o desejo de que o filho supra algo em suas vidas sendo a gestação uma oportunidade de buscar ajuda. O filho surge então como

um presente, que às insere em um lugar: o da maternidade possibilitando a vivência de um papel familiar e social: papel de mãe.

Outro objetivo foi buscar reconstruir a história transgeracional das famílias de gestantes usuárias de crack e outras drogas nos aspectos relacionados à construção e vivência dos papéis maternos e filiais, história da gravidez e o consumo de drogas nas diferentes gerações. Este foi um ponto de difícil acesso nas histórias das participantes, uma vez que nenhuma delas tinha contatos estreitos com a família extensa. Isto ocorreu porque suas famílias eram migrantes de outro estado brasileiro, cujos pais vieram para Brasília em busca de melhores condições de vida e os vínculos com essa família eram fracos ou inexistentes, ocasionando a falta de uma rede familiar e social de apoio. O estudo da dinâmica familiar apontou para pais ausentes, alcoolistas e mães sobrecarregadas pelo trabalho para garantir o sustento familiar, contribuindo para um maior distanciamento no relacionamento com os filhos, além de uma postura mais rígida por parte das mães, e o cuidado das filhas acabou sendo delegado a terceiros.

O último objetivo foi compreender a influência da trajetória familiar e social na construção do papel materno de gestantes usuárias de Crack e outras drogas. A partir do conhecimento da trajetória de migração e rompimentos da família das participantes com as famílias de origem foi possível notar que houve uma dificuldade em estabelecer uma função parental organizadora e estruturante da personalidade; e os limites e o afeto ficaram prejudicados nas relações familiares com essas filhas. Foi discutida a dificuldade das mães, em lidar com sua feminilidade e com a da filha o que contribuiu para uma lacuna relacional. Os pais, por sua vez, mesmo com a vivência do alcoolismo, ainda conseguiam dar alguma afetividade às filhas, mas morreram, quando estas ainda eram crianças dificultando a estruturação de um contexto protetor. Sem pertencimento ao seu contexto primário (a família) as mulheres desta pesquisa recorreram ao social em busca de vinculação e o uso de droga surge então, como uma busca pela própria identidade. Além disso, a droga como algo comum às histórias paternas acaba se inserindo rapidamente em suas vidas como contexto de pertencimento, junto aos grupos de pares, simbolizando uma continuidade histórica de histórias familiares rompidas.

1 – Nas três histórias os caminhos percorridos e as trajetórias sociais são diferentes: Claudia tem referências familiares apesar de ambivalentes, e quando necessita recorre a esses vínculos como uma opção de ajuda; Camila não possui referências de família nuclear viva e nem sabe sobre sua história familiar, o que a leva a buscar contextos de pertencimento junto a pares e à comunidade onde mora desde criança; Cristiane apesar de ter uma família não se vincula à mesma e recorre a vivência nas ruas, como um contexto de pertencimento. Cada uma dessas mulheres foi buscar um caminho para lidar com seu processo de individuação e de pertencimento e formar sua própria identidade de acordo com suas histórias e talvez com as opções que se apresentaram ao longo da sua história de vida.

2 - A trajetória social dessas mulheres foi marcada pela busca de contexto de pertencimento, e elas trilharam seu caminho por meio da saída da família para a rua, e quando já no social, seguiram rumo à marginalidade. Na busca pelo pertencimento as mulheres desta pesquisa acabaram se relacionando com pessoas que estavam no contexto do uso de drogas, sejam relacionamento amorosos ou amizades, o que foi cada vez mais solidificando a questão do uso de drogas como uma forma de se relacionar e se inserir.

3 – Estas mulheres são fruto de histórias de perdas e negligências afetivas, e assim produzem filhos que além de submetidos ao uso de drogas desde antes do nascimento, também tem grande chance de ter em sua história perdas e negligências afetivas assim como suas mães, gerando um ciclo geracional infindável. Isto aponta para a necessidade de que sejam pensadas formas de construir novos referenciais maternos e de vida com essas mulheres, com espaços para reedição de suas histórias com outras características.

4 - As histórias transgeracionais das três famílias apresentam um rompimento com as famílias de origem. As mães das participantes da pesquisa também possuem, em sua história, uma relação fragilizada com suas próprias mães e pais. As histórias sobre cuidado e a identidade da família parecem se perder junto com o rompimento das mães e pais das participantes com suas próprias famílias de origem. Deste modo, as participantes da pesquisa são filhas sem acesso a sua história familiar, consequentemente sem acesso a sua própria história. E aí fica a questão: COMO TRANSMITIR O QUE NÃO RECEBEU?

5 - As histórias que se perpetuam através das gerações são aquelas relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, o padrão de consumo abusivo de álcool do genitor é repetido na forma de abuso de drogas pelas filhas. É na impossibilidade de identificação com suas mães,

que essas acabam se identificando com a linhagem paterna repetindo seu padrão de consumo de drogas.

6 - A gravidez e o filho devolvem a visibilidade a essas mulheres, antes invisíveis diante da família, das políticas públicas e da sociedade. Em termos de saúde pública, como a política relacionada à saúde da mulher tem seu foco pautado principalmente na saúde reprodutora da mulher, as participantes são atendidas durante a gravidez, recebendo ajuda profissional inclusive com relação à questão da dependência química. Entretanto, após o nascimento do bebê ela retorna para seu contexto original, e não há um prosseguimento de acompanhamento nem para a questão das drogas nem para a condição da maternidade. Deste modo, não lhe são garantido novos contextos de pertencimento que avalizem a construção de novas relações e nem referenciais positivos que possibilitem a mudança efetiva.

7 – A relação entre as mães e as participantes da pesquisa é retomada quando estas ficam grávidas e têm seus filhos. Neste momento as mães retornam como avós, para cuidar do neto e não da filha. Isto aponta para uma desqualificação destas mães quanto a capacidade de suas filhas em exercer o papel materno. Mas elas também não conseguiram cumprir este papel de maneira plena.

As questões suscitadas irão auxiliar outros estudos sobre o consumo do crack e outras drogas por mulheres e a busca de estratégias de enfrentamento e recuperação da dependência química a partir de elementos para além do consumo de drogas, visualizando como essas mulheres se inserem e se relacionam com o mundo.

Dentre as contribuições desta pesquisa, uma delas é a confirmação do uso de droga como uma forma de lidar com relacionamentos conturbados no âmbito familiar. Além disso, fica evidente que na falta de outras redes e relações de pertencimento, a rua se torna um caminho viável para construção de novas relações e neste espaço essas mulheres encontram as drogas. Em resumo, na falta de relações funcionais com a família de origem, grupos de suporte adequados, amigos e contextos saudáveis e instituições de apoio essas mulheres vão para rua e lá se deparam com as situações de vulnerabilidade inerentes a esse espaço como a prostituição, as drogas e o tráfico.

Dentre as limitações percebidas no contexto desta pesquisa ressalta-se que as mulheres que participaram representam um grupo de mulheres dependentes químicas. Entretanto, não representam a maioria, pelo fato de que em suas histórias foram capazes de aderir a alguma

forma tratamento. Algo ocorreu em suas trajetórias e fez com que elas fossem capazes de se vincular e ter o desejo de mudar suas vidas, o que na prática não ocorre com tanta frequência, visto as inúmeras evasões do hospital por outras pacientes com perfil de dependência química e situação de rua. Ao se trabalhar com amostra de conveniência, as mulheres que se dispuseram a participar já apresentam algum grau de reflexão sobre sua situação o que faz com que se diferenciem da população mais ampla.

Outra limitação encontrada foi o número de participantes, apenas três. Isto ocorreu não apenas ao numero de evasões do serviço, mas também a alta de muitas pacientes com perfil de dependência química, antes que se iniciasse o processo de vinculação à pesquisadora e a desintoxicação. Na nossa experiência, isto ocorre muito pela falta de um protocolo de atuação nesses casos por parte da equipe de saúde, deixando a mercê dos plantonistas o encaminhamento dos casos.

Em termos de potencialidades da pesquisa, acredita-se que a forma como foi conduzida a coleta, numa metodologia que valorizou o envolvimento da pesquisadora com as participantes contribuiu para que fossem acessados dados da história destas mulheres, que não aparecem em contatos superficiais. Isto nos leva a pensar que esta forma de aproximação das participantes pode ser melhor estruturada para viabilizar a construção de uma metodologia capaz não apenas de propiciar uma escuta aprofundada dessas mulheres como também de acompanhá-las neste momento tão delicado que é a gravidez.

Uma metodologia de acesso a estas mulheres é importante, porque quando se trabalha com pessoas em situação de vulnerabilidade extrema, é complexo desejar que estas assumam a postura de autonomia, pois isto pressupõe uma organização psíquica do sujeito para tal e um contexto social organizado, o que estes mulheres, por suas histórias de vida não possuem. Mulheres grávidas dependentes químicas, advindas de contextos de vulnerabilidade necessitam de uma atenção para além dos protocolos de um pré-natal normal, e de encaminhamentos que dependam exclusivamente delas para que sejam eficazes. É necessário não apenas o encaminhamento para rede, mas também, um acompanhamento individualizado que possibilite a transformação deste ciclo transgeracional de rompimentos do vínculo materno. Também é preciso questionar se é possível romper com esse padrão apenas atuando junto às famílias ou seria necessário que se pensasse em políticas públicas que atuassem no contexto social maior, garantindo a inclusão dessas mulheres em outros contextos

Esta pesquisa suscitou reflexões e novas questões para pesquisas futuras e construção de novos conhecimentos sobre o tema que possa ajudar a compreender melhor sobre alguns aspectos relativos à mulheres grávidas usuárias de crack e outras drogas: Como a relação entre mães e filhas pode contribuir para entrada ou não no contexto de uso de drogas? Quais os impactos estruturais e relacionais na família nuclear e extensa, da migração interna de famílias de baixa renda? Quais mudanças na dinâmica familiar devem ser almejadas quando mulheres usuárias de drogas e grávidas iniciam um tratamento? Que aspectos são necessários para que a rede de tratamento de mulheres usuárias de crack e outras drogas ampliem a adesão ao tratamento e a continuidade do acompanhamento da rede após internação?

É de extrema importância que se pense em estudos futuros que proponham protocolos de atendimento a essa população específica que acompanhem de maneira próxima, com um vínculo capaz de um acolhimento desprovido de um olhar estigmatizante e que sejam garantidos espaços de construção de contextos de pertencimento. Também são importantes estudos que consigam alcançar as famílias extensas com o propósito de compreender mais a fundo essas relações familiares que se perdem/rompem com a migração, e seus desdobramentos nas trajetórias desses sujeitos.

Finalmente cabe ressaltar que esta pesquisa foi de suma importância para a pesquisadora, pois permitiu ampliar o olhar sobre um tema tão complexo como o da construção do papel materno quando permeada pela questão do uso de drogas, ampliando o olhar para além do consumo ou tratamento, buscando compreender como essas mulheres se inserem e se relacionam no “mundo” a partir de suas relações primárias no núcleo familiar.