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7. Analyseresultater – mine hovedfunn

7.7 Avslutning og konklusjon

O estigma da loucura acompanha os usuários do CAPS em todo o seu cotidiano. São pessoas que fogem da norma-padrão, marginais a ela. Sofrem com a depreciação da sociedade em relação à sua condição. Carregam consigo um estigma. São considerados diferentes e, por isso, sofrem preconceito. A sociedade destaca seus comportamentos e os coloca como anormais e marginais em uma relação desigual em que o poder hegemônico determina quem pode fazer parte ou não da sociedade do controle.

Para Canguilhem (1995), o normal é um conceito polêmico e dinâmico. Segundo ele, o conceito de normal qualifica negativamente aquilo que não cabe na sua extensão. Essa não é uma relação de contradição, de exterioridade. É uma relação de polaridade, de inversão.

As exigências coletivas são expressas pela normalização das tecnologias da saúde em determinada sociedade histórica. Nesse sentido, Canguilhem (1995) afirma que:

A normalização dos meios técnicos [...] da saúde [...] é a expressão de exigências coletivas cujo conjunto define, em determinada sociedade histórica, seu modo de relacionar sua estrutura ou talvez suas estruturas, com aquilo que ela considera como sendo seu bem particular, mesmo que não haja uma tomada de consciência por parte dos indivíduos. (CANGUILHEM, 1995, p. 210)

No discurso hegemônico, o louco é considerado imprevisível, potencialmente violento e, portanto, perigoso para nossa sociedade. Essa discriminação é justificada por uma pretensa periculosidade do indivíduo louco. A segregação seria a forma mais segura de convivência com a loucura para a maior parte da sociedade. Ter um louco como vizinho, como familiar, ou como usuário de um serviço é algo considerado assustador e causador de desconforto.

Marzano e Souza (2004) afirmam que os usuários do CAPS levam consigo um estigma, uma vez que são considerados pessoas fora da norma. Em sua maioria, os usuários são vistos de uma forma depreciativa pela sociedade, pois, acredita-se, apresentam uma característica específica que os difere da maioria da comunidade. Esses autores afirmam que “A relação da sociedade com o indivíduo estigmatizado nunca é indiferente.” (MARZANO; SOUZA, 2004, p. 581)

Irani: Antes do CAPS em Unaí, para consultar, nós viajávamos para

Uberaba. Aqui eles (médicos) me falavam que eu tava espancando minha filha. O médico daqui falou que eu podia andar o mundo inteiro que eu não ia descobrir o que ela tinha! Em Uberaba, eu falei: ‘Doutor o que você acredita que é isso aí?’ Ele falou: ‘É o emocional que não agüenta! É porque o psicológico dela não resiste.’ Então, na hora em que me deu a alta eu falei: ‘Então o senhor pode me dar um respaldo?’ Ele perguntou para que era o papel. Eu falei: ‘È para levar para um animal lá de Unaí! Eu vou só entregar os documentos para ele!’ Na hora que eu entreguei para ele, ele só passou o rabo de olho assim para mim. Ele ficou sem graça. Eu acho que ele ficou foi sem graça. Eu acho que ele não tinha palavras para falar nada! Eu quebrei a cara dele! Eu não falei nada com ele, se eu fosse falar, ele iria me dar mil desculpas, né? Ele iria me considerar uma doida, como ele me considerou. ‘Eu não sou tão doida igual você acha que sou, né?’ Ele ficou sem graça. Ele ficou tão sem graça, que ele mesmo saiu pra me dar a mão.

Álvaro: Eu morava com a minha mulher, e ela fez uma calúnia

contra mim. Ela foi ao fórum e fez uma medida protetiva contra mim para eu não ver o meu filho. Eu tenho só um filho, só. Eu estou contrariado com esse negócio que eles fizeram lá. Abriu um processo contra mim. Se eu tivesse feito o que disseram que fiz, eu já estava na cadeia. Ela fez uma calúnia contra mim. Disse que eu queria matar meu filho, matar ela. Já teria matado os dois, teria achado uns três ou quatro para matar, principalmente um sobrinho dela que é primo meu. Nessa época, eu fiquei bem preocupado, mas, agora, graças a Deus, eu já estou bom.

Alberto: Também já fui discriminado. Os colegas meus, que eu

andava com eles, me chamavam de ‘Loucão do Alberto’. Eu ficava bravo, queria bater. Teve um dia que a mulher foi na porta da minha casa falar que eu tinha tentado matar o filho dela. Aí ela falou bem assim: ‘É! Lugar de gente doida é no hospício!’ e num sei quê... ‘Pegar umas foice e matar.’ Falou um tanto de negócio com a minha mãe. Minha mãe falou: ‘Não, dona. Eu tava com ele agora mesmo no dentista.’ Tem gente que eu falo e sabe que eu tenho problema de cabeça e aqui ninguém nunca me discriminou, mas, agora, eu não conto pra ninguém mais que eu tenho problema. Sei lá, eu fico meio sem jeito, né? Fico meio sem jeito de contar, porque tem algumas pessoas que eu já contei, depois eu falei: ‘Ah, tem gente que não tá reclamando que eu já contei’.

As vivências de discriminação sofridas pelos usuários do CAPS refletem o medo da violência associada à loucura que existe no imaginário social coletivo. O louco é temido por ser considerado um ser imprevisível e potencialmente violento. O medo e o desconhecimento levam a maioria das pessoas a discriminar o louco. Para grande parte da sociedade, o afastamento do indivíduo considerado louco seria a melhor forma de conviver com a loucura. Em busca de segurança muitos atos de discriminação são justificados pela sociedade em geral.

Também no CAPS podem ocorrer vivências de discriminação. Apesar da proposta terapêutica diferenciada, o espaço do CAPS não está isento dessas ocorrências. São experiências cotidianas que permeiam as relações entres as pessoas que interagem no ambiente do CAPS. Ali podem se repetir o preconceito e a discriminação vivenciados nos outros espaços freqüentados pelos usuários exteriores ao CAPS.

Em nossa sociedade, raramente um louco tem permissão para voltar a pertencer ao grupo dos considerados normais. Ele dificilmente poderá ser incluído como pertencente à ordem disciplinar estabelecida. A loucura é um caminho sem volta. Para a sociedade em geral, prevalece a máxima: uma vez louco, para sempre louco. O indivíduo considerado louco o será para toda a vida. Cançado afirma: “O que me assombra na loucura é a eternidade.” (CANÇADO, 1979, p. 29)

A loucura se relaciona diretamente com o inesperado. O imprevisto que pode se tornar inconveniente e incomoda as pessoas em geral. A maior parte da sociedade deseja prever padrões de comportamento para um melhor controle do indivíduo. A previsibilidade no comportamento de uma pessoa traz conforto a seus pares. Indivíduos que fogem do padrão causam desconforto pela imprevisibilidade de seu comportamento. A loucura é imprevisível, portanto, socialmente repelida. A loucura causa desconforto, gera medo, preconceito e distanciamento.

Para Bazzo (2000), apesar de todos os avanços, a verdade é que a sociedade normatizada não sabe como relacionar-se de frente com a loucura. Ele afirma que a sociedade “vem mantendo apenas por um triz um contato ‘saudável’ com a realidade.” Assim, para Bazzo (2000), a sociedade busca a normatização do louco em uma tentativa de afastar-se do temido enlouquecer.

Considerando a apropriação da loucura pelo código médico, Foucault (1995) afirma que a doença mental se tornou refém de sua própria verdade. Para o autor:

A idéia de uma ‘antropologia psicanalítica’, a idéia de uma ‘natureza humana’ restituída pela etnologia não passaram de pretensões piegas. Não apenas elas podem dispensar o conceito de homem, como ainda não podem passar por ele, pois se dirigem sempre ao que constitui seus limites exteriores. (FOUCAULT, 1995, p. 525)

Foucault (1995) afirma que a conceituação psiquiátrica da loucura, por mais que pretenda um alcance universal, não se aproxima de um conceito geral do ser humano. Para o autor, em momento algum a psiquiatria consegue delimitar o que poderia existir no ser humano de específico, de irredutível, em que o ser humano é experiência, experimentação.