Del 4: Uncanny horror
4.6 Attraktiv uncanny horror i Utburd
4.6.2 Kjærlighetshistorien
Em vários aspectos, o punhado de espanhóis que irromperam nas aldeias muíscas reproduziram os mesmos protocolos que seus compatriotas vinham aplicando desde as Antilhas, tais como: a busca de alianças com os chefes locais, o aproveitamento da infraestrutura e os bens de subsistência autóctones, a tomada de reféns, o uso seletivo de violência extrema para castigar e aterrorizar, e a ampliação das fronteiras ao ritmo da procura de riquezas. As demonstrações de violência pública foram uma arma bastante efetiva, como a amputação massiva de mãos, narizes ou orelhas.183 A tortura Ŕ aplicada principalmente aos caciques Ŕ também foi recorrente. Porém, os muíscas opuseram menos resistência armada do que outros grupos de maior tamanho e hierarquização social como mexicas e incas, ou bem coletivos menores e mais voláteis como os temidos “caribes”, conhecidos por usar flechas impregnadas de erva letal.
Se as perdas humanas por conflitos violentos entre muíscas e europeus não foram muito elevadas, as epidemias ocasionadas pelos germes transportados pelos invasores seriam devastadoras, notadamente as de varíola. A mais severa que está documentada nesta área geográfica ocorreu nos anos 1558-1559, que, segundo o coronista frei Pedro de Aguado causou a morte de 15.000 indígenas.184 Porém, repetiram-se outros surtos nas décadas seguintes.185 Calcula-se que em menos de cem anos a partir da invasão, a população muísca caiu em quase 80% e, diferentemente de outras etnias americanas, não se recuperaria durante o restante do período colonial.186 Existe consenso de que como etnia discernível os muíscas não ultrapassaram a segunda metade do século XVIII, embora pessoas com seu fenótipo e vários de seus costumes sobrevivam disseminados nas populações camponesas dos atuais departamentos de Cundinamarca e Boyacá.187
183 GAMBOA. El cacicazgo muisca, op. cit., p. 221. Sobre um conquista-dor particularmente violento no contexto
da invasão muísca cf. MIRA CABALLOS, Esteban. “Terror, violación y pederastia en la Conquista de América: el caso de Lázaro Fonte”. In: Jahrbuch für Geschichte Lateinamerikas, No. 44, p. 37-66.
184 Apud VILLAMARÍN, Juan; VILLAMARÍN, Judith. “Epidemias y despoblación en la sabana de Bogotá,
1536-1810”. In: COOK, Noble David; LOVELL, George (eds.). Juicios secretos de Dios. Epidemias y
despoblación en Hispanoamérica colonial. Quito: Abya-Yala, 2000, p. 146.
185 FRANCIS, Michael. “Población, enfermedad y cambio demográfico, 1537-1636. Demografía histórica de
Tunja: Una mirada crìtica”. In: Fronteras de la Historia, No. 7, Bogotá, 2002, p. 35.
186 Existem poucos registros da população muísca posteriores ao século XVII. Para uma estimativa cf.
VILLAMARÍN e VILLAMARÍN, “Native Colombia”, op. cit.
187 Por exemplo, a antropóloga Marta Zambrano chama a atenção a respeito da presença de população muísca na
cidade de Bogotá até o século XIX. ZAMBRANO, Marta. “Memoria y olvido en la presencia y ausencia de indìgenas en Santa Fe y Bogotá”. In: Desde el Jardín de Freud. [Revista do Grupo de Pesquisa em Psicanálise e Cultura da Universidade Nacional da Colômbia], No. 4, 2004, Bogotá, p. 56-68.
Voltando ao fio diacrônicos dos eventos, embora os espanhóis penetrassem primeiro nas comarcas do cacique denominado por eles Bogotá, que tinha fama de ser o mais poderoso, este conseguiu fugir e permaneceu escondido por vários meses. Então os cristãos enveredaram em direção norte, guiados por informações sobre o “nascimento” das esmeraldas, que acharam na jurisdição do cacique Somondoco188Ŕ ou Somindoco Ŕ. Pouco depois, atraídos por rumores de outro poderoso senhor indígena, avançaram ainda mais ao norte até o cercado do chefe que chamaram Tunja, a quem conseguiram capturar em agosto de 1538.189 No processo, tentavam reproduzir a tática que já havia sido ensaiada com Moctezuma II Xocoyotzin e com Atahualpa: o derrocamento do líder de estruturas políticas piramidais, logo substituído pela autoridade castelhana.
O Tunja foi liberado assim que pagou seu resgate, mas despojaram-no do poder. O destino do Bogotá foi diferente. Depois da apreensão do Tunja os espanhóis descobriram o seu paradeiro e chegaram à noite. Ao tentar escapar por segunda vez, foi ferido e morto, mas conheceu-se sua identidade só algum tempo depois. A captura do cacique Tunja em agosto de 1538 representou o lucro mais vultoso da expedição: mais de 140.000 pesos de ouro e umas 280 esmeraldas.190 Entretanto, os rumores de um “tesouro” ainda maior, possuído por Bogotá, continuaram a atiçar as esperanças. O Bogotá finalmente foi localizado e assassinado em uma batalha noturna. Seu sucessor, chamado Sagipa, estabeleceu uma efêmera aliança com os espanhóis, mas sua negativa de revelar o lugar secreto das riquezas de seu predecessor, mesmo sob tortura, certamente lhe custou a vida. Com ele, as lendárias riquezas do Bogotá permaneceram inalcançáveis.
Tanto Sagiga quanto o sucessor do Tunja Ŕ chamado Aquiminzaque em algumas fontes Ŕ sofreram torturas e mortes violentas, que deram origem a numerosos processos judiciais contra os conquista-dores envolvidos.191 Destaque-se desde já que Bogotá, Tunja e Somondoco foram as autoridades tradicionais muíscas consideradas mais importantes nas primeiras
188 A esse respeito ampliamos no capítulo 3.
189 Entretanto, de acordo com Jorge Gamboa Ŕ e ao contrário de toda a tradição historiográfica recebidaŔ, num
primeiro momento Quesada não se reuniu com o verdadeiro cacique senão com um de seus parentes, chamado Quiminza. O verdadeiro cacique, de nome Eucaneme, só apareceu quando se sentiu seguro. GAMBOA, “Los muiscas”, op. cit., p. 129.
190 Esse tema também será tratado no capítulo 3.
191 Luis Fernando Restrepo estudou a representação das mortes de Sagipa e Aquiminzaque nas letras
neogranadinas, enfatizando a violência simbólica e real mobilizada pelos ibéricos. RESTREPO, El Estado
relações, embora só as duas primeiras conservassem tal caracterização na historiografia colonial e da etapa nacional.