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Nos últimos anos, vários aspectos da interpretação tradicional acerca da “conquista” dos muiscas vêm sendo reconsiderados. Notadamente, no que tange a informações transmitidas pelos coronistas dos séculos XVI e XVII, boa parte das quais saíram vitoriosas da virada socioeconômica da historiografia colombiana das décadas de 1960 e 1970, e que ainda se reproduzem de maneira pouco crítica, por exemplo, nos manuais escolares. A inspiração para as novas perspectivas sobre essa etapa histórica deve-se em parte à corrente revisionista

199 A lista desses homens e suas respectivas “partes” encontra-se em AVELLANEDA. La expedición, op. cit., p.

304.

200 No capítulo 4 ampliamos esse tema.

201 Sobre a distribuição das primeiras encomiendas cf. GAMBOA. El cacicazgo muisca, op. cit., p. 159.

202 MUÑOZ ARBELÁEZ, Santiago. Costumbres en disputa. Los muiscas y el imperio español en Ubaque, siglo

XVI. Bogotá: Universidad de los Andes, 2015, p. 4.

203 Sobre a evangelização da população muísca e seus problemas no século XVI cf. FRANCIS, Michael. “„La

tierra clama por remedio‟: la conquista espiritual del territorio muisca”. In: Fronteras de la Historia, Vol 5, p. 93- 118; LÓPEZ RODRÍGUEZ, Mercedes. “Los hombres de dios en el Nuevo Reino: curas y frailes doctrineros en Tunja y Santafé”. In: Historia Crítica, No. 19, 1999, pp. 129-152; ídem. Tiempos para rezar y tiempos para

denominada Nova História da Conquista (NHC) ou New Conquest History.204 Dois autores que se enquadram nessa tendência são Jorge Augusto Gamboa e Michael Francis.205

Em um sugestivo artigo, Gamboa aplicou ao caso dos muíscas os mesmos questionamentos que Matthew Restall Ŕ um dos principais representantes da NHC Ŕ havia formulado no livro Sete mitos da conquista espanhola em relação a outros espaços coloniais.206 Para tanto, Gamboa examina através do crivo crítico e com uma ampla experiência nos arquivos coloniais, “ideias errôneas e preconceitos” relacionados com sete pontos geralmente aceites, que poderiam ser enunciados assim: 1) a conquista foi realizada por um exército profissional; 2) tratou-se da vitória de um punhado de espanhóis que combateu heroicamente contra milhares de guerreiros indígenas; 3) o fator decisivo foi o talento militar excepcional dos ibéricos, especialmente dos líderes, ou seja, indivíduos como Colombo, Cortés, Pizarro ou Quesada; 4) a conquista espanhola foi um processo rápido, fácil e total; 5) outro fator que coadjuvou bastante foi o problema comunicativo entre os dois bandos, habilmente explorado pelos espanhóis;207 6) a conquista implicou uma catástrofe de proporções incalculáveis para os indígenas; 7) os espanhóis eram superiores aos nativos do ponto de vista cultural, técnico e religioso, e tal condição foi determinante para sua vitória.

Sem entrar em pormenores, alguns pontos da análise de Gamboa resultam significativos para nosso tema. Para começar, ele contesta o protagonismo exclusivo atribuído aos aventureiros espanhóis e ao líder da primeira expedição, Quesada. Convincentemente, propõe que não foi só o reduzido grupo de 179 hispanos que entrou no altiplano muísca em 1537, pois com eles vinham “milhares de aliados indígenas da região de Santa Marta e do rio Magdalena, sem contar os que se foram unindo ao grupo pelo caminho”.208 Para usar cifras comparativas, em uma expedição comandada por Hernán Pérez de Quesada aos Llanos orientais em 1540, por

204 Para uma aproximação geral a esta corrente cf. RESTALL, Matthew. “The New Conquest History”. In: History

Compass, Vol. 10, No. 2, p. 151-160. Porém, não todas as reinterpretações sobre a conquista muísca recebem influxo de essa corrente. Por exemplo, o interessante artigo, LONDOÑO, Eduardo. “La conquista del cacicazgo de Bogotá”. In: Boletín Cultural y Bibliográfico, Vol. 25, No. 16, 1988, p. 23-33.

205 Também caberia incluir aqui os trabalhos de outros pesquisadores e pesquisadoras da história do Novo Reino

de Granada como José Ignacio Avellaneda, Kris Lane, Santiago Muñoz Arbeláez e Marta Herrera.

206 GAMBOA. “Los muiscas”, op. cit.. RESTALL, Matthew. Sete mitos da conquista espanhola. Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 2006. Edição original em inglês. Gamboa retomou e desenvolveu estas ideias no capítulo 2 do livro El cacicazgo muisca, op. cit., p. 191-253.

207O quinto “mito”, diferentemente dos outros, não procede dos coronistas senão do filósofo e linguista Tzvetan

Todorov no seu clássico estudo A conquista da América. A questão do outro (1982). A meu ver, a discussão sobre o problema da comunicação durante o processo de invasão da América é mais complexa que o tratamento que lhe dá Gamboa e requereria uma abordagem aprofundada.

exemplo, os espanhóis eram 280 e estavam acompanhados por cerca de 8.000-10.000 guerreiros muìscas. Obviamente, todos esses “aliados amerìndios”209 não foram mencionados pelos coronistas nem pelos historiadores do século XIX, e a notoriedade recaiu assim completamente em homens espanhóis com nome próprio, aqueles “varões ilustres das Índias” celebrados nos épicos versos de Juan de Castellanos, um dos primeiros memorialistas do Novo Reino de Granada.

Gamboa também chama a atenção para a problemática concepção global da “conquista” como uma vitória completa e fulminante, ideia atrelada à da rápida extinção dos muíscas e o total apagamento de sua memória-história. Essas visões foram muito caras aos historiadores do século XIX, a começar pelo general Joaquin Acosta, criador do etnônimo chibcha.210 De fato, para Gamboa e outros pesquisadores da NHC, o próprio uso do termo “conquista” criou a falsa imagem de um domìnio absoluto do território que contribui a encobrir “todos os fracassos e conquistas incompletas”, para não mencionar que os principais conquista-dores em termos numéricos realmente foram os nativos americanos e não os hispanos, como se argumenta no livro Indian conquistadors.211 Essas considerações estão em ressonância com os questionamentos do conceito de “conquista” expostos na introdução da presente tese.

Nessa mesma linha, Gamboa questiona três eventos que tradicionalmente se tomavam como ponto de referência para assinalar a conclusão do processo de “conquista” e marcar o começo do perìodo da “colônia”: 1) a morte dos governantes nativos, 2) a fundação de cidades e 3) a repartição de encomiendas. Ele propõe que, no Novo Reino de Granada, a derrota dos chefes não significou o final das comunidades muíscas no curto prazo, tão só a volta a uma situação anterior em que vários cacicados de menor tamanho lutavam para se opor aos demais.212 Os espanhóis tiveram que submeter cada grupo separadamente por meio da repressão e de alianças políticas.

209 Embora consideremos que não seja a melhor, adotamos a expressão “aliados indìgenas” tal como usada pelos

autores da NHC. Do nosso ponto de vista, se aplicada de forma geral para todos os grupos nativos que combateram junto com os ibéricos, corre-se o risco de ocultar situações de coerção nas quais os ditos “aliados” não agiram de forma completamente voluntária.

210 Oscar Guarín chamou a atenção sobre esse ponto em “La civilización chibcha y la construcción de la nación

neogranadina”. In: Universitas Humanística, No. 70, 2010, p. 205-222.

211 MATTHEW, Laura; OUDIJK, Michel (eds.). Indian conquistadors. Indigenous allies in the conquest of Meso

America. University of Oklahoma Press, 2007.

212 A transformação dos cacicados em encomiendas como uma forma mista ou híbrida de organização social

hispano-ameríndia a partir da segunda metade do século XVI foi analisada por Santiago Muñoz Arbeláez em

Pode-se acrescentar que a tese de uma rápida e definitiva vitória espanhola parece ainda mais arraigada no caso dos muíscas do que em outros povos americanos. No influente artigo sobre esse grupo ameríndio, publicado no Handbook of South American Indian,213 o antropólogo norte-americano Alfred Louis Kroeber indicou que sua resistência aos espanhóis foi fragmentada e ineficaz. Supostamente, não defenderam as “cidades” nem livraram grandes batalhas. O essencial da “conquista” dos muíscas teria se completado em menos de um ano, e assim que a “desesperada resistência” dos caciques de Tausa, Simijaca, Ocabita e Subachoque foi controlada e já no final de 1541, “the last of the Chibcha had submitted”.214 Kroeber remata com um juízo peremptório relativo à incapacidade defensiva dos muíscas que reproduz o imaginário da época colonial: “Their political structure, which had not sufficed to overcome even the unorganized Panche [seus inimigos tradicionais], failed conspicuously to hold against Spanish aggression”.215

Ao invés de pensar uma “conquista” rápida e total, condensada nos anos 1537-1540, Jorge Gamboa e outros pesquisadores fazem um convite para estender bastante o escopo temporal. Segundo ele, a dominação efetiva foi um processo que se prolongou por mais de cinquenta anos e que “nunca se completou realmente”.216 Em relação a este mesmo assunto, Michael Francis enfatizou as fracas bases da evangelização muísca ao longo dos séculos XVI e XVII, e a permanência de muitas práticas e cultos tradicionais, apesar das diferentes tentativas e estratégias usadas para extingui-los.217 Assim, para este historiador norte-americano, a “conquista espiritual” dos muìscas teve muitas dificuldades para concretizar-se nos primeiros cem anos após a invasão.218

213 Manual universitário norte-americano publicado na década de 1940, com grande influência nos estudos

antropológicos do século XX. Seria interessante fazer uma pesquisa mais aprofundada em torno da forma como são representadas nesse texto as comunidades indígenas que habitavam o território colombiano.

214 KROEBER, Alfred Louise, “The Chibcha”. In: STEWARD, Julian (ed.). Handbook of South American Indian.

Vol. 2, The Andean civilizations. Washington: Government Printing Office, 1946, p. 897.

215 Ibid.

216 GAMBOA. “Los muiscas”, op. cit., p. 128.

217 Dentre elas, cabe mencionar a campanha para “erradicar idolatrias” conduzida pelo arcebispo franciscano de

Santa Fe, Frei Luis Zapata de Cárdenas, na década de 1570, a qual foi considerada uma sorte de “solução final” para acabar com a persistência da religião muísca. Para uma análise da percepção dos objetos materiais muíscas como “ìdolos do diabo” e as tentativas de sua eliminação ao longo do século XVI cf. BOTERO, Clara Isabel. El

redescubrimiento del pasado prehispánico de Colombia: viajeros, arqueólogos y coleccionistas, 1820-1945.

Bogotá: Instituto Colombiano de Antropología e Historia / Universidad de los Andes, 2006, p. 25-30; PINEDA, Roberto. “Demonologìa y antropologìa en el Nuevo Reino de Granada (siglos XVI-XVIII)”. In: OBREGÓN, Diana (ed.). Culturas científicas y saberes locales. Bogotá: Centro de Estudios Sociales (CES), 2000. p. 23-88.

218 Francis e outros autores como Rodríguez transmitem a ideia de que o processo de evangelização foi bem mais

Um postulado que encontramos mais problemático da NCH é que a “conquista” não teria sido um acontecimento traumático para as comunidades indígenas. Corre-se o risco de exagerar a capacidade de resiliência e recuperação dos muíscas e outros povos nativos, subsumindo o conflitivo e em muitos níveis devastador choque com os ibéricos num acontecimento a mais numa história conflitiva e complexa por antonomásia, retornando a uma sorte de “lenda rosa”.219 Gamboa escreve:

En conclusión, la llegada de los conquistadores no fue asumida como un enorme cataclismo por las sociedades indígenas, sino como un hecho más de una larga y compleja historia, frente al cual no se sumieron en la desesperación, sino que desarrollaron múltiples estrategias para superarlo, trascenderlo y aprovecharlo. Pensar que los indios se hundieron en el caos y la desesperanza es menospreciarlos, negándoles la posibilidad de ser actores sociales creativos.220

Ao contrário de Gamboa, do nosso ponto de vista, a chegada dos espanhóis não constituiu só “um fato mais” na história dos muìscas. Ela representou uma disjunção, uma ruptura em muitos sentidos que justificadamente poderia ser rotulada de catastrófica e traumática, embora não constituísse a aniquilação de toda a população nem o apagamento súbito da sua cultura, como tradicionalmente se argumentava.221 Certamente, os muíscas não foram extintos Ŕ como outros grupos aborígenes Ŕ nem temos que continuar lamentando o desaparecimento total de sua cultura na linha de alguns autores contemporâneos de cunho anti- imperialista;222 mas também não cabe dizer que eles sofreram simplesmente a substituição de seus governantes nativos pelos cristãos.