2.3 Al-Khal ī l ibn Aḥ ḥ ḥmad and his major work, Kit ḥ ā b al-‘Ayn
2.3.1 Kit ā b al-‘Ayn
Problemas são inevitáveis e nossa incumbência é descobrir a melhor maneira de criá-los, a melhor maneira de tê-los.
Judith Butler. Problemas de gênero
Seja pela idéia derridiana de herança, seja com a imagem freudiana do
fort/da, como pontos de partidas para revisitar idéias e lugares, problematizar conceitos e categorias, meu objetivo foi fazer uma crítica literária “sem-álibi”, para parafrasear Derrida. Isto é, uma crítica cuja pretensão é opor-se à lógica do mesmo, à tirania da metafísica ocidental com a ajuda dos próprios conceitos fundados e criados por essa metafísica e, paralelamente a isso, apreender os lugares nos quais se afirmam os impasses e as aberturas de novos horizontes. Algo assim tornou possível – espero – tomar a literatura como um espaço privilegiado para se problematizar questões filosóficas, estéticas, antropológicas, etc., invadindo campos e desconstruindo conceitos e pré-conceitos da tradição do pensamento ocidental.
Em termos mais específicos, busquei pensar e discutir alguns dos problemas postos pelo homoerotismo tal como delineado em Berkeley em Bellagio com respeito ao conjunto de suposições e valores a partir dos quais organizamos e damos sentido à noção de estética e de literatura. Por isso, a análise da obra se centrou em mostrar que os encontros sexuais e afetivos entre homens reorganizam ou, como queiram alguns, desorganizam as formas tradicionais de sociabilidade, de política e de identificação, agenciando críticas de várias ordens aos paradigmas dominantes de leitura e interpretação do texto literário, bem como aos parâmetros de dominância canônica da literatura. Dito de outra maneira, a (re)(des)estruturação das redes de afinidade entre espaços e tempos, sujeito e objeto, universal e singular, percebendo nisso o modo pelo qual a crítica à episteme moderna do sujeito e do objeto – ponto de partida da discussão que se seguiu – se inscreveu no espaço ficcional do romancista.
Ao destacar o homoerotismo como eixo privilegiado para a análise de
proposta estética do autor. E, com isso, mostrar como a narrativa desafia, sistematicamente, a norma erótica, a lógica da sucessão paterna e tantas outras formas de relacionamentos institucionalizados pela sociedade, convidando-nos a imaginar outras possibilidades de laços sociais e de formas de se relacionar com o outro. Ou, se me for permitido um neologismo de inspiração foucaultiana, um convite para sermos mais “artistas sexualis” e menos “scientistas sexualis”.
Desafiando as formas de relações sociais tradicionais e construindo novos modos de relação, Berkeley em Bellagio opera deslocamentos em nossas noções tradicionais sobre solidão, desamparo, estranhamento e desencontro, tornando possível a inserção do homoerotismo como devir histórico que reinventa formas tradicionais de comunidade. Entretanto, cabe ressaltar que não propus uma espécie de leitura “imanente” ou “substancialista”, como se o sentido estivesse no texto desde o seu início. Daí a importância da discussão em torno de estética e de política à la Rancière e em torno de alguns dos questionamentos iniciados pelos teóricos queer. Crítica literária e literatura são duas faces de uma mesma moeda e, por isso, a literatura só se torna subversiva, na medida em que a crítica também se permite subversiva.
Assim, foi possível observar a emergência do que poderíamos designar de uma “política/estética do desejo” na obra de João Gilberto Noll, isto é, de uma política/estética que desafia, sistematicamente, as formas de relacionamentos institucionalizados pela sociedade, negando a construção de qualquer ontologia e/ou metafísica em torno do sujeito. A estética do autor transgride os discursos existentes sobre o sexo e revela a natureza incompleta e contingente das ideologias e verdades oficiais a respeito da homossexualidade, contribuindo para expor as ambivalências e antinomias próprias dos discursos dominantes e de suas estruturas de poder. Em outras palavras, a proposta estética de Noll parece negar qualquer base natural para a identidade individual e/ou coletiva.
Disso convém dizer que embora seja comum afirmar que a pós-modernidade nos tenha imposto, dada a proliferação e exaltação da diferença, uma constante sensação de que somos estrangeiros em nosso próprio país ou em nossa própria língua, ou, para colocar nos termos de Fredric Jameson, somos todos sujeitos esquizofrênicos, incapazes de um senso de história, Berkeley em Bellagio representa a possibilidade de se repensar
e se reutilizar os espaços abertos pela perda de vínculos orgânicos causados pela suposta fragmentação pós-moderna, de modo a fomentar novas estruturas de comunicabilidade e de inteligibilidade sociais.
E é, por isso, que finalizo a presente dissertação ressaltando a importância de estudos que se debrucem sobre o papel do homoerotismo nos escritos de João Gilberto Noll, cuja produção literária se estende desde o início dos anos de 1980 até os dias atuais. Ademais, não tendo pretendido haver minimamente esgotado a abrangência e a complexidade do assunto, ainda seria necessário indagar-se a respeito de como a representação das minorias e grupos marginalizados no espaço sócio-literário pode ser um referencial político importante para a construção de uma sociedade multicultural. O que nos convida a pensar o homoerotismo não apenas na obra de Noll, mas em outros autores, os quais têm contribuído para a elaboração de “sensibilidades homoeróticas”. Algo assim me parece realizável, apenas na medida em que pensemos a crítica literária a partir do “só-depois” freudiano (Nachträglichkeit), isto é, de que não há presente e nem passado puros; o presente nunca é originário e o passado sempre, reconstituído. Em outras palavras, se há uma história universal da literatura, essa certamente não é da necessidade, mas sim da contingência.