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Kirchler, Hoelzl and Wahl (2008) – Compliance in three dimensions

Não tive, ao contrário do que a palavra utopia possa sugerir, a pretensão de criar uma nova ordem, nem a menor força ou condição material para fazer uma revolução, sobretudo quando nos deparamos com a realidade de um país atrasado, com uma população mal formada, que resulta em indivíduos que esbravejam discursos de ódio uns contra os outros, vide os exemplos nas redes sociais e nas manifestações de rua após os resultados das eleições para presidência em 2014 e o que vem se sucedendo após esse fato. Com o circunscrito trabalho como arte educadora ou mesmo com meu trabalho coletivo com a II Trupe de Choque, mesmo que potentes, não tenho/temos a menor condição de banir do Estado todos os velhos padrões ultrapassados que estão no poder, como sugere ironicamente Hannah Arendt (2011, p. 225). No entanto, ainda não deixamos de sonhar sempre com um mundo melhor para todos, mesmo acreditando que atualmente o horizonte é nebuloso e que nossa sociedade, sobretudo nosso país, está totalmente submerso por relações líquidas, incertas e voláteis.

Por isso, minha intenção, apesar de pequena, talvez tenha sido só uma faísca dentro de uma perspectiva tão macro que é o mundo. Talvez tenha criado algumas fissuras ou antiestruturas no mundo gradeado que é a escola Carlos Ayres, símbolo de todas escolas e da sociedade de controle que vivemos. Com a ajuda de Walter Benjamin, tentei me guiar por esse procedimento artístico crítico utópico dialético não por meio do discurso, mas, sim, através do teatro, na prática, no jogo. Preocupei-me em refletir sobre um viés crítico que, fracassando ou não, se preocupava das crianças que participaram deste projeto.

O que me resta de tão grande aprendizado é continuar pesquisando e refletindo sobre métodos que nos leve a refletir o fato de que as crianças são sim as principais vítimas da ideologia e dos investimentos da indústria das mercadorias infantis, o que, a meu ver, tem influenciado sistematicamente o seu imaginário, com o intuito de transformá-las em novas consumidoras em potencial. Procurei refletir sobre essas questões ao olhar para a realidade das crianças, em suas relações com os objetos herdados da cultura e na forma com que elas trouxeram respostas para a criação das

209 suas materialidades artísticas. Por isso foi importante considerar que as crianças inseridas nesta pesquisa acadêmica são moradoras do extremo sul de São Paulo, na faixa etária entre 10 e 11 anos, muito expostas aos apelos da indústria de consumo e também em uma área marcada pela violência e pelo descaso governamental. Crianças em um contexto muito diferente do que os três autores referenciados nesta pesquisa vivenciaram.

Também causa certo alívio pensar que, mesmo em uma época conturbada como a atual, as crianças mesmo muito expostas ao mundo público, ainda dispõe de uma percepção diferente da dos adultos em relação à imaginação e à criação, mantendo-se potencialmente críticas e à espera de observações sensíveis de adultos sensíveis que possam guiá-las. No entanto, não podemos nos iludir: não é possível ignorar que novas camadas importantes de subjetividades surgem para serem pensadas no terreno da arte- educação.

Chego ao final desta pesquisa apostando na importância de uma pesquisa como esta para continuar refletindo sobre os desafios que estamos enfrentando atualmente na maneira como as sociedades capitalistas produzem sua cultura e influenciam na subjetividade e no imaginário infantil.

Infelizmente, é impossível ignorar o fato de que cada vez mais a sociedade de consumo faz da criança sua maior vítima. As crianças são muito frágeis às invasões da publicidade e dos jogos eletrônicos que simulam o mundo das mercadorias, nos quais, para seguir vencendo, é necessário acumular moedas e comprar dispositivos de destruição e de superação. Os detritos deixados por adultos estão carregados de uma história que vem se empoeirando cada vez mais para debaixo das ruínas do progresso para ficar esquecida e contada somente por viés. Ainda assim, é preciso sonhar e seguir em busca de uma utopia que, mesmo que se afaste quando formos ao seu encontro, esteja sempre colada ao horizonte, que é onde não podemos deixar de mirar e caminhar.

Pensar a existência destas crianças que participaram comigo dessa travessia sem permitir que elas fossem um mero objeto foi uma de minhas principais preocupações.

Partir do fato de que existimos no mundo e com o mundo é essencial no terreno da arte-educação. Talvez seja esse o tema central que tentei perseguir durante os encontros com as crianças, nos quais tentei instaurar o que chamei de uma pedagogia artística crítica utópica. Para existir verdadeiramente, dadas às condições em que vivemos, precisamos questionar como a própria vida vem sendo gestada. E, no meu caso, preocupa-me muito a vida das crianças que estão começando a formar suas ideias

e visões de mundo e que, por serem ainda imaturas, não no mau sentido da palavra, as principais vítimas de um mundo em ruína.

O objetivo desta pesquisa acadêmica, ao partir do conceito de “criança trapeira e catadora de resto”, contido no título do projeto e inspirado em Walter Benjamin, foi estimular, por meio da construção da crítica e da utopia, a imaginação infantil a elaborar novas perguntas. O método, que partiu sempre do jogo teatral, foi tentar fazer com que os participantes refletissem sobre suas próprias histórias, da família, do bairro ou da escola, estimulando-os também a criar novas alternativas, narrativas e ações lúdicas que respondessem à pergunta-procedimento: "como cada fato poderia ter sido diferente?”

Acredito que o fato de experimentar, como atriz e como arte-educadora, alguns conteúdos da mesma pesquisa, trouxe para a relação professora-estudante, artista- criança outra postura de condução do processo pedagógico. Deixar que as duas pesquisas, a montagem de uma peça como atriz na II Trupe de Choque e o processo artístico pedagógico com as crianças, fossem contaminadas uma pela outra, trouxe para ambas, possibilidades de deslocamentos que talvez não existissem sem os caminhos imbricados e paralelos que se deram nas duas experiências. Perceber como isso aconteceu também possibilita continuar buscando caminhos mais fortuitos para o terreno da arte-educação e das relações entre artistas, professores, estudantes e crianças.

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