O que na literatura é um problema antigo: o da simbiose entre o signo e o objeto ou, com outras palavras, entre os objetos e os símbolos, a coisa e a palavra, torna-se matéria que extrapola fronteiras disciplinares. Hoje, muitos estudiosos se debruçam sobre questões a respeito das relações entre arte e tecnologia, modos de cognição e modos de representação, espaço físico e espaço virtual.
Atualmente as disciplinas das ciências sociais oferecem perspectivas contrastantes no que concerne à abordagem dos fenômenos. O pós- moderno traz para o campo da Epistemologia uma questão nova acerca dos instrumentos disponíveis para criar linguagens capazes de elaborar e ler a realidade. Em seu ambiente cibernético-informático e informacional cada vez mais se desenvolvem estudos sobre a linguagem com o objetivo de investigar os mecanismos de sua produção. Essa mesma procura acaba por estabelecer (in)compatibilidades entre as estruturas que governam o funcionamento do cérebro humano e os sistemas artificiais inteligentes. O impacto do avanço e cotidianização das novas tecnologias da informática se faz sentir na ciência e na forma como por muito tempo se compreendeu a idéia de verdade e de real.
Esse impacto fez com que, como afirma Wilmar do Valle Barbosa, em sua introdução ao livro A Condição Pós-Moderna de Jean Lyotard, a concepção tradicional do saber científico, como sendo nobre e desinteressado em sua natureza desse lugar a uma concepção baconiana de que conhecimento é poder, como ficou dito no capítulo anterior. Desse modo, no contexto pós-moderno, aquela concepção filosófica da ciência que herdamos de Descartes, Kant, Hegel, dá passagem para uma concepção mais operativa em que as diferenças epistemológicas significativas entre os procedimentos científicos e os procedimentos políticos tendem a ser eliminadas.
Essa mesma idéia está em Condição Pós-Moderna, em que David Harvey discute a relação ambígua entre as esferas da estética e da política, e chega a citar o caso da reeleição de Ronald Reagan em um momento em que as pesquisas mostravam que a maioria do eleitorado americana discordava de suas políticas interna e externa. Ele se refere a esse fato como um triunfo da estética sobre a ética (Harvey, 2003:205).
Desse modo, o pós-moderno, na medida em que a estética é explorada como domínio cognitivo e instrumento de poder, representa um fim do domínio de uma crença insuspeita na racionalidade científica e numa teoria unitária de progresso , da substituição das teorias empiricistas de representação e de verdade , e propõe uma ênfase crescente sobre o inconsciente, o emocional, os signos e imagens flutuantes, e a pluralidade de pontos de vista. A consciência da pós-modernidade traz para o debate a discussão sobre a crise de todos os humanismos racionalistas herdados do pensamento iluminista que elegeram o conhecimento aceitável de acordo com os paradigmas de uma razão positiva que só admite o verificável e o manipulável.
Ainda o debate pós-moderno traz à tona a problemática do sujeito e sua consciência histórica entregues à lei de um mercado triunfante, imune a qualquer intervenção e entregue a sua auto-regulação, prescindindo da necessidade de um discurso ideológico quanto à ética, à solidariedade, e outros valores caros a quaisquer humanismos. Diante dessa indiferença, somos obrigados buscar a consciência possível em realidades mais complexas. Obviamente os grandes avanços dos meios de comunicação contribuem para esta complexidade atual.
Se partirmos do pressuposto de que enxergamos a realidade mediante linguagens e idéias que adquirimos de nossa cultura, e que tais idéias e linguagens tendem a fundir-se com a própria realidade, podemos dizer que, num jogo de espelhos, mediante determinados modelos conceituais, podemos perceber determinadas realidades como ordenadas ou caóticas, de acordo como as enquadramos em nossos paradigmas mentais, os quais por sua vez passam a ser encarados em sua dimensão cultural. Dessa forma, esses parâmetros, atualmente, revelaram-se em todo o seu caráter relativo, abrindo espaço para um mundo plural em que várias tendências, atitudes, perspectivas convivem em um mesmo ambiente, fazendo com que os limites de negociação de identidades e diferenças se tornem mais tênues. Nesta nova arena de negociações, os interlocutores lutam para estabelecer um consenso que jaz sempre aquém de suas aspirações. O consenso fica frouxo e deslegitimado, uma vez que aprendemos a pensar e conceitualizar através da apreensão ativa das espacializações da palavra escrita, do estudo de mapas, gráficos, pinturas, e, hoje, essa conceitualização esbarra no fluxo plano e transbordante da imagem eletrônica.
O próprio Lyotard questiona a possibilidade desta legitimação após a crise dos metarrelatos: Seria pelo consenso obtido por discussão, como
pensa Habermas? . E ele mesmo responde: Isto violentaria a heterogeneidade dos jogos de linguagem (Lyotard, vvii). Vale lembrar que esses jogos de linguagem estão em relação direta com a crise das grandes narrativas que sustentavam e legitimavam o saber moderno. Hoje, vemos por todos os lados uma suspeita de modo a prevenir que o mundo seja tomado apenas como um fenômeno estético e de que se construa as leis da ciência mais por causa das necessidades e interesses de determinados grupos do que pelos indícios do cosmo em si. Pensando dessa maneira, o mundo não seria senão uma tabula rasa, como aquele grande construto digital que é a Matrix, onde escreveríamos, ou programaríamos as nossas experiências, caindo numa absoluta estetização da realidade. O problema é aquele colocado por Wittgenstein: o de que vemos a realidade de acordo com nossa linguagem, e esta é historicamente construída. E nos últimos anos, como bem coloca Castells,
A integração potencial de texto, imagens e sons no mesmo sistema interagindo a partir de pólos múltiplos, no tempo escolhido (real ou atrasado) em uma rede global, em condições de acesso aberto e preço acessível muda de forma fundamental o caráter da comunicação. E a comunicação, decididamente muda a cultura porque, como afirma Postman nós não vemos...a realidade...como ela é, mas como são nossas linguagens. E nossas linguagens são os nossos meios de comunicação. Nossos meios de comunicação são nossas metáforas. Nossas metáforas criam o conteúdo de nossa cultura . Como a cultura é mediada e determinada pela comunicação, as próprias culturas, isto é, nossos sistemas de crenças e codigos historicamente produzidos são transformados de maneira fundamental pelo novo sistema tecnológico e o serão ainda mais com o passar do tempo . (Castells, 2002:414)
Este perigo de organizar o real de acordo com modelos conceptuais de um ou outro grupo hegemônico pode dar ocasião a políticas culturais fascistóides que visam controlar e exercitar as experiências das massas. A contradição entre as possibilidades de liberdade e manipulação oferecidas pelo avanço estonteante da tecnologia em oposição à depauperização de grande parte da população global e se acentua a tal ponto que justifica a necessidade de estudos
que focalizem a apropriação do espaço, enquanto espaço de representações, e proponham um novo desafio perceptivo o qual requer uma análise mais detida sobre o que conceitos como o de real, referencial e virtual podem significar num contexto em que predominam meios de comunicação high-tech aliados a instrumentos de controle social em nível global. Como afirma Castells, por meio da poderosa influência do novo sistema de comunicação, mediado por interesses sociais, políticas governamentais e estratégias de negócios, está surgindo uma nova cultura: a cultura da virtualidade real... (Castells, 2002: 415).