3.2 Results
3.2.2 Kinetic Energy analysis
Na madrugada do dia 1º, o Governo do Estado divulgou nota, dizendo apenas que assinara decretos, requisitando, entre outras coisas, as rádios e televisões da Capital. A manhã de ontem, no entanto, nasceu entre acontecimentos novos, que aumentaram a tensão no Piratini. Positivou-se o domínio do comando do III Exército nas mãos do Gen. Ladário [Pereira Telles] e as rádios foram requisitadas e tomadas pelo mesmo, dando oportunidade a que as forças civis de apoio ao Sr. João Goulart, sob liderança do deputado Leonel Brizola e do prefeito Sereno Chaise, dessem início ao processo de levante popular, procurando repetir a “legalidade” de 1961. Logo depois chegava a notícia, a Palácio, de que um grupo de populares marcharia para a Praça da Matriz a
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fim de depor o governador e entregar o governo ao Sr. Leonel Brizola. (CORREIO DO POVO, 2/4/1964, p.16).
Apesar de exibir índice favorável de 76% da população5, o governo de João Goulart, mesmo no regime parlamentarista6, sempre foi alvo de críticas dos segmentos mais conservadores da sociedade. De acordo com Bandeira (2001, p. 185), a ideia que os militares passaram de que atendiam o clamor popular para derrubar Jango, portanto, “não passou de uma falácia”, tendo em vista que, de forma complementar, o IBOPE realizou uma nova pesquisa entre os dias nove e 26 de março de 1964, às vésperas do golpe, e 47% dos entrevistados responderam que votariam novamente em Jango para a Presidência. Entre as questões citadas por Moniz Bandeira para a aversão dos segmentos mais conservadores estavam, sem dúvida, as propostas de governo de Jango, concentradas na questão agrária, na Política Externa Independente (PEI) – com a repulsa dos Estados Unidos – e no Plano Trienal, lastreado em reformas de base. Mas havia ainda os resultados negativos obtidos pelo governo federal: déficit do Tesouro Nacional na casa dos Cr$ 280 bilhões – quase 60% da arrecadação tributária, inflação, em dezembro de 1962, no patamar de 8%, além de um descompasso na balança de pagamentos da ordem de US$ 400 milhões.
Um dos responsáveis pela Segunda Cadeia da Legalidade, o prefeito de Porto Alegre em 1964, Sereno Chaise, reconhece que havia muitos problemas no e com o governo de Jango, comparativamente ao episódio de 1961, sendo o principal a “intensificação dos índices inflacionários, que aumentaram 60, 70, 80 por cento ao ano”. Para ele, o encarecimento do custo de vida assumiu uma escala jamais vista, “deixando os movimentos populares contra nós”.
O que deu errado no governo de Jango pode ser explicado por vários ângulos. O Carlos Lacerda de um lado. De outro, aquele grupo dos autênticos, sob a liderança do Brizola, apertando muito, pressionando muito o presidente. Isso o Jango me disse lá em Petrópolis, em fins de fevereiro de 1964. Uma hora ele usou uma expressão que revelou isso. Ele disse: “O Brizola pensa que é líder popular. Eu agora vou mostrar quem é o líder popular neste
5 Pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística (IBOPE) revelada pelo professor Antônio Lavareda, da Universidade Federal de Pernambuco. In: Isto É Senhor, São Paulo, Editora Três, em 12/12/1990, nº 1108, p. 44-46 (apud BANDEIRA, 2001, p. 287).
6 Em janeiro de 1963, em plebiscito, o presidencialismo, com nove milhões de votos, venceu o parlamentarismo, com dois milhões, e o presidente João Goulart restaurou os plenos poderes (BUENO, s.d., p. 247).
País”. Ainda tentei argumentar com ele, que o Brasil era muito grande, com uma diversidade ideológica muito grande, muito variada, botar toda a carga assim de todo num lado só da canoa não ia dar bom resultado. E foi o que aconteceu. O presidente decidiu-se por aquelas iniciativas, o comício do dia 13, o automóvel clube, com sargentos do Exército, partiu para uma política popular e essas atitudes uniram, provocando uma reação de segmentos fortes da sociedade, como a Igreja e as Forças Armadas, que já estavam sendo trabalhadas há muito tempo. O Golpe de 1964 começou mesmo em 1954. Foi abortado pelo tiro no peito do doutor Getúlio, retardado mais um pouco pela ostensiva resistência da Legalidade, pela posição do Brizola e porque houve o veto formal dos militares à posse do presidente. São etapas do mesmo golpe. Em 1964, somaram-se outros fatores como a insatisfação popular, a inflação crescendo... Por tudo isso, outros setores da sociedade se fortaleceram e reagiram. Houve o deslocamento do centro para a direita, que estava ali de boca aberta esperando há anos por isso. Criou-se o ambiente de golpe aceito pela maioria como uma revolução. Na minha interpretação, foi isso que ocorreu em 1964. O presidente não quis sacrificar os amigos, não quis que corresse sangue. [...] quando conversei detalhadamente com o Presidente João Goulart, no exílio, em Maldonado [...] ele disse que tinha informes, que não tínhamos, a respeito da situação nacional, da posição do governo americano através do então embaixador Lincoln Gordon. Fatos gravíssimos poderiam ocorrer em caso de resistência. Ele tinha conhecimento disso e nós não. Muito tempo se passou até que compreendêssemos a situação [...] (KLÖCKNER, 2007, p. 120, 127, 128).
Sereno Chaise refere-se à Operação Sam Brother (ou Brother Sam), fruto de um pacto revolucionário entre os golpistas e o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon. A ideia geral era que, se os insurretos resistissem 24 horas, o governo estadunidense reconheceria o novo governo, e o apoiaria com 30 mil mariners a desembarcar nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Mas isso nem foi necessário, pois, com dissidências dentro e fora do governo, Jango decidiu-se pelo não derramamento de sangue e confidenciou à esposa Maria Thereza, antes de seguir para o comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, que aquelas palavras proferidas seriam o estopim da crise.
O Jango nunca comentou muito comigo sobre a situação. A única coisa que ele falou foi quando fez o comício aquele, da Central 7
7 O Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ocorreu em 13 de março de 1964 e reuniu aproximadamente 200 mil pessoas. Nele, Jango proclamou a necessidade de mudanças efetivas, entre as quais, a encampação de refinarias particulares, o tabelamento de aluguéis dos imóveis desocupados e a desapropriação de terras valorizadas pelos investimentos públicos, ou seja, às margens dos eixos rodoviários e dos açudes, ou que pudessem tornar produtivas áreas
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(do Brasil). Ele disse que “este comício vai ser o estopim. Não adianta por que nós não vamos conseguir vencer esta fase. É um momento muito difícil. É uma realidade”. Ele já sabia tudo que ia acontecer, já estava prevendo os acontecimentos. Ele sabia que fazendo este comício ele teria sérios problemas. E há muito tempo a fase já vinha piorando. E o comício foi realmente o momento da decisão. Eu penso assim, e ele me disse isto também. Quando terminou o comício e ele falou, quando íamos para casa, que teria uma consequência muito grave. Ele já estava preparado também. Os militares já estavam urdindo este golpe há muito tempo e esta foi a ocasião que eles encontraram para desfechá-lo. Já quando Jango voltou da China [em 1961] eles estavam armando todo este complô. Por quê? Porque ele deveria assumir a presidência. Mas os militares criaram um caso. Com o parlamentarismo, a posição do Jango já estava enfraquecida. Sempre falei que a decisão do parlamentarismo já era motivo para mais tarde eles tomarem uma atitude mais séria8.
A percepção de que havia uma manobra do Exército e de outras forças políticas fez com que novamente os grupos de apoio a Jango tratassem de esboçar uma reação semelhante à que foi deflagrada em 1961 e, entre outros atos, estava o de reeditar a Cadeia da Legalidade; contudo o comportamento da população não era o mesmo, como alude o professor Sergio Stosch, que testemunhou in loco a Segunda Rede da Legalidade transmitida pela Rádio Difusora Portoalegrense, PRF-9, em amplitude modulada na frequência de 640 kHz.
Na primeira legalidade, talvez, toda a população de Porto Alegre fosse a favor do Brizola e do Jango. Na segunda, havia muitas pessoas que não concordavam, achavam o cúmulo. Não sei se era devido à possível ameaça comunista. Falava-se muito desse assunto. Depois lembro que veio o processo de descomunização. Usavam este termo: descomunização do país. Acho que o povo estava um pouco cauteloso e amedrontado, de repente, de dar força para o comunismo. Nos três anos após o golpe se desenvolveu a ideia de que esta atividade brizolista, petebista, de João Goulart, era relacionada ao comunismo. Em vista disso, talvez o povo não prestigiasse mais tanto. E havia tantas manifestações naquela época como o aumento de 100% do salário mínimo e as pessoas da minha família comentavam que era o cúmulo, pois elevaria a inflação. O País estava numa situação bem confusa. Alguns diziam que João Goulart não tinha pulso. Enfim, sei que o povo não se envolveu como na primeira. A primeira parece que não tinha rival. Da janela do setor de jornalismo da rádio era possível vislumbrar todo o Largo da
inexploradas. O pacote, a ser remetido ao Congresso Nacional, previa as reformas agrária, política, universitária e da Constituição. (BANDEIRA, 2001, p. 163).
Prefeitura. E eu assisti, naquele local, o encontro de um grupo de manifestantes que vinha pela Rua Uruguai e outro que vinha da Praça XV, que era o grupo do Exército. E bem na esquina do Largo da Prefeitura, entre as ruas Sete de Setembro e Uruguai, deu-se um choque do Exército, com cassetetes, e um grupo de 100, 150 pessoas, no máximo, que estava com faixas petebistas, legalidade etc., que era considerado comunista. Fechou o tempo ali. Foi aquela correria e muitas cacetadas. Isso foi noticiado depois. Foi o único choque que eu assisti9.
Para o jornalista e escritor Eduardo Bueno, Jango estava sem saída: era fustigado pela esquerda, que preconizava reformas imediatas, e pela direita, que temia qualquer avanço social. De um lado estava Brizola, Miguel Arraes e Francisco Julião. E de outro Carlos Lacerda, os generais Olympio Mourão Filho e Costa e Silva. No cômputo geral, “Jango era visto pelo primeiro grupo como um ‘frouxo’ e pelo segundo como ‘um incendiário’(...) num país cada vez mais polarizado, volátil e inquieto” (BUENO, s.d., p. 247).
É justamente neste cenário – bem diverso, portanto, do que existia em 1961 – que a Segunda Cadeia da Legalidade foi instalada. O professor Sergio Stosch lembra detalhadamente da transmissão da Rádio Difusora que durou, segundo atesta, do dia 1º a 3 de abril.
A Difusora foi a emissora oficial do evento. Na primeira cadeia da legalidade, em 1961, foi a Rádio Guaíba a líder. Em 1964, houve uma tentativa de formar uma nova legalidade. Só que desta vez, como o partido, o PTB, estava na prefeitura, e o governador do estado era Ildo Meneghetti, de outro partido, foi o prefeito Sereno Chaise quem tomou a iniciativa. No porão da Prefeitura, onde se guardavam as gares, as carrocinhas de limpeza urbana, foi feito improvisadamente um estúdio de rádio. O chefe dos operadores da rádio era Nei Pires Vieira, na parte de externa, e também era chefe dos operadores de estúdio o Elson Ramos. Como o estúdio da rádio ficava na Rua Uruguai número 155, 4º andar, do edifício Comendador Azevedo, nós trabalhávamos vendo ao lado o campanário, as torres da Prefeitura Municipal. Na ocasião, foi puxado um fio do setor de notícias, ligado diretamente à mesa de som, que passava pelo corredor e entrava direto na janela de um porão da prefeitura. Durante uns dois dias, a partir da manhã de 1º de abril, a Rádio Difusora transmitiu a segunda cadeia da legalidade de forma ininterrupta até o dia 3 de abril. Fizeram a mesma tentativa da primeira cadeia da legalidade, com os mesmos hinos musicais. Só que aconteceu o seguinte: muitas emissoras não entraram e já havia uma atividade mais ostensiva por parte do exército. Eu acho que por medo ou por um pouco de cautela. Inclusive, a principal emissora que se pensou que ia
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entrar, a Rádio Guaíba, simplesmente saiu do ar. Foi uma cautela máxima, talvez, do proprietário da empresa Breno Caldas no intuito de não botar a rádio nem para um lado nem para o outro. Quando cheguei ao estúdio, lembro bem, às 11 horas da manhã, já estava no ar. Depois à tarde tinha o Lacta Clube, às cinco horas da tarde, que não foi transmitido naqueles, devido à transmissão. Lembro assim de algumas passagens. Recordo de choques da Polícia com este grupo de manifestantes, embora bem menor do que da primeira vez, em 196110.
Um fato curioso é que o movimento gaúcho não foi o único. Ao mesmo tempo, no dia 31 de março, em Brasília, um grupo voluntário, coordenado por José Aparecido de Oliveira, deputado da UDN, assumia a Rádio Nacional, montando uma redação com Flávio Tavares, Evandro Carlos de Andrade, Almir Gajardoni, D´Alembert Jaccoud, Ruy Lopes, Nuevo José Baby, entre jornalistas e políticos, como menciona Tavares.
Zé Aparecido conhecia a vida de todos [referindo-se aos protagonistas do golpe como o general Olympio Mourão Filho, o governador mineiro Magalhães Pinto etc.] e inventava verdades, contando o que estariam fazendo se pudessem fazer o que gostariam de fazer. E ria da cara de espanto dos soldados e sargentos quando ouvissem lá longe, no radiozinho de pilha, que estavam combatendo por uns apóstatas. E, assim, a contrapropaganda ganhava o ar. O éter, como se dizia. Daquelas barricadas, combatemos horas. Só não sabíamos que a Rádio Nacional de Brasília era etérea no éter. Com velhos transmissores, nem em onda curta chegava a Belo Horizonte, Juiz de Fora ou outros pontos de Minas, alvos da nossa guerra verbal. Tiroteávamos o inimigo, mas o inimigo não notava nem sabia. (TAVARES, 2005 p. 173-174).
“Foi mesmo doloroso ver tudo murchar”, reconhece o locutor Lauro Hagemann, de participação ativa na Primeira Legalidade. Para ele, a Segunda Rede foi um “simulacro” da Primeira, seja pela baixa audiência, seja pela pequena adesão das emissoras. “Os proprietários das rádios não interferiram diretamente, mas também não deixaram fazer, enquanto na Primeira nós passamos por cima de tudo e de todos, pois havia condições para isso”. Mas Hagemann não ignora que em 1964 as coisas haviam se alterado:
Nós não tínhamos mais aquela coesão. E porque as condições político-militares mudaram muito. Na Segunda Legalidade, no segundo dia, nós já vimos que a coisa tava mal, que não havia
possibilidade de resistência. E aí a gente foi murchando, murchando, murchando e dando pra trás e aí acabou. Foi um esvaziamento, murchou o balão da Legalidade, murchou. E como não havia possibilidade da reação, de jeito nenhum, a não ser movimentos esporádicos aqui e ali, a turma foi sentando, sentando e quando viu já tinha acabado. No segundo dia todos haviam entregado os pontos.11
Um dos apoiadores do engenheiro Homero Carlos Simon, em 1961, na montagem do estúdio no Palácio Piratini, o técnico em radiodifusão Celso Costa12 confirma a desmotivação desde o início da Segunda Rede. Rememora que chegou a ser convocado pela equipe de Brizola para montar um posto de transmissão na antiga sede dos Correios e Telégrafos na Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre, no dia 31 de março ou 1º de abril. O posto, de acordo com ele, foi preparado e Brizola chegou a fazer um pronunciamento, mas não o configurou como integrante da Segunda Cadeia, falando “apenas para uma ou duas emissoras”, que foram a Farroupilha e a Guaíba. Depois disso, o técnico chegou a ser chamado para dispor de outro posto na prefeitura, a pedido do radialista Dilamar Machado, então responsável pelo setor de imprensa. Pela falta total de material, Celso Costa desculpou-se, afirmando que não poderia fazer a instalação, “mas percebi na hora que tinha pouca empolgação e que o ar estava muito pesado, era de frustração quase completa. Como era funcionário da Agência Nacional, retornei ao trabalho e fiquei aguardando a emissão da Voz do Brasil, que, aliás, nem foi transmitida naquele dia”.
Politicamente, posturas distintas foram adotadas pelos dirigentes das rádios em relação à Primeira Rede da Legalidade: na Segunda, a posição das direções das emissoras alterou-se, “pareciam francamente favoráveis aos militares”, expressa Stosch, e a tentativa terminou com a apreensão das fitas por parte de um grupo de militares do Exército e da Brigada que na Primeira ficaram ao lado da Legalidade.
Também tomei conhecimento dentro da rádio que quatro ou cinco soldados entraram no prédio no dia 2 ou 3 de abril, acredito numa mescla de Brigada com Exército, e queriam as fitas gravadas. Pois tudo estava sendo registrado em fitas com rotação 1,5 em um gravador Grunding horizontal, os rolinhos de fita, em rotação
11 Entrevista concedida ao autor em 26/5/2009. 12 Entrevista concedida ao autor em 5/6/2009.
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bem lenta. E eles queriam estas fitas. Recordo que quem estava na mesa era o operador Noralino Rodrigues. As fitas eram reproduzidas indefinidamente no ar, como uma reportagem. O camarada do Exército, com uma arma, dizia para o operador: “Eu quero estas fitas”. E o Noralino mexia em tudo que era botão, nervoso, ele fumava cachimbo... E desligava todos os botões, mas não conseguia desligar o botão que deixava as gravações no ar, de tão atucanado que ele ficou. Bem, no final, não se sabe se todas as fitas foram levadas ou se restou algo na rádio. Diziam que havia alguma fita preservada, mas por certo nunca a encontramos. Quem falou naqueles dias, pelo que lembro, foi só o prefeito Sereno Chaise e outros políticos locais e pessoas ligadas ao PTB. Nem o Brizola e nem o Jango falaram. Agora, lembro muito bem do Sereno falando, inclusive no final. Foi o doutor Sereno que encerrou. Inclusive ele teve a dignidade de encerrar. Ele fez, e achei muito digno, por sinal, o encerramento, dando a entender que não era o momento adequado de continuar com a rede. Ele não disse nada contra ninguém e nem a favor. Ele foi muito digno no discurso. Acredito que ele estava sob pressão. Mas ele foi muito claro e disse: “Nós vamos encerrar aqui neste momento a rede, que nós iniciamos. E voltaremos numa próxima oportunidade”. Estas foram as últimas palavras que ele disse. Como quem diz “nós vamos parar, mas vai haver retorno”. A prova está que depois ele voltou. Voltou num processo de abertura política. Aí foi quando a rede foi encerrada, momento em que a Rádio Guaíba entrou no ar com o correspondente Renner, noticiando a fuga do Brizola. Aí é interessante que o que eu poderia avaliar, assim, é que nós tivemos um resultado final, uma postura completamente diferente daquela postura da primeira legalidade. Interessante como em três anos a Companhia Jornalística Caldas Júnior, no caso, mudou de posição. Nós lá na Difusora fazíamos a escuta da Guaíba, assim como lá eles ouviam o Repórter Anzanelo, o Repórter Ultragás, que eram os noticiosos concorrentes, na Difusora, sem falar do Repórter Esso na Farroupilha. Interessante então que a Guaíba e o Correio do Povo tiveram uma postura completamente diferente. O Brizola que era herói na primeira passou a ser um fugitivo, procurado pela Polícia, na segunda. E assim todos os outros personagens. Então, as notícias tiveram um caráter totalmente favorável aos militares13. O clima desfavorável daquele período é explicado pelo prefeito cassado de Porto Alegre, Sereno Chaise. Ele conta que o golpe ocorreu mesmo em 1º de abril, pois antes disso o presidente João Goulart tentara resistir em Brasília, no Rio e em Porto Alegre. Na madrugada do dia dois aterrissou na capital gaúcha, foi recebido pelo próprio prefeito e rumou para a casa do comandante do III Exército, permanecendo ali até as 11 horas da manhã, num encontro de mais de oito horas, quando resolveu deixar o país.
A decisão do presidente foi de se exilar no Uruguai. Viajar imediatamente, o equivalente a uma renúncia. Isso ficou bem claro para mim. A partir daquele momento, entendi que o Presidente João Goulart, tal qual o presidente Jânio Quadros, renunciava à Presidência da República, para evitar o derramamento de sangue. A tristeza foi geral, mas nós que defendíamos o mandato dele, a Legalidade, não tínhamos mais o que defender. Consumada a viagem do presidente, perto do meio- dia, voltei para a Prefeitura. Nós instalamos na Prefeitura a Rede da Legalidade, sem a expressão que tinha tido em 1961, no Palácio Piratini. Tínhamos no meu gabinete uma transmissão. Não