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De acordo com Martelotta, Votre e Cezario (1996), Gramaticalização e Discursivização constituem processos especiais de mudança linguística.

Gramaticalização leva itens lexicais e construções sintáticas a assumir funções referentes à organização interna do discurso ou a estratégias comunicativas.

Discursivização leva o item a assumir função de marcador discursivo, modalizando ou reorganizando a produção da fala, quando a sua linearidade é momentaneamente perdida, ou servindo para preencher o vazio causado por essa perda da linearidade.

O elemento pode tornar-se mais gramatical, ou seja, assumir posições mais fixas na oração, apresentando-se mais previsível no que diz respeito a seu uso (gramaticalização); ou menos gramatical, ou seja, assumir funções relacionadas ao processamento do discurso (e, consequentemente, também interativas), perdendo as restrições gramaticais típicas de seus usos originais e tendo, assim, o seu leque de possibilidades de colocação aumentado (discursivização).

Para Martelotta, Votre e Cezario (1996), o discurso não é visto como parte da gramática da língua, mas para alguns, como Traugott (1995), o fenômeno de mudaça linguística é um continuum de gramaticalização em que o discurso faz parte da gramática. A autora procura verificar que lugar o desenvolvimento de marcadores discursivos ocupa em uma teoria da gramaticalização, defendendo a posição de que também esse tipo de item discursivo pode ser tratado dentro do processo de gramaticalização.

Dentre os vários processos de mudança linguística, a gramaticalização é um dos mais investigados nas línguas em geral. A constante renovação do sistema linguístico, percebida, sobretudo, pelo surgimento de novas funções para formas já existentes e de novas formas para funções já existentes, proposta por Hopper (1987), traz à tona a noção de “gramática emergente”, concepção assumida de modo explícito ou não por vários estudiosos da gramaticalização.

Uma gama de termos alternativos surgiu para rotular esse fenômeno de mudança linguística, desde que ele se difundiu no final da década de 1980.

Apesar de o termo gramaticalização ser o mais recorrente na literatura, aparecem, também, na referência ao mesmo processo, e sem diferenças muito significativas, termos variantes como gramaticização. Ocasionalmente, aparecem ainda como sinônimos de gramaticalização termos inadequados para a descrição do processo em si, porque identificam apenas suas características semânticas e/ou sintáticas, tais como reanálise, sintaticização, bleaching (desbotamento) semântico, enfraquecimento semântico, desaparecimento gradual semântico, condensação, redução etc. (Heine et al.,1991 )

Segundo Gonçalves et al (2007), alguns estudos iniciais sobre gramaticalização datam do século X na China e continuam a se desenvolver no século XVII, com Condillac e Rousseau (na França) e com Tooke (na Inglaterra); e, no século XVIII, com Bopp, Schelegel, Humboldt, Gabelentz (na Alemanha) e Whitney (nos Estados Unidos). Finalmente, como hoje concebidos, chegam ao século XX, nas décadas iniciais (1912), tendo em Meillet (na França) a figura central. A partir daí, podem ser citados vários linguistas que, mais aprofundadamente, começaram a desenvolver pesquisas sobre gramaticalização, principalmente na Alemanha (Lehmann, Heine, Cladi, Hünnemeyer) e na Costa Oeste Americana (Givón, Hopper, Traugott, Bybee, Pagliuca, entre outros).

Vale ressaltar, também, de acordo com Golçalves e al (2007), que todos esses estudiosos fazem a distinção entre itens lexicais, signos linguísticos plenos, classes abertas de

palavras, lexemas concretos, palavras principais, de um lado, e itens gramaticais, signos linguísticos “vazios”, classes fechadas de palavras, lexemas abstratos, palavras acessórias, do outro, e todos também consideram que as últimas categorias tendem a se originar das primeiras.

Hopper (1987), por exemplo, entende a gramática das línguas como constituída de partes cujo estatuto vai sendo constantemente negociado na fala, não podendo, em princípio, ser separado das estratégias de construção do discurso. Subjazem a esse entendimento uma concepção de língua como atividade no tempo real e a postulação de que, a rigor, não há gramática como produto acabado, mas, sim, constante gramaticalização.

Os linguistas que lidam com gramaticalização podem ser classificados segundo o tipo de trabalho ou método adotado, todavia nem sempre essa classificação é simples e clara, pois, a depender do fenômeno, as exigências para a apreensão de seu movimento são amplas. Para alguns, a gramaticalização pode ser processo, mas também pode ser paradigma.

Ainda de acordo com os autores Gonçalves et al. (2007),

a “gramaticalização é considerada paradigma se observada num estudo da língua que se preocupe em focalizar a maneira como formas gramaticais e construções surgem e como são usadas. É considerada processo se se detiver na identificação e análise de itens que se tornam mais gramaticais. Pode, ainda, ser observado de duas perspectivas: diacrônica, se a preocupação do estudo estiver voltada para a explicação de como as formas gramaticais surgem e se desenvolvem na língua, ou sincrônica, se a preocupação estiver voltada para a identificação de graus de gramaticalidade que uma forma lingüística desenvolve a partir dos deslizamentos funcionais a ela conferidos pelos padrões fluidos de uso da língua, portanto, sob um enfoque discursivo-pragmático. A combinação dessas duas perspectivas (pancrônica) também é uma possibilidade metodológica. (p. 16)

A gramaticalização se instaura no momento em que uma unidade linguística começa a adquirir propriedades de formas gramaticais ou, se já possui estatuto gramatical, tem sua gramaticalidade ampliada.

Os autores acima mencionados, Gonçalves et al. (2007), deixam claro que:

Ao se falar em gramaticalização, há muitas controvérsias que se aplicam essencialmente ao nome do processo. Todavia, tanto sob o rótulo gramaticalização (em sua acepção mais ampla) quanto sob o rótulo multissistema, o que ocorre é que, à medida que as propriedades de uma unidade linguística vão se alterando, ela vai se tornando membro de novas categorias, em razão de uma reanálise categorial, o que permite enquadrar uma mesma forma em categorias diversas. Da adoção de uma outra dessas abordagens (gramaticalização como um processo amplo ou língua como multissistema), naturalmente, decorrem exigências metodológicas e implicações quanto à extensão do tratamento linguístico em cada subprocesso e nos demais processos. Esses movimentos podem ser apreendidos por três princípios: ativação, ou princípio da projeção pragmática, que diz respeito à escolha de categorias cognitivas e ao agrupamento de traços que irão compor a dimensão gramatical, semântica e discursiva do item reativação, ou princípio de correção, que diz respeito ao movimento mental de uma nova ativação de traços lexicais. O efeito desse processamento no discurso pode ser apreendido por meio das retomadas textuais e nas relações coesivas sinalizadoras de ilustrações, exemplificações e esclarecimentos sobre partes textuais precedentes e, por fim, o princípio da desativação, ou princípio do silêncio, que se refere ao processo de eliminação de traços previamente escolhidos nos vários sistemas lingüísticos (p.16).

Esse processamento atua no sistema discursivo e tem como efeito a abertura de espaços para digressões, parênteses e/ou mesmo, abandono do tópico em desenvolvimento.

Segundo Castilho (2006), o fundamento desses princípios está nas estratégias de gestão dos turnos conversacionais, o que situa a conversação como a manifestação discursiva por excelência.