que, como alerta Rauter (2000), as oficinas terapêuticas eventualmente podem ensejar o exercício da “velha Psiquiatria”. E ressalte-se que este cenário, ainda que de modo inespecífico, foi criticado por apenas uma participante, como se vê no Relato 14.
Relato 14: “Então... a oficina, assim...eu particularmente, eu tenho uma crítica
em certa parte do que seria uma oficina no CAPS, de como ela tem que ser trabalhada. Quando eu entrei foi uma das coisas que eu fiquei mais assim... sem saber como fazer. Às vezes você vê uma oficina sendo conduzida de um jeito, e aí você percebe que ela não está agregando tanto, beneficiando tanto o paciente. Muitas vezes é por conta da falta de recurso, ou às vezes, não sei... Tem os pacientes crônicos que dá para trabalhar de uma forma, mas tem outros que a gente tem que trabalhar de outra forma, mais direcionado, mas a oficina eu acho que pode ser trabalhada de várias formas com os pacientes, e nem sempre é trabalhado a partir do que o paciente gosta, o que seria bom para ele, eu acho que as oficinas deixam muito a desejar, apesar que pode trabalhar diversas coisas. Tem esse impasse” (Participante 12)
4.1.3 Concepções sobre as especificidades das diferentes modalidades de oficinas terapêuticas
Esta subcategoria reúne relatos referentes às concepções das participantes sobre as especificidades das diferentes modalidades de oficinas terapêuticas. Em linhas gerais, observou-se que a distinção estabelecida pelo Ministério da Saúde entre oficinas terapêuticas expressivas, geradoras de renda e de alfabetização foi citada apenas pontualmente pelas participantes. Tal achado pode ser considerado um tanto quanto
preocupante, até mesmo porque aparentemente se afigura como um desdobramento do fato de parte delas ter sugerido que o desenvolvimento de uma oficina terapêutica envolveria, invariavelmente, a produção de algo material. Logo, os limites existentes entre as diferentes modalidades de oficinas terapêuticas parecem ser pouco nítidos, ao menos na prática, para as participantes. Os Relatos 15 e 16 exemplificam esta impressão por sustentarem que algumas delas concebem que toda oficina terapêutica, por meio do recurso a diferentes atividades, possuiria um caráter predominantemente expressivo.
Relato 15: “Eu acho que a oficina é uma expressão. Eu defino como uma
expressão. É como se naquele momento, a pessoa dissesse de outras formas o que ela está sentindo. É lógico que tem as de artesanato, mas até nelas, o paciente quando está fazendo, ele está se expressando e ele vai te falando daquilo que ele está sofrendo” (Participante 10)
Relato 16: “A oficina que eu participo é de meditação, seguida ou de pintura ou
de desenho. Sempre nessa parte expressiva. Então é assim que funciona: primeiro tem o relaxamento, a gente coloca uma música e aí eles têm aquele momento de relaxar, de se alongar e tudo, e aí eles fazem tipo uma visualização, e depois tem
essa parte da pintura e do desenho [...]” (Participante 11)
Em contrapartida, outras participantes qualificaram de modo menos genérico como expressivas as oficinas terapêuticas por elas coordenadas, como se vê nos Relatos 17 e 18. Assim, demonstraram uma concepção sobre as especificidades das diferentes modalidades de oficinas terapêuticas mais alinhada às diretrizes do Ministério da Saúde, o que pode ser qualificado como positivo. O Relato 17, inclusive, especifica que variadas
linguagens artísticas comumente são empregadas no desenvolvimento da oficina terapêutica reportada pela participante em questão. É válido reforçar que diversas pesquisas – Mendes, Lopes e Lobo (2016), Souza e Pinheiro (2012) e Lima (2008), dentre outras – demonstraram a importância da arte como forma de expressão no contexto de oficinas terapêuticas. Porém, como advertiram Domingues e Paravidini (2009), o fazer artístico pode ensejar apenas repetição quando uma oficina terapêutica é implementada com o intuito de ocupar e distrair os usuários.
Relato 17: “Atualmente eu faço uma oficina, que é uma oficina de expressão, uma
expressão mais verbal com poesias, textos reflexivos e contos. Normalmente ou um dos pacientes trazem algum texto ou eu ofereço algum texto... muito nesse movimento, né? No desejo deles com as possibilidades aqui do CAPS também. Às vezes é uma letra de música. Então eu ou algum deles faz a leitura, depois a gente faz uma reflexão, uma conexão com o que o texto, as palavras podem estar despertando em relação à história de cada um, com o mundo interno de cada um. Em alguns momentos a gente pode fazer algumas produções. Ou a produção coletiva de textos, ou um relato próprio de cada um” (Participante 7)
Relato 18: “A maioria [das oficinas que eu coordeno são] do tipo expressiva
mesmo” (Participante 2)
Algumas participantes aparentemente compartilham uma concepção mais aberta sobre as especificidades das diferentes modalidades de oficinas terapêuticas. Afinal, afirmaram coordenar oficinas terapêuticas que não se enquadram na categorização estabelecida pelo Ministério da Saúde, conforme os Relatos 19 e 20. Parece razoável
propor que iniciativas como estas, embora possam ser consideradas interessantes, tendem a se distanciar mais facilmente dos objetivos para os quais foram inicialmente idealizadas. Ocorre que o processo utilizado para o desenvolvimento das oficinas terapêuticas, nestes casos, foi empregado pelas participantes como único parâmetro para caracterizá-las. Porém, é preciso sublinhar que o mesmo não foi observado apenas a propósito da descrição de oficinas terapêuticas supostamente inovadoras, como ilustram os Relatos 21 e 22. O risco de distanciamento em relação aos objetivos de tais práticas também pode ser vislumbrado, já que uma “oficina de artesanato”, a princípio, tanto poderia ser expressiva quanto geradora de renda, bem como uma “oficina de poesia” poderia ser expressiva ou de alfabetização.
Relato 19: “[...] Também tinha oficina de alongamento, de caminhada, de dança,
né? Essas coisas assim” (Participante 1)
Relato 20: “Eu também fazia uma oficina, onde a gente ia para alguns lugares
da cidade. A gente visitou o Muna, a gente visitou o Museu de Uberlândia, e o Museu do Índio” (Participante 9)
Relato 21: Então eu já desenvolvi oficina de jornal [...] É... oficina de música...
oficina de... [...] Tem também oficina de literatura, de poesia” (Participante 3)
Relato 22: “As oficinas de artesanato, eu acho que os pacientes ficam mais à
Encerrando a presente subcategoria, é preciso salientar que uma participante, por meio do Relato 23, estabeleceu uma equivalência entre oficina terapêutica e grupo terapêutico. Obviamente toda oficina terapêutica é realizada em grupo, mas tal equivalência se revela controversa, sobretudo considerando-se que os grupos terapêuticos, tipicamente, são direcionados à abordagem de questões de caráter mais pessoal e/ou íntimo, o que geralmente não se observa nas oficinas terapêuticas. Contudo, Jucá, Medrado, Safira, Gomes e Nascimento (2010) defendem que a polarização entre grupos terapêuticos e oficinas terapêuticas pode fomentar uma dicotomia entre questões pessoais e questões sociais – ou entre dispositivos com enfoque clínico, por um lado, e enfoque político – que a Reforma Psiquiátrica Brasileira, na realidade, deveria combater.
Relato 23: “Aqui no CAPS eu faço um grupo terapêutico que é uma oficina, onde
a gente... geralmente eu levo um tema, eu levo um assunto específico, e geralmente eu trabalho com conceitos, para que a gente debata sobre esses conceitos. E aí durante esse debate, vão aparecendo várias coisas, e os pacientes relatam estar mais aliviados depois” (Participante 8)