Para a elaboração de um projeto, Imai (2013) observa que devem ser consideradas as seguintes etapas: identificação das características dos futuros usuários; determinação de suas necessidades; elaboração de um programa arquitetônico inicial; validação deste ao longo da elaboração do projeto, pelos usuários e projetistas; desenvolvimento dos elementos de representação gráfica;
verificação do produto e avaliação de seu desempenho em uso, por meio da aplicação de uma APO.
A avaliação de desempenho tem a função de prover informações que embasem as decisões de projeto, visando à qualidade durante as etapas de concepção, construção e operação, de modo a retroalimentar o processo. Desta maneira, pode ser concebido um ciclo no qual uma equipe de projeto com acesso às informações sobre o desempenho de construções similares pregressas em uso permite a tomada de decisões de projeto embasadas por experiências anteriores (PREISER; VISCHER, 2005).
Sendo assim, a aplicação do conhecimento adquirido por meio da aplicação de APOs a edificações de tipologia construtiva semelhante constitui uma das possibilidades para a determinação das soluções de projeto adequadas às metas de desempenho. Portanto, sua realização pressupõe a adoção de métodos claros de pesquisa e julgamento, de modo a identificar os padrões que provejam subsídios para mensurar a qualidade, sejam estes relativos ou absolutos.
De modo resumido, a adoção dos conceitos da gestão da qualidade em um processo construtivo no qual está prevista uma APO, permite uma abordagem mais sistemática para a coleta de informações, identificação de situações críticas, determinação das causas e aspectos críticos prioritários e a aplicação de soluções corretivas (MELHADO, 2005), o que pode contribuir para a efetiva melhoria contínua do ambiente construído.
Outro aspecto importante, relacionado à elaboração sistemática e padronizada destas avaliações, é a possibilidade de consulta de seus resultados por agentes envolvidos na concepção de novas edificações, inclusive de modo a prover subsídios para a elaboração e revisão de normas técnicas, diretrizes de boas práticas e atualização de metas de desempenho e benchmarks.
Preiser e Schramm (2005) identificam seis fases de avaliação interativa do desempenho da edificação, a saber: planejamento estratégico, elaboração de programa, projeto, construção, ocupação, adaptação para reúso ou reciclagem.
As APOs vêm sendo aplicadas no Brasil, desde a década de 1980 (ORNSTEIN, 2006; ORNSTEIN; MOREIRA, 2008; ORNSTEIN et al., 2009), com o objetivo de aferir o desempenho do ambiente construído em diferentes tipologias de edificações e compreender como o usuário percebe e relaciona-se com a edificação.
Desde então, os métodos e técnicas adotados para sua aplicação sofreram evoluções sucessivas (ORNSTEIN, 1996; KOWALTOWSKI; PIÑA, 2001; ROMÉRO; ORNSTEIN, 2003; ELALI, 2010; RHEINGANTZ, 2010; FRANÇA; ORNSTEIN; ONO, 2011; ORNSTEIN et al., 2012). Também foram objeto de debates em ambientes acadêmicos e fóruns dedicados ao estudo da engenharia e da arquitetura, como os promovidos pelo NUTAU (Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) e pela ANTAC (Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído), dentre outros.
Neste cenário, o trabalho de grupos de pesquisa, tais como: Qualidade e Desempenho no Ambiente Construído (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), Processo de Projeto em Arquitetura: da teoria à tecnologia (Departamento de Arquitetura e Construção da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas, GAE e ProLUGAR (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro), GEPA (Grupo de Estudos Interação Pessoa-Ambiente, do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte), PROPUR (Programa de Pós- Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e MORA (Grupo de Pesquisa em Habitação da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design da Universidade Federal de Uberlândia) merecem destaque.
Entretanto, observa-se que, embora o ambiente acadêmico dedique importantes esforços à questão, a aplicação efetiva dos métodos e técnicas da APO junto à indústria da construção civil ainda não é uma realidade no Brasil, à época da conclusão da presente pesquisa (2015).
Além disso, o extenso Banco de Dados referente a ambientes construídos em uso, elaborado pelas diferentes equipes de pesquisa na área de ambiente e comportamento, carece de padronização e de um fluxo eficiente de informação, que possibilite o acesso aos aspectos identificados e respectivas medidas corretivas adotadas, o que é fundamental para a realimentação do processo de projeto. Uma possibilidade visando a proporcionar maior fluidez e melhor acesso a esses dados seria a elaboração de uma norma técnica para a aplicação de APOs, a apresentação e a documentação dos resultados obtidos por meio destas.
Kowaltowski (2011) avalia:
Uma análise dos estudos de ambientes físicos de escolas públicas no Brasil demonstra que os prédios escolares apresentam qualidade arquitetônica pouco expressiva e nível de conforto mínimo. (...)
As intervenções de melhoria são possíveis nos casos de problemas de conforto ambiental encontrados na maioria dos estudos, com a possibilidade de soluções simples em muitas escolas. As reformas e ampliações, por sua vez, necessittam de avaliações de custo/benefício e planejamento cuidadoso, para evitar inadequações, comuns nas escolas públicas. As modificações simples podem trazer melhorias significativas para um aspecto, porém, se mal planejadas, podem trazer prejuízos em outros aspectos. (KOWALTOWSKI, 2011, p.156)
Considerando um nível de formalização suficiente para que os processos de projeto e de execução possam ser claramente mapeados, faz-se possível aplicar a estes processos de avaliação os conceitos de gestão da qualidade, tal como o apresentado por França e Ornstein (2015) para orientar a tomada de decisões de projeto, conforme o fluxograma proposto na Figura 7.
Figura 7. Fluxograma do processo de tomada de decisões visando à gestão da qualidade Fonte: FRANÇA, ORNSTEIN (2015).
No esquema da Figura 8, as etapas de projeto são apresentadas em função da realimentação cíclica, com base nos resultados da edificação em uso ao longo de sua vida útil, possibilitada pela aplicação de uma APO. Desta forma, podem ser elaborados planos de requalificação, revisão de procedimentos para a manutenção, a operação e a revisão de diretrizes para novos projetos.
Figura 8. Procedimentos para a avaliação do desempenho dos edifícios Fonte: FRANÇA (2011, p. 12).
Alguns exercícios vêm sendo feitos, com o intiuto de automatizar os resultados obtidos por meio da aplicação de APOs. Sales e Ruschel (2014) sugerem a incorporação dos resultados das APOs ao modelo tridimensional, no formato de tabelas. Por sua vez, Freitas e Ruschel (2015) propõem o emprego de soluções tecnológicas de realidade aumentada para a incorporação dos resultados de APOs ao modelo, de modo que a imagem da situação existente possa ser renderizada, sobreposta à imagem do protótipo tridimensional.
Entretanto, para que essa informação seja efetivamente útil, é preciso determinar quais procedimentos e recursos tecnológicos são necessários para o acesso aos dados e a que atores estes diagnósticos interessam, no contexto de um processo de gestão do conhecimento (SOUZA, MELHADO, 2008).
Por exemplo, gestores de facilidades, usualmente, são proficientes na análise de tabelas, porém, não apresentam domínio do programa computacional utilizado
para modelagem em 3D. Também as licenças desses programas de uso específico de engenharia e de arquitetura não costumam estar disponíveis nos ambientes administrativos nos quais são tomadas as decisões gerenciais referentes ao empreendimento.
Por esse motivo, entende-se, no âmbito da presente pesquisa, que as informações provenientes de diagnósticos de APO, para efeito de uma realimentação eficiente de projeto, devem estar disponíveis aos stakeholders, em ambiente que permita a fácil consulta e não obrigue à equipe o domínio de programas computacionais de modelagem tridimensional.