A inspiração nesta metodologia fenomenológica de conduzir a presente pesquisa no cotidiano do indivíduo é redimensioná-la, tendo como objeto de estudo as vivências dos pacientes com câncer em tratamento e dos profissionais de saúde como eles significam a religiosidade e a fé de seus pacientes.
O método da escola fenomenológica se compõe de duas etapas principais, denominadas por Ales Bello (2004a, 2006a), como duas paradas, e assim como é apresentado por Mondin (1985, p.185) como uma fase negativa e outra positiva. A psicologia teve uma participação notável na elaboração deste método - que é filosófico: formado desses dois momentos fundamentais que são chamados de redução eidética e transcendental.
A distinção entre os dois momentos se deve à função diversa que a epoché exerce neles. Na redução eidética, a epoché diz respeito à suspensão do juízo sobre a existência do objeto real, a fim de examinar apenas as representações. Na redução transcendental, a epoché concerne à suspensão do juízo sobre qualquer conteúdo do conhecimento, para concentrar toda a atenção na consciência pura (MONDIN, p.185, 1985).
Mondin (1985, p.185) afirma que o momento da redução eidética (fase negativa) consiste em “colocar entre parênteses (epoché) tanto os aspectos psicológicos quanto a matéria do conhecimento”, para se analisarem apenas as representações enquanto representações. Enquanto a redução transcendental (ou fase positiva), a fenomenologia é “utilizada ao estudo do conhecimento, esvaziando- se este de qualquer conteúdo, de qualquer objeto conhecido ou desejado. Não se trata mais do exame daquilo que sinto, conheço, vejo ou quero, mas do eu que conhece, sente, quer”. Esta última visa a considerar a coisa mesma, adentrar e fazer com que ela se mostre em toda a sua realidade.
O ato no qual a essência vem apreendida, é uma visão espiritual que Husserl Tomo III14 apud (CAPALBO, 2005) descreve como intuição, como sendo um ato
puramente imanente da consciência que, dirigindo-se para a coisa nela mesma, atribui-lhe uma unidade de sentido, fundando nas evidências apodíticas da essência. Como chegar à evidência? Um dos meios para alcançar a evidência é a intuição, isto é, a capacidade intelectual que o homem tem para conhecer certos princípios fundamentais de modo imediato, sem intermediários de tipo demonstrativo. Como compreendemos o sentido das coisas? É uma possibilidade de todo ser humano intuir o sentido das coisas, portanto capta-se a essência pelo sentido. Husserl (1991, 2008) utiliza a palavra eidos (origem da palavra ideia, que neste caso não quer dizer tanto um produto da mente, mas sentido), aquilo que se capta, que se intui. O filósofo diz, por exemplo, que seu interesse primordial não é o fato de existir, mas o sentido desse fato (ALES BELLO, 2006a). Assim, “coloca entre parênteses” a existência dos fatos para compreender a sua essência, ou seja, coloca o eidético fora de circuito.
Ales Bello (2004a) interpreta Husserl, ao aplicar este método conseguiu apresentar que o conhecimento tem caráter essencialmente intencional. Ao fazer a análise da subjetividade se pode olhar somente uma parte limitada da realidade, por isso que é necessário voltar e recomeçar sempre do início, e observar a essência
do discurso. A autora assinala que ao invés de utilizar o termo sentido, se utilizará a palavra essência. Essência é uma palavra antiga, que vem da língua latina e que corresponde ao termo grego eidos, de onde deriva a palavra ideia, e em alemão
Wesen ed Essenz. Só é possível apreender, captar algo por meio do eidos, de onde
parte a ideia que temos da coisa. Então, a essência é tratada aqui como uma unidade subjetiva de sentido, sendo constituinte do objeto mesmo no seu conteúdo real. Husserl ressalta a objetividade da coisa nela mesma, em seu sentido lógico transcendental e não lógico formal ou psicológico, nesse sentido, ele se mostra contra o psicologismo e o empirismo. É fundamental perceber que o autor fez análises bastante detalhadas para diferenciar a maneira de o sujeito pensar, que atribui sentido ao objeto conhecido (noesis), do conteúdo objetivo de pensamento, o significado ideal da coisa (noema), e sempre recordando a indissociabilidade dos polos noético - noemático da consciência intencional (ALES BELLO, 2004a, 2006a; CAPALBO, 2005).
Um outro elemento importante a ser mencionado é a hilética que está ligado aos dados sensíveis do indivíduo e não tem valor por si mesmo, mas somente quando se apresenta junto com a noesis (ALES BELLO, 2004a; 2006a).
Husserl (2007a) observava naquela época a inclinação difundida na sua cultura de psicologizar o eidético. A ela atribui também os que se chamam idealistas, assim como é forte a influência das teorias empiristas sobre a parte idealista. Ao olhar as ideias, as essências como as construções psíquicas, fazendo referências às operações de consciência nos quais obtém os “conceitos” de figura, cor, atrapalham a consciência que resulta simultaneamente das essências figura, cor, com essas mesmas essências, atribuindo à consciência, aquilo que é real, ou seja, é transcendente por princípio. Essa exclusão restringe à eidética as objetividades transcendentes individuais. Ao se livrar da inclinação à psicologização da essência, um novo grande passo é reconhecer e, por toda a parte, observar inflexivelmente a separação entre essências imanentes (percepção interna) e transcendentes.
De uma parte, estão as essências da própria consciência; da outra, as essências de ocorrências individuais transcendentes à consciência, ou seja, essências daquilo que apenas se “anuncia” nas configurações da consciência, por exemplo, as aparições sensíveis da consciência (ALES BELLO, 2004a, 2005, 2006a).
O eu, enquanto transcendental, consciência pura, em todos os seus atos volitivos, cognitivos e apetitivos, se manifesta pela intencionalidade. Esta se apresenta absoluta diante de uma intersubjetividade (sujeito-objeto), e somente por
meio desta é possível desvelar o fenômeno em estudo. Sendo que o eu é a fonte e a origem constitutiva do ser que tem sentido, enquanto atribui significado ao mundo.
O investigador descreve o campo da consciência transcendental a partir da intuição pura, e excluindo o circuito da existência (no primeiro momento), podendo estar seguros da legitimidade da norma que pretende seguir como fenomenólogos; não fazendo uso de nada que não seja aquilo que possa tornar eideticamente evidente para si na própria consciência, em pura imanência.
Ao fazer a reflexão dos atos transcendentes que está vivenciando, sabe que os está realizando com o que está percebendo ou tocando. Esse refletir é um novo ato, é uma nova vivência, corresponde à consciência de segundo grau, ou seja, é uma atualização da percepção (atos perceptivos são os de primeiro grau). Vivência é aquilo que se está vivendo com o outro. É ter consciência dos atos alheios que são registrados pelo pesquisador e adquire-se consciência15. Ales Bello (2005, 2006a)
refere Husserl diz que identifica essa consciência também como uma vivência. A pessoa tem vivência empírica como também vivência consciencial.
Ales Bello (2006a, p. 94) enfatiza que o mais importante no estudo de Husserl não é a existência em si mesma, mas a essência, o sentido, o significado das coisas que existem. O que interessa para ele é conhecer o que é a coisa que se deseja estudar, qual é a sua essência, e não somente colocar em evidência o seu existir, mas mostrar o seu sentido. O autor ainda refere que as coisas físicas são conhecidas por meio da corporeidade. A análise inicial da corporeidade, feita pelo autor, foi a mesma realizada por Merleau-Ponty (o que diferencia é a atribuição de uma outra perspectiva na busca de sentido - existencialismo). Ales Bello (2006a) conclui Husserl que se pode dizer que se tem um corpo, baseando-se na análise dos atos registrados por cada um, ou seja, as sensações córporeas que se é capaz de registrar.
É no caminho da fenomenologia, que Ales Bello (2005) interpreta Husserl que diz a relação entre filosofia, teologia, e afirma que a filosofia deve ser reconhecida como uma via-a-téia (via sem Deus)16 de pesquisa, mas segundo a mesma autora,
Husserl em Ethisches Leben. Thologie. Wissenschaften17, publicado em 1924,
considera a validade de pesquisas teológicas que iniciam a partir de “princípios revelados” ou de intuições.
15 Consciência é estar cônscio dos atos que se está realizando. Stein coloca que “a consciência é uma
luz interior que acompanha todos os atos”. Por meio dos atos se dá conta que se tem limitação. Quando em um momento se quer fazer algo e não se consegue (ALES BELLO, 2006a, p.97).
16 Ales Bello, A. Edmund Husserl. Pensare Dio. Credere in Dio. Ed. Messaggero Padova, Padova, 2005. 17 Manuscrito transcrito. A V 21. Husserl, E. Ethisches Leben, Thologie, Wissenschaften (Vida, ética,
Fenomenologicamente, já vê que o âmbito vivencial se evidencia pela redução transcendental e é, essa via horizontal que se aproxima de Deus, a via chamada teleologia - uma transcendência a um ser superior.