• No results found

Key  activities  and  results

In document R 2014: 3 (sider 16-29)

Para começarmos a pesquisa resolvemos organizar um questionário de modo que as perguntas permitissem aos alunos falar abertamente, exprimir suas opiniões e emitir comentários de valor sobre os assuntos inquiridos. A formulação do questionário foi bastante discutida; evidentemente, não gostaríamos que as perguntas influíssem nas respostas dos alunos, pois almejávamos obter opiniões claras e objetivas. Tínhamos em mente que a elaboração do questionário, assim como do roteiro de entrevistas deveria, segundo Kahn e Cannell ( 1957 ):

“... traduzir os objetivos específicos da pesquisa numa forma que os torne comunicáveis ao respondente com a máxima efetividade (...) e utilizar a linguagem que comunica satisfatoriamente com o respondente menos sofisticado e que, ao mesmo tempo, evita a aparência de exagerada simplificação.”

( Lüdke, M. e André, M. E. D. A ., 1986, p.55 )

Mesmo em se tratando de alunos pertencentes majoritariamente às classes populares não queríamos que uma exagerada simplificação do questionário e também das entrevistas os desmotivasse a responder às perguntas, no sentido de que suas capacidades intelectuais pudessem ser desprezadas devido às dificuldades em responder às questões formuladas .

Devemos esclarecer que as perguntas feitas aos estudantes se embasaram em questionários aplicados por Perrin-Glorian ( 1993 ) em sua pesquisa com alunos de classes fracas com dificuldades em matemática, bem como em B. Charlot e equipe ( 1992 ) em seu trabalho sobre as relações com o saber.

Os questionários foram previamente testados para verificarmos o entendimento das perguntas. Assim, realizamos uma pesquisa exploratória com uma sétima série com a qual trabalhávamos no começo de 1999. Devemos esclarecer que estes alunos não tinham contatos com os estudantes da pesquisa. Após a leitura das respostas, percebemos que tinham compreendido as questões formuladas.

A aplicação do questionário deu-se na última semana de novembro de 1999 e contou com a participação de 120 alunos das quatro classes escolhidas. Foi feita simultaneamente nas oitavas séries do período da manhã e nas sextas da tarde.

Desta forma, as questões que nortearam nossa pesquisa foram:

1- Meu nome é --- e tenho --- anos e agora estou na --- série. Escreva o que a Escola significa para você e para o que serve.

2- Na Escola você aprende Português, História, Geografia, ... e Matemática. O que você acha da Matemática e o que significa para você aprender Matemática? 3- O que você não compreende em Matemática e por quê? E então, o que você faz?

Ao observar as respostas, pensávamos alcançar alguns objetivos :

1- Identificar que tipos de relações os alunos tinham com a escola e que interesses os moviam a freqüentá-la;

2- Tentar compreender se estas relações estavam correlacionadas com a questão do saber ou quais as relações com o saber que poderiam aparecer em suas respostas;

3- Atentar para o problema do sentido da matemática e de se aprender matemática na escola.

Como pretendíamos realizar uma pesquisa em educação matemática, pensávamos que apenas um questionário e um estágio de observação nas fontes pesquisadas seriam insuficientes para uma efetiva interpretação dos fatos que desejávamos conhecer. Assim, a interpretação dos dados seria enriquecida com entrevistas semi-dirigidas que poderiam nos dar mais elementos de análise. A abordagem qualitativa facilitaria na obtenção de respostas encontradas nas entrevistas; determinadas afirmações mais ou menos recorrentes em diversos protocolos de respostas poderiam ser mais aprofundadas e exploradas.

Tínhamos em mente as dificuldades em realizar as entrevistas; afinal, seria um professor entrevistando alunos, embora não fossem os seus alunos. Este fato poderia influenciar as respostas a serem recolhidas. Sabíamos que:

“... a entrevista, conduzida de modo diretivo ou não, não é uma técnica tão simples quanto parece ao utilizador superficial. Muitos autores a problematizam como situação de interação entre dois indivíduos na qual se manifesta um certo condicionamento das respostas e das interpretações possíveis. Por exemplo, R. Kahn e C. Cannel descreveram a interação principalmente ao nível psicológico, incluindo os aspectos emotivos e cognitivos. Na relação entrevistador/entrevistado, mostraram de que modo as características básicas ( idade, educação, sexo, raça, status, religião ) de cada um interferem na percepção, na atitude, nas expectativas e nos motivos do outro, e como essas caraterísticas condicionam, de um lado, a adequação ou inadequação da resposta e, por outro lado, os erros de condução da entrevista.”

( Lüdke, M. e André, M. E. D. A. , 1986, p. 82 )

Outro problema que esperávamos acontecer era se as repostas não poderiam ser prejudicadas devido à situação psicológica da entrevista. As diferenças psicossociais entre o entrevistador e entrevistados poderiam influir nas perguntas e respostas, ainda mais em se considerando que a pesquisa versava sobre o sentido das atividades matemáticas na escola. Na busca do sentido que

um sujeito confere a determinada atividade devemos considerar a existência de todo um aspecto relativo à subjetividade. Para que pudéssemos perceber o aluno em sua realidade escolar, seus anseios, seus projetos, dificuldades e suas relações especificamente com a matemática, seria preciso que interferíssemos o mínimo possível.

Assim, nas entrevistas usamos uma linguagem a mais próxima do entrevistado, de modo que ele se sentisse à vontade, porém sem excesso de simplificação. Como tínhamos em mente explorar as opiniões expressas nos protocolos, optamos por perguntas semi-dirigidas que poderiam esclarecer determinadas questões a serem levantadas nas resposta e que nos pareciam relevantes levantadas, bem como aprofundar outros aspectos não revelados. Devemos considerar que havia uma certa preocupação de nossa parte com a condução da entrevista, no sentido de que poderiam acontecer diversas falhas que nos impedissem de observar a contento o que tínhamos em mente, devido ao fato de não estarmos acostumados com pesquisas desta natureza.

Ao pensarmos nas entrevistas, tínhamos por objetivo, como dissemos, além de esclarecer as falas expressas no questionário, levantar algumas questões que pudessem ser relevantes para a nossa pesquisa. Assim, nossas perguntas em torno de escola, matemática, resolução de exercícios e auto- imagem ajudariam a perceber as relações do aluno com o saber. Seguimos um roteiro em torno destes temas, não aplicado de forma rígida, que permitiu ao entrevistado seguir seus rumos narrativos.

Em torno do quesito escola, queríamos perceber: - A concepção de escola;

- As disciplinas que mais gostam de estudar; - A descrição de um dia de estudante;

- A possibilidade de que o que se estuda na escola pode ou não ser aprendido fora dela.

Em relação à matemática, tínhamos por intuito observar: - A importância e o significado do estudo da matemática;

- Os assuntos da disciplina que o entrevistado acha mais interessante, e o porquê;

- Os conteúdos que apresentam mais dificuldades e suas opiniões sobre eles;

- Como o aluno faz para resolver um problema de matemática, como confere ou valida a solução, porque desiste de resolvê-lo;

- Como o aluno descreve uma aula de matemática;

- Se o aluno estuda em casa, se faz tarefas, exercícios, ... - Se o aluno participa da aula;

- A possibilidade de trazer os conhecimentos do dia a dia para a aula de matemática, bem como se a matemática pode ser envolvida com outras disciplinas;

- A possibilidade de se aprender matemática sozinho; - A relação com o professor de matemática.

Finalmente, gostaríamos de perceber a imagem que o aluno faz em relação à si próprio. Nossas questões foram no sentido de averigüar:

- A imagem que tem de si como estudante; - Como ele era como aluno nos anos anteriores; - A menção ao futuro.

Para as entrevistas convidamos seis alunos, dois da oitava série A e quatro da sexta série F. Achamos que seus comentários feitos nos protocolos representavam, em média, a população envolvida na pesquisa. Todas foram realizadas durante o mês de março de 2000, isto é, no começo do ano letivo posterior ao do estágio em sala de aula e da aplicação do questionário ( ambos feitos em novembro de 1999 ). As entrevistas foram gravadas com o consentimento dos estudantes e transcritas no protocolo de registro de entrevistas para posterior seleção dos trechos mais significativos. Os alunos foram identificados por iniciais, para preservar o anonimato. Assim, a entrevista com F. D. ( 8 A ) foi realizada em sua casa; S. ( 8 A ) e V. ( 6 F) foram entrevistados na

casa do entrevistador, e os demais ( F., K., N., todos da 6 F ), na Escola “ Gabriel Prestes ”.

In document R 2014: 3 (sider 16-29)