Hall (2005) afirma que está ocorrendo um deslocamento e descentramento da identidade do sujeito pós-moderno. As tradições e as estruturas que serviam de apoio aos indivíduos foram derrubadas pelas transformações provocadas pela modernidade. Em razão dessas intensas mudanças das estruturas e instituições, as identidades, antes fixas, tornam-se provisórias e móveis. Assim, para o autor (ibid.:13) “dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. (...) A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia”.
No que tange à cultura, o mundo é hoje um supermercado cultural global em expansão, afirma Gordon (2002). Para o autor, há a cultura formada pelo Estado e a cultura formada pelo mercado; como cultura formada pelo Estado, compreende a cultura nacional, que forja as identidades nacionais dos indivíduos e, como identidade de mercado compreende “não pertencer a nenhum lugar determinado (...)”: o lar do indivíduo é o mundo inteiro. A dificuldade surge quando as identidades culturais nacionais se defrontam com o supermercado cultural global, que passou a ser ofertado com o advento das redes internacionais e da globalização.
A visão apresentada é de suma importância para a contextualização do gênero e para a percepção de como os movimentos sociais se espalham, determinando mudanças culturais em todo o planeta. Homens e mulheres têm a
sua disposição, no supermercado cultural, identidades a escolher, optando pela de seu interesse; a fonte não é, unicamente, a identidade nacional, amplia-se o leque. Abre-se um prisma diferente, para serem olhados os homens e as mulheres.
As pessoas são socializadas de acordo com “o modo de vida de um povo” – a cultura nacional – e, também, são influenciadas pelo supermercado cultural, o que, ao final, determina o desenvolvimento de um eu cultural. Alguns pensadores, como Lifton (1993), referem-se a um “eu protéico”, por meio do qual se muda, incessantemente, tecendo-se e recriando-se. Portanto, nem o eu nem a cultura podem ser vistos como totalmente pertencentes a um único lugar, nem, tampouco, como pertencentes a lugar algum.
Na seqüência, Gordon (2002:37-38) propõe uma abordagem fenomenológica para integrar os dois aspectos: “como as pessoas vivenciam o mundo”. Assim, encontram-se diferentes eus, originários de diferentes culturas. Mas, por detrás da formação cultural do eu, há uma estrutura que regula sua formação. Com o objetivo de explicitar essa estrutura, estabelecem-se três dimensões: profunda, intermediária e superficial.
A dimensão profunda diz respeito ao que assimilamos quando pequenos: Becker (1971:148) ressalta que “a criança é parcialmente condicionada antes que possa manipular os símbolos”. O indivíduo é influenciado pela linguagem e pelas práticas sociais que automatiza inconscientemente porque, nessa idade, não é capaz de exercer a reflexão. A dimensão profunda situa-se abaixo do nível de consciência, é de difícil acesso, sendo atingida de modo indireto, sem questionamento. Essa é a razão pela qual os indivíduos se comportam de modo “x” e não de modo “y”.
O nível intermediário relaciona-se às pressões sociais e institucionais, das quais o indivíduo tem consciência, mas as quais não consegue evitar, tais como parar em semáforos, ser cortês quando não sente vontade ou agradar o chefe, mesmo sem respeitá-lo. Resistir a essas pressões terá um alto preço. Esse nível é
representado pela frase: “não há nada que eu possa fazer”. Traduzindo, tem consciência, mas não tem controle sobre sua situação.
O nível superficial da formação cultural do eu, consciente em alto grau, conecta-se ao supermercado pessoal. Nessa dimensão estão envolvidas as escolhas pessoais, dentre tudo o que é ofertado ao indivíduo. Há uma seleção de idéias, na qual se pode optar pelo budismo, pela música indiana, pelo ballet clássico ou por jogar tênis.
O fato relevante, que não pode ser omitido, é que não há escolhas completamente livres. Essas escolhas se inserem em um contexto delimitador. Os limites são impostos pela classe, pelo gênero, pela crença religiosa, pela etnia e outros. Os indivíduos são livres dentro de seus condicionamentos.
Resumem-se essas três dimensões da formação cultural do eu em: o que faz sem pensar, o que se faz porque tem que se fazer e o que se faz porque se escolhe fazer.
A estrutura conceitual explanada remete às questões de gênero – aprofundar como se dá a formação cultural do eu nas mulheres, com o objetivo de compreender o seu comportamento ao longo do tempo.
Quanto à dimensão profunda, cabe refletir sobre como as meninas são socializadas, quais valores são transmitidos a elas em tenra idade. Cuidar do lar, dos filhos, é um valor atávico e forte. A fragilidade, o recato e outras tantas, desse tipo, são denominações aparentemente carinhosas, que, porém, constituem o sustentáculo de muitas exclusões das mulheres em qualquer idade. Crescem as meninas e tornam-se mulheres com as marcas indeléveis desse imprint cultural. O que se obtêm são valores não questionados e reproduzidos de forma até inconsciente na criação dos próprios filhos e filhas.
C., ao revelar em sua entrevista o dilema que enfrentou, entre optar pela carreira profissional ou pelo casamento, exemplifica a força que a família exerce
ao transmitir valores e também a pressão social para assumir os papéis típicos femininos:
(...) minha mãe mesmo muitas vezes me falou, você não precisa estudar tanto, você pode fazer algum curso que te dê alguma qualificação, você não precisa estudar tanto, porque a mulher é para se casar.
Quanto à dimensão intermediária, ela também exerce seu poder sobre o modelo mental e o comportamento feminino cotidiano. A grande maioria das mulheres não conseguiu livrar-se dos papéis sociais que lhes atribuiu a sociedade. Por exemplo, ao optar por não se casar, sofrerá as pressões sociais, no mínimo, a exercida pela família. E mais, é vista pela sociedade como uma pessoa com idéias estranhas, sofrendo exclusão, dado que não entra em nenhuma das categorias, nas quais se enquadra a maioria. A alternativa será calar-se e abrir mão do seu direito de liberdade de expressão. Sem dúvida, a transgressão é sempre possível. Ademais, as ainda chamadas solteironas são livres do contrato de casamento, cuja função mais fundamental consiste em subordiná-las, expressamente ao marido. Trata-se de um contrato leonino entre seres socialmente desiguais (Pateman, 1993).
Na terceira dimensão, a superficial, na qual são realizadas as escolhas - por exemplo, que esporte se quer praticar -, a situação pode não ser tão simples como parece à primeira vista. Em um caso amplamente divulgado pela imprensa, uma garota de sete anos, tecnicamente competente, foi retirada do time masculino de futebol de salão porque garotas não são permitidas no time de meninos, segundo as regras. Os familiares e os companheiros de equipe estão se mobilizando para rever as regras. Isso quer dizer que mesmo as opções mais superficiais são condicionadas e sofrem pressões sociais, revelando a onipresença do gênero nas relações humanas.
Para concluir, Hall (2005) considera que cinco grandes avanços ocorridos na teoria social e nas ciências humanas foram proporcionados por Marx, Freud, Saussure, Foucault e o movimento feminino. Eles contribuíram para descentrar em definitivo o sujeito cartesiano, antes estável e fixo.
Quanto à contribuição do feminismo, tema central deste trabalho, adotou o slogan “o pessoal é político”, derrubando o muro entre o “público” e o “privado”, trazendo para o debate questões como divisão do trabalho doméstico, sexualidade, filhos e outros. Tratou com ênfase como somos formados e produzidos como sujeitos “genereficados”, ou seja, politizou a subjetividade.
A identidade e o processo de identificação teve seu início contestando a posição social da mulher, porém, ampliou-se e incluiu a formação das identidades sexuais e de gênero. Por fim, “o feminismo questionou a noção de que os homens e as mulheres eram parte da mesma identidade, a ‘humanidade’, substituindo-a pela questão da diferença sexual”(ibid.:46).
Desse modo, a partir da afirmação “o pessoal é político”, a diferença sexual transforma-se em diferença política. Decorre daí que essa diferença política está diretamente conectada ao patriarcado, por ser ele uma forma de poder político, de subjugação.