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Distanciando-nos da análise de Mesquita e Ponte (1997), referida no ponto anterior, avançamos para duas áreas que nos parecem pertinentes para o desempenho do jornalismo, como confirmam alguns dos entrevistados. Se olharmos às competências dos profissionais do jornalismo e aos vários anúncios de oferta de emprego que surgem na imprensa, verificamos que as línguas representam uma quase obrigatoriedade, além da portuguesa, uma ou duas estrangeiras.

Assim lhe remete tal importância o jornalista da TSF, Vilas-Boas, ao assumir a sua pertinência no início do curso, nomeadamente a «compreensão de diversas línguas, pelo menos três (…), para além da língua nacional» (Entrevista: 14 de Setembro de 2006). Vilas-Boas insiste na Língua Portuguesa e utilidade do saber escrever, falar e dominá-la para poder passar a «mensagem com a sua integridade». O Português não é esquecido também por Carvalho (Entrevista: 13 de Outubro de 2006) que o indica como «absolutamente essencial». Nota que os

114 Mencionado por Vieira (Entrevista, 17 de Outubro de 2006), Marcelino (Entrevista, 9 de Outubro de 2006) e Vilas-Boas (Entrevista, 14 de Setembro de 2006).

alunos que chegam ao

Público

têm um domínio razoável da língua, assim como Carlos Daniel (Entrevista: 6 de Novembro de 2006) e Silva (Entrevista: 12 de Setembro de 2006).

Quanto às línguas estrangeiras, o jornalista da TSF (Entrevista: 14 de Setembro de 2006) dá importância ao Inglês e ao Francês, a primeira porque, «tendo conquistado o universo comercial, conquistou também o universo da comunicação internacional», e a segunda porque «há também áreas que se recusam a compreender o Inglês» como é o caso de algumas da África do Sul, bem como da sua literatura, como vimos previamente, passando pelos clássicos «como forma de consolidação de muitos saberes tradicionais», áreas leccionadas numa primeira instância. O Inglês volta a ser mencionado como importante pelo jornalista da RTP (Entrevista: 6 de Novembro de 2006) e por Filipe Rodrigues da Silva (Entrevista: 12 de Setembro de 2006) que a esta língua junta o Espanhol e o Mandarim, entendendo-as como disciplinas de carácter obrigatório. Se esta última não se encontra em nenhum dos planos em estudo, já o Espanhol não é esquecido, como pode constatar-se adiante.

Através da observação dos vários planos de estudo podemos constatar que este aspecto não foi esquecido pelos fundadores das licenciaturas em Jornalismo e Comunicação abrangidas neste estudo115. Anuais ou divididas em duas cadeiras semestrais, agrupam-se com as disciplinas

onde são leccionadas as línguas estrangeiras.

Todos os cursos em estudo dispõem, com carácter de obrigatoriedade ou de opção de pelo menos uma língua estrangeira116. Nas Universidades, o Inglês, também não é descurado117.

115 A Língua Portuguesa, sempre no 1º ou 2º anos da licenciatura, à excepção de Comunicação Social da ESEV, constitui uma disciplina que, com esta designação ou semelhante [Língua e Expressão do Português, Português, Língua Materna e Comunicação, Oficina da Língua Portuguesa, Técnicas de Expressão de Português, Língua Portuguesa: Registos Orais, Língua Portuguesa: Registos Escritos, Estudos Portugueses; também em disciplinas já consideradas para os grupos temáticos, onde a Língua e a Cultura Portuguesas se misturam (ESEP, ESEV e UBI)] não é dispensada por doze licenciaturas: Comunicação Social – ESTA; Educação Multimédia – ESEB; Jornalismo e Comunicação – ESEP; Jornalismo – ESCS; Comunicação Social – ESEV; Tecnologias da Comunicação – ESTGM; Ciências da Comunicação – UTAD; Comunicação e Cultura – UA; Jornalismo e Ciências da Comunicação – FLUP; Jornalismo – FLUC; Ciências da Comunicação – UNL (como disciplina de opção).

116 O Inglês faz parte do plano de estudos da licenciatura de Comunicação Social da ESTA, no 1º e 2º ano (anual), de Educação e Comunicação Multimédia da ESEB, no 1º e 2º Semestre do 2º ano, de Comunicação Social da ESES durante o 1º e 2º ano com carácter semestral, no 1º ano de Jornalismo e Comunicação da ESEP. Com uma designação relativamente diferente, Língua Estrangeira Para Fins Específicos – Inglês, pode ser frequentada no 2º Semestre do 3º ano desta última licenciatura. Já com um destino de aplicação às Ciências da Comunicação e ao Jornalismo, o Inglês é leccionado no 1º e 3º anos, respectivamente, com carácter anual, na licenciatura em Jornalismo da ESCS. Em Viseu, a licenciatura em Comunicação Social da ESEV lecciona, em ambos os semestres do 2º e 3º anos, a disciplina de Língua e Cultura Estrangeira, sem especificar de qual se trata ou se existe uma opção entre várias. Continuando com o Inglês, a ESTGM com a licenciatura em Tecnologias da Comunicação, dispõe desta disciplina no 1º ano.

117 A UM colocou no 1º ano da licenciatura em Comunicação Social esta disciplina com carácter de obrigatoriedade, pondo outras opções à escolha e a disciplina de Língua Estrangeira II, no 2º ano, sem especificar se são as mesmas escolhas do primeiro semestre. Também é no 1º e 2º anos que a UTAD lecciona o Inglês, na licenciatura de Ciências da Comunicação. Na UBI, os alunos de Ciências da Comunicação optam pelo Inglês e o Francês no 1º ano. Também na licenciatura de Comunicação Social e Cultura da UA o Inglês faz parte do leque das opções, podendo ser deixada de parte caso os alunos optem por outras disciplinas, com a designação de Língua Estrangeira (e que possibilita uma outra opção entre várias línguas: Alemão, Espanhol, Francês, Inglês e Italiano). Na FUP, a licenciatura em Jornalismo e Ciências da Comunicação, o Inglês pode ser escolhido no 1º Semestre do 4º ano, podendo também ficar no esquecimento. Na licenciatura em Jornalismo da UC a opção é entre o

Após o Inglês, as opções mais disponibilizadas apontam para o Francês118, seguidas do

Espanhol119, Alemão120 e Italiano121.

Um outro ponto que nos chamou a atenção foi a notória referência de alguns entrevistados à leitura de jornais. Culminando a sua caracterização de um bom ensino do jornalismo, Vilas-Boas (Entrevista: 14 de Setembro de 2006) nota a importância de uma profunda formação «cultural [e] filosófica» aludindo ao facto de muitos alunos terem pressa em ser jornalistas, pois «o jornalista precisa de tempo para se consolidar como tal». O domínio do mundo em que vive é importante e passa pela leitura assídua de jornais, audição da rádio e visão da televisão, hábito que falta nos alunos de hoje em dia, de acordo com Vilas-Boas, condenando os candidatos ao desaparecimento.

Esta leitura de jornais é também exigida por Carvalho (Entrevista: 13 de Outubro de 2006), afirmando que «era também fundamental que nem um único aluno pudesse sair de qualquer universidade sem ter enraizado como vício o hábito de ler jornais, que é uma coisa que eu acho absolutamente incompreensível como é que nos chegam aqui estagiários que não têm o hábito de ler jornais.» Esse interesse deveria então ser fomentado através da discussão e debate dos temas da actualidade, de acordo com o jornalista. Vieira (Entrevista: 17 de Outubro de 2006) concorda com os restantes entrevistados ao mencionar esta falta de leitura que distancia os alunos da «própria realidade em que vão trabalhar (…) falta-lhes conhecimento da actualidade, seja nacional, seja internacional». O director de informação da SIC acusa esta como a falha das instituições: «a adaptação da parte teórica à parte prática e à vida».

Sem falar especificamente da leitura de jornais, Carlos Daniel (Entrevista: 6 de Novembro de 2006) conta que os candidatos não dominam hoje «os assuntos que são matéria noticiosa de todos os dias, seja política nacional, seja de política internacional, seja da área cultural, seja do desporto, da economia», ou seja, «não dominam como deviam dominar alunos licenciados em jornalismo, e não noutra coisa qualquer.»

Inglês e Francês durante os dois primeiros anos. Por último, o que mais se parece com o ensino de línguas na licenciatura de Ciências da Comunicação da UNL tem a designação de Estudos Alemães; Franceses; Hispânicos; Ingleses, Norte-Americanos e Anglo-Portugueses. 118 Comunicação Social – ESTA; Educação e Comunicação Multimédia – ESEB; Comunicação Social – ESES; Jornalismo e Comunicação – ESEP; Comunicação Social – UM; Ciências da Comunicação – UTAD; Ciências da Comunicação – UBI; Comunicação Social e Cultura – UA; Jornalismo – FLUC;

119 Educação e Comunicação Multimédia – ESEB; Comunicação Social – ESES; Jornalismo e Comunicação – ESEP; Comunicação Social – UM; Ciências da Comunicação – UTAD; Comunicação Social e Cultura – UA; Ciências da Comunicação – UNL.

120 Comunicação Social – ESTA; Comunicação Social – UM; Ciências da Comunicação – UTAD; Comunicação Social e Cultura – UA; Ciências da Comunicação – UNL.

A nosso ver, este interesse diário pelo próprio produto noticioso dos

media

é uma acusação grave e que os profissionais estão em condições de observar através dos estagiários que chegam às redacções. Esta característica deveria ser inata aos alunos e não condicionada em ensinamentos, mas se a realidade assim o demonstra, deve-se aproveitar esta observação negativa e incentivar os alunos à leitura de jornais e

sites

noticiosos, audição das rádios e observação da televisão. Todas estas actividades devem ser acompanhadas com a discussão diária de notícias, reportagens entre outros aspectos que conduzem à produção noticiosa. Este método pode ser introduzido, não significando esta observação da autora que não exista em alguns casos, tanto nas disciplinas dos grupos temáticos de Estudo Sobre os

Media

, como de Jornalismo.