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4. METODE

4.2 K VANTITATIV METODE

4.2.5 Kartleggingsinstrumenter

292OPERA riograndense “Farrapos”. Rio Grande. Porto Alegre, 5 out. 1936.

293OUVINDO Roberto Eggers e Emilio Baldino, o criador e o animador de “Farrapos”. Jornal da Manhã. Porto Alegre, 27 set. 1936.

Arthur Elzner (1899-1978) perdera sua visão pouco depois de nascer. Nasceu em Porto Alegre, mas aos oito anos de idade ingressou no Instituto Benjamin Constant,294 no Rio de Janeiro, onde estudou música, sendo o piano seu principal instrumento. Com apenas nove anos já tocava triângulo na Banda de Música do Instituto, passando, depois, para caixa e tímpanos. Ao retornar a Porto Alegre, em 1913, passou a atuar como acordeonista, pianista e baterista em conjuntos que animavam os cafés, bares e casas noturnas da cidade até que, em 1948, foi efetivado na Banda Municipal. Compôs algumas músicas de caráter popular, sendo elas grafadas por colegas músicos dispostos a ajudá-lo. Praticamente nada dessa produção chegou até nós, pois parte dela foi destruída por uma grande enchente em Porto Alegre, em 1941, e outra parte, pelo incêndio da Rádio Farroupilha, em 1954.295 Trabalhou em rádios porto-alegrenses e foi colega de Eggers durante o período em que ambos trabalharam na Rádio Sociedade Gaúcha.

Mas é especialmente uma de suas composições, a Rapsódia 1835, que causou certa polêmica em Porto Alegre no ano de 1936. De acordo com Corte Real, parte dessa composição fora apresentada como prelúdio do terceiro ato da ópera Farrapos na sua primeira encenação, tendo sido suprimida nas seguintes. O autor diz ainda que Rapsódia 1835 teria sido escrita, antes da ópera, para ser tocada no estúdio da Rádio Sociedade Gaúcha por ocasião das comemorações do Centenário da Revolução Farroupilha.296

Logo que estourou o sucesso de Farrapos, no mês de outubro, Elzner foi a um jornal local manifestar sua insatisfação pela falta de reconhecimento por seu trabalho. Foi à redação do Jornal Folha da Tarde tendo em mãos a revista “Vida doméstica” de setembro de 1936. Pediu aos jornalistas que lessem a página 58 onde estava explicado como foi que surgira a ideia de Eggers compor Farrapos. Na revista lia-se:

O primeiro a entusiasmar-se com a ideia [de comemorarem o centenário da Revolução Farroupilha com alguma produção especial] foi Arthur Elzner, o artista cego, que acompanha com seu trabalho eficiente o desenvolver da

“Voz dos Pampas”, [programa da Rádio Gaúcha] desde os primórdios da sua

organização. Pouco tempo após apresentava, num dos seus magníficos programas, na transmissão daquela veterana emissora, um fragmento de sua

“Rapsódia 1835”, obra grandiosa na sua concepção profunda e realização

estética.

“É linda demais para ficar só nisso” – foi a exclamação do maestro Roberto

Eggers, encarregado artístico da Rádio Gaúcha, que deu largas a sua concepção antiga de escrever uma ópera completa, baseada num episódio

294 Instituição destinada à instrução de deficientes visuais. 295

Corte Real, op. cit., p. 136. 296 Ibid., p. 135.

farroupilha, e que via naquela Rapsódia de Arthur Elzner uma ótima colaboração, empregando-a como ouverture de um dos atos da obra que já havia delineado vagamente.297

Para Elzner, essa era a prova de que sua queixa tinha fundamento. E declarou:

Pois muito bem. O senhor já sabe, então, como nasceu “Farrapos”. O maestro

Roberto Eggers pôs mãos a obra e começou a me entusiasmar. Não se pode siquer [sic] imaginar o que isso representou p´ra mim em matéria de sacrifício. Eu trabalho a noite. O tempo que me sobrava para repousar, empreguei-o nesse lavor. Com ele perdi horas preciosas de sono, com graves riscos a minha saúde. Agora “Farrapos” foi encenada e o sucesso premiou, como merecia, a belíssima produção do maestro Roberto Eggers. Entretanto, não sei se o senhor notou, que eu fui posto a margem de todas as homenagens relacionadas com esse trabalho. Eu notei e senti porque isso representa para mim quase uma desilusão. Creio que até o contínuo do Theatro São Pedro foi lembrado, enquanto meu esforço ficava sepultado no esquecimento.

Não desejo glórias nem proventos materiais. Quero apenas que se saiba que um cego é capaz de produzir e contribuir para o patrimônio cultural da sua terra.298

No dia seguinte, porém, Arthur Elzner retornou ao Jornal. Dessa vez mudou seu discurso a fim de explicar o mal entendido.

O meu desejo não era dizer que a ópera do maestro Eggers tinha sido inspirada no meu trabalho. Isso seria um absurdo, de vez que não é verdade.

A “ouverture” composta por mim possui, até, dois motivos da ópera que me

foram fornecidos pelo maestro Eggers. Por isso me apresso em vir retificar esse mal entendido. De fato, a “Vida Doméstica” publicou uma crônica enviada pelo Sr. Alfredo Pirajá onde existem referências elogiosas a meu respeito. Era o que me interessava no assunto, isto é, demonstrar que um magazine carioca me havia feito justiça. As outras digressões não passam de impressões ligeiras, que não vem ao caso. Para evitar que as minhas palavras dêem lugar a conclusões erradas, quero deixar bem claro que o maestro Eggers não se inspirou na minha rapsódia e nem precisaria disso. Ele até começou a sua ópera primeiro que eu, embora eu ignorasse isso como ele ignorava que eu estivesse trabalhando naquele sentido. Depois é que nos encontramos e ele falou que eu devia desdobrar a minha produção afim de encaixar como abertura da sua obra. Foi o que houve. Quanto ao mais, mantenho de pé tudo que eu disse. Apenas não quero que me atribuam intuitos que eu não tive.299

Essa “nova versão” dada por Elzner foi uma consequência da grande polêmica em volta do caso depois da publicação do dia anterior. Surgiram até piadas do tipo “até

Bento Gonçalves inspirou-se na ópera do maestro Eggers para fazer a Revolução

297 FARRAPOS do Maestro Roberto Eggers. Vida Doméstica, Rio de Janeiro, n. 222, s/p, set. 1936. 298 DEPOIS da opera... Folha da Tarde. Porto Alegre, 5 out. 1936.

299

ARTHUR Elzner explica pontos obscuros e mal entendidos da sua palestra de hontem... Folha da Tarde. Porto Alegre, 6 out. 1936.

Farroupilha”. E obviamente, Eggers não gostou da situação. Ao ser procurado pelo

Jornal Folha da Tarde, embora, conforme disse o cronista que narrava o ocorrido, muito bem humorado e fazendo graça do ocorrido, Eggers declarou:

Veja você como as coisas diferem. Eu sempre achei que Arthur Elzner, que é meu companheiro de infância, era um músico aproveitável. Quando resolvi apresentar minha ópera pensei que eu poderia prestar-lhe esse obséquio, por espírito de coleguismo, incluindo no meu trabalho uma partitura perfeitamente omissível. Lutei, até, para que isso acontecesse. Mas não esperava que o resultado fosse o que assisto. (...) Desde uma vez, porém, que você me informa ter Arthur esclarecido a situação, o resto não interessa.300

Pelo que informa a imprensa, o caso não teve maior continuidade. Mas o nome de Arthur Elzner não passou assim em tão brancas nuvens. O Jornal da Manhã301 e o Jornal Diário de Notícias,302 em reportagem sobre a ópera, publicaram notas salientando e exaltando à composição de Elzner. Igualmente, em entrevista à imprensa local, o já citado José Corsi declarou, a respeito da composição de Elzner:

A rapsódia riograndense, do musicista Arthur Elzner, descrevendo uma página admirável, os motivos populares da época, estilizando-os de uma forma elevada, e conseguindo grandes efeitos orquestrais, impressionou extraordinariamente. A descrição da aurora não podia ter mais efeito e ser mais impressionante. 303

Também no livro contendo o estudo sobre a ópera, feito por Alfredo Pirajá Weyer, continha no prefácio um agradecimento de Eggers a Elzner. Note-se que Elzner foi um dos primeiros a quem Eggers se referiu, sendo que Dona Josefina Eggers, irmã de Roberto, responsável por todo figurino feminino da ópera, não foi sequer citada nessa lista de agradecimentos. E ainda, o Jornal Correio do Povo declara ter sido Elzner levado à cena para ser homenageado junto com Eggers e Faria Corrêa na estreia da ópera, recebendo calorosa salva de palmas. 304

Dos indícios que nos sobraram da história, podemos inferir que talvez o incidente tenha abalado a relação de amizade dos dois compositores. Em um dos recortes de jornais sobre a ópera guardados por Eggers, há um que cita os nomes de

300 Ibid.

301A REPRESENTAÇÃO da opera “Farrapos”. Jornal da Manhã. Porto Alegre, 22 set. 1936. 302

FOI apresentada ante-ontem, em “Premiére” absoluta, a Opera “Farrapos”. Diário de Notícias. Porto Alegre, 22 set. 1936.

303 Ibid.

304 A REPRESENTAÇÃO da opera “Farrapos” revestiu todas as características de excepcional acontecimento de arte. Correio do Povo. Porto Alegre, 22 set. 1936.

Eggers e Elzner como compositores. O nome de Elzner está riscado a caneta, de modo que não se consegue ler o que está escrito.305

Corte Real escreveu sobre a Rapsódia 1835:

Trata-se de uma composição musical de programa, com feição de poema sinfônico descritivo, em que o autor pretende narrar substancialmente terra e costumes gaúchos; e, a par disso, cenas dramáticas e guerreiras da Revolução Farroupilha, empregando recursos onomatopaicos. 306

As partituras da Rapsódia 1835 encontram-se na biblioteca musical do acervo de Eggers, cada parte manuscrita e encadernada separadamente. Talvez uma das poucas músicas desse compositor que chegou até nossos dias.