Kapittel 4 – Analyse: konvensjoner og representasjon
4.3 Juno
4.3.4 Karakterrepresentasjon gjennom dialog
A colaboração tem sido muito apreciada como forma de pesquisa, de aprendizagem e de trabalho no ciberespaço. Ao mesmo tempo ações colaborativas são muito comuns entre diversas comunidades indígenas, principalmente no que tange à alimentação, ao plantio, à construção de casas, às festas, à cura, em que muitas relações se dão por meio da troca. Entre os Kokama existe o wajuri (huayuri)4, em espanhol minga5 e em quéchua minka,6 que se refere ao trabalho comunitário e solidário. Diante desse cenário direciono o presente estudo para a etnografia colaborativa. Assim, desde o início, em 2007, as relações que mantive com os Kokama foram colaborativas e os nossos vínculos foram se fortalecendo com o passar do tempo.
Lassiter (2005, p. 8), ao tratar de pesquisas colaborativas, se refere a reciprocal ethnography (etnografia recíproca), em que o etnógrafo e as pessoas da comunidade trabalham lado a lado, de forma mutuamente benéfica.
No caso da presente pesquisa alguns trechos foram lidos para alguns professores- pesquisadores Kokama ou enviados por e-mail para alguns Kokama com o intuito de rever o conteúdo e os objetivos aqui propostos. Utilizou-se também de relatos feitos por alguns professores-pesquisadores Kokama para a construção do texto e dos resultados das pesquisas com as ferramentas sociolinguísticas e sociométricas, as quais trazem contribuições para as diferentes formas de aprendizagem, de pesquisa, de planejamento e fortalecimento da língua e da cultura.
Durante o Curso de licenciatura para professores indígenas do Alto Solimões incentivei a utilização do meio de comunicação DVD, por meio da criação coletiva de forma interativa entre os estudantes, professores e algumas comunidades. O uso deste material passa a ser também colaborativo, uma vez que as pessoas fazem cópias e convidam parentes e amigos para assistirem em suas casas e em outros locais. Com essas experiências, passei então e refletir sobre a criação de uma Biblioteca Virtual que possibilitasse o acesso aos materiais já existentes e aos novos a serem criados por diversos membros das comunidades Kokama.
4 Essa escrita do Kokama foi usada por Faust (1972, p.55), conforme exemplo dado pela autora: ―Icun ta papa yauqui huayuriui‖, seguido da tradução para o Espanhol ―Hoy día mi padre há hecho minga‖.
5 Minga é a tradução dada por Faust para huayuriui. Significado dado pela autora à palavra: ―Em la selva se usa este término, para designar el trabajo que se realizaen conjunto para ayudar a uma persona em determinada tarea. La persona que recibe el beneficio está obligada a proporcionar bebida y, algunas vezes, comida a todos los que le ayudaron‖ (FAUST, 1972, p. 55).
6 ―El la cultura quíchua el principio de la reciprocidad se ejercita a través del ayni y la minka. La minka es um sistema de trabajo colectivo y recíproco para apoyar y contribuir em la mejora y desarrollo del ayllu y la comunidade, em atividades como por ejemplo, la construcción de casas, puentes, canales de riesgo, casas comunales, escuelas, em labores agrícolas y otros. La minka em la comunidade está associada al ritual y a la fiesta, por lo tanto a la música y el baile; extendida em Ecuador, Perú y Bolivia‖ (cf. Nota do Shimiyukkamu Diccionario (2007, p. 148)).
Ao dialogar com os professores-pesquisadores em sala de aula em que eu ia incluindo no quadro as sugestões, chegamos aos seguintes elementos no ano de 2009, os quais são reproduzidos a seguir:
―Biblioteca Virtual da Língua Kokáma (português, espanhol, kokama)‖ Língua Kokama História Gramática Dicionários Número de falantes Diálogos Bibliografia Povo Kokama História Mitos e lendas Danças Comidas típicas Medicina Músicas Comunidades
População número de pessoas Bibliografia Ensino Escolas Professores Materiais multimídia Arte Rádio Fotos Jogos e brincadeiras Literatura Grafismo Artesanato Cerâmica Roupas Instrumentos musicais Cocares
Instrumentos de caça e pesca
Figura 1 - Esboço da Biblioteca Virtual dos Kokama. 2010.
Fonte: elaborada pela autora em colaboração com professores-pesquisadores Kokama. 2010.
A imagem da árvore mungumbeira (Fig.1) foi sugerida por Leonel Magalhães de Souza para a capa do segundo volume do DVD Kokama7. Gravei um pequeno vídeo, o qual se encontra nesse DVD, em que o Leonel Magalhães de Souza mostra a mungumbeira e diz que os professores-pesquisadores são fortes como essa árvore – seu tronco serve para fazer remos e canoas - e que estão no curso para trocar saberes, à semelhança das plumas da mungumbeira, que ―voam ao vento‖ e levam ―sementes de conhecimentos‖.
Ao repensar os elementos que poderiam compor a Biblioteca Virtual, constatamos a amplitude de questões e relações no âmbito do fortalecimento, cujas análises vêm a contribuir, entre outras áreas, para a organização de páginas na internet e de Bibliotecas Virtuais8. O desenvolvimento de bibliotecas físicas e virtuais é extremamente importante e essencial no caso dos Kokama, por isso analisamos as interações, as quais estão distribuídas por diversas fontes, que podem contribuir nesse sentido. Destarte, passamos a pensar numa Rede
interacional de revitalização linguística e fortalecimento político, a qual seria composta,
inicialmente, por ambientes interacionais e por políticas públicas voltadas para as demandas
7 V. descrição completa do DVD no Capítulo 7.
dos Kokama no Brasil. Assim, o primeiro esboço da rede interacional (Fig. 2) ficou da seguinte forma:
Figura 2 - Esboço da rede interacional de revitalização linguística e fortalecimento politico. 20/01/2011.
Fonte: elaborada pela autora.
Nota: Esboço feito em relatório enviado para a CAPES pelo projeto Observatório da Educação Escolar Indígena (Edital nº 01/2009/CAPES/SECAD/INEP). 20/01/2011, Brasília.
Contudo, ainda faltavam muitas discussões a serem feitas sobre as teorias que estão envolvidas com o tema das redes. A questão que me surgiu à época, ao refletir sobre interação, foi: ―Toda rede é interativa?‖ Pois, em primeira mão, supunha que se os elementos estavam em rede, eles só poderiam estar em interação. Fiz então essa indagação no dia 23 de setembro de 2011 no buscador Google do navegador Google Chrome, chegando até o texto ―Topologias de rede‖ (FRANCO, 2008)9 Foi, então, por meio das reflexões, teorias e
indicações bibliográficas colocadas por Augusto de Franco10 que pude pesquisar sobre o assunto e aprender que há diversos níveis e tipos de interação, os quais modulam a topologia das redes e fazem com que as redes sejam classificadas em mais, ou menos centralizadas, descentralizadas e distribuídas. Além disso, pude conhecer sobre os fenômenos da interação
9 FRANCO, Augusto. Topologias de rede. Carta Rede Social 168 (17/07/08). Disponível em:
<http://augustodefranco.locaweb.com.br/cartas_comments.php?id=249_0_2_0_C> . Acesso em: 23 set. 2011. 10 Ver textos e apresentações de Augusto de Franco. Disponível em: <http://pt.slideshare.net/augustodefranco>. Acesso em: 5 ago. 2014.
BANCO DE DADOS AMBIENTE VIRTUAL INTERACIONAL Biblioteca Virtual Plataforma de ensino da língua Kokáma a distância ACESSIBILIDADE Acesso aos materiais produzidos na língua e sobre os Kokáma AMBIENTES FÍSICOS INTERACIONAIS Cursos da língua Kokáma Oficinas de artesanato Ensaios musicais Biblioteca física Confraternizações REDES DIGITAIS COLABORATIVAS POLÍTICAS Educação diferenciada Representação Kokáma EMANCIPAÇÃO DIGITAL Produção de conteúdo (DVDs, vídeos) pelos Kokáma Plataforma multimídia simplificada
em redes sociais. Outros fenômenos e conceitos das redes complexas possibilitam diversas análises, o que pode ser visto no capítulo 7.
Em consulta à bibliografia sobre redes nas áreas da sociologia e da sociolinguística e sobre o multilinguismo no ciberespaço, cogitamos a viabilidade de se analisar relações que foram chamadas inicialmente de rede Kokama, em que entidades, tais como pessoas, conhecimentos, tecnologias e comunidades fortalecem a própria rede por meio da interação de forma colaborativa. As nossas ações e observações estiveram, portanto, ligadas a esta perspectiva. Posteriormente, com as observações das aprendizagens em rede11, dada a emergência de outras entidades, as relações passaram a se chamar línguas em rede12. Frisamos que existem diversas redes13 que vêm sendo formadas pelos Kokama em busca do fortalecimento. Observando que são inúmeras redes e não uma rede só. O que pode ser conferido – como exemplos – na presença da língua e da cultura Kokama no ciberespaço e na atuação dos agentes no processo de fortalecimento14
A troca de saberes é, pois, o que move este trabalho. Cabe citar aqui o que Lévy (1999, p. 26) chama de ―Espaço do saber15‖. Cada pessoa tem um saber, seja ele qual for, em
que área for. A troca de saberes é vivenciada pela ―renovação do laço social‖ e pela ―inteligência coletiva‖ 16.
A colaboração do pesquisador na pesquisa poderia ser compreendida, por meio da seguinte suposição. Um grupo musical que busca criar músicas para a gravação de um CD e que já possui os ritmos e os instrumentos, convida um pesquisador para trocar ideias musicais. A partir daí surgirão as possibilidades de discussão, tais como: serão incluídos novos instrumentos? Uma pessoa só vai cantar ou várias pessoas do grupo? Vai ser um CD com direito autoral? Terão parceiros? O pesquisador vai participar do grupo? Vai ter videoclipe? As músicas serão cantadas em qual língua?
É importante ressaltar que a presente pesquisa não é de cunho estritamente antropológico, pois a etnografia colaborativa não é abordada em sua profundeza e pormenores, mas tal abordagem vem contribuir para o desenvolvimento metodológico
11 Ver. Capitulo 7. 12 Ver. Capitulo 7.
13 Algumas dessas redes as interpretamos como redes e outras são explicitamente consideradas pelos Kokama como uma rede, como é o caso da rede dos Jovens indígenas comunicadores Kokama.
14 Ver Capítulo 6 e 7.
15 O ―Espaço do saber incita a reiventar o laço social em torno do aprendizado recíproco, da sinergia das competências, da imaginação e da inteligência coletivas‖ (LÉVY, 1998, p. 26)
16 ―Como deve ter ficado claro, a inteligência coletiva não é um conceito exclusivamente cognitivo. Inteligência deve ser compreendida aqui como na expressão ―trabalhar em comum acordo‖, ou no sentido de ―entendimento com o inimigo‖ (LÉVY, 1998, p. 26).
juntamente com outras áreas de análise, àquelas selecionadas na pesquisa bibliográfica. Por ser, este, um trabalho apresentado a um programa de pós-graduação em linguística, o seu direcionamento é mais voltado à língua ou à linguagem, a qual se entrelaça com temas transversais.
Optamos, dessa forma, por discutir as demais metodologias de análise, quando cada um desses temas aparece nos capítulos, com o intuito de não repeti-los. Algumas partes tiveram a participação ativa de análise dos Kokama e em outras realizamos as análises de acordo com a bibliografia escolhida. Certamente, há como intensificar a colaboração entre o pesquisador e as pessoas das comunidades, para chegar a cointerpretações mais profundas em áreas com visões acadêmicas como sugere Lastier (2005). No entanto, devido ao espaço de tempo e recursos determinados para este trabalho, pudemos utilizar essa metodologia de reflexão colaborativa em algumas partes de todo o texto.