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As concepções anarquistas em suas distintas correntes foram alvo de apreciação de muitos autores, historiadores, sociólogos, anarquistas, entre outros. As diferenciações entre as correntes anarquistas são estabelecidas de acordo com diferentes critérios pelos autores. Outros entendem que não existem correntes anarquistas, mas apenas princípios norteadores que são comuns a diferentes práticas anarquistas que, na prática, refletem um mesmo fundo.

Max Nettlau, por exemplo, descreve várias correntes anarquistas em seu livro La anarquía a través de los tiempos. Para este autor a autoridade em suas diferentes formas, seja através do costume, lei , tradição, arbitrariedade, tem postos suas garras em muitas inter-relações humanas desde que o animal homem se “humanizou”. A marcha para o progresso é a luta para a libertação destas cadeias e obstáculos autoritários. Luta esta que acontece através dos tempos, ou melhor, das idades pelas quais a humanidade passa.345No fundo, para o autor, tudo o que não é arquia acaba sendo anarquia.

Desta forma pode-se encontrar o pensamento libertário em toda a história. O teríamos na antiguidade entre os pré-socráticos, nas seitas cristãs heréticas, em pensadores como Etienne de la Boetie, William Godwin (para muitos o pai do anarquismo), até chegarmos nos movimentos dos trabalhadores do século XIX e autores como Bakunin, Kropotkin, ou mesmo nos individualistas americanos como Benjamin R. Tucker.

Irving Louis Horowitz não chega tão longe, mas classifica como anarquistas um Saint-Simon, um Diderot, etc. Para este autor seriam oito as correntes anarquistas. A primeira seria o que o autor denomina anarquismo utilitário, uma expressão dos ricos em favor da sociedade “sub-privilegiada”, pois os pobres não teriam condições ainda de defenderem seus interesses. Nesta categoria estaria Saint-Simon cujo anarquismo era uma espécie de alívio da culpa e não uma expressão racional.

O declínio deste anarquismo teria sido causado pela tomada de consciência por parte dos deserdados e o aumento do compromisso da aristocracia em sua relação com o capital, substituindo a crítica feita anteriormente.

A segunda corrente seria o anarquismo camponês que ao contrário dos anarquistas utilitários teriam pouca fé nas reformas feitas de cima. Em vez disto propugnariam a eliminação do Estado e o estabelecimento de comunidades informais.

345 NETTLAU, Max. La anarquía a través de los tiempos. Cuarta edición cibernética, enero del 2003 Captura y diseño, Chantal López y Omar Cortés, www. antorcha.net, acessado em 16/05/2006.

A terceira forma era o anarco-sindicalismo, cujo representante era Fernand Pelloutier, que preconizava a luta de classes com a ação direta realizada para a eliminação do Estado. Nesta corrente o sujeito principal da revolução era o proletariado e não o camponês como acontecia com o anarquismo camponês. Segundo o autor,

“Con el colapso del anarcosindicalismo, el anarquismo como ideología de clase fue sustituido progresivamente por el anarquismo como redención personal y moral. El anarquismo pasó a convertirse en una forma de conducta, más que en un instrumento de la política de clase.”346

Anarquista coletivista seria a quarta corrente do anarquismo. Apoiou-se no conteúdo humanista do socialismo e defendia a criação de associações voluntárias realizadas graças a abolição do poder do Estado. O anarquismo coletivista apareceria como a luta do humano contra o inumano, abandonando- se a teoria da luta de classes. Neste sentido, para Horowitz, o anarquismo coletivista seria o meio termo entre a consciência de classe dos pioneiros do movimento social e a consciência humanista do século XX. Nesta categoria estariam os autores clássicos do anarquismo como Bakunin, Kropotkin, o considerado anarquista Proudhon, etc. Em Bakunin haveria uma oscilação entre a aceitação da teoria de classes e uma tendência de tornar o anarquismo universal, incluindo todos.

A quinta corrente seria o anarquismo conspiratório que teria como premissa que o Estado se mantinha graças a força, ao terror imposto as massas. Por isso, o anarquismo conspiratório tentou enfrentar o Estado no mesmo campo. A força do Estado opunha-se a violência anarquista.

Estes anarquistas seja na Europa, seja na América, foram cassados como criminosos e punidos com o poder vingativo do Estado. O Estado desencadeou uma onda repressiva que afetou todos os anarquistas e até mesmo os socialistas. Além destas medidas repressivas desenvolveu uma legislação reacionária que buscava resolver a luta estabelecida em diferentes frentes não apenas com a pura reação policial. Os principais nomes do anarquismo conspiratório eram Emile Henry, Ravachol, Johan Most, etc.

A reação contra o anarquismo conspiratório com o seu anti- intelectualismo por um lado e a resposta ao extremo intelectualismo da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) teriam, ainda segundo Horowitz, colaborado para a formação da corrente anarco-comunista, cujo principal representante seria Errico Malatesta.

A principal característica desta corrente seria a defesa de que a violência teria que estar relacionada aos fins perseguidos. Além disso, Malatesta teria rechaçado o anti-marxismo de Bakunin e de Kropotkin, defenderia um ativismo condicionado pelo socialismo científico, pelas leis da evolução histórica, muito mais próximas do marxismo do que do bakuninismo, segundo o autor.347

A sétima corrente era a anarquista individualista baseada nas idéias de Max Stirner e dos norte-americanos Josih Warrem, Benjamin Tucker, etc. A característica desta corrente era a de considerar o ego como o lugar de tudo o que é humano e o Estado como o lugar de tudo o que é inumano e opressor. Defendiam a propriedade privada como fruto total do trabalho individual, a finalidade da sociedade seria manter a soberania do indivíduo, sem limitações. A sociedade deveria organizar-se através do princípio do mutualismo com as suas associações voluntárias e apenas estas. A tirania da maioria deveria ser combatida, pois nenhuma autoridade poderia exercer-se sem o consentimento do indivíduo.

Por fim teríamos a corrente anarquista pacifista que englobaria figuras como Tolstoi, Ghandi, que se basearia na crítica a violência do Estado e na substituição desta violência por uma nova compreensão da vida, na qual não fosse utilizada a violência por nenhuma parte. A violência colaboraria para a manutenção da sociedade classista e a auto-reprodução da própria violência.348

Edgard Carone, por outro lado, nos cita seis correntes anarquistas. A primeira era a individualista, englobando a década de 1840, com uma produção

347 Por mais que a nossa pretensão neste momento seja a de apenas apresentar as correntes anarquistas segundo a concepção de Horowitz, não podemos deixar de notar que o que Malatesta rechaçava em Bakunin era justamente o seu “marxismo” . Além disso criticava seriamente o cientificismo e a própria inevitabilidade da evolução histórica, que seria condicionada, para ele, muito mais por acordos voluntários do que pela evolução histórica.

literária restrita e tendo em Max Stirner o seu principal representante. A segunda, a mutualista, com maior acento social em comparação a individualista, tendo em Pierre Joseph Proudhon o principal representante. A terceira a coletivista autoritária, vigente durante a época da primeira internacional, sendo Bakunin a maior expressão desta corrente. Ainda teríamos a corrente comunista libertária, cujo principal expoente era o russo Pitr Kropotkin, mas que se desenvolveu mais fortemente na França e na Itália. Teríamos também a da violência , que se limitaria, segundo Carone, a perpetrar atentados contra autoridades e indivíduos da classe dominante, sendo que em alguns casos estes atentados atingiriam pessoas das classes populares e seu principal representante seria Ravachol. Por fim, se desenvolveria, na França, a partir dos anos de 1890, a corrente anarco- sindicalista, tendo em Pelloutier a principal expressão.349

Além das críticas que poderíamos realizar (críticas que desenvolveremos mais adiante) a esta conceituação desenvolvida pelos dois autores, como a definição da corrente coletivista de Bakunin como “coletivista autoritária” feita por Carone, definição esta carente de embasamento na realidade se considerarmos as concepções bakuninianas e não a subversão ideológica realizada por este autor, ou então as definições de Kropotkin e Proudhon como coletivistas, a criação do anarquismo utilitário, entre outros pontos das categorias do sociólogo Horowitz, temos que ressaltar que o anarquismo não é um pensamento e uma prática que pode ser encontrado durante toda a história, como Nettlau e Horowitz buscam encontrar, com suas devidas especificidades.

Neste ponto concordamos com o espanhol Carlos Diaz quando este nos afirma que “hay demasiada imprecisión, peligrosa imprecisión, acogiendo bajo las toldas libertarias a tutti quanti. Por ese procedimiento, ¿como no hablar del anarco-pitecus?”350

Para este autor as definições podem se dar em três grandes campos que estão longe de ser homogêneos. O do anarquismo militante operário, onde

349 CARONE, Edgard . “Anarquismo e literatura: Jean Grave e Temps Nouveaux .” in CARONE, Edgard.

Socialismo e Anarquismo no Início do Século. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995, pp 109-111 350 DIAZ, Carlos. Las Teorias Anarquistas. Zero, Madrid, 1977, pp 7 e 8

se encontrariam Proudhon, Malatesta, Bakunin, Kropotkin, etc. O anarquismo universitário militante, ou o neo-anarquismo da década de 1960, desenvolvido principalmente na França e Alemanha. Por fim o anarquismo “dadaísta” e insolidário de um Max Stirner.

Em nosso trabalho optamos por especificar as divergências teóricas e programáticas das diferentes correntes dentro do campo especificado por Diaz como anarquismo militante operário. O fundo comum de priorização da atuação social existente entre as correntes deste campo definido pelo autor não apaga suas diferenças que em alguns casos são profundas. Por outro lado, esta definição mais abrangente ajuda-nos a delimitar uma prática política existente que possuía pelo menos um aspecto distintivo entre os demais campos, ou seja, o de priorizar esta ação social, as vezes não pessoalmente, mas através de seus discípulos, como no caso de Proudhon. Assim, podemos nos ater a um destes grandes campos e analisar o seu desenvolvimento. No nosso caso nos concentraremos no grande campo do anarquismo militante operário, não porque queremos ou o achamos mais interessante, mas apenas porque foi este o anarquismo predominante no Brasil durante boa parte da primeira metade do século XX, sendo que aqui as correntes individualistas representavam uma ínfima minoria dos anarquistas.

Outros autores, como Gallo, trabalham com o anarquismo como um princípio gerador, ou seja, “uma atitude básica que pode e deve assumir as mais diversas características particulares de acordo com as condições sociais e históricas às quais é submetido”, desta forma existiria um único Anarquismo que assumiria diferentes formas de acordo com as particularidades do tempo e lugar em que fosse aplicado, interpretando a realidade de acordo com tais particularidades.

Este princípio gerador seria formado por seis princípios básicos,três relacionados à teoria e três a prática. Quanto a teoria teríamos a autonomia individual, o indivíduo enquanto célula fundamental de qualquer grupo ou associação não pode ser preterido em nome do coletivo, pois qualquer coletivo só é possível graças aos indivíduos que reúne, sendo resultado dos indivíduos que o compõem. Neste ponto teríamos que ressaltar que a idéia de um

indivíduo isolado da sociedade é impossível, este só existe graças aquela e vice-versa, de acordo com o autor.

O segundo princípio teórico básico do principio gerador seria autogestão social, que é contrária a qualquer poder institucionalizado, defensora da democracia participativa na qual todos tenham o poder de decisão, sendo possibilitada pelo mecanismo federalista e pela delegação, alguns utilizando o mandato imperativo, com o qual o delegado só discutia as decisões tomadas em seu grupo ou federação nas instâncias superiores, podendo cobrir com a ação da federação e confederação vastos territórios.

O último princípio teórico básico, segundo Gallo, era o internacionalismo. Os nacionalismos sempre estiveram ligados a projetos de exploração e dominação, neste sentido a luta internacionalista de defesa da liberdade de todos os povos seria a pré-condição para a concretização da anarquia , que não se realizaria plenamente enquanto existisse um povo do planeta dominado. Em relação aos princípios práticos teríamos a ação direta, com a qual as massas fariam a revolução por elas próprias, sem a necessidade de um poder instituído acima delas. As atividades de ação direta se traduziriam principalmente nas atividades de educação, propaganda e conscientização.

Além deste teríamos como princípio as associações operárias, que seriam as substitutas naturais dos partidos políticos existentes, que representavam uma forma de reprodução da máquina estatal, ao contrário das associações operárias que possibilitariam a gestão da sociedade pelos próprios trabalhadores. Como associações operárias são classificados desde os sindicatos propriamente ditos, até as escolas, centro de cultura, etc.

Como último principio prático básico teríamos a greve geral, entendida como principal forma de luta contra os opressores, tática de treinamento para a ação direta e solidária. Assim, para o autor,

“São esses os princípios básicos do anarquismo, sua teoria e suas táticas de luta no movimento operário. Esses princípios foram interpretados e aplicados de diferentes maneiras de acordo com o momento histórico e a situação social do local em questão. Devido aos mais variados matizes que esses princípios assumiram, é bastante comum, entre os estudiosos do Anarquismo, dividir o movimento em

inúmeras correntes, de acordo com a postura teórica e prática frente a estes princípios ”351

Para nós, não existe uma harmonia das diferentes correntes anarquistas em relação ao principio gerador do anarquismo levantado por Gallo. A postura dos anarquistas em relação a liberdade individual possuía divergências. Para Bakunin, por exemplo, a liberdade representava a finalização do processo de evolução histórica, neste sentido, ela deveria ser procurada não no começo da história como entendiam os clássicos liberais, nem no livre arbítrio individual, como defendeu, posteriormente, alguns anarquistas como Emma Goldman, mas justamente como coroação desta evolução.

Alguns anarquistas eram contra as associações operárias, por estas serem um reflexo do próprio desenvolvimento do capitalismo, algo que era valorizado pelos anarquistas sindicalistas revolucionários e pelos anarco- sindicalistas. O fato de Gallo tentar enquadrar (o termo é este mesmo) as escolas, centro de cultura, como associações operárias só demonstra que este princípio prático básico do seu principio gerador possui profundas fissuras. Além disso, alguns anarquistas preconizavam uma estratégia policlassista de transformação da sociedade e não uma estratégia operária implícita no conceito de associações operárias como princípio do anarquismo.

O principio da greve geral como algo que englobaria todas as correntes anarquistas também é algo infundado. A greve geral era a principal tática dos anarquistas sindicalistas, mas foi criticada por Malatesta352, que mesmo na época que a propagava o fazia com imensas ressalvas, e apesar de defender a participação dos anarquistas nos sindicatos, entendia que a insurreição353 (que

351 GALLO, Silvio. Anarquismo- Uma Introdução Filosófica e Política. Achiamé, Rio de Janeiro, 2000, pp 33-39

352 “Las huelgas generales de protesta ya no conmueven a nadie: ni a los mismos que las hacen, ni a aquellos contra quienes las hacen. Si la policía tuviera la suficiente inteligencia para no provocar, pasarían como cualquier otro día festivo.

Hay que buscar otra cosa. Nosotros lanzamos la idea: apoderarse de las fábricas. Quizá la primera vez lo hagan unos pocos y se resentirá poco; pero el método tiene, sin duda, un porvenir, porque corresponde a los fines últimos del movimiento proletario y constituye una gimnasia de preparación para la expropiación general y definitiva” apud RICHARDS, Vernon. Malatesta, Vida e Ideas. Barcelona, Tusquets, 1977, p. 190

353 “por infelicidade, a maioria não via na greve geral um meio para levar as massas à insurreição, isto é, a derrubar o poder político pela violência e a tomar posse da terra, dos meios de produção e de toda a

poderia até ser conseqüência de uma greve) seria o caminho para se transformar a sociedade revolucionariamente e com o tempo passou a defender a ocupação das fábricas como forma de habituar o trabalhador as funções da futura sociedade, enquanto os sindicalistas entendiam que as greves seriam “ginásticas revolucionárias” e a greve geral revolucionária seria a forma de se acabar com a sociedade capitalista.

As discussões por nós levantadas em ralação as correntes anarquistas até este momento nos demonstra a complexidade do tema. Não há um consenso sobre quais seriam estas correntes e nem se seriam diferentes correntes ou apenas nuances de um mesmo princípio. Esta discussão, de certa forma, não foi realizada por maior parte da historiografia que estuda o movimento operário e o anarquismo no Brasil, pois a maioria dos trabalhos limitou-se a desenvolver as divergências entre os “anaco-sindicalistas” e os “anarco-comunistas” como veremos adiante. Nós entendemos que mesmo no Brasil a questão é um pouco mais complexa, e é só por este motivo que levantamos a discussão das correntes anarquistas internacionalmente. Depois de levantarmos alguns posicionamentos precisamos desenvolver o nosso para procurar esclarecer os problemas por nós detectados no estudo sobre o anarquismo e movimento operário de São Paulo e do Brasil. O primeiro passo já foi dado quando definimos que nossa pesquisa englobará o anarquismo militante operário.