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Biografar Watteau não é tarefa das mais fáceis, e qualquer tentativa realmente dinâmica e abrangente de realizá-la não caberia no espaço desse trabalho. O artista já recebeu um grande número de biografias desde a sua morte prematura66, persistindo como objeto de interesse no nosso século. Contudo, a maioria dos trabalhos trata pouco sobre a sua vida pessoal – um verdadeiro mistério –, dando ênfase à sua ampla obra. A pessoa dele ainda nos escapa em grande parte e, em seu caso, a “vida do homem” é tão mal conhecida quanto o artista é célebre67.

A dificuldade em retomar a figura de Watteau é destacada na frase que inicia uma de suas mais recentes biografias, escrita pelo historiador da arte francês Guillaume Glorieux. A frase não é de sua autoria, e foi proferida por Arsène Houssaye em 15 de outubro de 1865, quando da inauguração de um monumento em homenagem ao artista na cidade de Nogent-sur-Marne, onde ele morreu em 18 de julho de 1721: “Tudo já foi dito e bem dito sobre Watteau”68.

Será? A vasta bibliografia sobre o artista feita posteriormente à data dessa sentença fatal demonstra que nem tudo fora dito. Glorieux destaca o quanto Watteau tornou-se familiar, ao menos para os franceses69. Isso se deve à reprodução abundante de suas obras, incansavelmente comentadas, e pelo fato de que seu nome foi usado para designar um tipo de prega específica dos vestidos à francesa usados em sua época (sobre esse tema falaremos de forma mais detalhada no item 1.2 do presente capítulo). A relação de Watteau com o universo da moda é uma das maiores lacunas existentes na sua bibliografia.

Quando se pretende analisar alguma das múltiplas facetas da produção desse artista, é necessário lançar um olhar crítico às diversas descrições biográficas. As

66 ROSENBERG, Pierre. Vies anciennes de Watteau. Hiermann, Paris: 1984. 67 GLORIEUX, op. cit., p. 15.

68 Ibid., p. 15. 69 Ibid., p. 15.

publicações desse gênero começaram em 1719, no momento em que a fama do pintor já estava estabelecida. Contudo, foi após a sua morte que surgiram várias outras biografias, em um crescente de vozes, apresentando os mais diferentes tipos de afirmações.

A primeira nota biográfica conhecida sobre Antoine Watteau está no dicionário de artes do padre Antonio Orlandi, de 1719. Seguindo a ordem cronológica, temos o obituário publicado no Mercure de France – principal jornal francês do século XVIII, com assinantes em toda Europa - em agosto de 1721. Foi escrita pelo colecionador de arte Antoine de La Roque (1672 – 1774), de quem Watteau realizou um dos poucos retratos da sua carreira. A seguir, temos a nota biográfica publicada por Abbé Josse Leclerc, em 1725; pelo homem de letras Claude-François Fraguier, em 1726; pelo fabricante de tecidos e art connoiseur Jean de Julliene (1686 - 1766), que era também um de seus mecenas, nota esta publicada em 1726; pelo comerciante de arte Edme- François Gersaint (1694 – 1750), nota esta publicada em 1744; pelo comerciante de objetos de arte e colecionador Pierre-Jean Mariette (1694 – 1750), em 1745; pelo escritor e crítico de arte Antoine-Joseph Dezalier d’Argenville (1680 – 1765), publicada no mesmo ano de 1745; pela palestra acadêmica do esteta e crítico de arte Comte de Caylus (1692 – 1765), realizada em 1748, entre outras referências.

Grande parte do que sabemos sobre o artista decorre desses escritos biográficos de contemporâneos com quem ele manteve relações de amizade. Os comentários dos autores nos possibilitaram formar uma ideia da maneira como o pintor francês tratava os seus amigos e patrocinadores. Alguns descreveram características pessoais de Watteau, bem como forneceram detalhes sobre seus métodos de trabalho. As notas biográficas deixadas também nos permitem constatar plenamente as dificuldades em estabelecer uma cronologia da sua produção. Ao contrário do que poderíamos imaginar, a impossibilidade de constituir uma trajetória linear do desenvolvimento artístico70 de Watteau é, na realidade, benéfica. Dessa maneira, podemos perceber melhor o dinamismo e as temporalidades aparentemente dispares que turbilhonam no pensamento do artista e que aparecem em suas obras.

Ao que tudo indica, Watteau tornou-se um fenômeno, levando um número espantoso de contemporâneos, que o conheceram, a passar seu testemunho ao papel. As referências nem sempre condizem umas com as outras. Ao lado da admiração, encontra-

se a crítica. Além disso, certas opiniões derivam do fato dos comerciantes de objetos de arte e colecionadores (principalmente Gersaint e Jullienne) terem seus próprios objetivos comerciais: ao enaltecer o estatuto artístico do falecido, podiam vender as obras dele com maior margem de lucro71.

O mito em torno da persona de Watteau forma-se logo nas primeiras tentativas dos seus contemporâneos para captar e caracterizar a sua obra que, para eles, escapava às interpretações óbvias. Desde então, cada época coloca novas camadas interpretativas em torno do pintor e da sua produção artística, revelando, assim, a importância das reinterpretações e ressignificações da sua obra.

Glorieux menciona algumas das mais importantes biografias ou notas biográficas escritas sobre Watteau desde que ele era vivo e logo após sua morte. Entre elas, destaca:

A do industrial e amador distinto Jean de Jullienne (1686 – 1766) que escreveu a primeira biografia detalhada do pintor; este texto capital encontra-se na introdução das Figuras de Diferentes Caracteres (1726), primeiro volume de um ambicioso projeto de gravuras da obra desenhada por Watteau, iniciada pelo próprio Jullienne72.

Uma vez que esse “ambicioso projeto” é a fonte imagética mais importante da presente pesquisa, a biografia introdutória escrita por Jean de Jullienne nos interessa sobremaneira, fornecendo uma ideia do grau de intimidade existente entre o comerciante e o artista. De forma simultânea, ela abre a coleção de gravuras que será o foco principal desta pesquisa, relacionando-se com as mesmas. A publicação como um todo estava destinada não apenas a perpetuar a obra do pintor, mas tinha o objetivo de gerar lucros ao seu idealizador. Porém, mais do que tudo, o texto nos mostra a visão que o mecenas tinha a respeito de Watteau, em especial ao traçar opiniões sobre o temperamento pessoal e sobre as escolhas do artista.

Diante de tais peculiaridades, antes de abordarmos outras biografias de Watteau, entendemos que aquela escrita por Jean de Julienne, por ter convivido com o artista e escutado a sua trajetória de vida desde o início, acompanhando os momentos derradeiros pessoalmente, merece especial destaque nesta tese.

A biografia introdutória ocupa quatro páginas da publicação do primeiro tomo do Recueil Jullienne, dedicado às Figures de Differents Caracteres e publicado em 1726, apenas cinco anos após a morte do artista. Ela sucede ao frontispício, que traz um retrato de Watteau realizado por François Boucher (1703 – 1770) em gravura a partir de

71 LAUTERBACH, Iris. Antoine Watteau. Colônia: Taschen, 2010, p. 8. 72 GLORIEUX, op. cit., p. 17.

um autorretrato. Em seguida, vem a folha de rosto, com o título da obra, e só então temos o referido breviário (ou texto biográfico). É importante, para este trabalho, dar uma ideia dos pontos principais abordados em dito texto.

Ele segue a ordem tradicional das biografias, iniciando com o nascimento e seguindo até a morte. Watteau viveu muito pouco, de 1684 a 1721, falecendo aos 37 anos, vítima de tuberculose. No início, Jullienne destaca as origens humildes de Watteau, relatando que seu pai e seu avô eram telhadores (fabricantes de telhas). O biógrafo ressalta que, apesar disso, a família o teria apoiado quando fez a escolha pela carreira de pintor, “uma vez que ele havia dado sinais, desde a sua infância de uma disposição natural para a pintura”73. Outra ideia comum nas biografias tradicionais, e que aparece aqui, é a do “dom natural”.

Assim, conforme Jullienne, o pai de Watteau o coloca como aprendiz de um “péssimo pintor de sua cidade”74. O mesmo não é nomeado, caso que se repete com frequência no relato, assim como poucas datas são precisadas. O mais surpreendente é que, quando aconteceram estes fatos, o artista teria apenas dez ou onze anos, indicando uma iniciação precoce como aprendiz. Segundo o texto do breviário, sua dedicação ao estudo da arte o levaria, em poucos anos, a perceber as limitações do mestre. Por esse motivo, ele teria passado a trabalhar com outro pintor, cujo nome também não é mencionado, e, por sua vez, o teria ensinado a fazer a decoração de teatros, convidando- o para trabalhar na Ópera de Paris em 1702. Ele aceita o convite e, durante algum tempo, auxilia o mestre na decoração de cenários. Contudo, teve de retornar à sua cidade natal. O autor do texto não dá muito destaque a tal experiência. Porém, é importante salientar que, a partir deste momento, inicia a aproximação do artista com o universo do espetáculo, com o teatro, com os figurinos, com a música, com a decoração, enfim, os elementos que serão importantes em sua obra.

Mesmo demonstrando grande aptidão artística, Watteau é ainda muito jovem para tornar-se famoso. Para sobreviver, ele passa a trabalhar com um Mestre Pintor. Esse novamente não é nomeado, mas, com base em biografias posteriores, é possível afirmar ter sido Étienne Desrais, que possuía uma oficina de cópias na ponte de Notre- Dame75. Ele trabalhava no mercado de “quadros comuns”76, vendidos às dezenas, sendo

73 JULLIENNE, Jean de. (org.) Figures de Differents Caracteres. Tomo I, Gobelins: Paris, 1726. Abrégé, p. 2.

74 Ibid., p. 2.

75 LAUTERBACH, op. cit., p. 24. 76 JULLIENNE, op. cit., p. 3.

considerado um pintor medíocre que obrigava o funcionário a reproduzir as obras dele próprio e de outros pintores mais conhecidos. Finalmente, Watteau deixa esse trabalho desagradável e conhece “Gillot, um pintor da Academia”77. É a primeira vez no texto que Jullienne nomeia um dos mestres do biografado, tratando-se do famoso pintor Claude Gillot (1673 – 1722).

A relação entre Watteau e Gillot é de especial destaque no texto, com afirmações como a de que o primeiro aproveita “as luzes deste homem hábil”78, que pintava temas muito particulares, e que logo o aprendiz estaria desenhando “ao gosto” do mestre. Segundo Jullienne, esses temas seriam as festas campestres, os tipos do teatro e os trajes modernos. A historiografia nos apresenta Gillot como um artista que tem interesse pelo grotesco, por mascaradas e pelos tipos teatrais. Todos estes elementos, assim como Gillot, exerceram extrema influência sobre a obra de Watteau79. O texto acrescenta o gosto pelos “trajes modernos”80, chamando a atenção precocemente para a relação entre o artista e a moda, pois um de seus mestres, alguém que exerceu influência sobre a sua produção, também tinha interesse em representar roupas. Sabemos que cada um dos artistas realizará uma interpretação pessoal e diferente desses temas. Contudo, podemos considerar que tal encontro pode ter dado à Watteau alguns subsídios iniciais para pensar no papel do traje.

Jullienne acrescenta que, com o passar do tempo, Gillot deixou de ser o único pintor a tratar dos referidos temas, o que pode ter lhe causado inveja em relação à Watteau e, por esse motivo, teria passado a encará-lo como rival. Assim, os dois se separaram, sendo que o próprio Gillot o encaminhou para Claude Audran (1658 – 1734), um grande pintor de ornamentos e responsável pelo Palácio de Luxemburgo na época. Watteau passou, então, a desenhar figuras dentro das obras de seu novo mestre, “do qual o bom gosto lhe dá novas luzes”81.

Viver no Palácio de Luxemburgo colocou Watteau em contato com a série de pinturas feita por Peter Paul Rubens (1577 – 1640) sobre a vida de Maria de Médici (1575 – 1642). Ele começou a estudar o colorido e a composição desse grande mestre e, em pouco tempo, desenvolveu um gosto mais natural, bem diferente daquele

77 Ibid., p. 3. 78Ibid., p. 3.

79 LAUTERBACH, op. cit., p. 24. 80 JULLIENNE, op. cit., p. 3. 81 Ibid., p. 3.

apresentado no período com Gillot82. Nesse momento, Watteau resolveu concorrer ao prêmio anual da Academia Real de Pintura, no qual tirou segundo lugar:

Após essa honra podemos crer que Watteau ficaria em Paris, para se tornar pouco a pouco mais conhecido, e aperfeiçoar seu talento para a pintura. Contudo, como tinha poucos recursos financeiros, e quando percebeu que suas obras não faziam sucesso por se tratarem de um novo gênero de pintura, ele se desgosta com Paris, e resolve voltar a sua região83.

Segundo Jullienne, essa atitude fazia parte de seu “espírito inconstante”84. É nesse período que o artista realizou alguns quadros de soldados no campo, mas nunca em batalha, e sim em momentos de deslocamento de tropas ou mesmo de descontração e repouso – como veremos mais adiante. Ele acabou retornando logo à Paris, onde passou a viver e trabalhar com qualquer amigo que reconheça seu estilo:

Algum tempo após seu retorno, a Academia Real de Pintura oferece aos jovens artistas um prêmio no qual o vencedor é enviado a Roma na qualidade de pensionista do Rei: Watteau que almejava sempre a perfeição, e que vê a viagem à Itália como muito útil aos seus avanços, apresenta, assim como outros, desenhos e quadros aos senhores da Academia, que para sua surpresa percebem que seu mérito o distingue dos demais competidores85.

Por esse motivo, ao invés de lhe darem o prêmio, convidaram-no a ingressar na Academia, pois consideraram que Watteau se destacava extremamente nas “belas maneiras”86, gênero que, pode-se dizer, foi inventado por ele. Distinguiram a sua habilidade e, segundo Jullienne, “não haveria curioso, ou mesmo pessoa das artes, que não desejaria ter algum de seus quadros”87. Gillot é novamente evocado no texto para dizer que, diante do convite feito pela Academia para Watteau, ele não apenas reconheceu a superioridade do pupilo, lhe cedendo a sua cadeira na instituição, como ainda “deixa o caminho livre ao abandonar o pincel, para se dedicar à gravura e ao desenho”88.

Após esse reconhecimento oficial, o número dos admiradores do artista aumentou de maneira considerável. Ele passou a receber inúmeras visitas, algo que, na sua opinião, atrapalhava o tempo dedicado ao trabalho. Tal irritação era um dos traços da 82 Ibid., p. 3. 83 Ibid., p. 3. 84 Ibid., p. 4. 85 Ibid., p. 4. 86 Ibid., p. 4. 87 Ibid., p. 4. 88 Ibid., p. 4.

personalidade do biografado, na opinião de Jullienne, ao afirmar que “ele que era naturalmente frio e indiferente com as pessoas que não conhecia, se irrita logo com tal incômodo”89. Nessa circunstância, Watteau foi convidado por Pierre Crozat (1665 1740) – um importante colecionador de arte do período – para passar uma temporada em sua casa. Para o pintor, o convite era duplamente interessante, pois, por um lado, trabalharia com maior tranquilidade e, por outro, poderia estudar a vasta coleção de arte de seu anfitrião, rica principalmente em desenhos de artistas italianos do século XVI. Não tardaria para os efeitos desses estudos aparecerem em seus quadros.

Segundo Jullienne, ao alcançar êxito e fama, as pinturas de Antoine Watteau eram praticamente arrancadas das suas mãos. Escondia-se dos colecionadores e dos comerciantes, descritos pelo Conde de Caylus como “uma matilha gananciosa”, para poder trabalhar em paz. Assim, ele aceitou o convite para se refugiar com o mecenas das artes Crozat. Esse havia comprado, em 1702, uma imponente casa de campo em Montmorency, perto de Paris, a qual, até 1690, pertencera ao pintor Charles Le Brun. O local incluía um jardim com forma regular, bem como uma série de atrações. Além de morar na casa da cidade de Crozat, Watteau pertencia ao grupo de amigos e interessados em arte que se deslocava até a propriedade rural para passeios e convívio no campo. Seu anfitrião era um dos financiers burgueses ricos que conseguia sustentar não só um palacete na cidade, mas também, tal como a nobreza, uma maison de plaisance no campo90.

Na casa de Crozat, na cidade, aconteciam conversas sobre arte, entre colecionadores e apreciadores como ele, que foi uma figura central na vida artística de Paris no início do século XVIII. Para a sala de jantar dessa residência, na Rua de Richelieu, Watteau realizou os quatro medalhões sobre as portas, representando as Quatro Estações91. O salão era um ponto de encontro de artistas, amantes de arte e músicos. A sua coleção merecia tanta atenção quanto a do rei e a do regente. Crozat era um solteirão com espírito hospitaleiro. Oferecia alojamento tanto ao pintor Charles La Fosse e sua família como também a Watteau.

É difícil imaginar esse último, descrito como um pintor introvertido, no centro de conversas sobre arte na casa de seu anfitrião. Segundo Caylus, o objetivo do pintor era ter acesso à coleção de Crozat, constituída por obras extraordinárias de Grandes

89 Ibid., p. 4.

90 LAUTERBACH, op. cit., p. 61. 91 Ibid., p. 77.

Mestres, entre as quais estavam pinturas, desenhos, gravuras e também camafeus92. Em uma viagem à Itália entre 1714-15, o mecenas ampliou seu acervo ao adquirir uma excelente coleção de desenhos, sobretudo de pintores venezianos, os quais foram estudados por Watteau com entusiasmo. É possível que tanto as festas na residência de campo como as reuniões na cidade tenham também fornecido subsídios para a sua produção artística.

Depois disso, Watteau foi morar com Nicolas Vleughels (1668 - 1737), amigo que retratou em suas obras. Era um pintor flamengo estabelecido em Paris, ao qual Jullienne qualifica apenas com a expressão “um amigo”. Vleughels o apresentou ao Diretor da Academia de Pintura e Escultura que o Rei mantém em Roma, o qual lhe concede a ordem de St. Michel. Nesse novo endereço, o artista trabalharia com muito sucesso até 1718:

A reputação de Watteau é das maiores: ele adquiriu amigos entre pessoas respeitáveis, possui mais liberdade para tratar dos temas que gosta, tudo parece bem para ele em Paris; mas manifesta-se novamente sua instabilidade, abandonando uma segunda vez todas as suas esperanças para viajar a Inglaterra94.

O biógrafo destacou novamente o que considera como um traço instável da personalidade do amigo, criticando com dureza a sua viagem para a Inglaterra, que teria ocorrido em 1719. Ele atribuiu à estadia no país de clima “sujeito a intempéries” o desenvolvimento de sua doença, a tuberculose. No entanto, os biógrafos mais recentes95 alegam que o artista já estava doente antes da viagem e que teria, como objetivo, procurar um médico renomado daquele país, Dr. Richard Mead. Watteau fez amizade com ele e se hospedou em sua casa, sendo que o mesmo inclusive lhe encomendou alguns quadros. Muitos biógrafos concordam que essa viagem deveu-se principalmente ao conhecido desassossego do pintor e à sua curiosidade artística, uma vez que ele sequer dominava o inglês. O Conde de Caylus menciona que, em Londres, Watteau descobriu, pela primeira vez, o prazer de ganhar dinheiro com as suas obras96. Esse pode ser um indício de que ele não se sentia tão bem compreendido e acolhido por seus conterrâneos, mesmo após ser aceito pela Academia.

A passagem por Londres pode ter influenciado a representação de alguns trajes específicos em sua obra, ainda mais se considerarmos que Watteau nem sempre aborda

92 Ibid., p. 77.

94 JULLIENNE, op. cit., p. 4.

95 Entre os quais Glorieux, Temperini e Helmut Börsch Supan. 96 LAUTERBACH, op. cit., p. 78.

a moda da época de maneira exata. Ele mescla elementos do teatro e até mesmo peças usadas em outras épocas ou lugares. Apesar de algumas divergências sobre a incursão do artista à Inglaterra, todos os biógrafos são unânimes em afirmar que, após o retorno para a França, a sua saúde passou por uma piora significativa. Jullienne destaca também o fato de que o artista produziu quadros naquele país que chamaram a atenção dos connesseurs:

Após uma ausência de aproximadamente um ano, ele volta à Paris, onde não faz outra coisa do que viver uma vida agonizante e enfadonha: ele não teria um dia sequer saudável, por causa de suas enfermidades contínuas acaba fazendo um momento de intervalo, ele trabalha de tempos em tempos; o que continua fazendo até que finalmente morre (...)97.

O texto biográfico continua após a narração da morte do artista. A partir daí, o autor destacou algumas características pessoais de Watteau e irá tecer comentários sobre sua obra. Segundo Jullienne, o biografado era de estatura mediana e de concepção frágil, mas, em contrapartida, possuía um “espírito vivo e penetrante”, assim como sentimentos elevados. Falava e escrevia pouco, mas fazia ambos muito bem. Era dado a momentos de meditação, sendo um homem pensativo e um grande admirador da natureza e de alguns artistas do passado nos quais teria se espelhado. O trabalho assíduo o deixou um pouco melancólico e, em certa medida, frio e tímido. Esse fato se tornava