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Kapital, smak og den legitime kulturen i Bø

No contexto de emergência da burguesia, as concepções sobre comportamentos irracio- nais foram enfatizados logo após a Revolução Francesa. Essas concepções serviram de supor- te para a consolidação da hegemonia dessa nova classe social que, à época, encontrava-se fortemente ameaçada por manifestações proletárias. O questionamento das condições péssi- mas de vida dos operários, fruto das relações de exploração impostas pelo sistema capitalista, culminou em saques e quebra-quebras. Por causa dessa situação, desenvolveu-se um movi- mento intelectual conservador que visava ao controle dos impulsos populares violadores das leis, desconhecedores da autoridade e que semeavam a desordem. Nesse intento, resgata-se a idéia de irracionalidade envolta na concepção que a burguesia criou em torno das reações po- pulares. Adequadas ao objetivo de controle das reações populares, organizaram-se instituições capazes de conter as "ações irracionais". A burguesia intenciona o estabelecimento da ordem social, promovendo a coesão em torno da lógica racionalista. Assim, a razão foi tomada para modelar a moral social e fundamentar as relações humanas, constituindo-se como pilar da estrutura social. Os indivíduos incapazes e impossibilitados de adequar-se ao mundo racional ficaram à margem dessa nova estrutura social.

Uma vez que os comportamentos classificados como inadequados ao cenário social burguês eram perseguidos, dar-se início no século XIX, uma nova função para os hospícios. Agora eles assumem uma dimensão reparadora da razão sem alterar as práticas de enclausu-

ramento. Para os defensores de tais hospícios, o isolamento dos indivíduos das práticas e vi- vências coletivas era necessário para que esses mesmos indivíduos recobrassem a sanidade de suas faculdades mentais.

Hoje, no entanto, estão sendo revistas as políticas de saúde mental e questionadas as es- truturas manicomiais. Na verdade, desde a segunda metade do século XX, nos Estados Unidos e na Europa, as concepções humanísticas problematizaram o significado social e econômico da política de saúde mental. Algumas dessas concepções propunham, como princípio nortea- dor das terapias, a inclusão dos indivíduos portadores de distúrbios mentais no convívio cole- tivo e a conseqüente extinção dos manicômios. Isso apoiado na constatação de que a exclusão dos portadores de sofrimento psíquico da vida social, feita por essas instituições, tem dificul- tado a reabilitação desses indivíduos, criando dificuldades para a sua reinserção na sociedade, além de constituírem um tratamento extremamente oneroso para os cofres públicos.

No Brasil, o debate em torno da reforma psiquiátrica também não é tão recente tem-se fortalecido desde a penúltima década, apesar de ser caracterizado por situações bastante diver- sas, segundo Santos (1997):

"há locais onde avanços efetivos em termos de assistência na área de saúde mental têm sido alcançados, contrastando com outros onde a força das práticas atrasadas faz-se evidente".

Realmente as situações são diversas, assim como os contextos e as próprias práticas, mas essas diversidades já significam um grande passo na luta de um significado social para um sujeito considerado louco. É, sem dúvida, uma forma de sair do silêncio definido pela censura manicomial para se estabelecer uma liberdade de dizeres antes proibida. É uma forma de não mais separar os "loucos" dos outros sujeitos "normais", dando-lhes, desse modo, um retorno de suas "identidades", e um sentido para continuar vivendo. Essas diversidades de assistência na área de saúde mental comprovam que as ações de lutas antimanicomiais, mes- mo não sendo homogêneas e tendo suas especificidades são bastante representativas.

Santos (1997) considera que um dos fóruns mais importantes de discussão nessa área tem sido o movimento da Luta Antimanicomial, em cujos núcleos espalhados por diferentes Estados, debatem-se não só questões ligadas ao hospital psiquiátrico e modelos que possam substituí-lo, mas sobretudo a visão social da loucura, e as questões ligadas à cidadania dos portadores de transtorno mental.

Aliando-se às novas discussões sobre o tratamento dispensado à doença mental, organi- za-se, na década de noventa, a política de municipalização da saúde, uma nova estruturação dos serviços voltados para a assistência médica oferecida à população. No bojo dessas medi- das, necessária se fez a modificação da política de saúde mental, surgindo, assim, pequenos Núcleos ou Centros de Atenção – NAPS e CAPS, apesar de o hospital psiquiátrico ainda permanecer como local de destaque dentro da política de saúde mental, concentrando o maior número de profissionais, de atendimento e de recursos. Os NAPS e CAPS, consoante Santos, (op. cit) mesmo em número reduzido, já atuam de forma bastante diferenciada dos hospícios. Desde o surgimento do primeiro centro (CAPS "Professor Luiz da Rocha Cerqueira"), em São Paulo, o tratamento dispensado ao doente mental tem sido feito de forma diferenciada. Esse centro, na realidade, atuava como um intermediário entre a hospitalização integral e a vida comunitária, destinando-se ao cuidado público de pessoas com problemas psiquiátricos gra- ves. Mesmo se sabendo que não era ainda o ideal, esse centro serviu de referência nacional para a criação de outros os quais hoje representam um local em que os princípios preconiza- dos pela Reforma Psiquiátrica e Movimento de Luta Antimanicomial podem ser aplicados. Assim, as "vozes" de pessoas tidas como irrecuperáveis e perigosas, que ao longo de tantos anos estiveram abafadas pelo modelo manicomial, segregador e estigmatizante, passaram a ter assento nas diversas Comissões Municipais de Saúde Mental ou ao lado de profissionais, fa- miliares e outras representações sociais e culturais do município, passando a ter influência na política de saúde mental local.

A nova abordagem terapêutica da doença mental modifica a postura reprodutiva das re- lações de dominação e poder que perpetuam a doença, desencadeando uma busca pelo signifi- cado das trocas intersubjetivas, tentando compreender inclusive, que esquemas simbólicos os indivíduos utilizam em suas mediações com a sociedade, visando a inclusão dos portadores de sofrimento psíquico, como cidadãos, no seio da coletividade.

Tudo isso chamou-nos atenção. Agora há quem lute para que os "loucos" não sejam somente falados pelas "vozes da razão". Com esse espírito e com uma nova perspectiva assis- tencial, como também nos fala Santos (1997), surge em 1991 no Ceará, mais precisamente em Iguatu, o primeiro CAPS do Nordeste.

Ainda sobre as instituições manicomiais, podemos afirmar que elas acabavam promo- vendo a mutilação do "eu" despindo os internos de seus mundos domésticos e de seus direitos como cidadão. Fazia parte da lógica dessas instituições impor a todos os internos uma ruptura com seus modos de vida anteriores, já que elas exigiam a padronização dos hábitos e dos cos- tumes. Com isso, era promovido o aniquilamento da personalidade dos reclusos para que a instituição pudesse impor sua autoridade onipotente (Goffman, 1976).

A loucura, nessa perspectiva, passa a ser tratada como uma questão apenas de saúde, em que a prevalência das concepções clínico-organicistas conduzem a uma abordagem restrita dos fatores que envolvem o problema. Essa concepção sedimentou uma terapêutica voltada para o uso de farmacos, e de outras práticas de cunho médico-orgânico. Os CAPS também buscam o tratamento da doença, mas sem conceber a loucura como um fato orgânico total- mente isolado de fatores sociais e psicológicos. A filosofia do CAPS de Iguatu, como dos demais, baseia-se, então, no acompanhamento sistemático das pessoas portadoras de transtor- nos mentais, com rotinas que vão desde a assistência clínica em ambulatório, passando por terapias de grupo, oficinas terapêuticas, visitas domiciliares, grupos de família e sobretudo pela interação com os movimentos sociais, políticos, sanitários e culturais dentro do municí-

pio. Não se trata, pois, só de remissão de sintomas, de cura de doenças, mas principalmente de um novo olhar e de uma nova concepção sobre aquelas pessoas tidas como "desviadas da norma estabelecida".

Como todo discurso é feito em um contexto e o CAPS é um espaço em que os doentes mentais passam horas de suas vidas, achamos que pesquisar sobre a conversação, nessa insti- tuição que têm uma nova concepção de loucura, é interessante, para não dizer importante, até como um subsídio na luta anticomonial. Assim, falaremos a seguir sobre os aspectos teóricos metodológicos da pesquisa.