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Kan opplysninger deles, gitt at de kan anonymiseres?

5 Hvilke unntak fra retten til offentlig innsyn kan være aktuelle?

5.3 Kan taushetsplikten unnta pasientjournalen fra offentlig innsyn?

5.3.2 Kan opplysninger deles, gitt at de kan anonymiseres?

Iracema da Silva Machado Casagrande começou a lecionar em 1965, construiu carreira no magistério público municipal e estadual e aposentou-se nas duas redes de ensino. A maior parte de sua vida, durante 21 anos, foi professora da zona rural. Antes de aposentar-se concluiu um curso modular, denominado Projeto Logus II, com habilitação em Magistério.

A professora da Escola ―Santo Antônio‖ era conhecida e respeitada por toda a comunidade, funcionando como guia. A pessoa com melhor condição de apresentar e descrever a sua comunidade. Ela funcionava como uma conselheira das crianças que eram seus alunos e de todos aqueles que lhe procuravam em busca de uma conversa mais privada.

Iracema Casagrande era solitária no ato de planejar e de ensinar. Seu material de estudo para planejamento durante este início da escola rural municipal em Tangará da Serra limitava-se aos livros que existiam em seu baú. Livros do seu tempo de escola, usados há 23 anos antes de ser professora. A solidão na tarefa pedagógica fazia com que

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ela criasse estratégias para ensinar seus alunos, a ler e escrever, pois a maioria era de primeira série.

O ensino básico, ministrado pela professora era da Língua Portuguesa, em especial a alfabetização, construído no processo alfabético e silábico. A professora ensinava em separado, as letras vogais e depois as consoantes e em seguida a junção de sílabas. Para avaliar a aprendizagem recorria a leituras orais em coro e individual e também a realização de ditados. Em Matemática, o essencial eram as quatro operações numéricas, iniciadas anteriormente pela escrita e leitura de números. A memorização era o método conhecido e aplicado pela professora para obter uma resposta do ensino que ela oferecia aos alunos.

Além de ensinar a ler, a escrever e a contar, a professora deveria manter a sala em ordem, aos sábados deveria cuidar da limpeza e realizar os serviços de escrituração. ―[...] tinha que desenhar tudo direitinho no papel almaço, fazer o diário de papel almaço e as folhas todas soltas‖. A professora era responsável pela matrícula e pela transferência dos alunos.

Se tinha que fazer uma transferência, então eu pegava um boletim, ali estava marcado tudo direitinho no boletim que eu tinha, e ali eu fazia a transferência num papel, do meu aluno, da minha escola pra Tangará. [...] Não tinha outro meio, não tinha diretoria, não tinha uma direção, não tinha nada.

(CASAGRANDE, 2006, p.02)

Quando o município de Barra do Bugres começou a oferecer merenda escolar, a própria professora tinha que prepará-la. O tempo da aula era interrompido para que a merenda fosse preparada. A professora também assumia tarefas junto à Igreja, preparando as crianças para a primeira comunhão. Ela era a pessoa que dirigia os cultos católicos aos domingos e ou participava das missas, mensalmente, quando o padre visitava a Reserva.

Quando eu dava aula, lá em baixo, na Reserva, no tempo do Padre Edgar, preparei muitas crianças pra fazer a primeira comunhão, naquele tempo era mais simples, não precisava estudar muito. Era só saber o que ia receber, como que era Jesus. [...]. Eu preparei muitas crianças ali para fazer primeira comunhão. Quando tinha missa lá, a missa era na escola. Eu dava culto também. Nos domingos eu dava culto também, muitas vezes lá.

(CASAGRANDE, 2006, p.02).

Em 1965 ela ensinou para 17 alunos da primeira série e um aluno da segunda série. Nos anos seguintes com a intensificação do movimento migratório, outros alunos foram matriculados e a professora ensinava no período de oito horas da manhã às 12 horas em

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uma sala multisseriada. Alunos de primeira à quarta série dividiam o mesmo espaço e a mesma professora na mesma hora.

Segundo Iracema Casagrande (2006), como é conhecida cotidianamente, com a intensificação do número de matrículas dos alunos de primeira série, a solução foi trabalhar dois turnos de três horas cada. O primeiro das sete às dez horas e outro das dez ao meio dia. O primeiro se destinava aos alunos apenas da primeira série e as outras séries juntas no segundo período. Essa foi uma estratégia isolada, criada pela professora para resolver o problema do número de alunos. Ela não recebia por dois períodos, mas apenas por um período de quatro horas aulas.

O município de Barra do Bugres nos anos de 1960 fiscalizava pouco as escolas rurais e não oferecia nenhum suporte didático para o professor. O provento muito baixo, conforme os relatos. Iracema Casagrande para receber seus salários precisava deslocar-se até a sede do município na cidade de Barra do Bugres e, algumas vezes, ainda não conseguia recebê-los. Como o percurso era longo, meses eram acumulados sem salário. E segundo seus relatos alguns meses ficaram atrasados.

Iracema Casagrande, nos anos iniciais como professora, não dialogava com outro professor ou professora, não podia discutir sua prática. O que ensinava só passava por seu crivo de seleção. Porém, ao final do ano a Inspetoria da Educação de Barra do Bugres, representada por José Nodari, que exerceu esta função até a emancipação política de Tangará da Serra, ia até a escola para a realização dos exames finais.

Chartier (1991, p.177) destaca ―[...] não haver prática ou estrutura que não seja produzida pelas representações, contraditórias e em confronto, pelas quais os indivíduos e os grupos dão sentido ao mundo que é o deles‖. Assim, as representações produzidas por Iracema Casagrande sobre a escola e o ensino que ministrava passam por muitas antíteses.

As contradições são evidentes quando em seus relatos aparecem representações negativas sobre a péssima estrutura da escola, sobre a pobreza do lugar, sobre a labuta para receber salários, sobre as dificuldades que enfrentava como professora e mulher. A ausência de materiais de primeiras necessidades na cidade configura Tangará da Serra no imaginário dos migrantes, mais como um espaço de medo76 do que de esperança. O relato abaixo de Iracema Casagrande enfatiza as dificuldades enfrentadas no tempo em que chegou em Tangará da Serra:

76 O do medo e da esperança são as antíteses produzidas em regiões de reocupação recente em Mato Grosso. O medo refere-se ao cuidado com o novo, as representações relacionadas aos perigos que poderiam enfrentar, enquanto a esperança estava marcada no desejo de vencer, de produzir um futuro melhor para a família.

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Em 1963, não tinha nada, só tinha um boteco pequeno que era de um tal de Antônio Baiano, nós viemos trouxemos bastante coisa, viemos surtido de lá, de mantimento de roupa, de calçado e de tudo. Mas, com o passar do tempo foi acabando, tinha tempo que ia comprar coisas e não achava, não achava nada pra comprar era bem difícil mesmo, passamos às vezes a fazer café com garapa de cana, doce pra crianças nem falar, tinha que fazer algum docinho de mamão ou de abóbora porque outros doces, bala doce criança queria e não tinha. Leite também era difícil não achava leite de vaca pra comprar. Minha filha chegou a ficar até doente por falta de leite. Precisei mandar fazer remédio pra ela. Remédio de verme, atacou verme e tudo. Depois a gente foi devagarzinho, devagarzinho, foi comprando um leite em pó bem esquisito, tinha um cheiro de bhc [inseticida fitossanitário]. Tinha um padre que naquela época aqui o padre

José, ele distribuía leite para o pessoal, era desse leite que tinha no mercado para vender, um leite que cheirava bhc que era só um boteco pra vender, foi o que eu dei para a menina que graças a Deus melhorou. (CASAGRANDE, 2001, p.05).

Essas representações são relativizadas quando Iracema Casagrande avalia seu passado. Para ela a penúria do passado é compensada pelo tempo presente. Lembrar do que representou a Escola Santo Antônio é dulcificar parte da sua vida. O amargor vira mel, o sonho, mesmo em partes, transformou-se em realidade:

Sou muito feliz, eu vim pra cá contrariada. Jovem não gostava de vir pra cá, porque eu pensava que era sertão. Nunca tinha me afastado da minha família, de fato que, meus parentes ficaram todos no estado de São Paulo, somente eu vim pra cá com a família do meu marido e eu sentia muita falta. Mas hoje eu sinto orgulho de estar aqui em Tangará porque aqui alcancei meu objetivo que queria. Gostava de estudar tinha vontade de ser professora, mas sabia que minhas condições não podiam, que lá era difícil até ginásio era pago no tempo que eu estudei não é como hoje que é tudo do governo, até 2º grau hoje tem facilidade para estudar (CASAGRANDE, 2006, p.04).

A história recente, a serenidade e o desprendimento de Iracema Casagrande quando relata suas lembranças do tempo em que era professora na escola rural, e também os relatos de seus ex-alunos, nos faz concluir que ela era uma guia da comunidade da Reserva. Sua identidade parece não ser una, mas múltipla. A professora, a líder, a religiosa, exemplo de moral, dedicada e a grande mãe. Parece que mesmo distante dos grandes centros a professora apropriou-se dos discursos para o professor rural que foram produzidos no Brasil.

Vocação, sacerdócio, altruísmo, abnegação, renúncia, serenidade, senso de justiça, amor materno, idealismo constituem-se em discursos que se misturam, se confundem e instituem a profissão. Todos são amplamente difundidos pelos dispositivos da época, que interpelam os professores com maior ou menor intensidade. (ALMEIDA, 2005, p.292).

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A Escola Rural Mista Municipal ―Santo Antônio‖ foi apenas uma das escolas rurais criadas em Tangará da Serra a partir de 1966. Ela foi a primeira, e que teve como única professora, Iracema Casagrande. Porém, não representou singularidade, pois em Mato Grosso, as escolas rurais eram esquecidas, abandonadas, sempre compostas por professores leigos, que lecionavam de acordo com seu empirismo e que em muitos casos, a experiência escolar do professor foi também apenas numa escola rural.

Em Tangará da Serra, o número de escolas rurais foi crescente até os anos oitenta do século XX, quando em sua maioria foram abandonadas ou derrubadas e os alunos encaminhados para as escolas públicas estaduais na localidade urbana do município. Este processo também culminou com o êxodo rural da população cafeicultora para cidade. O café, elemento condutor do movimento migratório, entrava em decadência e com ele as famílias de lavradores foram tentar a sorte na periferia da cidade.