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A ONG Centro Cultural CELITA esta localizada no bairro Pedra/Fortaleza, mais precisamente no Km 16 da margem Oeste da BR 116. É uma área da grande Messejana, vincula à Secretaria Administrativa Regional - SER VI e fronteira da cidade de Fortaleza, com os Municípios de Eusébio e Itaitinga.

Aliás, é preciso explicar que existe uma área ainda maior que o próprio bairro Pedra/Fortaleza, com a mesma denominação de Pedra, pertencente ao Município de Eusébio e outra grande parte de terra, também assim chamada, que pertence ao Município de Itaitinga (ver mapa – anexo 06).

Portanto, o bairro é uma área de conflito territorial. Há vários anos os moradores da parte central do bairro Pedra/Fortaleza (Praça Santa Luzia, seu entorno e comunidades próximas) lutam para preservar a identidade e o pertencimento com a cidade de Fortaleza.

Nesse processo de luta social argumentam, que a história do bairro se relaciona com o município de Fortaleza porque toda a infra-estrutura social existente (escolas, posto de saúde, sistema de transporte e de coleta de lixo, a construção e reforma da praça, a construção e reforma da quadra, etc.), foi conquistada pela organização do povo por meio de reivindicações feitas à Prefeitura Municipal de Fortaleza – PMF.

Conforme a história do bairro Pedra escrita por Dona Lirêda Peixoto da Costa, primeira professora e catequista desse lugar (doc. fotocopiado, s/p – anexo 07), a comunidade era chamada de Riacho do Bingo.

Nesse documento Ela informa que até 1942 esse lugar era completamente atrasado, não tinha estrada, escola, nem igreja e seus moradores viviam da agricultura e do artesanato (bordados e rendas).

Dona Lirêda relata que no mesmo ano de 1942, convidado pelo Padre Pereira, Pároco de Messejana, o Arcebispo de Fortaleza, Dom Antonio de Almeida Lustosa visitou a comunidade, ficou hospedado na casa de Dona Joaninha Delfino, uma residência muito simples, de gente humilde.

Em sua narrativa explica que Dom Antônio em conversavas com os agricultores sobre a falta de água na localidade perguntava: Por que essa falta d’água? Os agricultores davam sempre a mesma resposta: “quando a gente cava algum poço só dá pedra”.

E afirma que foi a pedido do Arcebispo que a comunidade resolveu chamar o lugar de Pedra informando, no entanto, que a localidade só passou a ter essa dominação oficial a partir de 11 de Agosto 1945, quando foi inaugurada, pela própria Dona Lirêda, a permanência de uma escola isolada, funcionando na residência de Dona Joaninha Delfino quando, nessa época, o prefeito Raimundo de Alencar Araripe criou este tipo de escolas nas periferias de Fortaleza.

O depoimento de Júlio13 (51) a primeira liderança de juventude da comunidade, que fundou em 1981 a Juventude Unida da Pedra - JUP, movimento ao qual nos reportaremos mais adiante, confirma a história de Dona Lirêda:

13 Julio é um adulto, a sua inserção no rol de entrevistados nessa pesquisa sobre juventude e ação

comunicativa na periferia de Fortaleza deveu-se a dois importantes fatores: o seu grande conhecimento histórico e atuação social na comunidade, em foco; e o fato de ter sido o primeiro militante de juventude, criando a JUP – Juventude Unida da Pedra, no início dos anos de 1980 e posteriormente foi um líderes na fundação Associação dos Moradores e Amigos do Bairro da Pedra – ASMOAP, mantendo até hoje o seu comprometimento engajado em várias ações e instituições do bairro (ASMOAP; Radio FM-Pedra; Centro Cultural CELITA; Escola Tristão de Alencar, etc.).

Eu conheci a Pedra bem rústica mesmo, porque eu conheci a Pedra ainda sem luz elétrica, sem água encanada, sem transporte público. A gente caminhava um bom pedaço de chão, como se diz, pra poder ter acesso a ônibus e poder ir ao Centro de Fortaleza. Eu alcancei essa Pedra sem calçamento, sem tudo isso e sem escola. A escola aqui surgiu, mais ou menos, em 1945, entre 1945 e 1950, Uma escola propriamente dita foi a partir de 1950, antes disso tinha aquela chamada “escola isolada” era aquela pessoa, aqui na comunidade a Dona Lirêda Peixoto, a nossa primeira professora aqui do bairro. A minha avó era mais antiga do que ela, também foi a primeira professora, mas como ela morava mais para o lado do Ancuri, então, ela é considerada a primeira professora do Ancuri. O sítio onde ela morava, chamado Bujari, mas o povo daqui ia também pra casa dela. A escola isolada era justamente um alpendre da casa ou dos dois lados da casa, na casa da minha avó, eram dos dois lados e a Dona Lirêda, aqui, era na casa da Dona Joaninha Delfino, que é uma das primeiras famílias daqui e cedeu o alpendre da sua casa pra ter aula, alfabetização, sala de aula, nem chamava assim (Entrevista 8, p. 3).

Retornando à questão dos limites do bairro Pedra/Fortaleza, não existe conflito com o Município do Eusébio, mas com o Município de Itaitinga sim, apesar de esse ser um Município com apenas 17 anos de existência, já que foi criado por meio da Lei Estadual nº 11.92714, de 27 de Março de 1992 (anexo 08) que desmembrou os distritos da Itaitinga e do Gereraú pertencentes ao Município de Pacatuba, para formar o novo Município da Itaitinga

O Município de Itaitinga defende radicalmente uma divisão do bairro Pedra/Fortaleza, em cuja comunidade existem famílias que habitam o local há várias gerações, há séculos. É fundamental considerar a ancestralidade indígena do povo da Pedra, traço étnico-cultural preconceituosamente discriminado na realidade presente como conseqüência da barbárie histórica da expulsão dos povos tupis de suas terras e do quase extermino das milhares de tribos do território cearense. A respeito disso Barreto explicita:

Devido à ação dos colonizadores, jesuítas e contato permanente com a "civilização", os índios acabaram perdendo traços de suas culturas e se miscigenado com os "brancos". Para agravar a situação dos índios cearenses, em 9 de outubro de 1863, durante

o governo de José Bento da Cunha Figueiredo Júnior, foi aprovado um decreto na Assembléia Provincial do Ceará declarando extintos os índios no Ceará, e qualquer um que alegasse ser índio estaria mentindo. Isso contribuiu para que os próprios índios escondessem suas origens, dificultando ainda mais o conhecimento das tribos e criando um mito de que não haviam índios no Ceará (1994: p.30).

A partir dos anos de 1980, com o surgimento do Partido dos Trabalhadores e da organização e luta de diversas comunidades, com o significativo apoio das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs da Igreja Católica e de alguns movimentos sociais surgidos por meio de intelectuais orgânicos, principalmente, os antropólogos, surgem as primeiras iniciativas em defesa dos índios no Ceará, de início afirmando a existência desses povos, denunciando o estado de abandono, miséria e violência a que estavam expostos e, concomitantemente, reorganizando os grupos, fortalecendo a defesa de seus direitos e promovendo o resgate de seus valores e culturas.

Atualmente o povo indígena do Ceará está reduzido à poucas comunidades que lutam para reconquistar sua identidade e cultura, seus direitos e, sobretudo, legalizar a posse de suas terras. Vizinho ao bairro Pedra temos: o povo Pitaguary no Município do Maracanaú. Potyguara, Paiacu e Jenipapo-Canindé no Município de Aquiraz.

Sabe-se, ainda, da existência de pelo menos dezesseis (16) etnias nativas no Ceará, entre as quais podemos citar: Tapeba (Caucaia), Tremembé (Almofala), Tabajara (Serra da Ibiapaba),Tupinambá, Kalabaça e Kanindé. Dados do Ministério da Justiça – Fundação Nacional do Índio – FUNAI esclarecem:

Hoje, no Brasil, vivem cerca de 460 mil índios, distribuídos entre 225 sociedades indígenas, que perfazem cerca de 0,25% da população brasileira. Cabe esclarecer que este dado populacional considera tão-somente aqueles indígenas que vivem em aldeias, havendo estimativas de que, além destes, há entre 100 e 190 mil vivendo fora das terras indígenas, inclusive em áreas urbanas. Há também 63 referências de índios ainda não-contatados, além de existirem grupos que estão requerendo o reconhecimento de sua condição indígena junto ao órgão federal indigenista (O índio hoje, p.1. Disponível no site: www.funai.gov.br. Pesquisa efetuada em 02.01.2010).

No limite territorial de Fortaleza com Itaitinga o bairro da Pedra está cortado ao meio a partir de uma linha imaginária, cuja fundamentação legal é uma Lei Estadual de 1953 (anexo 09), que fixa a divisão territorial e administrativa do Estado do Ceará e

em seu Capítulo 30 – Município de Fortaleza, no §1º - A linha divisória do Município de Fortaleza; Inciso, d) – Ao sul, com o Município de Pacatuba “começa no pontilhão do riacho Carro Quebrado, segue em linha reta (linha imaginária) para o Serrote do Ancuri e deste passa, por outra reta para a foz do riacho Timbó ou Gereraú, no rio Cocó”.

Mais grave é que atualmente por conta da necessidade de aumentar sua arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Prestação de Serviços - ICMS, principalmente, junto às Companhias de Água e Esgoto do Estado do Ceará – CAGECE e Companhia Energética do Ceará – COELCE, a prefeitura de Itaitinga pressiona politicamente para avançar o seu limite territorial até o Quarto Anel Viário e o povo da Pedra não aceita que o bairro se torne área de Itaitinga. Segundo as lideranças de juventude do movimento “Pedra é Fortaleza”

O povo não tem identidade com Itaitinga e não vê benefício algum nessa perspectiva. O que histórico, social e culturalmente se reconhece como limite entre Fortaleza e Itaitinga é a Avenida da Lógica e a Rua Jorge Figueiredo (Carta do I Encontro de Juventude da Pedra, p. 2 – anexo 10).

Essa questão da luta pela terra e por demarcações territoriais é antiga nessa região e nos remete obrigatoriamente à ancestralidade indígena dessa área. Os índios eram os senhores absolutos em todo o espaço que hoje conhecemos como o Ceará até o período pré-colonial. E toda essa área da grande Messejana incluindo o que hoje se conhece com a localidade Pedra é parte dessa questão. Conforme depoimento do Júlio (51):

Eu não saberia te dizer de antigamente, mas eu acho que está nessa linha dos “posseiros de terras”, porque cá pra nós, até hoje as famílias que herdaram, os filhos, os netos... a maioria dos terrenos aqui da comunidade não tem aquela documentação regular, tradicional. Então, aqui é uma área que foi apossada por essa famílias (Entrevista 8, p. 2).

Foi no sangrento processo de usurpação do espaço territorial indígena Potyguara dessa grande área da Messejana e circunvizinhanças, que passam a ser limitados em aldeamentos, onde surge a posse de terras por meio de latifúndios e grandes propriedades da Igreja, que dão origem a pequenos povoados.

Posteriormente, ao longo de várias gerações esses latifúndios vão se desdobrando em outras frações de terras cada vez menores dando origem às localidades, cidades da Região Metropolitana e bairros na periferia de Fortaleza. Segundo o Historiador Lima (2008: p.38), somente em 1833, Caucaia, Parangaba e Messejana deixam de ser aldeias de índios.

A historiadora Ivone Cordeiro analisa registros da literatura produzida na segunda metade do Século XIX para investigar de forma crítica o lugar do sertão cearense no processo formação da nacionalidade brasileira e nesse contexto ela constata:

Enquanto o gado recebido como pagamento pelo trabalho do vaqueiro possibilitou a fundação de novas fazendas, em pouco tempo, e permitiu um processo de acumulação relativamente rápido, gerando um sentimento de ganho e de participação nos resultados do trabalho diferentemente aconteceu na agricultura. Por isso, o momento em que esta se expandiu no sertão alastrou intensivamente formas de exploração e submissão do trabalho e do trabalhador agrícola (2004: p.74).

Esse estudo da professora Ivone é fundamental para se entender que a pecuária trouxe num movimento do sertão para o litoral uma proliferação de fazendas, uma mobilidade social de famílias caboclas, mestiçadas da etnia dos índios com os brancos colonizadores, demarcando a força e a resistência dos vaqueiros na cultura cearense.

Contudo, é importante destacar que isso ocorreu num perverso processo para dissolver as populações indígenas no conjunto da população, em geral, negando e extinguindo a existência indígena e produzindo a legitimidade dessa negação social através do poder e da cultura dominante. As várias etnias indígenas, no Ceará, foram transformadas num povo sem existência, sem pertencimento, sem fala e sem reconhecimento. A autora explicita:

À recusa deliberada ao reconhecimento da presença indígena ocupando o espaço sertanejo; junta-se a desqualificação dos indivíduos que compunham as camadas pobres da população, que por essa razão não tinha lugar reservado na sociedade colonial, de forma que o reconhecimento da sua presença no “sertão inabitado” constituiu-se quase como uma negação, na medida em eram lembrados como partícipes marginais dessa sociedade...Quem eram esses “vagabundos aventureiros” senão índios reduzidos, vencidos e mestiçados? Negros fugidos, forros, mulatos e brancos pobres? Os meandros do discurso criam verdadeiras inversões: o genocídio, as reduções e o

processo político de negação da existência dos índios ao mesmo tempo em que produz a sua invisibilidade produz também uma “fartura de terras” (2004: p. 65).

Do povo vencido fez-se o silêncio, nasceu a vergonha de si, negação da própria cultura e da ancestralidade fundante, jeito que caracterizou o povo cearense em longo processo histórico: vergonha de ser cearense, fenômeno que, até hoje, permanece muito presente nas camadas mais pobres da população, sobretudo, nos imigrantes, que constituem grande parcela da população das periferias de Fortaleza. Sendo hoje mais consistente na perspectiva da vergonha de ser pobre, vergonha de ser da periferia.

Essa dialética entre opressores e oprimidos permanece viva, pulsante, reproduzindo a desigualdade social, perpetuando os “bolsões de pobreza”, conservando o poder político, que, em todo Estado do Ceará, ainda, é extremamente oligárquico, cristalizando no povo uma mentalidade ordeira, de colonizado, que valoriza o que “vem de fora” e preserva entre nós o preconceito com as nossas raízes e a nossa cultura popular como uma atitude “naturalizada”.

João (23) um dos jovens entrevistados ao responder a pergunta “Como os jovens se vêm na comunidade?” demonstra esse sentimento de vergonha do bairro, de ser da periferia, constituindo-se na dimensão atual a expressão mais presente da negação da própria origem, ao afirmar que os jovens da comunidade são discriminados pelo lugar que moram, são discriminados por serem jovens, ou possuir uma estilo diferente. Ele introduz, também, uma reflexão crítica sobre a homofobia15, questão que apresenta- se muito forte na comunidade.

Eu acho assim, até de certa forma discriminado. Você sai... Eu mesmo, me sinto discriminado pelo bairro mesmo, sabe. Você sai... conhece uma pessoa. Onde você mora? Na Pedra. Ai? Onde é a Pedra? Onde fica a Pedra? As vezes eu vejo já nessa parte mesmo a discriminação. Pela parte dos homossexuais, dos meninos, tem discriminação, porque o pessoal ainda é muito fechado. Muito cabeça fechada. Tem umas brincadeiras com eles que não é muito apropriada e também discriminação por parte deles. Eu acho também que tem discriminação com uma galera mais nova, quando você vê um menino de bermudão, camisa de marca, boné, já chama de vagabundo e não é, às

15 Para aprofundar estudo sobre esta questão consultar: LOIOLA, Luís Palhano. Coisas difíceis de dizer:

as manifestações homofóbicas do cotidiano dos jovens. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-

Graduação em Educação da Faculdade de Educação – FACED/UFC, 2001; ______ Diversidade sexual:

vezes é um estilo. Mas o pessoal daqui quando vê um menino assim já pensa que é vagabundo, que é isso, que é aquilo. É um incentivo a mais pro cara ficar, é negativo (Entrevista 6, p. 3).

É importante observar um detalhe nessa fala que se refere ao sentimento de discriminação desse jovem, que acontece em relação ao mundo externo, quando “você sai” da comunidade e entre em contato com outras pessoas, de outros bairros da grande Fortaleza.

No cotidiano do bairro, na convivência entre pares e não-pares há um compartilhar do pertencimento, uma cumplicidade nas formas de gostar do bairro, apesar das dificuldades de infra estrutura que apresenta, dos jovens considerá-lo um lugar distante e ainda muito fechado.

A fala de Helena (27), fazendo uma narrativa sobre sua história de vida e a relação com a comunidade mostrando a vontade de “sair do bairro”, revela um outro aspecto muito forte que povoa o imaginário da juventude do lugar:

Na verdade eu não nasci, mas eu só não nasci.. Eu vim pra cá com dois meses de idade e até hoje moro aqui. Penso em um dia sair daqui, pela questão da localização, de ter um lugar mais próximo, não porque eu não goste do bairro. Eu gosto do bairro, eu gosto daqui. O que me dificulta pra eu morar aqui é a questão de localização mesmo, porque fica mais distante mesmo, a questão de ônibus, a questão de estudo. Mas, sempre, eu participei das coisas daqui, eu já fui do grupo de jovem da Igreja. Sempre eu tive inserida nas questões daqui. Eu vi o Centro Cultural nascer e estava presente na primeira reunião, a reunião da sua fundação (Entrevista 10, p. 1).

Aliás, essa mística de sair do bairro, muito forte na cabeça dos jovens e das jovens da comunidade, já se transformou num verdadeiro ritual de passagem da infância/adolescência para o mundo dos jovens, o que se verifica pela preferência visível dos mesmos em cursar o Ensino Médio em Messejana ou em outras escolas do Centro da Cidade, ou bairros mais distantes, necessitando, obrigatoriamente, de um descolamento feito de ônibus. Usar o transporte coletivo para estudar, exibir uma farda de um colégio distante é motivo de status, autonomia e liberdade.

Isso ocorre porque no próprio bairro não tem uma escola de Ensino Médio. Existem duas que ficam bem próximas, mas estão localizadas uma no Município do Eusébio e a outra na cidade da Itaitinga. Uma parte dos jovens da comunidade estuda

nessas escolas, porque são as mais viáveis para a comunidade, mas a maioria rejeita essa possibilidade, apesar do sacrifício das famílias para arcar com as despesas de transporte ou do grande risco que correm com o deslocamento de ida e volta de alguns quilômetros de distância, muitas vezes, feito de bicicleta para as escolas entre a Messejana e o bairro Pedra.

Essa auto desvalorização cultural é muito pouco compreendida e percebida no cotidiano das relações sociais do povo no Ceará. O crítico de cinema Pedro Martins Freire no artigo “A formação do Ceará” na oportunidade em que comenta o novo longa- metragem de Rosemberg Cariry, “Siri-Ará16” , argumenta:

Hoje, o caráter de ser cearense melhorou um pouco em termos de auto estima... O cearense, no entanto, não para de falar mal de si mesmo. Herdou um processo histórico de falar mal do conterrâneo, de negar-lhe as qualidades e de apreciá-lo em seu trabalho. Falar mal do conterrâneo é falar mal de si mesmo. Uma das buscas de “Siri-Ará é justamente esta, a do porque temos essa herança nefasta. Outra, remete a cidade com alvo de turismo sexual, outra, a dos prédios modernos montados sob o sangue de nações indígenas, Há outras, muitas outras (DN 05/08/2009).

Eu percebi esse aspecto cultural, como uma realidade muito forte na identidade e no processo da formação dos jovens e das jovens da periferia de Fortaleza ao iniciar em 2002 um trabalho de teatro, com uma oficina para formação de atores e atrizes, no Centro Cultural CELITA.

Essa atividade contou com a participação de vinte e cinco (25) jovens e se desenvolveu buscando inspiração nos Círculos de Cultura do Paulo Freire e no Teatro do Oprimido de Augusto Boal, porque, entre várias técnicas teatrais e de interação social, se exercitava o debate de temáticas sociais da comunidade. (cópia do projeto - anexo 11).

Na realidade, enquanto produção artística o trabalho estava voltado para uma linguagem do Teatro de Rua e completamente mergulhado no resgate e promoção das nossas raízes culturais, através do Teatro Popular.

A proposta tinha esse compromisso de desenvolver com os jovens e com as jovens a pesquisa, o conhecimento, a reflexão, a expressão corporal, a improvisação, a

experiência estética e educativa a partir de elementos da nossa cultura popular: o cordel, as cantorias, os bailados, as danças indígenas, as cirandas.

A culminância dessa experiência foi a montagem do “Auto do Boi Misterioso” cuja estréia aconteceu no dia 12 de Dezembro de 2002, na Festa de Santa Luzia,