“Como se pode saber o peso da terra: um processo curioso”. Esse é o título de um artigo que por, julgá-lo bastante representativo da abordagem que Eu Sei Tudo faz da ciência, detivemo-nos nele em nossa análise e o retomamos aqui como um bom exemplo. O título – um questionamento inusitado – procura de início instigar a curiosidade do leitor. Todos entendem a questão, mas quase ninguém imagina como se
pode respondê-la. Mesmo que a solução não tenha implicações práticas para a vida das pessoas, ela carrega o leitor para o terreno das abstrações e de suas relações lógicas.
No artigo, afirma-se que:
Conhecer com a maior exatidão possível o peso do nosso planeta é questão que, desde há muito, preocupa os homens de ciência, porque nela está a solução de muitos problemas relativos ao mecanismo dessa grande máquina cósmica a que chamamos sistema planetário...
Poderíamos, por um momento imaginar a terra suspensa de uma balança que pendesse de um fortíssimo cabo entre duas estrelas, e o professor Newcomb, provido de um telescópio, lendo a cifra indicada na escala da mesma balança. Semelhante processo praticamente impossível, claro está, não é em teoria mais maravilhoso que aquele que o sábio norte-americano se propõe empregar.31
A maneira como o texto foi escrito, assim como o título, desperta a atenção do leitor para os mínimos detalhes que iam sendo ressaltados no processo de pesagem da terra. Não somente despertava curiosidade, mas levava o leitor a imaginar o processo científico que permitiu chegar ao peso da terra, algo por si só difícil de imaginar. Mas o artigo continua:
De fato, se pudéssemos colocar a Terra assim, numa balança gigantesca, teríamos a singular surpresa de ver que não pesava coisa alguma – nem uma grama sequer – porque o peso não é mais que a tendência de um corpo para responder à lei de atração da própria Terra, que neste caso, não existiria. Astronomicamente falando, a Terra só tem peso em relação à atração que sobre ela exercem os outros corpos celestes.
Mas, agora, trata-se de averiguar o que ela pesa, considerada como qualquer objeto terrestre, como se fossemos pesar, por exemplo, um desses globos terráqueos usados na escola.32
A didática empregada pela revista na descrição passo a passo de como foi possível chegar ao peso da terra, sem utilizar a balança, é merecedora da nossa atenção, na medida em que revela saberes não somente da astronomia, mas também da física. São introduzidas, para os leitores, noções geralmente restritas às literaturas científicas, tornando-as acessíveis a um público leigo, envolvendo-os nos conhecimentos e nos
31 Artigo publicado na revista Eu Sei Tudo, em dezembro de 1921, p.86. 32 Ibidem.
avanços científicos. Assim, o artigo retrata o processo pelo qual o cientista chega às conclusões acerca do peso da Terra:
Para chegar a este resultado, o professor Newcomb vai empregar um curioso processo. Junto a uma montanha, vai suspender um grande pendulo e, pelo desvio da perpendicular que este experimente, calculará a força da atração da montanha. Feito isso averiguará o metro cúbico, que o volume da montanha soma e, pesando um metro cúbico da rocha que a forma, uma simples multiplicação lhe bastará para conhecer o peso da montanha inteira. Mas a montanha atrai proporcionalmente ao seu peso, e o mesmo sucede com a Terra.33
A revista atualizava o seu leitor em relação ao que estava acontecendo no mundo da ciência, fora das fronteiras nacionais e, dessa maneira, buscava integrá-lo à ampla comunidade de admiradores da ciência. Nesse caso, o foco era a astúcia do raciocínio científico. Não se enfatiza aqui as promissoras benfeitorias que essa perspectiva deverá trazer no futuro, nem as peculiaridades de seus promotores.
Mas esses outros aspectos que compõem o imaginário social da ciência aparecem enfatizados em outros artigos, como “O grande benfeitor”, publicado em janeiro de 1922, no qual se retrata a história de “Horácio Wells”. Ali se lê que Wells era um célebre dentista, homem observador e com espírito inclinado para as generalizações as quais, após participar de uma conferência em Connecticut, em 1844, decidiu comprovar os efeitos anestésicos do “protoxido de nitrogênio”, ainda desconhecidos. Ele fez com que colegas comprovassem a grande descoberta que ele mesmo havia experimentado. “Uma nova era se abre para nossa profissão, pois que nada senti”. Assim Eu Sei Tudo descreve o feito de Horário Wells e o apresenta como “o homem que venceu a dor”.
No mesmo ano, um artigo, que ocupou três páginas inteiras, com diferentes ilustrações, fez menção aos feitos de Wells e afirmava que os sábios homens da ciência conseguiram ir mais longe que Wells, ao comprovarem que o homem é capaz de ser invisível. O artigo, intitulado “Uma legenda realizada pela sciencia: o homem invisível”, descreve os diversos meios de se tornar invisível. Esse artigo foi assinado por Mauríce Gouineau que, em um laboratório, descrevia todos os passos dos experimentos que estavam sendo feitos com a luz e como, através dela, a maioria dos fenômenos
visuais nasciam, entre eles, a reflexão, a refração e a absorção. De acordo com a revista, “todo o mundo sabe que o degrau de visibilidade de um corpo depende da existência e do valor desses fenômenos. Um corpo pode ter a propriedade de ser transparente ou translúcido; pode igualmente, possuir estas três propriedades a um tempo”.34
O texto faz referência ao leitor, mostrando que ele possuía alguma noção acerca dos saberes científicos. Essa noção poderia ter sido adquirida na escola, graças aos currículos, livros didáticos ou ainda por meio das divulgações que a própria revista fazia desses saberes. O importante é que, nesse caso, não se descreve esses conhecimentos para um público leigo no assunto, mas para aquele que já havia tido contato com alguma informação sobre ciência. Por isso, a menção de “todo mundo sabe” nos leva a ponderar sobre o público que se pretendia alcançar. Ao buscar envolver o leitor nesse ambiente científico, a revista reelabora o ponto de partida das explicações – “suponhamos que”, “olhemos através de”, “dizemos ao ver” – de forma a convidá-lo a interagir e a acompanhar o raciocínio.
Pelo que se pode constatar na leitura das edições desse período, as principais fontes e referencias de Eu Sei Tudo não eram nacionais. Ao que parece, isso advinha menos de uma falta de interesse nos recursos nacionais do que da falta de dados e materiais para as edições. Essa interpretação é reforçada por notas editoriais divulgadas consecutivamente, ao longo das edições do ano de 1925 e que afirmam o seguinte:
Eu Sei Tudo agradece a seus leitores, que lhes tem enviado informações e photografias sobre cousas de nossa terra e, no interesse de tornar conhecido tudo quanto diz respeito ao Brasil, pede a todos os seus leitores, que lhes enviem quaisquer dados, que julguem dignos de publicação. Publicaremos com grande prazer photografias, notas e artigos sobre aspectos, factos históricos, costumes ou legenda de nossa terra.35
Embora a revista tivesse um caráter informativo, definindo-se pela inclusão de uma enorme diversidade temática, os assuntos referentes à elaboração de uma história e, especialmente, de uma ciência internacional ganharam destaque. A Eu Sei Tudo tornou- se, então, um espaço de divulgação do que se considerava serem os mais importantes
34 Eu Sei Tudo, fevereiro de 1922. 35 Eu Sei Tudo, edição de maio de 1925.
conhecimentos, novidades e avanços científicos alcançados no exterior, como também no país.