A utilização da imprensa, como fonte de análise, enriquece a observação histórica, principalmente no que concerne à educação. O papel da imprensa na virada do século XIX para o século XX foi determinante para um tempo em que o acesso à educação era bastante restrito. Carlos H. Carvalho, José Araújo e Wenceslau Neto (2002), em seu estudo sobre a imprensa enquanto objeto de análise histórica, afirmam que “há várias formas de pensar a história dentro de condições particulares e específicas, com as suas múltiplas atividades: política, econômica, social, cultural, religiosa e literária; que compõem o espaço onde homens e mulheres vivem situações
sociais reais”.19 Para os autores, a análise da imprensa permite a emergência de novas
interpretações que edificam outras concepções de educação, fora da educação formal, e possibilitam visualizar horizontes mais diversificados, os quais também fazem parte da educação como meio de formar e conformar comportamentos. A imprensa, especializada ou não, em muito contribui para se historiar as pistas deixadas pelo pensamento educacional ao longo do século XX no Brasil.
Investigar o passado passa, em certa medida, pelo estudo da imprensa, pois ela compartilha da cotidianidade em que se dá a história. A imprensa registra, comenta e participa da história. Como o alvo é a conquista cada vez de um público maior, a permanência da relação social se constrói no equilíbrio que se estabelece entre os interesses da instituição e as expectativas da coletividade, segundo José Araújo (2002).
Maria Lúcia Palhares-Burke (1998), em seu artigo sobre a imprensa periódica como empresa educativa no século XIX, mostra a relevância que certos impressos tiveram no processo educacional, por dizerem sobre o modo pelo qual as culturas eram produzidas, mantidas e transformadas. Os meios de comunicação modernos “têm um currículo oculto que dissemina e organiza informações, cria valores, atitudes e idéias sobre uma multiplicidade de tema [...] que influenciam seus leitores, ouvintes e espectadores”.20 Embora fosse pequena a proporção de letrados, a prática da leitura em
voz alta, seja no ambiente doméstico ou em público, ainda era uma prática muito difundida. Com isso, o impacto da imprensa atingia também as pessoas que não sabiam ler. Com o avanço das técnicas gráficas ao longo do século XIX e no início do século XX, sobretudo a ilustração, a utilização das propagandas, bem como a diversificação do conteúdo pelos periódicos, ampliou-se o alcance desses impressos.
As revistas de diferentes temas é um gênero de impresso de grande valor por “documentar” o passado por meio do registro múltiplo: do textual ao iconográfico, o extratextual – reclame ou propaganda, tal como mostra Ana Luiza Martins (2001). As revistas, assim, demandam uma leitura mais amena e ligeira, e é compreensível a
19 CARVALHO, Carlos H. de.; ARAÚJO, José C. S.; NETO, Wenceslau G. Discutindo a história da
educação: a imprensa enquanto objeto de análise histórica (Uberlândia-MG, 1930-1950). In: ARAÚJO, José C. S. & GATTI Jr, Décio. Novos temas em história da educação brasileira: instituições escolares e educação na imprensa. Campinas, SP: Autores Associados, Uberlândia, MG: EDUFU, 2002, p.73.
20 PALHARES-BURKE, Maria L.. G. A imprensa periódica como uma empresa educativa no século XIX.
preferência por essa modalidade de material de dimensão multifacetada. Contudo, como Martins (2001) ressalta, o pesquisador deve ter cuidado ao tomar as revistas como fonte histórica, pois, em muitas das vezes, elas “refletem imagens falsas, imagens de superfícies, que requerem investigação e decodificação”.21 Para se tomar esse tipo de
suporte como testemunho do passado, é preciso um direcionamento do olhar para as condições de sua produção, negociação e, sobretudo, para as condições de sua distribuição e circulação. Somente nessa perspectiva, as revistas podem se colocar na função de matizadoras da realidade retratadas em suas páginas.
O século XIX foi acompanhado de mudanças na estrutura da sociedade brasileira, principalmente com a vinda da família real. Com a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, em 1808, novos elementos foram introduzidos na realidade da Colônia, como por exemplo, a passagem da sede do governo de Salvador para Rio de Janeiro. Isso repercutiu nas transformações que algumas cidades tiveram quando deixaram de ser consideradas áreas rurais para começarem a ganhar vida própria. “Surgem ferrovias, intensifica-se a navegação a vapor, e, depois de 1850, o cabo submarino substitui a comunicação por paquetes e traz informações mais rápidas do exterior”.22 Dessa maneira, o Rio de Janeiro estava deixando de ser provinciano para ser
uma capital em contato com o mundo exterior.
No novo cenário citadino, proposto pelo início do século XX, uma infinidade de publicações periódicas, tais como: almanaques, folhetos publicitários de casas comerciais e industriais, jornais de associações recreativas, as revistas ditas de variedades, configuravam-se como principal produto da indústria cultural que estava tomando conta desse cenário. A revista tornou-se a moda e, além de tudo, ditou a moda. Para Martins (2001), sem dúvida essa tendência tinha uma explicação, referendada na Europa até mesmo pelo avanço técnico das gráficas; tratava-se do aumento da população leitora e do alto custo do livro. Assim, cresceram as possibilidades de condensar em uma só publicação, “uma gama diferenciada de informações, sinalizadoras de tantas inovações propostas pelos novos tempos”. Fazendo o papel
21 MARTINS, Ana Luiza. Revista em Revista: imprensa e práticas culturais em tempos de República. São
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Fapesp, 2001, p. 21.
22 BUITONI, Dulcília Helena S. Mulher de papel: a representação da mulher na imprensa feminina
intermediário entre o jornal e o livro, as revistas alcançaram um público maior ao aproximar o consumidor do “noticiário ligeiro e seriado”, proporcionando-lhe informações diversificadas. A distinção da revista e do livro estava basicamente no fato de a revista possuir algumas características que, de certa forma, tornava-a mais acessível ao leitor; entre elas, destaca-se o seu baixo custo. Ainda a sua configuração leve, leituras entremeadas de imagens e outras de poucas folhas, “distingui-a do livro, objeto sacralizado, de aquisição dispendiosa e ao alcance de poucos”.23
As revistas propõem, conforme Tania Regina De Luca (1999), uma leitura fácil e agradável, com amplo espaço reservado para as imagens e conteúdo diversificado, desde os acontecimentos sociais aos fatos curiosos do país e do mundo, incluindo crônicas, poesias, conselhos médicos, de moda, regras de etiquetas, etc. Essa diversidade pode ser tomada como estratégia de negócio de ampliação do público alvo ou de possíveis interessados na leitura e/ou aquisição do impresso.