Quadro 4 – Obras relacionadas aos gêneros musicais e/ou danças de influência afro- brasileira.
TEMA GÊNERO
Boi-Bumbá (1934) Batuque Amazônico
Boi Canarinho (1948) Chula
Boi Tunga (1934) Coco
Coco de Usina (1935) Coco
Coco Peneruê (1936) Batuque
Conga (1946) Conga
Jongo Jongo Longo (1960) Cantiga Jongo da Marambaia (1934) Jongo
Lundu (1947) Bailado
Lundu da Negrinha (1958) Lundu
Maracatu (1939) Invocação
Meu boi vai-se embora (1936) Canção-Batuque
Rumba (1947) Rumba
Fonte: Catálogo de Obras, 2016 (em anexo).
Neste grupo foram relacionadas músicas cujos temas fazem referência aos gêneros musicais e/ou danças de influência afro-brasileira. Entre os gêneros mais comuns temos: o Bumba-meu-boi ou Boi-bumbá; o Coco; o Jongo e o Lundu. O Boi-bumbá é um folguedo popular ou uma dança dramática, como classificou Mario de Andrade, que especialmente no extremo norte do país, do Piauí ao Amazonas, é representada no mês de junho, por ocasião das festas dedicadas a São João (SALLES, 2004, p. 194). O Bumba-meu-boi ou Boi-bumbá é herança do negro e surgiu ainda no período da escravidão no Brasil. É um folguedo encontrado em todas as regiões do Brasil, com múltiplas características locais. Sua faixa de maior incidência estende-se do Amazonas a Bahia, sendo o Maranhão um dos locais de maior incidência. Até o Maranhão conserva o nome de Bumba-meu-boi. Ao transpor as fronteiras do Pará, isto é, ao adentrar a Amazônia, recebe o nome de Boi-Bumbá (idem, p. 195). Na obra do compositor paraense podemos relacionar quatro músicas que trazem em seu tema referência a
esta dança dramática – “Boi-bumbá” (1934), “Boi Tunga” (1934), “Meu boi vai-se embora” (1936) e “Boi Canarinho” (1948).
O Coco, manifestação musical típica do nordeste brasileiro, também é um gênero musical que surge na época da escravidão, no século XVII, como canto de trabalho ligado à extração do fruto homônimo, e era praticado pelos escravos nas senzalas e nos quilombos (PIMENTEL, 1978, p. 8). A presença da cultura negra neste gênero se revela na dança, nos instrumentos de percussão, no ritmo e no canto estruturado em pergunta e resposta. Waldemar Henrique faz referência a este gênero no tema de duas de suas composições: “Coco de usina” (1935) e “Coco Peneruê” (1936).
O Jongo, denominação que Waldemar Henrique também utiliza em suas composições, é uma dança de origem africana que surge a partir da chegada ao Brasil dos primeiros negros, na condição de escravos. Vicente Salles descreve o Jongo como “Dança de origem africana, espécie de samba. Mais comum na região sudeste do país, principalmente nas províncias do Rio de Janeiro, São Paulo, sul de Minas Gerais e Espirito Santo” (SALLES, 2003, p. 159). Entre as músicas de Waldemar que fazem referência ao Jongo temos “Jongo da Marambaia” (1934) e “Jongo Jongo longo” (1960).
O Lundu, espécie de dança e canto comum em todo o Brasil, desde o século XVIII, é derivado das rodas de batuque dos negros africanos (TINHORÃO, 2013, p. 57). A descrição da dança do Lundu, cuja referência mais antiga usando este termo é de 1780, deixou sempre claro que seu ritmo de acompanhamento era o da percussão dos batuques dos negros (idem, p. 62). A presença deste gênero na Amazônia e sua relação com a cultura dos negros foi registrado por viajantes que por aqui passaram no início do século XIX, como o alemão Von Martius, que aqui esteve no ano de 1820, e que após registrar que os mulatos de Belém se entregavam ao prazer da música, do jogo e da dança com a mesma “leviandade” de seus congêneres do Sul, estabeleceu essa relação ao notar a agitação provocada pelo lundu ou o batuque, no comportamento dos negros da Amazônia (idem, p. 65). O Lundu é usado por Waldemar Henrique em duas de suas composições; a primeira em 1947, onde o compositor intitula uma música simplesmente de “Lundu” e, a segunda, em 1958, intitulada de “Lundu da Negrinha”.
O Maracatu, dança folclórica de origem afro-brasileira, típica do Estado de Pernambuco, é uma dança de cortejo associada aos reis do Congo. Segundo Gilberto Freyre: “O maracatu é uma dança aparentemente recreativa e até carnavalesca que, nos seus significados mais íntimos, representa toda uma complexa infiltração africana na religiosidade brasileira” (FREYRE, 1976, p. 10).
Waldemar Henrique utiliza a denominação de maracatu para sua composição do ano de 1939, que Claver Filho classifica como do gênero Invocação, e apresenta versos de Deolindo Tavares (CLAVER FILHO, 1978, p. 110).
Além dos gêneros e das danças já mencionadas, Waldemar Henrique utilizou na denominação de suas composições outros gêneros que embora apresentem divergências quanto a sua origem afrodescendente, tiveram grande contribuição dos negros em seu processo de consolidação como o “Carimbó”, uma composição que leva o titulo de uma dança do folclore paraense, composta no ano de 1932 e “Chorinho” composição que Waldemar Henrique compôs em parceria com Bruno de Menezes, no ano de 1932, já comentadas no capítulo anterior. A “Rumba”, dança de origem afro-cubana também aparece como título de uma composição de Waldemar do ano de 1947.
A utilização de temas com referência aos gêneros musicais de influência afro- brasileira não é uma característica exclusiva da obra de Waldemar Henrique. É uma prática que pode ser observada na obra de outros compositores que produziram suas obras entre os séculos XIX e XX. O termo Batuque foi usado por vários compositores: Henrique Alves de Mesquita, Alberto Nepomuceno, Ernesto Nazareth, Radamés Gnatalli, Hilda Reis, J. Octaviano, Marlos Nobre e Lorenzo Fernandez (BITTENCOURT-SAMPAIO, 2014, p. 179).
A palavra Jongo também aparece como tema de várias composições, sendo utilizada por alguns compositores – Agostinho Cantu, Lorenzo Fernandez, Guerra Peixe e Clarisse Leite (idem). Há ainda algumas composições cujo tema fazem referência a outros gêneros de reconhecida influência afro-brasileira, como “Côco-de-Zambê”, de Eduardi Escalante e “Tango-Batuque”, de Luciano Gallet.