6. SAMMENLIKNING AV BANKENE
6.3 K RITERIER OG FASTSETTELSE AV RESULTATLØNN
Embora os interesses religiosos parecessem ser o objetivo mais importante para os missionários, às descobertas geográficas foram de grande importância e acabaram por ser usadas por viajantes como John Hanning Speke, Richard Francis Burton e Henry Morton Stanley que haviam viajado em busca de David Livingstone. Livingstone foi explorador e missionário e esteve desaparecido na África desde março de 1871 e encontrado entre o final de outubro e início de novembro (data imprecisa por haver duas hipóteses, a do diário de Stanley e a do próprio Livingstone) período em que já havia conhecido o rei M’tesa. Após ser encontrado por Stanley ele escreveu suas descobertas a alguns jornais ingleses e afirmou ter ficado impressionado com o modo de comandar e o uso da força e violência daquele soberano. Tais informações causaram grande impacto nos noticiários quando Stanley fez um apelo em 15 de novembro de 1875 no Daily Telegraph Journal:
Oh, se algum devoto, prático missionário, viesse aqui!... Como nenhuma outra, se essa tal pessoa puder ser encontrada se tornaria o salvador da África”. ... “E agora, onde há em todo mundo pagão um campo mais promissor do que Uganda?... Aqui cavalheiros está sua oportunidade:
abrace-a! As pessoas da margem do Nyanza chamam por você.54
A notícia causou grande repercussão na Inglaterra e como consequência do apelo para a divulgação da fé cristã, muitas igrejas resolvem enviar grupos de missionários para a região de Uganda. Em 1875 a CMS inicia uma espécie de recrutamento entre seus membros para uma futura missão com a propaganda de evangelização para aquele reino “desprovido de crenças nítidas entre seus habitantes”. Tal afirmação é contraposta pelos os escritos de Otiso. Segundo o autor, os habitantes tinham suas crenças em vários deuses, assim como os demais povos de outros territórios africanos. O que ocorria era que eles não eram monoteístas tal como os europeus. Esta diferença era entendida como uma característica de inferioridade que deveria ser combatida com cristianismo e pautou a presença e os objetivos em combater o politeísmo, ocultado pelos escritos missionários através de um projeto evangelizador que fora tratado nos relatos como “um milagre cristão”.
54
Do original: “Oh, that some pious, practical missionary would come here!...Such no one, If he can be found,
would become the saviour of África. ... Now, where is there in all the Pagan world a more promising Field for a Mission than Uganda...Here, gentlemen, is your opportunity: embrace it! The people on the shores of the Nyanza call upon you.”.Tradução própria.(MULLINS, J.D. 1904. op. cit. p. 4-5)
Obteve-se dezenas de voluntários que se ofereceram diversas quantias em dinheiro para que fazer parte do primeiro grupo de missionários. Dentre eles estava um conhecedor da África o tenente aposentado Shergold Smith. Este candidato propôs doar cinco mil libras se fosse incluído na lista de selecionados, fato bastante curioso já que se tratava de um continente pouco conhecido e perigoso a europeus que viviam de certa forma confortavelmente na Inglaterra. Temos neste fato um indício de que para além da fé poderia haver interesse em explorar as potencialidades econômicas daquela região, pois, é curioso pensar no porque de um homem de vida ganha na Europa iria se interessar em uma aventura complexa como era adentrar o interior do território africano.
O fato de pessoas voluntariamente oferecer dinheiro para estarem na lista de voluntários da CMS, portanto, nos faz refletir se é possível avaliar interesse com outras motivações como possíveis riquezas além do aumento do número de fiéis cristãos que estavam implícitos nessa empreitada. A região era potencialmente uma área de investimentos se observarmos a intensa atividade comercial, a fertilidade das terras e fontes de água citadas nos relatos dos membros da CMS.
A primeira missão religiosa diferenciava-se em diversos aspectos da primeira missão de origem católica. Primeiramente observa-se o modo de patrocínio feito pelos próprios missionários. Depois o modo de abordagem com os nativos bem como, as estratégias de divulgação do trabalho missionário feito através de narrativas publicadas em periódicos ingleses que tinham também por objetivo que propagandear e recrutar novos voluntários. O modelo de missão patrocinada pela instituição religiosa exemplo da Igreja Católica foi posteriormente adotado pela CMS. Isso aconteceu devido à separação e morte dos membros do primeiro grupo enviado em 1876, quando paulatinamente foi sendo necessário o envio de novos missionários.
Enquanto na primeira geração de missionários acumulou vinte e quatro mil libras esterlinas arrecadadas dos voluntários, as missões posteriores passaram a ser patrocinadas exclusivamente pela instituição religiosa (CMS). O fato desta seleção da primeira geração ter de oferecer dinheiro e as demais missões não mais usarem deste propósito nos leva a indagar como teria sido a seleção desses missionários. A partir do apelo feito através do periódico às igrejas cristãs, em três dias a CMS já recebia sua primeira carta oferecendo as primeiras cinco mil libras esterlinas e a sua incursão na primeira geração oferecendo-se para embarcar de imediato se necessário. Como afirmamos antes, ela fora enviada pelo ex-tenente da Marina inglesa George Shergold Smith, que tinha voltado de um serviço na costa leste da África e estava inválido em casa. Nota-se, portanto, que ele era um conhecedor daquele continente,
ainda que na região costeira. Mas se pensarmos que no contexto de época a região se constituía em reino liderado por M’tesa55.
Este rei tinha contatos diversos comerciais chegando inclusive em contatos com a costa. Pode-se imaginar que poderia ser conhecido por pessoas vindas da Europa que passaram por essas determinadas regiões. Além disso, o pai de Smith, o capitão Smith era muito próximo da CMS e havia participado de um resgate de um escravo chamado Adjai e posteriormente do Bispo Crowther, além de ser amigo pessoal do presidente desta instituição Sir John Kemaway. A segunda oferta aparece com o posteriormente mais famoso europeu dentro de Uganda, o jovem engenheiro Scotch, mais conhecido como Alexander Mackay. Sua trajetória pessoal se confunde com a da própria instituição entre os anos de 1876 – 1890 justamente o período aqui estudados e é o grande personagem trabalhado por Mullins em sua obra. Para Mullins, este homem pôs em prática o que era proposto pela CMS e os dogmas protestantes da Igreja Anglicana.
Seguido de Mackay, temos a presença do reverendo C.T. Wilson, curador de Manchester, Mr. T. O’neill, arquiteto, Dr. John Smith, doutor de Edinburgo, o engenheiro G.J. Clark, e o artesão W. M. Robertson constituíram o primeiro grupo de missionários. Note- se que muitos desses homens vinham de profissões destacadas o que torna ainda mais curiosa sua adesão à causa religiosa. Bem poderiam estar buscando maior sucesso profissional ao mesmo tempo em que somavam os motivos de fé. Eles acabaram reunindo-se a um construtor de New Castle, Mr. James Robertson, que, sendo rejeitado pelos doutores da missão, acompanhou os pioneiros por sua própria conta em risco como afirma os relatos de Mullins. Ao final de abril de 1876 todos haviam navegado para a África.
Buscando contatos com os poderes locais, aos poucos foram desvendando as tradições daquele território tentando, num primeiro momento, a relação amigável com os chefes. Esta era uma forma de conseguirem mais rapidamente a adesão dos baganda à nova religião.
55
M’tesa I (1838-1884) foi kabaka, ou monarca, de Buganda e um dos governantes africanos destacados do século XIX. Sob a sua liderança dinâmica Buganda tornou-se um dos reinos mais poderosos e influentes da África Oriental. A CMS com sua primeira expedição chegou em Buganda em 1877 seguidos pelos padres da Igreja Católica Romana em 1879. O sistema Ganda manteve os recém-chegados na corte de M’tesae ali eles encontraram um público receptivo entre os jovens enviados de todas as partes do reino para servir páginas para ensino dos recém-chegados. Durante a vida inserido numa profunda transformação cultural e social que começara a ocorrer no interior do estado, como novos conceitos de crença substituindo valores tradicionais entre uma elite que viria a dominar a evolução do reino ele procurou manter-se forte e com poder centralizado. M’tesa, portanto, nunca totalmente convencido a acatar os dogmas de qualquer uma das novas crenças ele tentou assegurar seu poder a partir de uma série de alianças e pacificar os conflitos que poderiam dar origem a maiores divergências e, em grande parte, conseguiu utilizar os muçulmanos e cristãos para aumentar o domínio já substancial da região e demais povos vizinhos africanos. Morreu em 1884, deixando uma merecida reputação como o maior de todos os governantes de Buganda.
Como mencionado anteriormente, se o soberano tivesse uma religião ela deveria ser seguida pelos seus súditos. Assim que conheceram mais a fundo a região se depararam com os problemas mais comuns aos exploradores como doenças, clima tropical que muito diferia do europeu, além da paisagem ímpar da região dos chamados “Grandes Lagos”. Esses problemas foram colocados em determinados momentos como agravantes e interruptores dos projetos missionários em determinadas etapas da conquista.
Essa incursão em Uganda mostrou que ao longo do período em que o imperialismo britânico esteve na África, a figura do missionário funcionou essencialmente como agente desta política e evidenciou uma série de conflitos que fizeram com que o protetorado se estabelecesse com eficiência em 1894. O período abordado por este trabalho tratou de ir até justamente do ano da morte do último integrante da primeira missão e como esses homens foram publicados na posterioridade, mas também mostra como seu legado continuou surtindo efeito e como foram as publicações a respeito do momento em que o reino de Baganda (Uganda moderna) deixa de ser de domínio dos nativos de forma oficial e passa para a mão dos britânicos.
Para as publicações da instituição, a ida desses homens estava marcada por seu heroísmo, coragem e humildade, ideia expressa em uma série de passagens na obra de Joseph Mullins. Segundo Shergold Smith após acatar a oferta feita pela CMS ele seria capaz de aceitar qualquer posição que lhe fosse oferecida, até mesma a posição mais baixa. Ele dizia isso embora soubesse que dentro do grupo era o maior conhecedor da África e que a ele seria reservado o cargo máximo de chefia da expedição. Segundo as memórias de Mullins no momento da despedida, Alexander Mackay, o mais jovem dentre os missionários e último a dizer adeus ao comitê da Igreja na Inglaterra disse aos mais experientes e aos que estavam presentes na ocasião que, dentro de ao menos seis meses as pessoas que não embarcaram com aquele grupo ouviriam dizer que algum deles estaria morto e ali mesmo já clamou por mais integrantes assim que essa notícia chegasse, pois para ele, a missão não podia parar. Segundo Mullins ele era movido por um espírito de liderança, na ocasião Mackay proferiu o seguinte discurso:
Eu quero lembrar o comitê que dentro de seis meses eles provavelmente ouvirão que um de nós está morto. Sim, é absolutamente provável que oito homens ingleses comecem a adentrar pela África central e todos estejam vivos seis meses depois? UM de nós pelo menos, pode ser eu, certamente cairá antes disso… Quando esta notícia chegar, não fiquem desanimados,
mas enviem imediatamente alguém para preencher este espaço vazio.
(MULLINS, J.D. 1904. p. 7-8)56
O trecho citado demonstra a capacidade articuladora de Mackay dentro do grupo e principalmente certa previsão do que de fato aconteceria. Antes de dominarem a região os missionários enfrentaram muitas dificuldades principalmente por desconhecerem o clima das regiões pelas quais passaram ou, principalmente pelas doenças que assolavam esses grupos e que eram desconhecidas na Europa. Podemos fazer um paralelo com o colonialismo do século XVI quando esses mesmos problemas eram vistos com a chegada do europeu nas Américas.
O medo dessas doenças também influenciou a preocupação em levar recursos da medicina e médicos para as regiões. A presença deles servia, principalmente como meio de combater a crença em feiticeiros e curandeiros tão tradicionais na cultura africana, fato também fora apontado também por Opoku.57
Para contar as histórias de viagens e a trajetória da CMS no Leste da África Mullins utiliza, muitas vezes, o lugar comum de outras narrativas onde há a preocupação de explorar as descrições físicas de uma determinada missão também de realçar a doção de um costume ocidental religioso. Vemos tal recurso era uma estratégia de escrita dos missionários da CMS para propagandear seus feitos fossem mostrados para o continente europeu.
56
Do original: “I want to remind the Committee, that within six months they will probably hear the one of us is
dead. Yes is it at all likely tha eight Englishmen should start for Central Africa and all be alive six months after? One of us at least – it maybe I – will surely fall before that… When that news comes, do not be cast down, but send someone else immediately to take the vacant place.” Tradução própria.
Capítulo 3
Joseph Dennis Mullins e “A Maravilhosa História de Uganda”: características da obra e o caminho traçado pela missão da CMS durante 1876 – 1890
Este capítulo busca discutir com mais afinco as representações e o modo como foi conduzida a ideia sobre a sociedade de Buganda formulada pelos missionários membros da primeira missão da CMS. Nossa fonte aqui são os escritos que escreveram a respeito da sociedade. Nosso contraponto é a tese de Alexsander Gebara58 que trabalhou os textos
produzidos por Richard Francis Burton em suas viagens pela África Ocidental.
Gebara revela que a visão eurocêntrica nos textos produzidos por Burton são claras, mas ajudam a observar as resistências dos povos autóctones. Ou seja, é possível mesmo partindo de visões ocidentalizadas observar os africanos como agentes históricos, resistentes à imposições e negociações, mesmo quando os processos pelos quais atuam como agentes tenham resultado no recrudescimento de políticas de controle direto no final do século XIX. Esta agência pode ser observada principalmente durante os processos de alianças traçados pelo kabaka M’tesa com relação aos muçulmanos, cristãos católicos e os membros da CMS como forma de continuar administrando seu reino. Dentro do discurso de Mullins, muitas práticas e ações deste governante, pautado pelo material escrito pelos missionários, serão condenadas e tratadas como não “civilizadas”.
As análises das representações feitas a partir do olhar de Burton que Gebara explorou permitem colocar o africano numa posição de agência e acabam por interferir inclusive na configuração da própria imagem da África em construção na Inglaterra bem como a ação política inglesa na região. Esta forma de ver o africanos não como passivos mas como pessoas que agem por si com resistência, processos de negociação e estratégias de afirmação de poder é uma interpretação que fazemos diante dos escritos dos missionários. Do mesmo modo a agência dada aos africanos a partir dos relatos explorados por Mullins nos confere uma ideia de como a CMS alcançava através de suas publicações e ação, não só um grande número de fiéis e uma representação daquela região, mas uma imagem de evangelizadora dentro de seu país de origem, a Inglaterra. Apesar de mostrarem a incursão dos missionários ingleses com protagonismo explorando as “dificuldades” para impor a religião, os missionários
58
GEBARA, Alexsander L. A. A África presente no discurso de Richard Francis Burton: Uma análise na
construção de suas representações. Tese de Doutorado em História, Universidade de São Paulo, Faculdade de
reconheciam a importância de se estabelecer uma Igreja com a presença de sacerdotes
baganda, ou seja, a religião era essencialmente europeia, mas uma vez compreendida e
acatada poderia ser difundida pelos próprios africanos. Os evangelizados teriam a possibilidade de participarem ativamente da missão após a conversão, sob a custódia e obediência aos missionários ingleses.
3.1 Características da obra “The Wonderful Story of Uganda”, seu modo de escrita e