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K ONSEPT I TERMINALEN BASERT PÅ KAPASITETSBEHOVET

“Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina” (LUKÁCS, 2009, p. 25), assim tem início o primeiro ensaio do livro A Teoria do Romance, intitulado “Culturas Fechadas”, o qual versa sobre as particularidades da grande épica. O texto é, sobretudo, o início de uma explicação sobre a evolução das formas literárias, período que compreende, na visão lukacsiana, da epopeia até o romance.

Neste primeiro ensaio, o estudioso húngaro procura estabelecer características concretas da grande épica, sendo a principal destas o seu aspecto fechado. Este aspecto pode ser lido – para fim de melhor pensar o conceito – como algo próximo à perfeição, ou até mesmo aquilo que é contrário ao caos. Desta aparente perfeição é que surgem os personagens épicos aproblemáticos, ou seja, compostos de uma interioridade sem conflitos e seguros de um sucesso apontado pelos céus. Aliás, é desta segurança que podemos partir para explicar melhor o pensamento de Lukács neste momento.

Como vimos no início desta explanação, o texto lukacsiano parece, em certa medida, poeticamente denso, o que nos causa uma estranheza incomum em se tratando de leituras teóricas. Para que possamos de fato entender a mensagem embutida nesta verdadeira armadura de plumas composta pelo húngaro, é preciso um maior empenho no que diz respeito ao poder de abstração. Esta primeira afirmação do autor nos parece ser o cerne de todo o seu pensamento acerca da grande épica: “afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados” (LUKÁCS, 2009, p. 25). Ora, isto não significa outra coisa a não ser a constatação do papel dos deuses, na grande épica, na condição de verdadeiros guias que conduziam a humanidade aos seus próprios interesses, manipulando homens como marionetes de carne num teatro mais amplo que o próprio mundo. O céu

estrelado a que se refere Lukács diz respeito ao mundo transcendental vivenciado pelo mundo épico, um mundo habitado por deuses que, ontologicamente, são superiores aos humanos.

A autonomia do sujeito épico, neste sentido, nada mais é do que uma aparência de autonomia, uma vez que o destino é algo teatralmente erguido por sobre o caminho que trilha o herói. Afirma Lukács (2009, p. 25) que nesta cultura fechada da épica “o mundo é vasto, e no entanto é como a própria casa, pois o fogo que arde na alma é da mesma essência que as estrelas”, para enfatizar a ideia de unicidade/homogeneidade entre o sujeito e a transcendência. Ora, se o fogo de que se compõe a alma do homem terreno é da mesma substância que a luz que compõe as estrelas – aquilo que é transcendente e imanente ao mesmo tempo –, isto quer dizer, sobretudo, que a união entre o particular e o mais vasto é tão forte, tão intensa e permanente, que o que se vê de particular é, na verdade, a vastidão de todos, e esta, por sua vez, veste-se completamente do particular. A casa é o mundo, e o mundo é a casa.

A grande épica apresenta, neste sentido, um vasto mundo de certezas e de perigos apenas aparentes. O homem tem o seu caminho desenhado por uma divindade que, superior, tem a inequívoca pretensão de guiar o sujeito pelo caminho desejado por ela. As aventuras dos homens são as aventuras dos deuses. Não existe, portanto, na grande épica, um personagem que apresente em si grande alteridade ou autenticidade. O interior dos personagens é uma casa onde reside, sem ser percebido, o próprio deus. É pensando neste sentido que o húngaro propõe que

“ao sair em busca de aventuras e vencê-las, a alma desconhece o real tormento da procura e o real perigo da descoberta, e jamais põe a si mesmo em jogo; ela ainda não sabe que pode perder-se e nunca imagina que terá de buscar-se. Essa é a era da epopeia.” (LUKÁCS, 2005, p. 26).

Ora, o herói épico, neste sentido, não apresenta problemas em sua interioridade porque a natureza externa, ou seja, o mundo objetivo, não lhe impõe nenhum desafio. Isto nos leva a pensar no mundo épico como um grande teatro, em que os sujeitos figuram como atores inconscientes de estar desempenhando um papel, compondo uma imensa peça dirigida pelos deuses. Os homens, segundo Lukács, não apresentam, em suas almas, dúvidas que os façam refletir sobre a própria existência. O mundo fechado acarreta a tranquilidade da alma:

Quando a alma ainda não conhece em si mesmo nenhum abismo que a possa atrair à queda ou a impelir a alturas ínvias, quando a divindade que preside o mundo e distribui as dádivas desconhecidas e injustas do destino posta-se junto aos homens, incompreendida mas conhecida, como o pai diante do filho pequeno, então toda ação é somente um traje bem-talhado da alma.” (LUKÁCS, 2005, p. 26).

Esta falta de abismos interiores, de dúvidas, de reflexões, é o que torna o mundo perfeito no sentido de ser repleto de garantias e certezas; mundo em que o auxílio do deus é algo indiscutível e determinante. Este mundo da grande épica, esta cultura fechada, portanto, configura-se como um mundo homogêneo em que a alma e as coisas não diferem em sua essência. Isto porque o homem não se acha sozinho, como detentor único de uma determinada substancialidade, porque tudo com o que ele mantém relação é composto também desta substância. O mundo, então, vasto como se pode imaginar, torna-se tão particular como a própria casa, assim como vimos inicialmente. Diferente do mundo moderno apreendido pelo romance, na grande épica não há motivações para que o sujeito jogue-se abismo interior adentro, ou que se lance no mundo com motivações de reconfigurar sua realidade, isto porque tanto o interior como o exterior são compostos, como já foi dito, de uma mesma substância, e esta substância parece ser algo que unifica o mundo de tal forma que o personagem não pode ser outra coisa senão aproblemático. Estes são alguns limites propostos por Lukács com respeito à relação histórica entre epopeia e romance.

“Tais fronteiras encerram necessariamente um mundo perfeito e acabado” (LUKÁCS, 2005, p. 30). Lukács, então, passa a estabelecer o mundo épico como um círculo que concentra a perfeição e a homogeneidade, de modo que tudo que nele existe está impregnado de aproblematicidade. Isto quer dizer, que mesmo na existência de vários perigos e ameaças, mesmo que o mundo lance obstáculos sobre a vida dos homens e retire deles suas existências, o homem em si jamais será confundido. Sua alma, por assim dizer, estará sempre em paz, sem abismos. Isto porque, afirma Lukács, este círculo fechado da grande épica é menor do que o nosso, “eis por que jamais seríamos capazes de nos imaginar nele com vida” (LUKÁCS, 2009, p. 30).

O que caracteriza o nosso mundo romanesco, portanto, é o caos. “O círculo cuja completude constitui a essência transcendental de suas vidas rompeu-se para nós; não podemos mais respirar num mundo fechado” (LUKÁCS, 2009, p. 30). O que nos difere, sobretudo, do mundo grego é o nosso mundo fragmentado que já não aceita mais uma realidade homogênea como a vivenciada pela epopeia. O personagem que assimila

passivamente o mundo objetivo e segue por ele sem nenhum tipo de reflexão ou ímpeto de transformação já não cabe neste mundo, que se tornou vasto por demais e totalmente alheio aos poderes divinos. A essencialidade das coisas e dos seres começa, portanto, a diferir, e as duas naturezas, a saber, a interioridade e o mundo objetivo, passam a ser determinantes na composição do personagem moderno, porque este passa a ser o conflito emblemático de sua configuração. Se antes o sujeito sentia-se familiar em todos os lugares, a regra, agora, é sentir- se estranho até mesmo em sua própria casa.