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F ORHOLDET TIL NÆRE OMGIVELSER (ROS- ANALYSE )

Nicolas Tertulian (2008, p. 115) assim comenta acerca deste terceiro tipo de romance: Uma única exceção luminosa nesse quadro de um pessimismo desesperado: o

Wilhelm Meister, de Goethe. O destino do herói goethiano era considerado uma

singular ultrapassagem da antinomia entre o herói, pertencendo ao “idealismo abstrato”, e a fuga romântica na pura interioridade.

Em certa medida, o herói da maturidade viril é aquele que vivencia o ideal conciliando esta vivência com a realidade concreta. O pessimismo desesperado a que se refere o autor, com relação aos postulados lukacsianos, diz respeito aos dois aspectos do pensamento do húngaro que se encontram latentes na Teoria do Romance: a total condenação da realidade

existente e a esperança inequívoca por uma regeneração desta mesma realidade – uma utopia, portanto. Estes dois aspectos refletiam-se justamente nos dois tipos de romance apontados por Lukács antes de comentar sobre o da maturidade viril. O romantismo da desilusão é aquele que representa a desistência com relação ao mundo real; já o idealismo abstrato é aquele que simboliza a crença na concretude das utopias. Entre estes dois aspectos, que se contradizem, existe, talvez, uma resolução. O herói da maturidade viril, portanto, é aquele que é, mas não é, ao mesmo tempo, tanto do idealismo abstrato, como do romantismo da desilusão. Para melhor entender esta afirmação, vejamos o que conclui Lukács (2009, p. 139):

De um lado, portanto, essa interioridade é um idealismo mais amplo e que se tornou com isso mais brando, mais flexível e mais concreto e, de outro, uma expansão da alma que quer gozar a vida agindo, intervindo na realidade, e não contemplativamente. Assim, essa interioridade situa-se a meio caminho entre idealismo e Romantismo, e ao tentar em si uma síntese e superação de ambos, é rejeitada por ambos como transigência.

Isto quer dizer que, uma vez sendo o idealismo deste tipo de romance mais amplo que o do idealismo abstrato, e que diferente do romantismo da desilusão não se configura de forma passiva, contemplativa, renunciante, a maturidade viril apresenta os aspectos destes dois tipos que lhe servem como base, entretanto os mesmos aspectos são ultrapassados, do ponto de vista da intensidade. O herói da maturidade viril, ainda que idealista, não se nega a buscar interferir na realidade do mundo exterior. Este herói é aquele cujo ideal determina-lhe as ações; ações estas que têm como objetivo encontrar nas estruturas do mundo externo uma correspondência para o mais íntimo da alma do personagem. É a partir disto que Lukács afirma que neste tipo de romance há a superação da solidão, ao menos como postulado, pois, na medida em que os homens buscam a satisfação do “mais recôndito da alma” (LUKÁCS, 2009, p. 139), constroem uma espécie de comunidade, ainda que íntima; desenvolvem uma capacidade de cooperação no que respeita ao essencial. Assim, este tom de comunidade não se pauta nas meras vinculações sociais, como ocorria nas epopeias, e nem se dá a partir de uma experiência mística, mas como algo novo, como afirma Lukács (2009, p. 139):

[essa comunidade é] um lapidar-se e habituar-se mútuos de personalidades antes solitárias e obstinadamente confinadas em si mesmas, o fruto de uma resignação rica e enriquecedora, o coroamento de um processo educativo, uma maturidade alcançada e conquistada. O conteúdo dessa maturidade é um ideal da humanidade livre, que concebe e afirma todas as estruturas da vida social como formas necessárias da comunidade humana, mas ao mesmo tempo vislumbra nelas apenas o pretexto para efetivar essa substância essencial da vida, apropriando-se assim não

em seu rígido ser-para-si jurídico-estatal, mas antes como instrumentos necessários de objetivos que as excedem.

Destacamos de início a expressão “lapidar-se e habituar-se”. Ora, estes dois preceitos são de fundamental importância para o entendimento deste tipo de herói. Isto porque a maturidade viril diz respeito, em certa medida, ao produto final de uma reconciliação almejada tanto pelo idealismo abstrato como pelo romantismo da desilusão. Esta reconciliação configura-se como o equilíbrio atingido entre ação e pensamento, que somente pode ser efetuado após o personagem habituar-se a esta segunda natureza das convencionalidades, o mundo morto das objetivações. O herói, neste caso, é aquele que compreende, como se olhasse de fora da situação, toda a engrenagem que possibilita a existência irremediável do mundo exterior. E tendo esta compreensão, ele busca dar forma aos seus ideais dentro das possibilidades impostas pelo mundo, de modo que a concretude de suas aspirações força levemente a homogeneidade do mundo. Assim é que o personagem reconhece esta natureza dura como a única em que seus ideais poderão se realizar. No entanto, o caminho que leva a esta realização não é algo facilmente transitável, de maneira que ao herói é reservado o destino do aprendizado:

Chamou-se essa forma de romance de educação. Com acerto, pois a sua ação tem de ser um processo consciente, conduzido e direcionado por um determinado objetivo: o desenvolvimento de qualidades humanas que jamais floresceriam sem uma tal intervenção ativa de homens e felizes acasos; pois o que se alcança desse modo é algo por si próprio edificante e encorajador aos demais, por si próprio um meio de educação. (LUKÁCS, 2009, p. 141)

A busca por esta reconciliação a partir do reconhecimento de que o mundo exterior e a interioridade, as ideias, podem entrar em um determinado consenso é o que caracteriza o romance de formação. O personagem prototípico da maturidade viril é Wilhelm Meister, do romance homônimo de Goethe publicado no fim do século XVIII. O personagem, neste caso, filho de pais de considerável poder econômico, busca sua ascensão moral e espiritual através da arte. No entanto, somente consegue esta ascensão com o apoio da Sociedade da Torre, uma comunidade utópica que o observa há tempos, e que dizia que Meister, quando conduzido a tal sociedade, já estaria maduro o suficiente para seguir a vida sozinho, já que nos anos que se passaram o jovem teve o auxílio de alguns membros desta comunidade, enviados para ajudá- lo em decisões. Ora, a narrativa mostra a construção do caráter do herói, de modo que o

mesmo, sem negar-se a ir em busca deste crescimento e adaptação ao mundo, consegue inteirar-se à natureza exterior e nela viver.

Em Cidade de Deus, por outro lado, não conseguimos enxergar um personagem que pertença a este tipo de romance. Da forma como colocamos ao explicar o romantismo da desilusão, os personagens do romance de Lins são completamente vazios de problemáticos, no sentido de que a urgência de seus problemas caracteriza-os como desejos forçados, o que não necessariamente se constituem como ações que levam à educação do personagem. Se Wilhelm Meister lança-se ao mundo em busca de seu crescimento espiritual e moral, os personagens de Cidade de Deus lançam-se, como que obrigados, numa única expectativa de sobrevivência. O herói não pensa em como modificar o mundo, ou modificar a si mesmo, mas em como manter-se vivo. Nesse sentido, todo o universo de Cidade de Deus aproxima-se muito mais de um contexto animalesco que humano. A busca por uma ascensão espiritual e principalmente moral está longe das aspirações dos bicho-soltos.

Este panorama até o momento apresentado servirá como base para as discussões do terceiro capítulo deste estudo. Neste, passaremos a analisar o personagem Inferninho, tomando como base o conceito de idealismo abstrato construído por Lukács. Discutiremos, também, alguns aspectos importantes da Teoria do Romance que, ao que nos parece, precisam ser reavaliados no que diz respeito às obras do século XX – e principalmente às do século XXI. Conceitos como os de meta e busca serão trabalhados tendo em vista a lógica interna do romance de Lins.