A superação do modelo dominante é também a superação do modelo de comunicação implícito. O modelo comunicativo subjacente à ideia de interacção do sujeito com a ciência deve revelar o modo como é conduzida essa interacção.
438 2000 439 2000, 20 440 Felt, 2000 441 Idem, 20
O behaviourismo de Lasswell não foi além de uma visão instrumental da comunicação, centrada nos efeitos que provoca. Mesmo quando se deram sucessivas reformulações, correspondendo a uma relativização desses mesmos efeitos, nunca questionaram radicalmente a existência dos mesmos. A compreensão da comunicação enquanto interacção dificilmente poderia acontecer no contexto do estudo dos efeitos. No entanto, a década de quarenta viu surgir uma outra corrente do estudo da comunicação, a Escola de Palo Alto, que congregou estudiosos de várias proveniências, e que tinham em comum o facto de questionarem o modelo linear de Lasswell. Para estes, “a investigação em comunicação tem de ser encarada em termos de nível de complexidade, de contextos múltiplos e de sistemas circulares”442. Esta circularidade, encontramo-la no modelo matemático da comunicação de Shannon e Wiener, sob a denominação de retroacção. Uma das hipóteses de trabalho da Escola de Palo Alto é a que diz que “a essência da comunicação reside nos processos relacionais e de interacção (os elementos contam menos do que as relações que eles instauram)” e que “a análise do contexto torna-se mais importante do que a análise de conteúdo” 443, indo ao encontro da perspectiva interaccionista de Wynne e ilustrando com clareza a filosofia subjacente aos fora híbridos descritos por Callon. É também na Escola de Palo Alto que Hall chama a atenção para as “linguagens silenciosas”444, linguagens que constituem a riqueza das trocas quotidianas mas que, ao mesmo tempo, podem dificultar a compreensão interpessoal.
A teoria crítica, da Escola de Frankfurt, que apontava para o crescente processo de industrialização da sociedade e do campo dos mass media, como resultado da racionalização operada pela ciência moderna, e como produto de uma evolução tecnológica que, aliada ao seu impacto económico, se tornou dominante, denunciou os efeitos nefastos decorrentes de uma racionalidade única e que são a padronização de comportamentos, a produção em série e a consequente divisão do trabalho, também no sector mediático, provocando um efeito de voz única nos mass media. “O modo industrial de produção da cultura ameaça-a, sem dúvida, de padronização para fins de rentabilidade económica e de controlo social”445. Marcuse, ao referir-se ao Homem unidimensional446 denunciou o carácter encarcerado do indivíduo numa sociedade onde
442 Winkin, 1981, cf. Mattelart e Mattelart, 1997, 57 443 Mattelart e Mattelart, 1997, 57
444 Hall, 1957 cf. Mattelart e Mattelart, 1997, 58 445 Benjamim, 1933, cf. Mattelart e Mattelart, 1997, 67 446 Marcuse, 1964 cf. Mattelart e Mattelart, 1997, 69
a racionalidade técnica reduziu “o discurso e o pensamento a uma única dimensão”, num “mundo em que a instrumentalização das coisas resvala para a dos indivíduos”447, e “onde todo o potencial emancipador da ciência e da técnica acaba por beneficiar a reprodução do sistema de domínio e de subjugação”448. Habermas caracteriza o espaço público como espaço de discussão (Aufklärung), espaço de mediação entre o Estado e a sociedade e onde se constrói a opinião pública. A técnica moderna pôs em perigo este local intermédio, ao imprimir o registo da racionalidade única e dominante. Restaurar o espaço público apresenta-se como a possibilidade para redesenhar os seus contornos e aí fazer emergir uma opinião plural e não ideológica. Para Habermas, a saída está “na restauração das formas de comunicação num espaço público alargado ao conjunto da sociedade”449. Para este filósofo, a racionalidade não é sinónimo de posse de um saber, mas tem a ver “com o modo como os sujeitos dotados de palavra e de acção adquirem e empregam um saber”450. Habermas define então “sociedade” enquanto rede de relações de comunicação, sendo que é através destas que se tece a interacção entre singularidades opostas e que se produzem os significados.
As teorias da comunicação que identificámos caminham na direcção de uma recuperação do quotidiano, como local da interacção e da construção dos significados sociais. Nos anos sessenta, esse movimento conhece novo fôlego com os estudos da etnometodologia, cujo objectivo é “o estudo do raciocínio do senso comum em situações correntes de acção”451. Esta perspectiva, aplicada à comunicação da ciência, permite o estudo das práticas comunicativas que ocorrem fora dos locais tradicionalmente identificados como da ciência e que, como vimos com Callon452, influenciam de forma decisiva o rumo da investigação no laboratório. A recuperação do quotidiano torna claro que é aqui que os sujeitos, através da sua capaciade reflexiva se esforçam por “tornar essas mesmas actividades [do quotidiano] visivelmente racionais- e-contáveis-para-fins-observáveis, quer dizer, observáveis e descritíveis”453. Essas actividades surgem num contexto que a dinâmica da interacção quotidiana realça, sendo essa dinâmica a Lebenswelt de Schutz, “um mundo concreto, histórico e sócio-cultural”, interpretado por “reservas de conhecimento” que são “categorias e construções do senso
447 Mattelart e Mattelart, 1997, 69 448 Idem, ibidem
449 Mattelart e Mattelart, 1997, 70-71
450 Habermas, 1987, cf Mattelart e Mattelart, 1997, 120 451 Mattelart e Mattelart, 1997, 112
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comum, que constituem os recursos com ajuda dos quais os actores sociais chegam à compreensão intersubjectiva e conseguem orientar-se uns em relação aos outros”454. A observação participante como metodologia para o estudo do quotidiano vem esbater a dicotomia entre sujeito e objecto, obrigando a “uma maior intimidade com o objecto”455, o que ocorreu na antropologia (o interaccionismo simbólico). O interaccionismo simbólico, centrado no estudo das actividades interactivas, exprime com clareza o facto dos sujeitos agirem, em relação às coisas, recorrendo às suas reservas de conhecimento, ou seja, em função do valor que atribuem às coisas, tendo este significado sido obtido em interacções que antecederam. Por seu turno, cada interacção que se dá é a oportunidade para enriquecer as reservas de conhecimentos, fazendo alterar os significados, numa dinâmica permanente. Os estudos intersubjectivos vêm opor-se a outras metodologias de análise que eleveram níveis mais macro para enquadrar o processo comunicativo, como o estruturalismo, focalizando-se em unidades de investigação que se encontram na interacção quotidiana, na pessoa, na relação intersubjectiva e na interacção grupal.
É ainda pertinente referir a teoria dos “Uses and Gratifications”, que derivou da teoria funcionalista da comunicação de massa, e cujo modelo assenta na hipótese dos "usos e gratificações", rompendo desde logo com a ideia que “os mass media dizem aos receptores como pensar”, substituindo por efeitos limitados, onde “os mass media dizem em que pensar”. O pressuposto que origina a mudança de perspectiva a nível comunicacional é o de reconhecer que a mensagem (aqui, a mensagem da comunicação pública da ciência), por mais potentes que sejam os media que a veiculam, não pode influenciar um indivíduo se ele não fizer uso da mesma "no contexto sócio-psicológico em que vive"456. Aqui, a eficácia da comunicação é aferida pelo sujeito destinatário e na medida em que este vê utilidade nela para satisfação das suas necessidades. "O receptor 'age' sobre a informação que está à sua disposição e 'utiliza-a'"457. “O destinatário – continuando embora a ser desprovido de um papel autónomo e simétrico ao do destinador, no processo de transmissão de mensagens – transforma-se porém, em sujeito comunicativo a título inteiro"458. A hipótese dos "uses and gratifications" acrescenta ainda que o processo de selecção que o individuo efectua, baseado nas suas 454 Mattelart e Mattelart, 1997, 114 455 Santos, 1987, 50 456 Katz, 1959, cf Wolf, 1987, 61 457 McQuail, 1975 cf Wolf, 1987, 61 458 Wolf, 1987, 61-62
necessidades, "passa a constituir parte estável do processo comunicativo, formando uma das suas componentes não elimináveis”459. A hipótese aqui apresentada representa uma ruptura com o esquema informacional da comunicação de que a teoria hipodérmica é a expressão máxima. O esquema da teoria informativa centrava-se na ideia de transferência de informação entre dois pólos, preocupado que estava em assegurar a sua maior eficácia. A superação desta teoria aponta a passagem da ideia de "transferir" para a de "transformar" um sistema noutro, ideia subjacente às teorias semióticas, teorias que procuravam descrever a dinâmica de suporte ao processo comunicativo, ao invés de se centrarem na sua eficácia. Adquirem centralidade os mecanismos "de reconhecimento e de atribuição de sentido, que é parte essencial dessa relação [de comunicação]”460. "A assimetria dos papéis comunicativos, na comunicação de massa, e o conjunto complexo de factores sociais em que essa comunicação se efectua, configuram uma situação em que a compreensão é, estruturalmente, 'problemática', ou seja, não é identificável a priori com as intenções comunicativas do emissor”461. Acrescenta o modelo semiótico- textual que "o emissor antecipa a compreensão do receptor […] o locutor não determina as suas próprias mensagens, atendendo apenas à informação que quer transmitir; baseia- se necessariamente, em conjecturas sobre os acontecimentos, as capacidades e o estatuto dos seus destinatários”462. Esta perspectiva vem realçar a pertinência de um “utilizador” que escolhe, reflexivamente e livremente, o que quer consumir (aqui o consumo refere- se à informação sobre ciência).
A superação do modelo lasswelliano da comunicação de massas passa por recentrar a comunicação no seu espaço quotidiano, caracterizando este espaço enquanto rede. Nesta óptica, encontramos também aqui o conceito de “tradução” de Latour e Callon, que explana a superação de uma lógica da difusão. Na ciência, campo de estudo dos dois sociólogos referidos, “translation chains combine heterogeneous elements of which the most important are statements, technical devices, and the tacit skills that can rightly be called embodied skills”463. A ciência é um vasto empreendimento de escrita, o que permite a existência de uma cadeia de tradução sucessiva e uma constante interacção entre os vários elementos da cadeia. A noção de tradução vem reconfigurar, simultaneamente, o contexto onde ocorre e o conteúdo sobre o qual se comunica. A rede 459 Wolf, 1987, 67 460 Wolf, 1987, 108 461 Wolf, 1987, 109 462 Wolf, 1987, 114 463 Callon, 1995, 50
é então o contexto onde se dá a produção científica. Por isso, a perspectiva de estudo da ciência e da tecnologia foi a de actividades num contexto de acção e de construção e não como dados imutáveis e entidades finitas de conhecimento. “Esta postura recusa-se a encarar um ‘social puro’, limitado às relações entre humanos, e postula a interpenetração das relações dos homens com a natureza e os objectos técnicos. O laço social penetra a máquina”464.
VIII – A divulgação da ciência
Gregory e Miller465 defendem que a divulgação científica é tão antiga quanto a própria ciência. E que a distinção entre ciência e o público começou com a formação de uma comunidade científica, ou seja, com a institucionalização da ciência enquanto actividade com participantes específicos, regras e práticas acordadas, que a separam das demais actividades466. Esta separação ocorre no século XVII, com a revolução científica. O esforço de divulgação para o público é uma constante desde então. Aí assistimos a uma dupla divisão na comunicação científica: entre disciplinas da ciência e entre cientistas e público.
A divulgação científica esteve, desde cedo, associada a uma missão de educação social. É necessário recuar até ao movimento enciclopedista do século XVIII, com Diderot e D’Alembert, para contextualizar essa missão. O propósito da Enciclopédia era o de transmitir para a posteridade o que se sabia até então, onde encontramos a ideia de progresso em paralelo às ideias de conhecimento e de moral. É necessário colocar este projecto na tríade saber, virtude e felicidade, pois entendia-se que o conhecimento combatia o preconceito, e este último tinha a capacidade de afectar as esferas do cognitivo, da moral e da política. Donde se retira a associação de conhecimento à ideia de justiça. A ignorância poderia ser um obstáculo ao progresso, daí que o espírito enciclopedista corresponda a uma consciência do impacto social do saber e da sua virtude libertadora467. Este entendimento indica que a divulgação era compreendida como discurso militando por uma certa concepção de sociedade, onde a ciência e a tecnologia têm um papel determinante, com uma orientação argumentativa, o que é mais do que comunicação de um saber pois entramos no domínio da retórica, isto é, um discurso portador de estratégias e de ideologias, contribuindo para instituir certos tipos de relacionamentos sociais468.